sem suingue

18/05/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/05/2013

Torço para que o sucesso de “Toda poesia”, de Paulo Leminski, faça com que todo o Brasil coloque em prática o refrão de “Curitiba”, canção de Marcos Prado, Antonio Thadeu Wojciechowski e Walmor Góes, gravada pelo grupo de samba “sem suíngue” Maxixe Machine: “Curitiba, Curitiba / você é a única droga / que eu vou admitir / na minha vida”. Fico imaginando como funcionaria o país sob o efeito desse alucinógeno lírico curitibano. Seria prova de fogo para nossos sonhos de identidade nacional, trafegando naqueles ônibus pré-BRT, tiritando no inverno ao som do eletrofunk da MC Mayara. Barato já descrito no primeiro verso de “Filhos de Gdanski”, canção do carioca Antonio Saraiva gravada pelo grupo hardcore-pós-tudo Beijo AA Força (a encarnação elétrica do Maxixe Machine): “Um afoxé muito branco emerge das brumas”.

Pulo na pipoca desse bloco “poloco-nagô” paranaense há tempos. Em 2013, por alguma conjunção astral conectada com as vendas do autor de “Distraídos venceremos”, meu consumo de Curitiba, a droga, passou a ser administrado em doses mais polpudas. Primeiro ganhei de presente “na franja dos dias”, o terceiro livro de Marcelo Sandmann. Releio seus poemas (curtos e com muitos parênteses, como estas minhas colunas) semanalmente. Alguns levam a “genialidade não original” de Leminski para extremos cruéis. Em “Canção de maio” cada verso é manchete paulistana recente. Entre eles: “SP sofre pelo menos 180 ataques criminosos; mortos passam de 80″ e “Suspeitos mortos pela polícia em ondas de ataques em SP somam 107″. Há também notícias sobre shows de Frank Zappa, e reflexões sobre a saúde de quem pode tocar a “lira dos cinquent’aninhos”. Como tenho a mesma idade, me identifico especialmente com este big-bang de narcisismo inspirado em Mário Sá-Carneiro: “Quando eu morrer, puxem a rolha / Que veda o ralo do universo. / Escoem tudo. E no reverso, / Pintem um Deus novinho em folha.”

Pelo Sedex chegou também pacote com o DVD “da tamancalha ao sampler – ao vivo em Curitiba” e o livro com partituras do Grupo Fato. Como brinde veio junto o “músicaprageada” (assim tudo escrito junto), também do Fato. Já tinha esse CD (gravado em 2005), mas foi maravilha ouvir novamente suas músicas, agora, pensando nessa possibilidade de Curitiba ocupar (no melhor sentido occupy) lugar mais central em nosso imaginário brasileiro. Pois os curitibanos sempre refletiram profundamente sobre seu deslocamento (lá onde há sempre geada) ou lugar “periférico” no concerto da nação. E ousadamente já deram sua receita de samba danado (canção de Marcelo Sandmann, registrada neste “músicaprageada”): “Samba que é bom tá danado / Samba que é bom não dá pé / Tem que quebrar a cabeça / Tem que entortar logo o pé.”

Então me toquei que deveríamos estar comemorando os 30 anos da criação da Beijo AA Força, banda que entortou nossos pés pela primeira vez em 1983. Para resumir sua história com apenas um lançamento: “Sem suingue”, de 1995, só não ocupa os primeiros lugares nas listas dos melhores discos de todos os tempos da música popular brasileira por causa desse distanciamento torto que o resto do país mantém com a produção cultural de Curitiba, praticamente ignorada fora do Paraná (Leminski ou Trevisan são casos bem excepcionais). Preciso deixar bem claro (a nova audição reconfirmou esta impressão antiga): “Sem suingue” não deixa nada a dever se comparado com “Acabou Chorare” ou com “Samba Esquema Novo”. Na minha humilde opinião leva até vantagens, pois reflete bem minha experiência de geração e meus interesses diante do mundo pop atual. Isso só parece exagero porque quase ninguém ouviu a obra prima curitibana. Quem escutar agora vai pensar que é gravação nova, de tão atual e original (ou não original, já que abusa do sampler).

Tem “Filhos de Gdanski”, mas também “Pedra que rolou”, clássico de Pedro Caetano, e a mulher falando “nossa, como esse Milton Nascimento é engraçado” em “Eu odeio jazz Brasil (more noise, please)”. Tem “Crueldade mental” e sua versão instrumental (com “guitarra Morricone” e “piano Liberace”) precocemente intitulada “Estupidez interativa”. Minha preferida talvez seja a versão de “Negro blues” de Jorge Mautner, com arranjo digno de Jerry Dammers e complemento da letra no encarte com homenagem até para o barulho japonês dos Boredoms (em 1995!). Pode haver disco melhor?

Talvez uma coletânea da Maxixe Machine, com músicas dos CDs “barbabel” e “e seus ritmos elegantes”. Tudo para o Brasil copiar o exemplo da personagem de “Empolacada”: “casei com um polaco depois de cinco uísque / ainda hoje não sei pronunciar meu sobrenome”. Segura mais um refrão: “ê meu negão do avesso / tô sambando com os quadril no gesso”.

prova de criatividade

11/05/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/05/2013

A polêmica sobre a “escrita não criativa” ou “uncreative writing” – vide minha coluna da semana passada – faz mais sentido nos EUA. Lá é a terra que inventou os programas de “creative writing”, hoje bem estabelecidos na maioria das universidades locais. Não tenho os dados atuais, mas segundo artigo de Louis Menand publicado em 2009 na revista New Yorker, naquele ano havia 822 cursos de escrita criativa (37 deles ofereciam também PhD), um grande aumento se comparados com os 79 de 1982. Muitas celebridades de tendências bem diversas da literatura aí tiveram sua formação acadêmica. Por exemplo: John Irving, Ken Kesey, Michael Chabon, Richard Ford, Rick Moody, Tama Janowitz, Mona Simpson etc. Isso sem falar nas multidões de professores e, principalmente, de estudantes desconhecidos que escrevem em todas as mídias (ou os que trabalham como roteiristas de séries de TV, saturadas daqueles diálogos afiados). É muita abundância de criatividade. Tanta que tinha que gerar reação contrária também poderosa.

Como denuncia o antropólogo Daniel Miller sobre os efeitos colaterais da exigência de criatividade indumentária na Londres contemporânea (sampleio o trecho de “Trecos, troços e coisas”, livro esperto sobre “cultura material” a ser publicado em breve no Brasil pela Zahar): “A situação é cheia de irônicas contradições: liberdades que criam ansiedades, empoderamento que parece opressivo, individualismo que leva à conformidade.” Diante disso, a personagem da canção “Artists only”, que a banda Talking Heads – formada por ex-estudantes da criativérrima Rhode Island School of Design – lançou em 1978, já se revoltava, repetindo várias vezes no refrão: “Eu não tenho que provar que sou criativo!” Havia razão para se estressar: criatividade cansa, ou enjoa.

Penso nisso sempre que leio qualquer resenha sobre disco de hip hop ou rock indie no site (entre milhares de outros) da revista Fader. Suas poucas linhas concentram jogos de palavras caprichados, referências eruditas ao lado de comentários sobre banalidades, um senso de observação e produção de “links” inusitados impressionante (muitas vezes mais interessantes que os produtos resenhados). E a escolha das palavras: todos os autores trabalham com o thesaurus (não temos bons em português, aquele dicionário de “ideias afins” é muito difícil de usar) ligado em máxima potência. Mas outro dia tive overdose de criatividade quando cheguei ao final da crítica de Anthony Lane sobre o filme “Spring breakers” de Harmony Korine. Sei que Lane é inglês, formado no venerável Trinity College, de Cambridge. Programas acadêmicos de escrita criativa só cruzaram o Atlântico nos anos 1970 (Malcolm Bradbury, fundador do primeiro curso britânico, comparou essa invenção americana ao hamburger). Porém, Lane já escreve para a New Yorker desde o tempo da Tina Brown e certamente foi contaminado pelo vírus criativo ianque.

Então vamos à tal crítica-overdose. Fiquei me contorcendo de inveja ao terminar o primeiro parágrafo. Como gostaria de ter aprendido criatividade para escrever esta oração (peço já desculpas pela minha tradução não criativa): “A música é do Skrillex, que criou baladas afetuosas como “Bangarang” ou “Kill everybody”, e o esquema de cores, abarrotado de rosas explosivos e tangerinas oníricos, fazem Matisse parecer Giacometti.” O segundo parágrafo contém pelo menos duas pérolas eternamente citáveis como uma fala de peça de Oscar Wilde. A primeira: “Se você pode ser um enfant terrible com 40 é questão para debate. No entanto, desde a idade de 19, quando escreveu o roteiro para o perturbador “Kids” de Larry Clark, Korine tem se devotado ao necessário, mesmo que às vezes cansativo, business da provocação.” A segunda: “O outsider entrou para o mainstream ou ele simplesmente reconheceu que é o melhor lugar, ou mais tolo, para dar uma pool party?” E assim vai, por mais oito longos parágrafos, uma frase matadora atrás da outra.

Texto assim tão exibido (como são exibidas as conversas de seriados “de qualidade”, sempre a nos lembrar: por aqui passou um roteirista formado em escrita criativa) cada vez mais frequentemente produzem resultado estranho na cabeça do leitor: em vez de encantamento, sentimos tédio; em vez do “business da provocação” nos deparamos com o “business da criatividade”. Por isso, os não criativos, como Ken Goldsmith, preferem o tédio autêntico, efeito de escrita realmente chata (a ideia é que importa, não o resultado). Ou críticos como Marjorie Perloff percebem trabalho mais pessoal nas obras de gênios não originais.

Bom pensar essas coisas quando, como já celebraram Wisnik e Caetano por aqui, temos Leminski bombando na lista de livros mais vendidos no Brasil. Sua poesia sempre flertou, em estilo personalíssimo, com a não originalidade, o sumiço, a diluição (ver o poema “Apagar-me”, publicado no livro “Caprichos & relachos”). Até só restar o charme.

cantar e zoar

04/05/2013

versão ligeiramente modificada de texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/05/2013

Quando escuto alguém falando maravilhas sobre colégios públicos brasileiros de antes dos anos 1950, sempre pergunto: qual a porcentagem das crianças em idade escolar que estava matriculada naquele tempo? Havia sim qualidade em algumas salas de aula, e até o ensino de latim ou bordado. Mas esse serviço, incluindo as palmatórias, era privilégio de uma minoria. Da década final do século XX para cá, convivemos com a inédita universalização do acesso à escola, num país com população muitas vezes maior, no meio de uma baita crise mundial de fundamentos pedagógicos. Claro que todo o processo aconteceu aos trancos e barrancos. Vai demorar ainda muito tempo para haver nivelamento qualitativo geral, se é que isso vai acontecer numa realidade ostensivamente mutante. Mas não tenho dúvida: prefiro a situação atual, com todos os seus problemas, do que aquela anterior que servia biscoitos finos para poucos, assim contribuindo para a perpetuação de nossa vergonhosa desigualdade.

Muitos dos que suspiram ao lembrar seus liceus estaduais foram agentes da “decadência”. Ricos e poderosos, quando identificaram as primeiras dificuldades, retiraram seus filhos das escolas públicas, transformando-as em estorvo distante para o tal “Estado” (visto como entidade quase alienígena, mesmo quando quem reclama é seu funcionário de alto escalão). O “abandono” hoje se completa com a atual orkutização (leia o último artigo – página 48 - desta publicação e saiba que não uso “orkutização” de forma pejorativa) de escolas americanas e afins, subordinadas a diretrizes educacionais formuladas por governos estrangeiros que não elegemos e sobre os quais não temos nenhum controle – deixamos que povos mais “desenvolvidos” decidam o que e como nossas crianças devem aprender. (E, pronto, vou falar: MBA é o cacete! Também nada pode ser mais caipira do que esses escritórios que universidades do “primeiro mundo” tentam implantar por aqui para salvar seus “modelos de negócio” que não se sustentam mais apenas em ambiente G7).

Claro que reconheço: vivemos situação trágica em termos educacionais. Mas ensino não é só responsabilidade da escola, sobretudo no momento atual da história brasileira. Não houve tempo para formar professores ou mesmo construir salas de aulas para toda a população que de repente começou a estudar (e convive em casa com pais para quem essa oportunidade foi negada). Fico revoltado quando vejo os jornais zoando com o ENEM, numa tentativa de desqualificar toda essa experiência (que ninguém sabe se vai dar certo) de criar uma alternativa para o mecanismo ultrapassado do vestibular, tudo por causa de um aluno que copiou receita de miojo na sua redação. Esperavam o quê? Uma multidão de Machados de Assis?

Gostaria de saber como essa redação específica vazou para a imprensa. E por que as primeiras páginas dos jornais entraram na zoação. Não vou comprar essa briga. Quem leu minha coluna da semana passada já descobriu que eu acredito que “a vida foi feita para cantar e zoar”. Então vou zoar de volta. Devo confessar: adorei a redação do miojo. Coincidiu que na época eu estava lendo “Unoriginal genius”, o livro da professora emérita de Stanford (viu como também gosto de ser caipira?) Marjorie Perloff (obrigado, Arto Lindsay, pela indicação de leitura), que me parece a obra mais importante sobre literatura publicada em tempos recentes. É um tratado que nos prova que o lema de Gaby Amarantos (“eu vou samplear, eu vou te roubar”) está na base dos avanços mais importantes da poesia contemporânea. Ken Goldsmith, um dos autores analisados por Perloff (junto com os irmãos Campos e Walter Benjamin) e que já publicou livro só com colagem de textos de previsões do tempo, chama essa tendência de “uncreative writing”. Sendo assim, tenho o dever de indagar: não será o autor da redação do miojo um gênio não-original brasileiro, bem mais criativamente não-criativo que os jornalistas que zoaram com sua escrita?

Vou seguir o exemplo desse nosso gênio não-original anônimo – pode haver algo mais genial do que se apropriar de uma receita de miojo? nota máxima para a não-criatividade! – e terminar esta coluna abrupta e desconexamente, sampleando um bifão do livro do Roberto Calasso, “A folie Baudelaire” (que é feito para se ler aos poucos, uma página e uma iluminação por dia): “Toda a história da literatura – aquela secreta, que ninguém será capaz de escrever jamais, a não ser parcialmente, porque os escritores são muito hábeis em dissimular – pode ser vista como uma sinuosa guirlanda de plágios. Entenda-se: não aqueles ficcionais, devidos à pressa e à preguiça, como os operados por Stendhal sobre Lanzi; mas sim os outros, baseados na admiração e num processo de assimilação fisiológica que é um dos mistérios mais protegidos da literatura. Os dois trechos que Baudelaire subtraiu a Stendhal são perfeitamente harmonizados com sua prosa e intervêm num momento crucial da argumentação. Escrever é aquilo que, como o eros, faz oscilarem e torna porosos os anteparos do ego. E todo estilo se forma por sucessivas campanhas – com pelotões de invasores ou exércitos inteiros – em territórios alheios.”

CLAUN

27/04/2013

versão ampliada do texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/04/2013

Você só tem menos de 120 horas para ver o filme-piloto do “projeto CLAUN” na internet. Dia 30 sai do ar, e será preciso esperar por alguma exibição provavelmente em festival ou sala de cinema “de arte”. Então aproveite: os três capítulos de “Os dias aventurosos de Ayana” estão em cartaz, com qualidade HD “cortesia” do Vimeo, na página www.claun.com.br. Tudo ali me parece boa novidade, embalada no estilo pós-udigrudi-com-tempero-thai-ou-filipino já característico do diretor Felipe Bragança. (Estou zoando! Como diz a letra de um funk que aparece na trilha sonora do filme: “a vida foi feita para cantar e zoar”.) A estratégia de lançamento, primeiro na rede, é digna de ousadia mais fundamental: os clowns, ou clóvis, ou bate-bolas – figuras fascinantes do carnaval carioca – recebem finalmente tratamento de super-heróis. Meteorango-kids sofrem mutações em x-men justiceiros suburbanos. Como ninguém pensou nisso antes?

Para ser exato: o filme teve sua estreia em janeiro no Festival de Rotterdam. Depois houve sessão na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna. Sei de tudo isso pois acompanho seu desenvolvimento desde 2011 quando recebi email do Felipe (já posso tratá-lo assim, com intimidade, mesmo que nosso contato até agora tenha sido apenas virtual) cujo assunto era “conversa filme mascarados”. Porém, nunca se tratou somente da produção de um filme. Como está escrito na sua página da internet: “O projeto CLAUN pretende desenvolver a web-série, uma graphic novel e uma reunião de documentos sobre a cultura e a mitologia dos mascarados. Sete turmas reais de bate-bolas colaboraram na criação dos primeiros três capítulos-piloto aqui reunidos.”

Então o termo piloto é apropriado: início de uma longa, misteriosa e militante aventura. Na troca de emails, Felipe me contou que tem dez roteiros já escritos para a web-série e que em breve, com bolsa que ganhou para uma temporada em Berlim, desenvolverá a história em quadrinhos mesmo ainda sem editora. Essa novelização-gráfica do CLAUN é algo que aguardo com ansiedade. Sempre me interessou a maneira voraz com que os bate-bolas se apropriam do imaginário pop. Recentemente vi turma enorme que bordou personagens de jogos eletrônicos em seus mantos. Vou gostar de ver essa visualidade carioca transposta para o mundo HQ (vasto mundo: Felipe desde o início fala da vontade de absorver a linguagem japonesa dos animês e mangás) e depois sua volta para as ruas.

CLAUN já lançou outros subprodutos. Felipe, um pouco antes de me mandar aquele primeiro email sobre os mascarados, publicou no caderno Prosa, deste jornal, artigo intitulado “Meu último texto de cinema”. Ainda bem que não parou de escrever, pois é um dos observadores mais argutos (mesmo quando não concordo com ele) da cena cultural brasileira contemporânea. Recomendo enfaticamente a leitura, entre um capítulo e outro de “Os dias aventurosos de Ayana”, de “Eu, bate-bola”, texto que Felipe publicou no site Overmundo e que é um dos melhores ensaios culturais deste ano.

Felipe entrou de corpo e alma na realidade dos mascarados. O cineasta virou nativo e passou o carnaval 2013 batendo bolas nas ruas da cidade, enfrentando mesmo a violência policial que tenta tirar os bandos de clóvis das ruas. Seu artigo do Overmundo é uma reflexão sobre essa sua experiência particular/coletiva. Tudo fica com pingos em todos os is: “O glitter usado para fazer brilhar os tecidos [...] é só a última camada de uma cultura toda feita de camadas, de uma cultura de confusão, sobreposições e colagens. Não há pureza em ser um bate-bola”.

Esse elogio da impureza envereda por territórios mais perigosos ao longo do texto e do filme-piloto, que defendem lado do Rio que nenhum choque de ordem vai conseguir domesticar. Há um trecho especialmente eloquente a esse respeito: “nós, os bate-bolas e clóvis representamos também o engano, o erro, o ruído, os Exus, os sacis, Loki, a batalha simbólica do homem com o imponderável, o inusitado e o que nos tira do repouso e do conforto e do planejado. As bombinhas estouradas nas ruas, a batida forte das bolas de plástico no chão quando passam correndo no meio da multidão, o mistério das máscaras e das sombrinhas que caminham em linhas projetadas como uma tropa de deuses entre foliões perdidos na festa – tudo ali fala também dos espíritos, do invisível e do imponderável – nos lembram dessa silenciosa certeza de estarmos ali para celebrar a vida. As potências da vida.”

Essa batalha carioca, Felipe vem travando há tempos. Seu texto “Monstruosidade maravilhosa”, publicado também aqui no jornal em 2011, é a defesa dos “monstros” da cidade (e para ele filmes também são monstros). Pensamento sintetizado em comentário sobre o curta que fez na Aldeia Maracanã, lançado no ano passado: “O que me interessa ali é a cidade mágica daqueles que se sustentam pelas brechas da cidade real. Nela vivem heróis corajosos e melancólicos que constroem identidades próprias e novas formas de organização social e poética para se manterem persistindo, sem se conformar com os planos meramente lógicos da eficiência urbana.”

Mandei para Felipe cópia de textos que escrevi depois de viajar pelo Brasil documentando brincadeiras chamadas de folclóricas. Nelas sempre encontramos palhaços, mateus, arlequins, caretas que são elementos ambíguos, ninguém sabe se do Bem ou do Mal. Mas sem essa incerteza não há festa. Como me disse um palhaço de guerreiro alagoano: “A barreira da frente é a gente. Porque se não tiver a nação de palhaço, a brincadeira fica parada. Se não for com as nossas figuras, ninguém fica animado. Nós somos a alegria. Por isso a brincadeira tem toda essa repartição de animação.”

zoom back camera 2!

20/04/2013

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/04/2013

Alejandro Jodorowsky – estrela desta coluna desde a semana passada – foi apresentado para o público nova-iorquino por Lennon e Yoko. O casal da Plastic Ono Band, no final da exibição de seus curtas, convidou a plateia para ficar no Elgin Theatre e assistir a “El Topo”. Estavam presentes vários “formadores de opinião” da cidade, que ainda era o centro do mundo. Resultado: o sucesso foi tão grande que esse estranho filme de cowboy ficou em cartaz por um ano, inaugurando um novo gênero/horário, os Midnight Movies.

Era programa obrigatório. Andy Warhol adorava a cena do beijo entre duas mulheres. Peter Gabriel concebeu o show de “The lamb lies down on Broadway”, disco lançado quando era cantor do Genesis, sob a influência de “El topo”. Sergio Leone procurou Jodorowsky para obter informações sobre como conseguiu realizar aquelas cenas sem gruas. Carlos Castaneda propôs versão cinematográfica de suas aventuras com Don Juan, mas a conversa foi interrompida com o autor de “A erva do Diabo” saindo apressado alegando súbita diarreia (segundo Jodorowsky, ele fugiu com atriz de “A montanha sagrada”). Tudo gente fina. Todos inventores do espírito daquele tempo desbundado.

John Lennon também apresentou Jodorowsky para Allen Klein, que comprou os direitos de “El Topo” e conseguiu dinheiro para “A montanha sagrada”. Klein é figura fascinante e polêmica. Foi mais ou menos empresário do Sam Cooke, dos Rolling Stones, dos Beatles. Tomava conta da aplicação do dinheiro dos componentes dos Beatles quando eles se separaram. Foi quem mandou o roteiro de “A montanha mágica” para George Harrison, que quase aceitou ser o protagonista desse filme. Depois do lançamento em Cannes, continuava empolgado. Queria ganhar muito dinheiro com Jodorowsky entrando no filão de filmes quase ou pós-pornôs como “A garganta profunda”. O diretor parece que desapareceu com o adiantamento. Klein tirou “El Topo” e “A montanha sagrada” de circulação por mais de três décadas.

Jodorowsky é Polyanna num nível punk ou dionisíaco, não se deixa abalar por nenhum problema. Contra Freud ou mesmo Buda, ele afirma o tempo todo a maravilha de ter nascido. São suas palavras: “Não existe iluminação. Somos todos iluminados. Estamos vivos.” Como Caetano, ele se diz adolescente. E completa sua autodefinição: “Não sou místico, não sou artista. Sou alguém que joga jogos. Um apostador.” Detalhe importante: apostador que aposta alto, e queima rios de dinheiro com lances sempre surpreendentes.

Nasceu no Chile. Chegando na França de madrugada numa estação de trem a primeira coisa que fez foi ligar para André Breton. “Vim salvar o surrealismo.” Queria encontrá-lo imediatamente, mas Breton sugeriu a manhã seguinte. Jodorowsky ficou indignado com o adiamento, e foi procurar outra turma. Trabalhou com Marcel Marceau. E depois com Fernando Arrabal, com quem montou uma série de espetáculos chamados “Evento pânico” (em homenagem ao deus Pã), obrigatórios na Paris dos anos 1960 como foram as exibições de “El topo” na Nova York dos anos 1970 (ou como foi a apresentação de “O boi no telhado” na Paris dos anos 1920 – ver o livro de Manoel Aranha Corrêa do Lago, já elogiado aqui neste cantinho por José Miguel Wisnik). Muitos desses acontecimentos estão descritos em “A dança da realidade”, autobiografia de Jodorowsky lançada no Brasil pela editora Devir.

Banido por Allen Klein, Jodorowsky aproveitou para tocar com Moebius, sumidade da ilustração de novelas gráficas, seu projeto mais querido: um filme baseado em “Duna”, ficção científica de Frank Herbert. A Documenta de Kassel publicou no ano passado um caderno de Jodorowsky que traz a palavra Duna na capa, com estudo sobre o tarot como conteúdo, mas há material abundante – em muitos outros cadernos – com desenhos de todas a cenas que nunca sairam do papel. Tanto esforço para nada poderia ser encarado como grande derrota por outros criadores. Para Jodorowsky e Moebius foi incentivo para aquela que é talvez a obra prima da carreira dos dois: a publicação de “Incal”, que em 2012 ganhou edição integral no Brasil (reunindo os três volumes lançados separados anteriormente). É uma história de Tudo, uma explicação para Tudo.

Moebius, no documentário “A constelação Jodorowsky”, diz que o cérebro de seu parceiro de “Incal”, funciona como 3.000 computadores loucos. Uma das vítimas de sua loucura sagrada (para Jodorowsky as máquinas são sagradas) foi Louis Mouchet, diretor desse documentário, que teve que sair de trás das câmeras para virar o centro de uma sessão de psicomagia. Novamente o encantamento às avessas: “zoom back camera.” Para Jodorowsky a realidade dançante é sempre o melhor de Tudo.


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