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futuro

24/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/03/2012

Já conclui a série sobre direitos autorais. Mas faltou dizer: houve um tempo em que o Brasil era vanguarda no debate sobre o futuro da cultura digital. O próprio Richard Stallman, que pode ser chamado de pai do software livre, reconheceu – na revista Wired – que nenhum outro país do mundo tinha governo mais comprometido com a democracia dos códigos cibernéticos. Cheguei a ver Stallman e Sarney abrindo o seminário “O software livre e o desenvolvimento do Brasil”, promovido pelo Congresso Nacional em 2003, início do governo Lula. Note bem: o software livre era visto como ferramenta de desenvolvimento, de produção de riquezas para a economia brasileira. Gilberto Gil, como ministro, também estava na mesa, e fez discurso conectando liberdade digital com enriquecimento artístico: era o momento em que o Brasil, seguindo também as lições dos movimentos antropofágicos e tropicalistas, poderia se transformar em laboratório capaz de propor soluções para a crise dos velhos modelos de negócios da indústria cultural mundial. Na plateia, eu imaginava estar vivendo dentro da letra dos Novos Baianos: “chegou a hora desta gente bronzeada mostrar seu valor”. Confesso aqui mais uma vez meu sebastianismo: sempre esperei que o Brasil tivesse missão central para cumprir no planeta. Nunca me contentei com a retaguarda.

Quase dez anos depois, constato que tudo ficou para o “país do futuro”. Claro, somos a tal sexta potência econômica, e continuamos dominando toda nova rede social virtual, mas parece que seguimos uma trilha de desenvolvimento pouco original, que esbarrará naqueles mesmos impasses que o mundo dito desenvolvido enfrenta agora. Quanto à experimentação com os códigos abertos da produção cultural, andamos para trás, para o passado. Deu medinho oficial do novo, bateu aquele apego à merreca conhecida, que ainda satisfaz a uma minoria. Para que gastar energias com propostas experimentais? É obvio: o barco está afundando, mas tem gente finge não ver a água entrando por todos os lados, pois dá muito trabalho organizar a operação de salvamento coletivo. Gente que prefere naufragar “dignamente”, ignorando a tempestade lá fora, ou a mudança radical da maré.

Que fazer para retomar a ousadia, para sair do culto da mixaria, para cumprir nossa missão? É preciso recomeçar conectando muita atividade dispersa. Que o marasmo oficial não nos engane: o Brasil continua produzindo muitos pensamentos e ações originais, mesmo sem a repercussão internacional da década passada. Citei aqui, semanas atrás, o livro “O domínio público no direito autoral brasileiro”, de Sérgio Branco. Houve problema engraçado no seu lançamento. A editora Lumen Juris foi corajosa aceitando lançá-lo como obra já em domínio público. Mas o licenciamento tradicional é tão automático que a primeira impressão do livro saiu com aquele aviso policialesco, que nos trata como suspeitos, contido em quase todos os produtos culturais: “É proibida a reprodução total ou parcial [...] A violação dos direitos autorais constitui crime” etc. (Uma vez comprei um DVD e fui obrigado a ver três anúncios antipirataria – sem passar por eles eu não chegaria ao filme. Deve fazer sentido: quem compra o DVD não-pirata precisa também ser punido.) Mas agora o problema está resolvido e a obra finalmente chegou às livrarias. É leitura essencial para voltarmos ao debate levado a sério.

No capítulo final, Sérgio Branco levanta um aspecto preocupante do atual movimento de “privatização” do domínio público, que precisa ser levado em consideração por qualquer política cultural. Muitos acervos públicos passaram a fazer cada vez mais exigências, inclusive o pagamento de taxas, para o acesso a obras que estão em domínio público. Isso acontece, por exemplo, com a proibição de fotografar quadros que estão em museus (a explicação de que flashes danificam as pinturas não é suficiente para justificar esse tipo de regra, e em muitos casos já se tornou tecnicamente obsoleta). Mesmo quando pagamos por reproduções fotográficas das obras, temos que assinar contratos nos comprometendo a não usar aquelas fotografias comercialmente, ou mesmo cedê-las para terceiros. Há aqui tentativa sorrateira de restringir a ideia de domínio público apenas para utilizações não comerciais, o que é errado. O domínio público também se justifica tornando possível que qualquer pessoa possa ganhar dinheiro com aquilo que passou a ser da Humanidade. Foi assim que a Disney se enriqueceu (e também enriqueceu nossos imaginários) usando obras dos irmãos Grimm sem precisar pagar nada pelo uso totalmente comercial.

Tente hoje solicitar autorização em arquivos públicos do Rio para reproduzir uma foto de Augusto Malta, já em domínio público, num documentário sobre história da cidade. Muitos deles vão cobrar taxas diferentes (não importa se a diferença é grande ou pequena; é o princípio que está em jogo) se a utilização da foto tiver ou não finalidade comercial. Claro que essas instituições precisam de dinheiro para o trabalho de conservação. Mas esse é outro problema, exigindo outras soluções que nada têm a ver com direito autoral. Para manter o acervo ninguém precisa mudar a função do domínio público, que não prevê discriminação entre vários tipos de uso da obra. O domínio público é nosso, ninguém tasca: existe para incentivar novas criações – e criadores que possam viver de suas criações.

conclusão?

17/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/03/2012

Para concluir esta série sobre direito autoral, vou piratear dois pensamentos alheios, resumos dos maiores problemas da economia da cultura contemporânea, pós-digitalização de tudo. A primeira citação é de Paul Tassi (obrigado, Pedro Mizukami, pelo link, via Google+), que escreve sobre a indústria de jogos eletrônicos na revista Forbes: “Compreenda que a pirataria é um problema de serviço”. Com minhas palavras: não culpe os piratas, a culpa é sua – você, produtor de conteúdo, que não sabe encontrar uma maneira barata e eficiente de vender seus produtos para seus consumidores, aproveitando as facilidades que a internet criou. Simples assim: no lugar de gastar dinheiro fazendo lobby para o governo aprovar leis mal formuladas, querendo eternizar modelos de negócios obsoletos, vá trabalhar de verdade.

A segunda citação é mais surpreendente. Vem de artigo de Michel Bauwens, fundador da Peer-to-Peer Foundation (o termo peer-to-peer, ou P2P, se popularizou primeiro entre desenvolvedores de redes de computadores, criando arquiteturas descentralizadas para compartilhamento de arquivos e tarefas – hoje se refere também ao compartilhamento descentralizado de cultura de maneira geral), publicado no site da Al Jazeera (obrigado, José Murilo, pelo link, também via Google+): “Os mercados são definidos como maneiras de alocar recursos escassos e o capitalismo é de fato não apenas um sistema de ‘alocação’ da escassez mas também um sistema de criação da escassez, que só pode acumular capital reproduzindo e expandindo as condições da escassez. Quando não há nenhuma tensão entre oferta e procura, não pode haver mercado e acumulação de capital. O que os “peer producers” estão fazendo [...] é criar uma abundância de informação facilmente reproduzível [...] Isso não pode ser diretamente traduzível em valor de mercado, pois não é de maneira nenhuma escasso – é superabundante.” (Bawens continua seu texto defendendo a opinião de que empresas como Facebook e Google não transformam diretamente essa produção coletiva em lucro – não tenho espaço aqui para seguir sua linha de raciocínio – para saber mais leia o texto completo).

Sempre repito nesta coluna: estamos reclamando de barriga cheia (que coisa mais feia, como canta Zeca Pagodinho) – nosso problema não é ter pouco, mas sim ter demais. Na base dessa fartura há ainda um novo relacionamento do público com o mundo cultural como um todo, situação que a indústria de entretenimento tradicional não sabe como encarar – ou não encontrou estratégia para se inserir no novo momento como elemento decisivo; do centro passa cada vez mais para a periferia do gosto público, ou da produção pública (já que o público agora é também produtor). Talvez suas músicas vendam menos, não por causa da pirataria, mas porque o público deixou de se interessar avidamente por elas, e encontrou outras maneiras divertidas de fazer/consumir arte.

Nessa nova cadeia produtiva, há dois aspectos que me parecem mais relevantes. O primeiro tem a ver com apropriações criativas da produção de outros autores. No ambiente “escasso” das artes plásticas, isso tem longa história, do bigode que Duchamp colocou na Mona Lisa ao processo contra Richard Prince pelo uso das fotos dos rastafaris. Hoje, o que era recurso erudito virou diversão de massas: com softwares gratuitos de edição de vídeo e som, e maneiras fáceis de copiar conteúdo dos outros, todo mundo pode produzir arte remixada e divulgar o resultado para o planeta.

E todo mundo pode também utilizar esses programas, que não exigem estudo anterior nenhum, para – continuando a usar música como exemplo – cantar, tocar e deixar que o computador afine ou coloque no ritmo o resultado. Suzanne Lainson, estrategista de marketing, já apontou as consequências dessa abundância em termos de negócios: “muitas pessoas fazendo alguma música, mas muito poucas pessoas com fãs pagantes em número suficiente para viver de música. Isso é OK, no entanto. Se todos puderem fazer música, é um mundo melhor.” Retornamos, por meios digitais, ao mundo folclórico, onde produzir arte e beleza era uma atividade de todos e não de uma classe especial de seres talentosos (esses sempre existirão, e darão um jeito para viver do seu talento especial).

Lembro o que escrevi na minha dissertação de mestrado sobre o funk carioca, lá no final dos anos 80: “Os dançarinos têm uma relação ainda mais descartável com as músicas que tocam no baile. Como já disse, eles não conhecem o nome dos sucessos nem dos artistas [...] Geralmente não têm discos em casa [...] O funk [...] é a música que mais gostam de dançar. Não muito mais que isso.” Naquela época não havia funk de baile produzido no Rio. Hoje milhares de dançarinos também gravam seus pancadões. Porém a relação com essa produção continua funcional. É música para animar a festa, não para a eternidade. E isso não quer dizer que seja música pior do que aquela que os críticos consideram eternas.

Sites como o Megaupload serão cada vez mais necessários, não para armazenar conteúdos piratas, mas para fazer circular essa enorme produção: sem eles muitas novas cenas musicais contemporâneas, totalmente independentes das gravadoras, não existiriam. Ninguém vai conseguir parar esse processo. O pessoal da indústria de conteúdo precisa deixar seus escritórios e pesquisas de laboratório e ir para internet (a nova rua), onde o futuro já é.

serei contraditório?

10/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 09/03/2012

No final de qualquer tarde, um dos meus programas cariocas preferidos é deixar o barulho dos congestionamentos do centro da cidade e subir a ladeira do Mosteiro de São Bento, para penetrar em outra dimensão, na celebração do Ofício Divino das Vésperas, onde reina a calma do canto gregoriano, como se a realidade lá fora por alguns minutos não existisse, e meu ego se dissolvesse na fumaça dos incensos. É raro ter tempo para me dar esse presente, que tem efeito mais poderoso que qualquer lexotan. Mas mesmo quando não estou na igreja, a lembrança de que os monges estão lá, como infalivelmente estão há séculos, me conforta. É tranquilizador saber que há coisas que não mudam no mundo, ou mudam muito vagarosamente. Os monges funcionam na minha estranha cabeça como um porto seguro: o que há em volta muda (inquietos, construímos e destruímos perimetrais…), mas eles permanecem ali entoando os mesmos cânticos, na mesma hora.

Gosto do fixo, preciso do fixo. Porém, sou como Gilberto Freyre, “o mais contraditório dos homens”. Venero – com o mesmo fervor – o fluido, o inconstante, a mudança radical. Quando uma pessoa vem, com muita convicção, elogiar o sim, fico cabreiro, desconfiado, ou simplesmente me divirto defendendo o não. E vice-versa, tanto faz. Quando estou entre ateus, encontro todas as razões para ser crente. Quando estou entre crentes, fica fácil perceber o que há de inconsistente na crença. Isso pode ser terrível, estou sempre um pouco “por fora”, nunca totalmente “dentro”, integrado. Mas já me acostumei. Não saberia escolher entre o livro e o blog. Na verdade, não entendo porque teria que escolher. Por que não posso ter os dois, um complementando o outro? Além disso, tenho certeza que existe no mundo lugar para amantes de livros e amantes de blogs. As duas tribos não precisam viver em guerra.

Tento respeitar o ponto de vista dos meus adversários (tenho diferentes adversários, dependendo da ocasião). Nesta série de textos sobre direito autoral e domínio público busquei o tempo todo o equilíbrio.

Sei que sou identificado com um dos lados do debate, o que não consegue enxergar vantagens, nem para os autores, no endurecimento das legislações atuais dos direitos autorais. Concordo inteiramente com Tim O’Reilly quando ele declara: “Esses ataques legislativos não são motivados por um pensamento claro sobre o futuro da internet ou da economia global, mas em vez disso querem proteger indústrias arraigadas com modelos de negócios ultrapassados. No lugar de se adaptar e competir com novos e melhores serviços, essas companhias querem que o congresso lhes dê cobertura.”

Isso não quer dizer que estou do lado do Google ou do Facebook, muito menos que seus executivos sejam meus heróis libertários. Claro que as empresas bilionárias da internet não são nada coitadinhas – elas estão lutando por seu dinheiro, tal qual Hollywood. Até agora tenho mais a agradecer a Hollywood do que ao Facebook. Tenho pena de ver uma indústria tão criativa quanto aquela do cinema americano, que já iluminou tanto minha vida, terminar tão melancolicamente, defendendo leis que todos sabem que são mal formuladas, perigosas para liberdades democráticas básicas e para o futuro da inovação na indústria do entretenimento. Deixar isso claro não me torna aliado do Facebook, da Apple, do Google. Já escrevi aqui sobre como essas empresas querem todas transformar a internet em seus “jardins murados”, onde terão controle sobre todos nossos passos.

Outro dia li estarrecido notícia na qual o Facebook revelava as músicas que as pessoas mais ouvem quando começam ou terminam seus namoros. Parecia bobagem, informação inútil ou pitoresca. Interpretei o texto como uma chantagem, como se a empresa (que provavelmente estava demonstrando sua força com fonte para futuras pesquisas de marketing, de valor incalculável) nos dissesse: conheço tudo de suas vidas, seus desejos mais secretos, sua sensibilidade mais básica – vocês estão em nossas mãos. Anúncio de um totalitarismo soft e divertido? Servidão voluntária refinadíssima. Imagine o que o Google pode saber sobre cada um de nós, se quiser. Depender de uma só ferramenta de busca, propriedade de uma única empresa, é um erro e um risco enorme (como antes era depender de um único sistema operacional, da Microsoft – por isso minha campanha cada vez mais atual pró-software livre). Conclusão: precisamos sim de Marcos Civis da Internet, realmente democráticos, que nos protejam de todas essas ameaças, vindas de Hollywood ou do Vale do Silício.

Vou repetir o que já disse por aqui: é preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a vida digital. Até porque, queiramos ou não, não haverá vida daqui para frente sem o digital, e o digital conectado, em rede, cada vez mais micro, misturado com tudo, trocando informações mesmo entre objetos. Não adianta se meter em disputa boba, tipo “a internet só produz lixo” ou “a mídia tradicional só produz lixo”. As duas produzem muito lixo ao lado de várias maravilhas. Centralização e descentralização vão ter que aprender a conviver, uma respeitando a outra. A centralização foi padrão dominante por muito tempo (mas não durante toda a história da Humanidade) porque não havia ferramentas que tornassem a descentralização barata, eficiente e fácil. Agora essas ferramentas são abundantes. Podem ser usadas para o bem e para o mal. Vamos lutar para que o bem prevaleça.

blogs e colunas

03/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/03/2012

Stanley Fish é nome central na teoria literária dos EUA. Foi o criador do conceito de “comunidades interpretativas”, advogando que – vou simplificar – cada texto é interpretado de maneiras diferentes por leitores diferentes, dependendo das comunidades às quais estão vinculados. Pode parecer pós-modernismo fácil, e assim fez sucesso tremendo em congressos de estudos culturais no mundo inteiro. Fish luta contra essa interpretação de suas ideias. No primeiro texto de 2012 do seu blog, mantido pelo New York Times, ele declara – com tom sincerão usado muitas vezes para chocar intelectos pudicos – que, em seus 50 anos de carreira acadêmica, sempre buscou “construir argumentos que são decisivos, compreensivos, monumentais, definitivos e, mais importante, completamente meus.”

As palavras citadas colocam ponto final, com seriedade cruel, num primeiro parágrafo que começa engraçadinho, com Fish dizendo que sempre se refere a seu blog como coluna; por dois motivos. O primeiro é pitoresco: blog seria palavra horrenda (“como são clog, smog e slog”). O segundo motivo precisa de argumentos decisivos para ser defendido. Todo resto do texto do blog-que-quer-ser-uma-coluna (apesar de aparentemente só ser publicado on-line) tenta cumprir essa missão de forma monumental – e certamente muito original, mesmo ecoando o que muita gente tem dito por aí.

Para Fish, diferentemente dos artigos tradicionais valorizados na academia (escritos para durar para sempre, e construir carreiras estáveis), os textos dos blogs privilegiam o imediato. Os posts mais novos aparecem primeiro, os antigos somem. Além disso, há outras ferramentas desestabilizadoras na internet: a possibilidade de o texto sempre ser revisado; os links que levam a outros textos, imagens, sons e vídeos de outros autores; o espaço de comentários etc. (Um aparte: entre os blogs que acompanho, a “coluna” de Fish é a que apresenta mais alto nível de comentários, sempre centenas por post, geralmente respondidos pelo autor nos próximos textos, gerando uma produção de conhecimento coletivo – mesmo se capitaneada com pulso firme pelo dono do terreiro virtual – muito bem-sucedida.)

Essas diferenças foram também lembradas em debate entre Kevin Kelly e Nicholas Carr, cada um em seu blog. Carr, com sua conhecida antipatia com relação a tudo que tem a ver com a internet (e hoje em dia qualquer opinião anti-internet alcança muito sucesso), fez o elogio de tudo que há de fixo no livro como objeto. Quem escreveu tese acadêmica recente conhece a dificuldade de citar o que está on-line. É necessário dizer, além do endereço correto (terríveis de serem datilografados), a data em que o documento foi acessado – pois acesso no dia seguinte pode revelar algo totalmente mudado, ou mesmo inexistente. O livro não: a palavra X vai estar para sempre – enquanto o papel durar, e papel dura muito – na mesma página da mesma edição, o que contribui para um senso de completude, de trabalho acabado.

Kelly reconhece que essas são vantagens claras. O livro foi indubitavelmente uma invenção maravilhosa da humanidade. Mas se a fixidez pode ser uma dádiva em muitas situações, em tantas outras a fluidez é tudo que precisamos. No texto digital, fluido, a página pode ser lida em muitos aparelhos diferentes; a correção é fácil; o objeto pode ser armazenado na “nuvem” (onde está imune a traças); e no lugar do senso de completude, temos o senso de crescimento constante daquele conhecimento, para todos os lados, apropriado para uma infinidade de “finalidades” que não estavam nem no horizonte das preocupações dos autores “primeiros” ou “originais”.

(Parêntese um pouco maior do que aqueles que normalmente bagunçam o estilo dos meus textos: Umberto Eco, em uma das dezenas de entrevistas que concedeu para divulgar “O cemitério de Praga”, confessou já estar fazendo as pazes com a leitura em meios digitais. Ele gosta de tablets. Mas continua preferindo livros de papel, pois pode fazer anotações nas margens. Eco não deve ter descoberto o recurso de anotações que deveriam estar disponíveis em vários softwares de leitura, recurso que deve fazer a felicidade de amantes de livros para os quais rabiscos são pecados. Porém, isso é o de menos: há cada vez mais sites e softwares que facilitam a troca de comentários de leitura entre pessoas do mundo inteiro. É a leitura não mais isolada, mas compartilhada por coletivos cada vez maiores.)

Stanley Fish, no texto do blog citado acima,  identifica duas características principais da militância pró-fluidez. A primeira é a mais óbvia: seu lado político, de ataque à autoridade do texto fixo e, por conseguinte, do seu autor e todo o aparato institucional que mantém “eruditos separados de eruditos, leitores separados tanto da criação quanto do consumo de significado, e homens e mulheres comuns separados da maquinaria de produção do conhecimento [...] e de outros motores dedicados à manutenção do status quo.” Isso todo mundo já ouviu falar.

A segunda característica é que me parece mais interessante: Fish aponta o fundamento teológico que move o maremoto de bits da internet. Contra a linearidade, a cultura digital propõe uma visão da realidade onde, como canta Fausto Fawcett (na sua música “Drops de Istambul”), dissolvemos nossos egos na matéria em movimento, onde tudo está conectado com tudo, onde o todo é o Um e atingimos o nirvana. Estamos bem longe do direito autoral? Semana que vem tentarei voltar ao planeta Terra.

jogo de multidão

25/02/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/02/2012

O carnaval passou e continuo aqui com o meu samba de uma nota só sobre direito autoral. Estou empacado, tipo bloco “Concentra mais não sai”. Até agora, depois de três textos, não saí da introdução. Direito autoral é assunto complexo, talvez o mais importante para a produção cultural contemporânea. Por isso precisa ser debatido sem pressa. Não há respostas prontas ou fáceis para os desafios que a digitalização impôs, de forma avassaladora, para a relação criadores/público/mercado/mídia. Nenhuma das experimentações em andamento parece indicar solução duradoura. Ainda vamos ter que conversar muito para chegar a novos arcabouços jurídicos ou modelos de negócio que aproveitem o melhor da situação atual. Já repeti várias vezes: deixamos a economia da escassez, o que é ótimo. Mas não descobrimos como viver com tanta abundância criativa.

Resumo o que escrevi nas colunas passadas com uma citação do discurso que Victor Hugo fez para o Congresso Literário Internacional de 1878: ”O princípio é duplo, não o esqueçamos. O livro, como livro, pertence ao autor, mas como pensamento, ele pertence – e a palavra não é bastante ampla – ao gênero humano. Todas as inteligências têm direito sobre ele. Se um dos dois direitos, o direito do autor e o direito do espírito humano, precisa ser sacrificado, esse será, certamente, o direito do escritor, pois o interesse público é nossa preocupação única, e todos, eu o declaro, devem passar antes de nós.”

Ao fazer minha tradução macarrônica, percebi que tais palavras podem soar mais radicais do que meu pensamento sobre o assunto, que prega apenas o equilíbrio entre domínio público e direito do autor, pois um precisa do outro para se enriquecer (nos vários sentidos, não apenas econômico, do enriquecimento).  Imagino que Victor Hugo concordaria comigo. Tanto que, parágrafos atrás dessa declaração bombástica, ele deixava claro que o direito autoral era um progresso: “Todas as velhas legislações monárquicas negaram e ainda negam a propriedade literária. Com que objetivo? Com o objetivo de escravização. O escritor proprietário, é o escritor livre. Retirar sua propriedade, é retirar sua independência.”

Pena que nada é tão simples assim. Recentemente, Eduardo Viveiros de Castro me apresentou o trabalho de Alexandre Nodari, que escreveu excelente dissertação de mestrado em Teoria Literária, intitulada “a posse contra a propriedade – pedra de toque do Direito Antropofágico”, sobre a “poética do grilo” a partir do pensamento de Oswald de Andrade. Nodari lembra, em vários de seus textos, que a noção de autor (e a obrigatoriedade de todo texto ter um autor responsável) surgiu também como estratégia da Inquisição para combater o anonimato que protegeu muitos defensores do livre pensamento na Idade Média, aqueles que se identificados terminariam na fogueira.

Foi momento fascinante na história, como sempre cheio de contradições (uma mesma inovação pode ser usada por forças democratizantes e reações totalitárias, como tanta coisa na internet hoje em dia). Junto com o autor, aparecem também a arte tal qual conhecemos hoje, com artistas assinando seu trabalho, que deveriam ser sempre originais, diferentes de tudo que apareceu antes. Essa busca incessante do novo, que nos parece tão natural, nem sempre foi característica de produção cultural anterior ou de outras culturas.

Outro dia, folheando as primeiras páginas da “História ilustrada do vestuário”, lançado no Brasil pela PubliFolha, me deparei com a seguinte informação: “As vestimentas egípcias mantiveram-se relativamente inalteradas entre 3.000 a.C. e 1.550 a.C.” Como assim: quase um milênio e meio com a mesma roupa?! Para nossa sensibilidade pós-moderna, acostumada a mudanças a cada Fashion Week, e que execra estilistas que “se repetem” ou “copiam outros autores”, é visceralmente impossível entender um povo tão avesso a mudanças. Hoje vivemos ansiosos à procura do último grito, que deve ser sempre diferente dos gritos das temporadas passadas.

A vitória da internet veio criar novo combustível para nossa ansiedade. Talvez acabemos por descobrir que o reino do autor original foi um período “fora de série” da história. Não estou dizendo que voltaremos a ser egípcios, com a calmaria do “mesmo” por séculos, mas sim que haverá tantas micronovidades, descentralizadas, e sem autoria determinada, que dará no mesmo: será impossível identificar “escolas”, ou “vanguardas” que se sucedem umas às outras, impulsionadas por seus líderes geniais. Há um novo modo de relacionamento com a produção cultural como um todo, e essa (e não a pirataria) é a principal causa da crise da indústria do entretenimento (que precisava de autores, originalidade e novidade – em número reduzido a cada estação – para sobreviver). Arte virou jogo de multidão.

Os desenvolvimentos recentes da saga “Ai se eu te pego” continuam a me iluminar. Agora, na “origem”, apareceram as meninas paraibanas que teriam composto o refrão dentro de um avião com destino a Disney. Na outra ponta, o arte-educador sergipano Zezito de Oliveira me mostrou, via comentário no Overmundo, a versão “Ai, não nos calam” com a qual o coletivo português Revoluvideo convoca participantes para manifestação antidesemprego. Que tipo de legislação de direito autoral pode lidar com essa nova realidade de apropriações constantes, sem início ou ponto final? Mais reflexões na próxima sexta-feira.


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