mundo das ideias

19/04/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/04/2014

Toda Sexta-Feira Santa experimento mudança drástica na percepção do passar do tempo. É como se a linha reta da modernidade, caminhando rápida sempre em direção ao Progresso, ficasse mais encurvada que a estrada de Santos. Sua tendência é virar um círculo, onde tudo se repete e regenera. Meus anos em colégios católicos me ensinaram: de hoje até meia-noite de Sábado de Aleluia, com o anúncio da ressurreição de Cristo, o mundo corre perigo extremo. Isso só aumenta minha perplexidade metafísica.

Na circularidade do tempo, sou transportado para o Império Romano, na época da invenção do Direito e da prática sistemática da crucificação para eliminar inimigos. Exemplo: na Guerra de Espártaco cerca de seis mil escravos rebeldes foram crucificados de uma só vez ao longo da Via Ápia. Não conhecemos seus nomes. Com Jesus foi diferente. Seu suplício não calou seus ensinamentos e discípulos, que conseguiram mudar a política imperial. Constantino, convertido, proíbe crucificações no ano 337. O tempo, que até então andava em roda, foi partido em antes e depois de Cristo.

Uma declaração óbvia: enorme é o poder da religião para revolucionar a história humana. Penso nas cruzes em velas das naus lusitanas abrindo caminhos para a globalização. Lembro o Infante Dom Henrique, nascido numa Quarta-Feira de Cinzas, planejando a navegação em seu quartel-general pós-templário e pré-sebastianista, o Convento de Cristo.

Meu pensamento viaja para outros cantos do planeta e encontra o revigoramento do confucionismo no núcleo duro do capitalismo-comunista chinês. Milênios depois; apesar das aparências, nada mudou tanto assim na necessidade de rituais.

Então vou parar dezenas de séculos antes de Confúcio, nos arredores de onde fica atualmente uma cidade turca chamada Urfa, que pode ser “desendente” da caldeia Ur. É o norte da Mesopotâmia. Muitas pessoas acreditam que por ali estão cavernas onde nasceu Abraão e onde Jó enfrentou suas úlceras. Desde meados da década de 1990, foi descoberto que, bem antes desses episódios bíblicos, no topo de uma montanha da região, havia aquilo que se transformou no mais antigo templo conhecido, hoje compondo o sítio arqueológico de Göbekli Tepe.

Ouvi esse nome pela primeira vez no artigo “O santuário”, que a escritora turco-americana Elif Batuman (seu “Os possessos – aventuras com os livros russos e seus leitores” pode ser encontrado nas livrarias brasileiras) publicou no número especial de Natal 2011 da revista New Yorker. Na sua visita às escavações, ela entrevistou o arqueólogo alemão Klaus Schmidt, que comanda as pesquisas desde a descoberta de Göbekli Tepe. Além da narrativa deliciosa, o que me fez arquivar esse artigo foi a insinuação de hipótese radical para explicar o aparecimento das primeiras cidades (todas as mais antigas se situam na Anatólia). Pela sua datação, de quase dez mil anos, aquele centro cerimonial era frequentado por povos caçadores, antes também da invenção da agricultura. Pronto, a nova arqueologia vai falar: talvez as primeiras cidades tenham sido fundadas em torno de templos, e não vice-versa, com se costumava afirmar.

Havia quase me esquecido desse assunto até que mês passado o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, em algum de seus posts na internet, publicou link para texto, cheio de fotografias, assinado pela turma de Klaus Schimdt. A hipótese fica ainda mais ousada do que na divulgação de Elif Batuman. Ainda não está confirmado, mas parece que no monumento foram encontrados vestígios de consumo de cerveja (talvez isso explique os desenhos de danças frenéticas), que seria armazenada em imensos depósitos. Onde povos caçadores encontrariam plantas em quantidade suficiente para primeiro fermentar em tamanha quantidade e depois embriagar tanta gente? Eis o Lado B, psicodélico, da interpretação arqueológica: os humanos começaram a plantar, e não apenas a coletar o que encontravam livre na vegetação, para celebrar seu culto ao divino. Assim chegamos a outra insinuação: os rituais, produtos do mundo das ideias, provocaram a mudança no modo de produção. O que dá num marxismo bêbado: a superestrutura estaria na base da infraestrutura. Max Weber venceu?

Pergunta mais impertinente: o desejo de ficar doidão inventou a civilização? Precisamos lembrar outra hipótese, batizada anatoliana, segundo a qual os agricultores daquele pedaço do mundo em torno de Urfa seriam os responsáveis pela difusão do idioma indo-europeu, com suas variantes, da Índia até a Península Ibérica. O pacote incluía divisão social em sacerdotes, guerreiros e gente comum, e sua concepção de tempo circular (respeitando os ciclos do plantio) que depois é revolucionada pelo cristianismo. E aqui estamos nós. Boa Páscoa!

grande honra

12/04/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/04/2014

Domingo o “Esquenta!” inicia sua quarta temporada. É o programa mais longevo de todos que ajudei a criar na TV. “Programa Legal”, “Brasil Legal”, “Central da Periferia”, entre outros, tiveram vida curta. Não por problemas de audiência. Uma das características do grupo com o qual trabalho há mais de duas décadas na Globo é dar o recado e partir para a próxima. Não conseguimos ficar parados no mesmo lugar. Somos viciados em novas ideias. Talvez por isso nossos programas anteriores sempre envolveram muitas viagens. Com o “Esquenta!” é diferente.

Pela primeira vez não foi projeto nosso, apresentado para a TV. Foi encomenda: programa dominical de auditório, horário de almoço, no verão. (A música de abertura, de Arlindo Cruz e Gilberto Gil, canta: “Regina de janeiro, fevereiro e março”.) Topamos o desafio. Estávamos acostumados com as variações climáticas das ruas brasileiras. O que fazer para o ar condicionado do Projac não esfriar nossa mensagem? Pensamos cada gravação como grande festa, que só funciona quando junta turmas heterogêneas (ou pelo menos: só gostamos desse tipo de festa). Muitas vezes perdemos o controle do estúdio: a plateia nos surpreende agindo como diretor maluco, fora do roteiro. Pensamos: deu certo, as pessoas estão aqui de verdade.

Na segunda temporada, ficamos no ar até o São João. Na terceira, começamos em novembro e só paramos em dezembro do ano seguinte. O “Esquenta!” é laboratório onde testamos outros mundos possíveis. Apresentamos: FHC conversando sobre drogas com Marcelo D2; José Pacheco, o português da Escola da Ponte; Afrika Bambaataa, o inventor do hip hop; Gustavvo Lima com a Folia de Reis dos seus pais e o amigo Neymar; a OSB tocando a Sétima de Beethoven; as performances do Opavivará; Marina Silva explicando o que é desenvolvimento sustentável; um dia com a obra de Glauco Rodrigues no cenário e figurinos; a primeira reunião do funk ostentação paulistano com o DJ Marlboro; Kleber Mendonça Filho e Caetano Veloso falando sobre “O som ao redor”; Regina lendo poema de Murilo Mendes e Fernanda Montenegro de Jorge de Lima; Péricles, ex-Exaltasamba, descobrindo maravilhado o filósofo Mangabeira Unger. Esses são apenas alguns momentos marcantes, que listo de memória, sem consultar os arquivos. Tudo no meio da chacrinha que quase se chamou “Pagode da Casé”.

Não pinço cenas intelectualmente corretas para dourar a pílula do “Esquenta!”. O programa é assim mesmo. Estamos ainda aprendendo a tirar partido de todas as possibilidades do auditório, que muitas vezes é encarado como a parte menos nobre da TV (frequentemente elogiada pela crítica apenas quando se parece com cinema ou teatro, e finge que não é TV). Nesta temporada vamos até fazer edições ao vivo, saindo de nossa zona de conforto de horas de edição radical. Dá para inovar muito no velho formato. Até porque nossa aventura semanal de convivência com elenco tão diverso, que tem visões de mundo e de Brasil distintas, também é pessoalmente transformadora. Cada um vai deixando de lado preconceitos, um ensinando ao outro (incluindo o público de casa) coisas que seriam inacessíveis caso ficássemos em nossos mundinhos. Lembro por exemplo da Nathalia Rodrigues, pessoa com deficiência visual e moradora do Complexo do Alemão, que apareceu na plateia do “Esquenta!” e hoje participa como comentarista nos programas, trabalhando também em nossa produção. Toda a equipe precisou se adaptar a outra percepção do cotidiano, com novos problemas e soluções, seguindo suas lições.

Somos então a família “Esquenta!”. Não é fácil ser uma família, como todos sabem. Principalmente uma família tão grande, bagunçada e tropicalista assim. Por isso o tema do programa de estreia da nova temporada é justamente família. Bom momento para debater esse assunto. Preste atenção: foi aberta enquete no site da Câmara dos Deputados com a pergunta: “você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família?” Já teve mais de 700 mil votos, o que demonstra como o tema é de grande interesse. O projeto do Estatuto não inova: essa definição já está na Constituição (ver art. 266), inclusive com sua extensão para “comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. São apenas esses os tipos de família que temos no Brasil? O “Esquenta!” oferece seu auditório para ajudar o país na busca pelas melhores respostas.

PS: Sempre em lugares “inteligentes” sou apresentado como antropólogo, autor de livros. Estranho: meu trabalho principal, de tantos anos, é ignorado. Então um pedido: está liberado, podem dizer que sou criador de TV muito popular. Nenhuma vergonha; é grande honra.

Bruno Carvalho

05/04/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/04/2014

Bruno Carvalho, professor em Princeton, acaba de criar novo epíteto para o Rio de Janeiro. Além de maravilhosa e partida, agora a cidade pode ser chamada de porosa, termo que propõe interpretação original para um velho problema: a coexistência de uma cultura/autoimagem definida pela mistura com a disparidade socioeconômica evidente/brutal. “Cidade porosa” é o título de seu livro publicado no final de 2013 pela editora da Universidade de Liverpool. Deveria ter tradução imediata, pois é leitura essencial para enfrentarmos melhor as transformações urbanísticas que vão se acelerar até as Olimpíadas. Precisamos escolher bem que rumo dar para nossa porosidade.

“Cidade porosa” pode ser descrito com mais precisão como história detalhada, surpreendente e deliciosa de um bairro carioca, a Cidade Nova, desde sua criação a partir da chegada da família real portuguesa no Brasil até a destruição da Praça Onze para a passagem da Avenida Presidente Vargas. Cito alguns endereços daquela área. A casa da Tia Ciata ficava no 117 da Visconde de Itaúna, bem perto do Iuguend Bund, clube para a juventude israelita que ocupava o número 203 da mesma rua. A biblioteca judaica Bialik dividia a mesma casa com a gafieira Kananga do Japão. Bruno Carvalho – que chegou a conhecer, como conta no livro, o casal Pinduca e Celi, ele afrodescendente, ela filha de judeus russos – lembra que na maioria das cidades do mundo um endereço frequentemente revela a origem étnica de seus habitantes (quando morei em Chicago sabia que até numa mesma avenida, ao mudar de quarteirões bem determinados, eu saía de uma pequena Croácia, atravessava uma Rússia ortodoxa e encontrava uma Índia tâmil). Na Cidade Nova isso seria impossível. A Praça Onze era ao mesmo tempo o centro da Pequena África e da vida “Ashkenazi” carioca, isso para não falar dos pontos de encontro dos ciganos, imigrantes portugueses e italianos, ou da babel linguística criada (em fantasia ou realidade) pelas prostitutas do Mangue. Tudo prova de maior porosidade, que marcava a vida da cidade como um todo.

Porém, cuidado: todos sabem que estamos em terreno minado. Bruno Carvalho lança mão do conceito de porosidade justamente para evitar armadilhas como as conotações celebratórias de termos como miscigenação ou sincretismo. Ou mesmo, mais em voga, hibridismo: “Toda religião ou forma musical, por exemplo, pode ser entendida como composta por elementos heterogêneos, não importa quão puras elas pareçam ao olhar dos praticantes. Isso não quer dizer, evidentemente, que todas as religiões ou formas musicais possam ser consideradas porosas.” Mas importante: a porosidade não é necessariamente algo desejável ou positivo. José Miguel Wisnik dá o mote: é ao mesmo tempo um veneno e um remédio. Formas culturais porosas podem sustentar desigualdades e injustiças. O modo poroso de vida tem complexidade estonteante: “mistura e divisão aqui são como dois lados de uma mesma moeda.”

Que sina, a do Rio de Janeiro. Querendo simplificar as coisas, em nome do progresso, muitos urbanistas criaram planos (ou pior, impuseram a realização de planos) para acabar com a confusa porosidade de seus bairros e espaços públicas. A Avenida Presidente Vargas tinha esse objetivo: abrir via reta, a mais larga possível, para o futuro passar à força (e o futuro naquela época era uma frota de automóveis) acabando com territórios “pantanosos” (havia manguezais sim, mas as condições sanitárias da Cidade Nova podiam em vários períodos ser consideradas mais “arejadas” que as de outras partes da cidade tidas como menos “doentias”). Muitas vezes, os resultados dessas experiências são opostos aos esperados. Bruno Carvalho cita o texto “Ponte e porta” de Georg Simmel: uma ponte pode separar mais do que conectar; uma porta conecta e separa no mesmo ato. Na história carioca, a moderna Avenida, que parecia tão integradora, mais dividiu do que juntou/misturou ou fez circular.

Uma das qualidades de “Cidade porosa” é justamente ter uma escritura de máxima porosidade, que junta e mistura o que disciplinas diferentes tentam separar. Saímos de uma festa cigana, acompanhamos a perambulação de personagem de Machado de Assis, pegamos um bonde como João Pinheiro Chagas (que depois seria o primeiro primeiro-ministro português), encontramos romance esquecido (só teve duas edições) de Graça Aranha, pulamos atrás de um rancho italiano dos irmãos Baroni, acompanhamos as filmagens de Orson Welles na Praça Onze. Tudo isso para chegarmos num lugar mais segregado? Que nada, sou otimista: a leitura atenta do livro de Bruno Carvalho nos dá boas lições para o bom uso dos poros resistentes desta cidade.

David Runciman

29/03/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/03/2014

Os impasses que o Congresso Nacional criou no tortuoso processo de votação do Marco Civil da Internet foram acompanhados por muitos debates nas redes sociais. Vários comentários terminavam assim: “a democracia…” As reticências podiam ser interpretadas de diferentes maneiras. Elas expressavam condenação? Ou escondiam elogio realista, considerando os problemas como parte do jogo democrático? Quem costuma ler minha coluna, já dever ter percebido que gosto de ambiguidade. Mas não neste caso. Tomo posição clara: democracia é valor central, insubstituível, no meu pensamento. Colocá-lo em dúvida é atitude muito perigosa.

Não suporto gente que diz que vivemos em “suposta democracia”. Não estou contente com a situação do país hoje, é claro. Mas temos condições institucionais para combater o que consideramos errado, e melhorar o que já conquistamos. Obviamente, isso dá muito trabalho. (A batalha do Marco Civil, desde sua pioneira redação coletiva, prova que trabalho duro pode dar bons resultados.) Zuenir Ventura foi certeiro – sábado, neste jornal – na identificação de posturas preguiçosas cada vez mais comuns no nosso ambiente atual: a “indignação resignada” e o “inconformismo conformado”, “sem poder de transformação”, ou – pior – com nostalgia da ditadura. Sua percepção: “nas palestras e debates desse concorrido ciclo sobre os 50 anos do golpe, a democracia tem sido muito questionada, principalmente pelos jovens.”

Não é só parcela da juventude brasileira que faz esse tipo de questionamento. A revista The Economist – que desde o “fim da história” muitas vezes parece se comportar como governante do planeta, inclusive pedindo demissões de ministros mundo afora (é mais uma dessas instituições globalizadas que não foram eleitas por ninguém, mas que querem atuar como nossos xerifes) – publicou recentemente ensaio de seis páginas com o título “O que deu errado na democracia”. Tudo termina em receitas para o revigoramento democrático, mas passa até por declarações de professores universitários chineses que – com petulância inflada por crescimento econômico autoritário, não tão atingido pela crise de 2008 (que ainda sacode e União Europeia e desemprega muita gente dos EUA) – agora ganham notoriedade ao declarar que “a democracia está destruindo o Ocidente”.

O ensaio da The Economist não cita David Runciman, mas muitos de seus parágrafos parecem dialogar com as ideias inspiradoras/inovadoras (mesmo sendo volta a Tocqueville) que esse professor de política e “fellow” do Trinity Hall de Cambridge publicou em “The confidence trap”, livro lançado no final de 2013 com o subtítulo “Uma história da democracia em crise da Primeira Guerra ao presente”. Nunca tinha ouvido falar em Runciman. Pesquei seu nome na conversa entre Brian Eno e Danny Hillis que comemorou os 10 anos de seminários da Long Now Foundation, organização que pretende pensar nossos próximos 100 séculos. Eno também indicou “The confidence trap” para a biblioteca que a Long Now está montando com cerca de 3.500 livros para formar um “Manual de civilização”.

Entre as epígrafes do livro de Runciman encontramos Samuel Beckett ordenando: “Tente novamente. Fracasse novamente. Fracasse melhor.” Esse é um bom resumo: a cada capítulo encontramos a história de um “fracasso” da democracia, quando muita gente poderosa anunciava que ela não tinha futuro, ou que algum regime autoritário seria seu futuro. Diante de tantas ameaças, a democracia acaba gerando duas reações oscilantes, cada uma com suas armadilhas: de um lado, a complacência (as lições do passado democrático indicam que no final vamos escapar de mais um aparente beco sem saída; então ninguém precisa batalhar pela transformação); do outro, a impaciência sem noção (a democracia promete mundos e fundos, mas sempre tem problemas de “delivery”, por isso todos seus governos eleitos geram decepção).

Em “The confidende trap”, aprendemos que, no longo prazo, a democracia se fortalece com todas essas crises e queixas, “muddling through” (expressão adorada por Eno, de difícil tradução, pois mistura resolução com trapalhada) todas as ameaças, escapando da derrocada na última hora. Essa capacidade de adaptação diante do imprevisível é uma das vantagens da democracia diante da rigidez do caminho único (e sem críticas internas) das ditaduras. Ainda que, no curto prazo, tudo pareça estar dando errado, numa sucessão de escândalos, no final – até agora – a democracia prevalece. Parabéns a todos nós pelo Marco Civil da Internet. Como sempre na história democrática, não é hora de descansar: continua a luta (primeiro no Senado) para que sua defesa da liberdade seja respeitada e aprimorada.

Epeli Hau’ofa

22/03/2014

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/03/2014

Epeli Hau’ofa virou nome de festival anual e internacional de dança. Quem for para Suva nos próximos dias não pode perder sua primeira edição, que acontece de segunda-feira a sábado no Japan-Pacific ICT Theatre. Não falei onde fica Suva de propósito. Quantos de meus leitores sabem que é a capital de Fiji? Fiji? O nome do teatro dá a dica: Pacífico. Polinésia? Melanésia? Micronésia? Depois nos espantamos com americanos que pensam que Buenos Aires é a sede do governo brasileiro… Já antecipo o troco de quem não dá o braço a torcer: “mas são lugares incomparáveis!” O Brasil é um país continente. Fiji fica na tonga da mironga do cabuletê. “É um arquipélago muito pequeno, sem importância, sem futuro.” É mesmo? Onde você aprendeu isso?

Também não apresentei Epeli Hau’ofa de pirraça. Sua importância é imensa, talvez seja o maior pensador recente no campo dos estudos culturais da Oceania que não é australiana ou neozelandesa. Quando morreu, em 2009, o então vice-presidente de Fiji, Joni Madraiwiwi, publicou artigo no jornal The Fiji Times intitulado: “Muso, mediador e mentor”. No primeiro parágrafo um elogio compartilhado por muitos: “foi o melhor ilhéu do Pacífico de nossos tempos”.

Mais do que isso: Epeli Hau’ofa mudou o significado de “ilhéu do Pacífico”. Seu texto mais citado se chama “Nosso mar de ilhas”. Começa em tom pessoal, confessional, descrevendo um impasse. Como encarar novamente seus alunos para dizer que seus países eram apenas economicamente, socialmente e politicamente inviáveis, condenados a desaparecer vítimas do tsunami de uma globalização que naquela parte do mundo tem início com as viagens do Capitão Cook? Epeli Hau’ofa propõe nova perspectiva: no lugar do pequeno e do isolado, encarar todas aquelas ilhas, ilhotas e atóis como uma grande rede, conectada há muitos séculos, com longa história de trocas cosmopolitas entre muitas culturas que não precisaram esperar pela tecnologia europeia para navegar ousadamente por vastos mares. O oceano deixa de ser percebido como algo separa, deserto: torna-se espaço de ligação e vida social.

A trajetória de Epeli Hau’ofa já é exemplo bem prático dessa maneira de ver o mundo. Nasceu em Papua-Nova Guiné, filho de missionários de origem tongalesa. Estudou em Papua-Nova Guiné, em Tonga, em Fiji, na Austrália, no Canadá. Foi secretário do rei de Tonga, Taufa’ahau Tupou IV, cuidando da documentação do palácio. Foi professor de antropologia e sociologia de outra USP, a University of The South Pacific, mantida por 12 países da região, onde também fundou o Oceania Centre of Arts, Culture and Pacific Studies, que organiza na semana que vem esse novo festival de dança com grupos fijianos, havaianos, neozelandeses, japoneses e até alemães.

O fato de, no Brasil, não conhecermos Epeli Hau’ofa ou de não sabermos quase nada sobre seu querido mar de ilhas deveria nos envergonhar. Não me canso de condenar a evidência de nosso acesso a (ou nossa curiosidade com relação a) pensamentos do “resto” do mundo ser sempre indireto, tendo que fazer escala antes no “primeiro” mundo. Precisamos ainda que universidades, curadores ou prêmios norte-americanos/europeus continuem a fazer suas descobertas para que, servilmente, as informações comecem a circular por aqui. Pena: acabamos reproduzindo em nossos debates uma escala de consagração pobre e uniforme. Isso é ser up-to-date?

Quando, navegando ao acaso, baixei o cartaz do Festival de Dança Epeli Hau’ofa, tive a curiosidade de aumentar o zoom do meu leitor de imagens digitais para observar a lista de patrocinadores/apoiadores. Ao lado do Holiday Inn de Suva, da embaixada dos EUA, há o logo do café Bulaccino e da Mirchi FM. Não sei a razão mas quis conhecer melhor essa rádio. Claro: como toda FM no planeta hoje, sua programação pode ser ouvida ao vivo por streaming. Estranhei só tocar canções de Bollywood. Pura ignorância: não sabia que mais da metade da população de Fiji descende de indianos que chegaram lá há muito tempo, e que isso é fonte de grandes problemas políticos locais. Acabei descobrindo que a Mirchi é apenas uma das estações de um grupo de mídia que tem também a Bula FM, dedicada a músicas que devem ser produzidas localmente, inclusive muito reggae, música ilhéu por excelência.

Com o som do meu computador oscilando entre a Mirchi e a Bula, e folheando virtualmente o The Fiji Times, acabei me dando conta: apesar de toda a descentralização da internet, nosso consumo de mídia continua centralizado. Com tanto jornal no mundo para ler e tanta rádio para ouvir por que a maioria não sai do New York Times e da BBC? Nosso inconsciente, colonizado, não sabem viver sem centros? Prefere o conhecido/pequeno com medo de navegar pela amplidão do oceano?


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