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	<title>Hermano Vianna</title>
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		<title>Hermano Vianna</title>
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		<title>ainda domínio público</title>
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		<pubDate>Sat, 18 Feb 2012 02:18:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/02/2012 Desde o primeiro dia de 2012, a obra de James Joyce &#8220;caiu&#8221; no domínio público europeu. Há controvérsia nos detalhes: não se sabe se escritos publicados postumamente também deixaram de ser propriedade de Stephen Joyce, seu único herdeiro. Isso é problema menor. O [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=668&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/02/2012</p>
<p>Desde o primeiro dia de 2012, <a href="http://www.observer.com/2012/01/james-joyce-has-gone-public-the-public-domain-class-of-2012/">a obra de James Joyce &#8220;caiu&#8221; no domínio público europeu</a>. Há <a href="http://latimesblogs.latimes.com/jacketcopy/2012/01/james-joyce-moves-into-the-public-domain-mostly.html">controvérsia nos detalhes</a>: não se sabe se escritos publicados postumamente também deixaram de ser propriedade de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Stephen_J._Joyce">Stephen Joyce</a>, seu único herdeiro. Isso é problema menor. O que importa mesmo é que não mais é necessário pedir autorização de ninguém se você quiser, por exemplo, produzir um filme baseado em <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Ulysses_(novel)">&#8220;Ulisses&#8221;</a>, tarefa até então quase impossível. Stephen Joyce chegou a <a href="http://www.newyorker.com/online/blogs/books/2012/01/james-joyce-public-domain.html">proibir leituras públicas da obra de seu avô</a> no centenário do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Bloomsday">Bloomsday</a> em Dublin. A Biblioteca Nacional da Irlanda também teve que cancelar uma exposição de manuscritos. Era regime de terror autoral, instalado por um único herdeiro contra os milhões de admiradores daquele que provavelmente foi o maior escritor moderno, definidor de uma sensibilidade que &#8211; queiramos ou não &#8211; passou a ser a nossa.</p>
<p>Stephen Joyce justificava suas atitudes com vários argumentos. Um deles: se cada nova publicação dos livros não passasse por sua avaliação, muitas <a href="http://www.observer.com/1997/12/james-joyce-and-the-nutty-professor/">edições cheias de erros</a> (ou correções de supostos erros) chegariam às livrarias. Ele tinha razão. Sem controle de qualidade, muito lixo pode ir para o comércio. Mas será que os consumidores são tão trouxas assim? A vitória do lixo é inevitável? As obras de Shakespeare são domínio público há séculos. É claro que há edições lamentáveis de &#8220;Hamlet&#8221;. Mas elas são dominantes? Um único herdeiro decide melhor o futuro de uma obra do que a grande comunidade de pessoas que ama essa obra?</p>
<p>A lei do direito autoral nasceu buscando equilíbrio entre os interesses legítimos dos autores e aqueles da sociedade que pode ser beneficiada pela obra desses autores (repito: essa obra sempre é criada a partir do acúmulo de experimentações artísticas feitas por toda a Humanidade). Quando um escritor é tão genial quanto James Joyce (substitua James Joyce &#8211; aqui e em todo resto deste texto &#8211;  pelo nome do seu Gênio literário preferido, dá no mesmo), seus escritos se misturam com nossas vidas, com as maneiras como vemos o mundo, de forma que passamos a não saber mais diferenciar o que é dele e o que é nosso. Eu não seria a pessoa que sou se não tivesse lido James Joyce. Meu mundo é o mundo de Joyce. Em outras palavras, nem um pouco exageradas: Joyce é meu também. E a culpa é do próprio Joyce: não é todo dia que surge um criador como ele no mundo. Fico pensando nos inúmeros filmes, peças, games etc. que poderiam já ter sido criados a partir de seus escritos, enriquecendo a cultura planetária.</p>
<p>Nada contra a pessoa de Stephen Joyce. Existe uma lei, que deve ser cumprida. Essa lei diz que os herdeiros podem decidir o que vai ser feito com as obras até (<a href="http://publicdomain.okfn.org/calculators/">depende do país</a>) 70 anos após a morte de seus autores. Mas podemos questionar se a lei está realmente cumprindo seus objetivos primeiros. A lei do direito autoral existe, e foi conquistada depois de muitas lutas democratizantes, para que autores possam produzir mais e melhor, aumentando em última instância a riqueza cultural da sociedade. O problema é que com aumento injustificável do prazo de proteção e com cada vez mais poderes para os detentores dos direitos (que muitas vezes não são apenas os autores, mas as empresas para as quais esses autores trabalham) o objetivo final da lei (o aumento da riqueza cultural geral) tem sido ignorado ou pervertido. Assim estamos sendo levados a uma situação na qual o próprio direito autoral está ameaçado, pois haverá cada vez menos possibilidade de criação, menos autores, e menos arte.</p>
<p>Que os próprios autores tenham temporário monopólio legal &#8211; e proteção social para garantir esse direito &#8211; de comercializar suas obras, isso foi uma inovação/experiência jurídica que já provou ter sido benéfica igualmente para esses autores e para suas culturas. (Porém, não aceito de maneira alguma o argumento que diz que sem incentivos econômicos as pessoas deixariam de criar. Durante a maior parte da história artistas produziram maravilhas sem leis de direito autoral. Obviamente muitos tiveram que se submeter à baixa vassalagem de mecenas poderosos e inescrupulosos. Mas as submissões recentes diante de gravadoras e estúdios de Hollywood não foram, em muitos casos conhecidos, menos aviltantes. Somos capazes de inventar soluções melhores para garantir interesses de todos.)</p>
<p>Um dos aspectos legais que me parece difícil de compreender é a necessidade de estender esses direitos para 70 anos depois da morte dos autores. São cada vez mais raros herdeiros que entendam a importância social de sua herança, sem tratá-las apenas como produtos a serem explorados até o último centavo. Só sabem repetir o &#8220;não pode&#8221; ou o &#8220;custa tanto&#8221;, deixando advogados e contadores avaliarem os méritos culturais das propostas que recebem. Esse perrengue cultural todo não resulta em mais obras, já que os autores morreram. E tudo acaba contribuindo para um sentimento de antipatia diante de qualquer menção ao direito autoral, visto erroneamente como capricho egoísta por parcelas cada vez maiores da opinião pública. Assim os &#8220;detentores&#8221; minam a legitimidade de seus direitos.</p>
<p>Outro elemento que torna nossa situação atual ainda mais confusa é a proliferação de novas ferramentas tecnológicas (ou estratégias pós-arte-conceitual) que tornaram várias formas de remix (textos, imagens, sons) os procedimentos básicos de alguns dos movimentos mais criativos da cultura contemporânea, herdeiros que somos de mais de um século de ataque cerrado contra a noção mais tradicional de autor. Problema cabeludo para a próxima semana, depois do carnaval. Boa folia para todos!</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/668/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/668/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/668/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/668/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/668/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/668/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/668/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/668/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/668/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/668/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/668/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/668/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/668/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/668/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=668&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>aspas e domínio público</title>
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		<pubDate>Sat, 11 Feb 2012 11:43:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/02/2012 Assumo que o vacilo foi meu. Alguns trechos do texto anterior desta coluna não deixaram claro quem estava falando, o que eram palavras minhas ou das pessoas citadas. Havia muita coisa a ser dita. Para economizar espaço resumi pensamentos alheios. Sendo resumo, não [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=661&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/02/2012</p>
<p>Assumo que o vacilo foi meu. Alguns trechos do <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2012/02/04/direito-autoral-novamente/">texto anterior desta coluna</a> não deixaram claro quem estava falando, o que eram palavras minhas ou das pessoas citadas. Havia muita coisa a ser dita. Para economizar espaço resumi pensamentos alheios. Sendo resumo, não usei aspas. O anjo que corrige meus textos, já tendo me poupado de erros feios, pensou que era esquecimento (uma letra da Legião Urbana descreve meu estado atual: &#8220;tenho andado distraído, impaciente&#8221; &#8211; mas nada indeciso&#8230;) e inseriu as aspas exigidas em manuais de redação. Então ficou parecendo que eram citações literais, quando não eram. Além disso, frases de minha autoria passaram para a &#8220;boca&#8221; de outras pessoas e já estão sendo retwitadas descontroladamente. Coitados do <a href="http://nathan.torkington.com/">Nat Torkington</a> e do <a href="http://radar.oreilly.com/mikel/">Mike Loukides</a>, a quem agora são atribuídas declarações mal-educadas de minha exclusiva responsabilidade. Preciso salvá-los da confusão. O esclarecimento vem a calhar também por outro motivo: é uma maneira de lembrar onde paramos, já que o texto de hoje é continuação do que foi dito na semana passada.</p>
<p>A Casa Branca, na <a href="https://wwws.whitehouse.gov/petition-tool/response/combating-online-piracy-while-protecting-open-and-innovative-internet">sua resposta oficial para as petições anti-SOPA</a>, deu o seguinte recado para os &#8220;provedores de plataformas da internet&#8221;: &#8220;Não limite sua opinião ao que está errado, pergunte a si mesmo o que é certo. [...] Washington quer ouvir suas melhores ideias sobre como reprimir websites trapaceiros e outros criminosos que fazem dinheiro a partir dos esforços criativos de artistas e detentores de direitos americanos.&#8221; Nat Torkington <a href="http://radar.oreilly.com/2012/01/the-presidents-challenge.html">respondeu</a> enumerando tudo que o Vale do Silício e arredores criaram (a própria internet, a web, o MP3 etc.) e rosnou de volta: &#8220;What the hell more you want from us?&#8221; Eu, Hermano, acrescentei que agora &#8220;é a vez das indústrias de conteúdo gastarem alguns neurônios para continuarem relevantes no admirável mundo novo. Vão se catar!&#8221;</p>
<p>Mike Loudikes, outro prejudicado pelas aspas, escreveu <a href="http://radar.oreilly.com/2012/01/on-pirates-and-piracy.html">artigo contundente</a> acusando a indústria de conteúdo de atuar como pirata, tentando privatizar o domínio público. Porém, a comparação com outros ramos industriais (&#8220;Muitas empresas de conteúdo degradam o domínio público, assim como siderúrgicas poluem o ar e a água, também bens comuns.&#8221;) foi invenção &#8211; <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/06/04/indignado/">indignada</a> &#8211; minha.</p>
<p>Estava criando a partir das ideias dos outros, que me estimulam a ter minhas ideias, nesse caso nada originais: já foram ditas com outras palavras por outros autores. Essa ecologia de ideias &#8211; umas convivendo com as outras, e às vezes umas comendo as outras (como dizia o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Manifesto_Antrop%C3%B3fago">Manifesto Antropofágo</a>: &#8220;só me interessa o que não é meu&#8221;) &#8211; é o fundamento de um ambiente criativo realmente fértil. Óbvio, precisamos de regras claras: nunca trabalho com ideias dos outros sem citar as fontes, e por isso estou aqui corrigindo os erros nas citações da coluna passada. Por isso também toda legislação de direito autoral tem vários artigos sobre &#8220;limitações&#8221; (<a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9610.htm">ver Capítulo IV</a>), autorizando usos que não são ofensas aos autores. É só por causa dessas limitações previstas na lei que podemos citar pequenos trechos &#8220;do que não é nosso&#8221; em nossas próprias obras. A troca de ideias seria impossível se fosse necessário, para cada citação, obter a autorização oficial dos detentores dos direitos das obras citadas.</p>
<p>Criando limitações a lei reconhece (pena que a legislação brasileira não torne esse reconhecimento explícito &#8211; as limitações aparecem sem justificativas) que as obras de arte não são objetos materiais comuns, possuindo funções sociais, e foram geradas a partir do acúmulo de conhecimento produzido pela Humanidade. Dizendo isso, eu e a lei não estamos desvalorizando o criador individual genial. Pelo contrário: criadores individuais realmente geniais são raros. A sociedade, reconhecendo que precisa tanto deles, criou esse regime extraordinário e generoso que determina que, mesmo as ideias sendo de todos, os autores têm o monopólio da comercialização de suas obras (objetivação originais de ideias), podendo viver dessa criação. Mas diferentemente dos bens materiais (uma casa, um carro, um iPad etc.), a obra de arte, depois de um tempo, cai necessariamente em domínio público, pois assim poderá mais facilmente e sem restrições iluminar outras mentes capazes de produzir mais arte. A Disney, por exemplo, criou maravilhas a partir do domínio público dos contos de fadas dos irmãos Grimm que por sua vez se inspiraram em folclore europeu e assim por diante.</p>
<p>O domínio público tem que ser cuidado por todos como um bem precioso. Para tornar minha argumentação mais vibrante, fiz a comparação com o ar, com a água, outros bens essenciais para nossas vidas. Claro, é comparação superficial. Quem quiser saber mais deve ler <a href="http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/9137">&#8220;O domínio público no direito autoral brasileiro&#8221;</a>, livro de <a href="http://direitorio.fgv.br/pessoal/sergio-branco">Sérgio Branco</a> a ser lançado em breve (será também obra em domínio público, podendo inclusive ser explorada comercialmente por outras pessoas), que analisa o assunto com grande profundidade e seriedade. Sua leitura reforça minha certeza: devemos ficar atentos e fortes, pois &#8211; por todo lado &#8211; há propostas de novas leis trapaceiras que querem sim privatizar partes cada vez maiores do domínio público seja estendendo prazos de proteção de obras ou abandonando as &#8220;limitações&#8221; e o <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Fair_use">&#8220;fair use&#8221;</a>. Caso aprovadas, podem tornar qualquer tipo de criação inviável, a não ser a preço de ouro. Esta conversa continua na próxima sexta-feira.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/661/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/661/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/661/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/661/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/661/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/661/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/661/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/661/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/661/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/661/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/661/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/661/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/661/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/661/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=661&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>direito autoral novamente</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Feb 2012 02:10:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/02/2011 OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: por vacilo meu, algumas aspas apareceram em lugares inapropriados no texto impresso no jornal (meus queridos editores, com as melhores das intenções, tentando me ajudar/corrigir, colocaram aspas onde não havia nenhuma). Na tentativa de tudo ficar mais claro separo aqui o [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=651&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/02/2011</p>
<p>OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: por vacilo meu, algumas aspas apareceram em lugares inapropriados no texto impresso no jornal (meus queridos editores, com as melhores das intenções, tentando me ajudar/corrigir, colocaram aspas onde não havia nenhuma). Na tentativa de tudo ficar mais claro separo aqui o que é ideia &#8220;minha&#8221; daquilo que retirei &#8211; também com muita liberdade &#8211; dos autores citados. Seguindo os links para os textos originais, leitores(as) deste blog poderão conferir se fui fiel ou não às palavras alheias.</p>
<p>Direito autoral: tento não escrever essas duas palavras por aqui, para não ser acusado de <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/category/direito-autoral/">colunista de um assunto só</a>. Pouco adianta: a realidade vive me provocando com <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Stop_Online_Piracy_Act">SOPA</a>s, <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Anti-Counterfeiting_Trade_Agreement">ACTA</a>s e outras imbecilidades. Esses projetos de leis partem do seguinte pressuposto: a indústria da <a href="http://piracy.ssrc.org/">pirataria</a> está a ponto de dominar o mundo; para combater essa ameaça, precisamos de urgentes medidas de exceção, de guerra (por isso sua propaganda tenta nos fazer acreditar que <a href="http://www.theregister.co.uk/2004/11/17/graun_piracy_lessons/">&#8220;a pirataria financia o terrorismo&#8221;</a>). Então, por &#8220;questões de segurança nacional&#8221; ou &#8220;para salvar empregos&#8221;, governos &#8211; de forma pouco transparente &#8211; querem aprovar artifícios policialescos que podem determinar subitamente o fechamento de serviços da internet ou a prisão de pessoas, antes que tenham a possibilidade de defesa (o SOPA, por exemplo, obrigaria os acusados a recorrer em tribunais americanos, pagando os custos de advogados americanos).</p>
<p>Não estou aqui para defender os piratas. Sei que a pirataria, quando é pirataria mesmo, precisa ser combatida. Porém, não vejo razão para a criação dessas leis especiais para o combate, sobretudo se colocam liberdades básicas da democracia em risco.</p>
<p>Ninguém conhece ao certo o tamanho e o poder da pirataria. Os números que jornais favoráveis ao endurecimento das leis teimam em repetir (250 bilhões de dólares anuais! menos 750 mil empregos!) são muito suspeitos: não se sabe de onde surgiram, em que estudos estão baseados ou qual a metodologia usada nesses estudos (geralmente financiados por órgãos da indústria que se diz vítima da pirataria). Além de declarações questionadoras como a de <a href="http://www.neilyoung.com/">Neil Young</a> (que disse esta semana que <a href="http://www.theverge.com/2012/1/31/2761597/neil-young-music-steve-jobs-piracy-is-the-new-radio">&#8220;a pirataria é o novo rádio&#8221;</a>), tenho lido vários artigos que revelam outra situação, onde o impacto da pirataria não seria tão grande quanto afirmam os autores das novas leis (muitas vezes atendendo apelos de quem deu dinheiro para suas eleições).</p>
<p><a href="http://www.juliansanchez.com/">Julian Sanchez</a>, pesquisador do <a href="http://www.cato.org/about.php">Cato Institute</a> (think tank &#8220;dedicado aos princípios de liberdade individual, governos limitados, mercados livres e paz&#8221; &#8211; portanto, nada comunista), publicou recentemente <a href="http://www.cato.org/pub_display.php?pub_id=14028">texto</a> mostrando que, no meio da recessão atual, na verdade as indústrias de conteúdo estão bem, gerando empregos e produtos, se comparadas com outros setores econômicos. Números contra números, com várias interpretações &#8211; o que prova que nada é tão evidente assim, e não a ponto de necessitarmos de legislações draconianas para nos salvar (nós, defensores do estado de direito) de uma suposta barbárie iminente.</p>
<p>No lugar de gastar dinheiro (muitas vezes público) e perder sua credibilidade lutando contra o bode expiatório da pirataria (todos no fundo sabem: medidas como o SOPA não vão conseguir eliminá-lo), a indústria de conteúdo poderia trabalhar para aproveitar as enormes oportunidades que a cultura digital criou para a produção cultural planetária. A Casa Branca, quando fez <a href="https://wwws.whitehouse.gov/petition-tool/response/combating-online-piracy-while-protecting-open-and-innovative-internet">manobra para se afastar do SOPA publicamente</a> (pensando na reeleição de Obama), tentou empurrar o problema adiante, convocando o povo da internet a apresentar soluções. <a href="http://nathan.torkington.com/">Nat Torkington</a>, pioneiro da web na Nova Zelândia, <a href="http://radar.oreilly.com/2012/01/the-presidents-challenge.html">respondeu, no O&#8217;Reilly Radar</a>, com mais ou menos estas palavras: inventamos a internet, a web, o MP3, o MP4, o wifi, o comércio eletrônico, o PayPal etc &#8211; o que mais você quer de nós? Eu, Hermano, acrescento: Agora é a vez das indústrias de conteúdo gastarem alguns neurônios para continuarem relevantes no admirável mundo novo. Vão se catar!</p>
<p>Mas o que as tais indústrias fazem além de nos ameaçar com prisão se continuarmos até a colocar links em nossos blogs para sites onde pode haver pirataria? <a href="http://radar.oreilly.com/mikel/">Mike Loukides</a>, <a href="http://radar.oreilly.com/2012/01/on-pirates-and-piracy.html">também no O&#8217;Reilly Radar</a>, retrucou com palavras que resumo assim: piratas são vocês, que fazem lobby fraudulento para aprovar no congresso legislações que privatizam o domínio público, roubando benefícios que poderiam ser de todos. Novamente eu, Hermano, cometo a ousadia de acrescentar: Muitas empresas de conteúdo degradam o domínio público, assim como siderúrgicas poluem o ar e a água, também bens comuns. Devem ser punidas e não apoiadas com novas leis.</p>
<p>Em <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2012/01/21/pegando-tudo/">coluna sobre o sucesso de Michel Teló</a>, escrevi que o domínio público é destino inescapável para a totalidade da criatividade humana. Isso não é novidade da cultura digital. Sempre foi assim. Só há criatividade a partir do domínio público, da livre circulação das ideias. Estou aqui inteiramente de acordo com os pensadores que formularam as primeiras legislações do direito autoral, como <a href="http://www.wired.com/wired/archive/2.03/economy.ideas.html">Thomas Jefferson</a>, um dos pais da democracia americana. Nenhum deles equiparava bem material e bem imaterial ou achava que autores são proprietários eternos de suas criações artísticas. As criações artísticas são propriedade da humanidade. Isso é ponto pacífico, consenso. Quando surgiu a ideia de direito autoral, a sociedade apenas concedeu, para os autores, o monopólio temporário de utilização comercial das obras de sua autoria, tendo em vista poderem ter algum conforto material para possibilitar a criação de outras obras, que no futuro vão enriquecer o patrimônio comum.</p>
<p><a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2010/12/27/direito-autoral/">Sempre foi assim</a>: o monopólio de comercialização é temporário. Pois ideia é sempre criada a partir de ideias dos outros. E ideia é diferente de objeto material. Você não pode ter meu carro. Mas você pode cantar a mesma música que estou cantando, no momento em que canto essa música. Você pode me proibir de cantá-la, mas não pode apagá-la de minha memória, ou da memória coletiva. Lembre-se disso. Vou começar a próxima coluna a partir desse lugar comum.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/651/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/651/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/651/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/651/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/651/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/651/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/651/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/651/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/651/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/651/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/651/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/651/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/651/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/651/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=651&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>sem Camões</title>
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		<pubDate>Sat, 04 Feb 2012 02:08:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/01/2012 OBS: Que boa coincidência! No dia em que este texto foi publicado a IMCS anunciou a reabertura da Livraria Camões para breve (ver a notícia do jornal Público). Vitória de um grande movimento que lutou bastante para que isso acontecesse. Vamos ficar atentos [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=642&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/01/2012</p>
<p>OBS: Que boa coincidência! No dia em que este texto foi publicado a IMCS anunciou a reabertura da Livraria Camões para breve (ver <a href="http://www.publico.pt/Cultura/livraria-camoes-no-rio-de-janeiro-vai-reabrir-1531049">a notícia do jornal Público</a>). Vitória de um grande movimento que lutou bastante para que isso acontecesse. Vamos ficar atentos para os planos para a nova Camões. Tomara que conquiste papel ativo na interação entre todos os povos que se expressam na língua portuguesa. Há muitos projetos importantes, quase todos pequenos, para aumentar a interação entre os nossos vários mercados editorais.  A Camões pode se tornar vitrine/laboratório decisivo para suas conquistas.</p>
<p>Se os protestos &#8211; reais e virtuais &#8211; não derem resultado, quando terminar este mês de janeiro serei um dos órfãos da Livraria Camões, que recebeu ordens para fechar suas portas no dia 31. Torço ainda para a situação ser revertida. <a href="http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=39190">Li que na semana passada o Partido Socialista português pediu esclarecimentos</a> sobre a decisão ao governo do primeiro-ministro <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Passos_Coelho">Pedro Passos Coelho</a>. Tomara que não vire briga inútil, mais para eleitor ver, entre situação e oposição. O assunto se transformou em questão partidária pois a Camões carioca é mantida pela <a href="https://www.incm.pt/site/home.html">Imprensa Nacional &#8211; Casa da Moeda (INCM)</a>, órgão governamental lusitano. Seu &#8220;director de marketing estratégico&#8221; (não tenho paciência para esses títulos nobres do mundo de negócios pós-MBAs), Alcides Gama, <a href="http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=39190">declarou para a Agência Lusa</a> que &#8220;a livraria desempenhou um papel muito importante na divulgação dos livros dos autores portugueses no Brasil, só que os tempos mudam&#8221;. Ele acredita que, hoje. esse serviço pode ser prestado de forma mais eficaz através das novas tecnologias.</p>
<p>Poderia até concordar com o Gama. Como os leitores desta coluna sabem, sou fã das tais novas tecnologias, a ponto de já ter sido acusado de apoio acrítico ou deslumbrado para qualquer cibercoisa. Só que nesse caso fico bem desconfiado: onde o serviço novo e tecnológico está sendo prestado? Entrei agora <a href="https://www.incm.pt/site/loja_catalogo.html">na loja do site (ou sítio, como os portugueses preferem chamar) da INCM</a> e descobri um ambiente bem menos acolhedor ou de fácil consulta que a loja física do Edifício Central. Não há nada equivalente às ferramentas de descoberta de uma Amazon, como &#8220;pessoas que compraram este livro também compraram aqueles&#8221;. Se o visitante não tiver um objetivo claro de compra, vai sentir dificuldade para passear pelo acervo da loja virtual. Na Camões eu sempre entrava com espírito aventureiro, queria ser surpreendido pelas novidades de Lisboa que as editoras brasileiras não lançavam. Sempre saia de lá &#8211; mesmo recentemente quando era evidente a falta de renovação do acervo nas prateleiras &#8211; com livros que reforçaram meu orgulho de ser parte do mundo da língua portuguesa.</p>
<p>Então repito minha pergunta: quais são os planos da INCM para o Brasil? O que vai substituir a Camões? Por que a notícia do fechamento da loja física não veio acompanhada pelo anúncio dos planos para melhor distribuição da produção editorial lusitana no Brasil? Falar que as novas tecnologias estão aí para serem usadas é fácil; difícil é colocá-las para nos ajudar na prática.</p>
<p>Mais uma pergunta: por que os planos virtuais (caso existam) precisam descartar a existência de uma sede física? A loja da vida real poderia passar a ser farol/chamariz para a navegação e consumo na internet. Quando<a href="http://vejario.abril.com.br/edicao-da-semana/melhores-livrarias-rio-669887.shtml"> novas grandes livrarias físicas são inauguradas com sucesso na cidade</a> é estranho ouvir que um ponto e um &#8220;brand&#8221; (para usar termos marqueteiros) tão tradicional quanto os da Camões não tenham mais nenhum valor e possam ser jogados no lixo, sem nenhuma reciclagem.</p>
<p>Tenho certeza: com o fechamento da Camões a distância entre o Rio e Lisboa aumentará muito &#8211; e não seria prudente empossar o iTunes e a Amazon como nossos únicos embaixadores editoriais transatlânticos. Um exemplo bem real: ando querendo ler <a href="http://cvc.instituto-camoes.pt/filosofia/1910a.html">Teixeira de Pascoaes</a>. Já vasculhei muitas livrarias da cidade e não encontrei nada de sua autoria. Não tive tempo de passar na Camões, mas não achava que isso seria urgente. Agora é.</p>
<p>Minha curiosidade sobre os escritos de Teixeira de Pascoaes foi instigada por um livro que talvez se torne minha última compra na Camões, feita em dezembro do ano passado. Atravessei a porta da loja sem nenhum desejo especial. Quase comprei <a href="https://www.incm.pt/site/loja?type=produto_detalhe&amp;codigo=100715">uma monografia sobre o compositor Luigi Nono</a>, obra que namoro há anos, mas que considero um pouco cara (os livros na Camões não são exatamente baratos &#8211; se a INCM fosse realmente esperta, um plano de barateamento das obras importadas seria mais que bem-vindo e eficaz). Acabei fascinado pelo índice de um livro (é preciso investigar a fundo todos eles, pois as capas que a INCM lança não são muito sedutoras &#8211; pelo contrário: elas até trabalham para nos afastar das páginas internas &#8211; disso seu &#8220;marketing estratégico&#8221; deveria cuidar melhor), que tive que trazer para casa, sobretudo depois que fui surpreendido por um bom desconto: era o <a href="https://www.incm.pt/site/loja?type=produto_detalhe&amp;codigo=100661">&#8220;Do Finistérreo Pensar&#8221;</a>, de <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Borges_(escritor)">Paulo Alexandre Esteves Borges</a>, um discípulo de Teixeira de Pascoaes.</p>
<p>Estou penetrando no livro aos poucos; é muito denso, lotado de boas ideias e referências para mim até então desconhecidas. Tenho vergonhosas lacunas na minha formação: assim como nunca li Teixeira de Pascoaes, também não tinha prestado atenção em <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Berdyaev">Nikolai Berdiaev</a> ou <a href="http://fr.wikipedia.org/wiki/Stanislas_Breton">Stanislas Breton</a>, autores que servem de base para momentos possantes de &#8220;Do Finistérreo Pensar&#8221;. Há também um capítulo &#8211; agora mais atual, com o sonho europeu acabado &#8211; intitulado &#8220;Do Brasil no imaginário escatológico ao imaginário escatológico brasileiro&#8221;.</p>
<p>Paulo Alexandre Esteves Borges (depois do livro passei a acompanhar <a href="http://pauloborgesnet.wordpress.com/">seu blog</a>) faz parte de uma linhagem de pensadores visionários portugueses que &#8211; como <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/dc_7_1.htm">nosso eterno professor Agostinho da Silva</a>, ou o <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Vieira">padre Antônio Vieira</a> &#8211; têm a ousadia (também mística) de pensar um futuro menos periférico para o mundo da língua portuguesa. Sem a Livraria Camões a conquista desse futuro se torna ainda mais quixotesca.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/642/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/642/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/642/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/642/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/642/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/642/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/642/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/642/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/642/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/642/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/642/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/642/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/642/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/642/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=642&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>clássicos XXI</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Jan 2012 14:36:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
				<category><![CDATA[cibercultura]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/01/2012</p>
<p>No final de 2011, Thales de Menezes, da Folha de S. Paulo, me fez a proposta: &#8220;Gostaria de convidá-lo para nos ajudar a eleger os primeiros clássicos da música (nacional e internacional) deste século. A ideia é apontar dez músicas ou álbuns de 2000 para cá que você acha que já se tornaram clássicos, que serão reconhecidos como tal daqui a 20 anos&#8221;. Aceitei o desafio, até para me obrigar a voltar a escutar música de maneira &#8220;adequada&#8221;, atividade em segundo plano na minha vida desde o aparecimento do YouTube (passei a &#8220;ver&#8221; músicas em computadores com precária qualidade sonora). Depois que fiz minha seleção soube que a ideia da Folha mudara para uma eleição exclusiva de canções. Parece mudança boba, mas não é (um álbum pode ser um clássico sem nenhuma canção clássica). Pena, não tive tempo para novas escolhas. Não devo ter sido o único a desistir. A matéria com o resultado ainda não foi publicada. Mas o tempo passou e constato que fiquei apegado à minha lista. Resolvi divulgá-la tipo bloco do eu sozinho.</p>
<p>Antes confesso: adoro essas listas, mesmo tendo deixado de acreditar em clássicos. Claro que ainda há muitos álbuns e canções excelentes sendo produzidos. O problema parece ser mais de fartura do que de carência criativa. Fartura também de canais de comunicação onde as novidades circulam de forma cada vez mais segmentada. A constituição do cânone clássico pressupunha espaço comum de consagração artística, ou instâncias de legitimação mais disseminadas, com autoridade respeitada fora dos mundinhos cujo conjunto é chamado de internet ou novas mídias. Minha lista tinha um objetivo secreto: usar a velha mídia de papel para divulgar meus clássicos particulares; uma tentativa de tirá-los dos seus guetos. Porém, ao fazer as escolhas, percebi que cada uma das obras eleitas conquistou lugar na minha lista não apenas por méritos individuais e sim por representar tendências coletivas, que valorizam processos e não produtos, o que também entra em choque com a ideia de clássico definitivo.</p>
<p>Espero que tudo fique mais claro ao revelar minha lista &#8211; que não tinha ordem de preferência. Comecei com o óbvio, pois acabara de escrever <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/12/31/1967-2011/">a coluna sobre meus discos preferidos do ano passado</a>: &#8220;Recanto&#8221; e &#8220;Smile&#8221;. O disco dos Beach Boys já era clássico há mais de quatro décadas, mesmo sem ter sido propriamente lançado &#8211; e quem pode dizer que a mixagem de 2011 é a versão definitiva? Por seu lado, &#8220;Recanto&#8221; colocou a MPB para funcionar no fluxo não-linear da eletrônica contemporânea. Espero o remix que <a href="http://www.myspace.com/diplo">Diplo</a> prometeu fazer para &#8220;Miami Maculelê&#8221;. Talvez outros DJs-neguinhos entrem na brincadeira acabando de vez com o limite entre <a href="http://www.youtube.com/watch?v=BjeH3-RxSsE">&#8220;Tudo dói&#8221;</a> e <a href="http://www.youtube.com/watch?v=D40biDNAwkI">&#8220;Casa das primas&#8221;</a> (que, ao que tudo indica, antes de ser funk era <a href="http://www.youtube.com/watch?v=tpoYqrqV670">sertanejo de Santa Catarina</a>).</p>
<p>Não consegui eleger apenas álbuns ou canções. Poderia ter produzido uma lista só de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Mixtape">mixtapes</a>, seleções de músicas feitas por indivíduos ou coletivos que mesmo com sua relação precária com legislações do direito autoral se tornaram um dos principais caminhos para a popularização dos sucessos na era da cultura digital. Para representar as mixtapes escolhi <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Piracy_Funds_Terrorism">&#8220;Piracy funds terrorism&#8221;</a>, de Diplo e M.I.A., que mereceria ser clássica apenas por seu título, mas ainda fez o serviço de conectar tecnoperiferias do mundo inteiro, levando suas músicas para as pistas de dança centrais. (Aproveito a deixa para vender outro peixe: minha mixtape clássica deste início de 2012 é <a href="http://www.mtviggy.com/blog-posts/spoek-mathambo-afrika21-mixtape-features-the-best-of-africa/">a que Spoek Mathambo fez para o site MTV Iggy</a>, com novidades espetaculares do pop africano &#8211; <a href="http://www.thisisafrica.me/new-releases/detail/1274/Burkina-rap---Art-Melody%E2%80%99s-powerful-new-album-hits-you-like-a-punch-to-the-gut">Art Melody</a>, de Burkina Fasso, já é meu herói.)</p>
<p>A primeira canção que aparece na minha lista é <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/02/22/deixa-naosim/">&#8220;Minha mulher não deixa não&#8221;</a>. Canção? Aquilo é outra coisa, está além da música, é jogo de multidão. Não escolhi a versão do <a href="http://www.youtube.com/watch?v=cMByR6oCpfg">Reginho</a>, nem<a href="http://www.youtube.com/watch?v=Zlm5jPNiLoQ"> a resposta do 3 na Palomba</a> (seu CD &#8220;Volume 3&#8243;, com versões de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=TDav6noW-eo">&#8220;Farofafá&#8221;</a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=HzMftGExbCQ">&#8220;Tiririca&#8221;</a>, &#8220;A véia debaixo da cama&#8221;, além da sugestão pirateira &#8220;pode copiar!!!&#8221; impressa na capa, também se tornou meu clássico). Bom mesmo é o conjunto de milhares de vídeos publicados online, com gente sempre se acabando de dançar e rir. Música é mesmo a maior desculpa para a diversão.</p>
<p>Outras canções entraram na minha lista representando estilos musicais decisivos para a trilha sonora dos tempos atuais e vindouros. &#8220;Gasolina&#8221;, do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Daddy_Yankee">Daddy Yankee</a>, fez o <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/01/02/reggaeton/">reggaeton</a> popular até na Malásia ou em Goiás. &#8220;Backward&#8221;, de <a href="http://www.myspace.com/kode9">Kode 9</a> &amp;<a href="http://www.myspace.com/spaceapeuk"> The Space Ape</a> é minha preferida do dubstep (hoje onipresente na música mais pop, de Britney a <a href="http://www.nme.com/news/korn/60668">Korn</a>). <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Co0tTeuUVhU">&#8220;Heartless&#8221;</a>, do Kanye West, foi escolha esteticamente incorreta para representar a cada vez mais exuberante riqueza do hip hop &#8211; e viva o<a href="http://www.youtube.com/watch?v=ODH2izYn-5A"> autotune</a>, o instrumento musical mais amado/odiado dos nossos novos tempos pós-canção.</p>
<p>De volta a álbuns nada típicos (e mesmo anticlássicos) quis provocar ouvidos alheios com o &#8220;Congotronics&#8221;, do <a href="http://www.myspace.com/konononr1">Konono Nº 1</a> (música pós-pop congolesa que fez <a href="http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u49980.shtml">sua primeira apresentação internacional no Percpan brasileiro</a>), ou &#8220;E ponto final&#8221;, da banda Tecnoshow (que lançou <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/10/22/gaby-protasio-fela/">Gaby Amarantos</a> e é CD pioneiro do tecnobrega), ou &#8211; único da lista baseado em guitarras &#8211; &#8220;White 1&#8243;, do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Sunn_O)))">SunnO)))</a> (no futuro o rock será apenas um <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Drone_(music)">&#8220;drone&#8221;</a>).</p>
<p>Fico alegre imaginando o mundo maluco que teria essas músicas como clássicos consensuais. Ainda bem que nem eu nem ninguém tem o poder de impor nossos gostos para toda gente. De acordo? Ainda podemos, ou seria desejável, chegar a qualquer consenso sobre essas coisas?</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/636/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/636/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/636/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/636/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/636/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/636/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/636/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/636/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/636/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/636/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/636/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/636/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/636/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/636/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=636&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>pegando tudo</title>
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		<pubDate>Sat, 21 Jan 2012 13:17:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
				<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cibercultura]]></category>
		<category><![CDATA[direito autoral]]></category>
		<category><![CDATA[música]]></category>
		<category><![CDATA[Ai se eu te pego]]></category>
		<category><![CDATA[Antonio Dyggs]]></category>
		<category><![CDATA[Axé Moi]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Teló]]></category>
		<category><![CDATA[Sharon Acioly]]></category>

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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/01/2011 O que considero mais interessante na história de &#8220;Ai se eu te pego&#8221; não é seu atual sucesso mundial, mas sim o processo de sua composição e divulgação, antes de chegar aos ouvidos de Michel Teló. Os detalhes podem parecer únicos, irrepetíveis, mas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=627&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/01/2011</p>
<p>O que considero mais interessante na história de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=hcm55lU9knw">&#8220;Ai se eu te pego&#8221;</a> não é seu atual <a href="http://www.youtube.com/watch?v=sfxvUV4jLPg">sucesso mundial</a>, mas sim o processo de sua composição e divulgação, antes de chegar aos ouvidos de <a href="http://www.micheltelo.com.br/">Michel Teló</a>. Os detalhes podem parecer únicos, irrepetíveis, mas na verdade &#8211; depois de uma análise nem tão cuidadosa assim &#8211; revelam um padrão já dominante na indústria cultural pós-internet, bem popular no Brasil (talvez sejamos até a vanguarda nesse tipo de estratégia criativa-mercadológica). Peço desculpa se vou contar o que todo mundo já sabe. Considero de extrema importância encarar o que é mais óbvio com olhar mais curioso, capaz de nos fazer entender o mundo em que passamos a viver.</p>
<p>Tudo começou no <a href="http://www.axemoi.com.br/2010/">Axé Moi</a>, de Porto Seguro, local descrito em seu próprio site como &#8220;complexo de lazer&#8221;, ou &#8220;a maior estrutura de praia do Brasil&#8221;. Gosto de imaginar que essa estrutura foi construída sobre areias onde o pessoal de Cabral pisou pela primeira em nossas terras. Pois bem, o Axé Moi produz espetáculos para entreter os turistas que visitam Porto Seguro. <a href="http://contigo.abril.com.br/noticias/compositora-de-ai-se-eu-te-pego-revela-so-estourou-depois-que-michel-telo-gravou-ele-tem-estrela">Sharon Acioly</a> foi durante muito tempo a sacerdotisa da diversão no complexo, com várias funções, de cantora a animadora. Seu papel ali não era ser protagonista de uma obra de arte; ela precisava manter o público brincando sem parar. Para isso inventava jogos. Um deles virou febre nacional anos atrás. Sharon &#8220;pegou&#8221; uma brincadeira trazida para o litoral sul da Bahia por turistas universitários paulistas e mineiros e popularizou a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Dan%C3%A7a_do_Quadrado">&#8220;dança do quadrado&#8221;</a>. Como o show não pode parar, nem sobrevive com os hits da estação passada, ela criou um funk para funcionar com trilha sonora do momento em que as turistas sobem ao palco para conferir de perto, pele a pele, os dotes dos dançarinos. Esse funk, que pode ser conferido em <a href="http://www.youtube.com/results?search_query=assim+voce+me+mata+axe+moi&amp;oq=assim+voce+me+mata+axe+moi&amp;aq=f&amp;aqi=&amp;aql=&amp;gs_sm=e&amp;gs_upl=48389l59114l0l59433l30l30l2l20l22l0l360l14">dezenas de vídeos</a> que viajantes publicam no YouTube como álbuns digitais de suas férias, tinha o refrão &#8220;assim você me mata&#8221;.</p>
<p>De passagem por Porto Seguro, <a href="http://twitter.com/antoniodyggs">Antônio Dyggs</a>, produtor de baladas de Feira de Santana, foi conferir a animação do Axé Moi. Ficou com o &#8220;ai se eu te pego&#8221; na cabeça e resolveu transformar o funk num forró para ser gravado pela <a href="http://palcomp3.com/osmeninosdeseuzeh/">Os Meninos do Seu Zeh</a>, uma das bandas (autoclassificada como &#8220;forró universitário pé de serra&#8221;) que empresaria. Apesar de ter <a href="http://www.youtube.com/watch?v=AcgyhYqX4pU">ritmo arrastado</a>, a música fez sucesso em várias cidades baianas, chamando a atenção de outras bandas de forró, que lançaram imediatamente suas regravações, cada vez mais animadas. Michel Teló só conheceu seu futuro hit mundial quando ele já fazia parte do repertório da <a href="http://www.youtube.com/watch?v=-uIepZ9POfY">Cangaia de Jegue</a> e da <a href="http://www.youtube.com/watch?v=geNqMhL_f3Y">Garota Safada</a> (só para citar as mais conhecidas) botando o povo para dançar e cantar por todo o Nordeste. Antônio Dyggs acompanhava tudo maravilhado. <a href="http://www.nacola.com.br/noticia.php?id=149">Ele declarou para o site &#8220;nacola&#8221;</a>: &#8220;A sensação de ter uma composição sua tocada por mais de 50 bandas é fantástica. Arrepio-me cada vez que ouço o &#8220;Ai se eu te pego&#8221; sendo tocado no forró, pagode, salsa, mambo, funk, arrocha etc.&#8221;</p>
<p>Essa é a característica mais evidente da nossa atual cena musical popular brasileira. Todos os sucessos são rapidamente rearranjados para todos os ritmos. A maior parte dos grupos atuam como bandas de bailes: não se prendem a um repertório próprio e tocam todos os hits do momento. Tudo é funcional. Os músicos estão ali para animar a balada, como fazia Sharon Acioly no Axé Moi.</p>
<p>Em conversa comigo, Chimbinha, guitarrista e maestro da <a href="http://www.overmundo.com.br/overblog/isso-e-calypso-ou-a-lua-nao-me-traiu">Banda Calypso</a>, uma vez reclamou da nova situação, já considerando obsoleto o modelo de negócio alternativo que tinha desenvolvido para driblar a crise da indústria fonográfica. Para ele, o CD era cartão de visitas, atraindo público para os shows. O problema é que nem todas canções desses CDs faziam sucesso. Então como competir com os CDs lançados por bandas sem repertório próprio, só com os sucessos dos outros? Chimbinha temia também que a nova situação acabasse por impedir a popularização de artistas em início de carreira. Se os novatos lançassem qualquer canção com cheiro de hit, as bandas mais populares logo produziriam suas regravações, fazendo sucesso em seu lugar. Certamente isso é problema. Mas não há volta: a realidade atropela todo mundo e daqui a pouco uma outra maneira de chegar ao estrelato vai aparecer, derrubando a que predomina no momento. Talvez ninguém mais consiga ter carreira longa e estável fazendo/tocando música. Tudo pode ficar espantosamente efêmero ou veloz, como <a href="http://www.guardian.co.uk/science/2011/nov/18/neutrinos-still-faster-than-light">neutrinos mais rápidos (há controvérsia&#8230;) que a luz</a>.</p>
<p>Outra noção que parecia sólida, mas está cada vez mais velozmente se desmanchando no ar, é a de composição. <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/02/22/deixa-naosim/">Todo mundo se lembra ainda de &#8220;Minha mulher não deixa não&#8221;, o hit do verão passado?</a> A origem do refrão parece ter sido uma música infantil lançada décadas atrás por gravadora pernambucana. E isso virou problema menor diante da <a href="http://www.youtube.com/results?search_query=minha+mulher+n%C3%A3o+deixa+n%C3%A3o&amp;oq=minha+mulher+n%C3%A3o+deixa+n%C3%A3o&amp;aq=f&amp;aqi=&amp;aql=&amp;gs_sm=e&amp;gs_upl=502955l513679l0l513990l59l34l2l22l24l1l316l1196l0.2.1.2l7l0">avalanche de vídeos publicados na internet</a>, com gente fazendo suas versões (claro que não autorizadas) do sucesso, um respondendo ao outro de forma não centralizada, numa conversa que não tem fim. Volto a dizer: era assim no &#8220;folclore&#8221;. Um grupo &#8220;pegava&#8221; a invenção do outro em regime de transformação contínua, sem dono. Tudo caía na brincadeira. E os participantes eram chamados de brincantes, e não de autores. Importava o processo, o remix eterno, não o produto acabado, de um só dono. Como era gostoso o domínio público. Era? É, será: o domínio público cada vez mais ampliado é nosso destino e inapelável futura cibercondição.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/627/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/627/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/627/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/627/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/627/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/627/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/627/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/627/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/627/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/627/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/627/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/627/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/627/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/627/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=627&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Grant Morrison, o retorno</title>
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		<pubDate>Sat, 14 Jan 2012 02:01:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
				<category><![CDATA[arte]]></category>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/01/2012 Continuo minha última coluna do ano passado. Para quem apagou as memórias de 2011 pulando ao som de David Guetta ou Latino nas areias de Copacabana, digo como parei aquele texto, dedicado ao livro &#8220;Supergods&#8221;, de Grant Morrison, pensador central para nosso século [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=618&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/01/2012</p>
<p>Continuo <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2012/01/07/grant-morrison/">minha última coluna do ano passado</a>. Para quem apagou as memórias de 2011 pulando ao som de David Guetta ou Latino nas areias de Copacabana, digo como parei aquele texto, dedicado ao livro <a href="http://www.guardian.co.uk/books/2011/jul/21/supergods-grant-morrison-review-jonathan-ross">&#8220;Supergods&#8221;</a>, de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=HrybcY1Pzlg">Grant Morrison</a>, pensador central para nosso século XXI quase adolescente. No primeiro capítulo dessa história dos super-heróis, somos apresentados a uma interpretação original de sua origem nos anos 1930, com o confronto entre um Super-Homem apolíneo, diurno e socialista com um Batman dionisíaco, noturno, capitalista. Claro que nenhum dos dois ficou congelado nessa polaridade ideológica. Nos quadrinhos, os donos dos direitos dos super-heróis mais populares são as editoras, que contratam autores diferentes para criar suas próximas aventuras. Escritores, desenhistas e coloristas inventam novas características para velhos personagens &#8211; os mesmos temas ganham variações, algumas radicais, anunciando muitas vezes transformações culturais que ainda irão acontecer.</p>
<p>Para complexificar a sua narrativa, Grant Morrison tem mania de recorrer a outras dualidades, além daquela apolínea-dionisíaca, que acabam se sobrepondo umas sobre as outras, criando arranjos surpreendentes. Ele chega até a endossar a <a href="http://hatch.kookscience.com/wiki/Sekhmet_Hypothesis">&#8220;Hipótese Sekhmet&#8221;</a>, apresentada por Iain Spence, que faz conexão maluca entre a atividade solar e as grandes tendências artísticas. A cada onze anos, o Sol troca de polaridade, da atividade mais furiosa ao período de maior calma, gerando mudanças em seu campo magnético que por sua vez teriam efeitos concretos na atividade de nossos neurônios. Por isso a humanidade teria períodos mais &#8220;punks&#8221; e outros mais &#8220;hippies&#8221;, com trocas também a cada onze anos. Os punks seriam mais realistas, os hippies mais sonhadores.</p>
<p>Gosto mais de outra dualidade apresentada em &#8220;Supergods&#8221;, aquela que divide os autores de quadrinhos de super-heróis em duas tribos em guerra eterna: de um lado os &#8220;missionários&#8221;, do outro os &#8220;antropólogos&#8221;. Grant Morrison toma partido dos antropólogos &#8211; mas reconhece (e eu como antropólogo de profissão tenho que concordar) que não há fronteiras claras entre essas tribos. Pelo contrário: há muitas mestiçagens entre os dois pólos, com missionários com atitudes de antropólogos e vice-versa. Vejamos o que está em jogo, no limite. Os missionários tentam &#8220;impor seus próprios valores e preconceitos sobre as culturas que consideram inferiores &#8211; nesse caso, aquela dos super-heróis.&#8221; Os antropólogos tratam as outras culturas &#8220;com respeito e no interesse de compreensão mútua.&#8221; De vez em quando exageram e &#8220;viram nativos&#8221;, capitulando diante da cultura estrangeira &#8211; sem medo serem encarados como tolos.</p>
<p>Para Grant Morrison, o &#8220;missionário&#8221; tem, no fundo, vergonha do seu trabalho. Acha ridículo o uniforme dos super-heróis. Tenta portanto torná-los menos infantis, o que na maioria das vezes significa pesar a mão no lado realista (e realidade aqui é quase sempre sombria, quando não desesperada.) Os antropólogos levam a sério o discurso nativo dos super-heróis: se eles acreditam ter superpoderes, quem somos nós para desmenti-los ou chamá-los para a realidade? E devemos confessar (já estou aqui assumindo plenamente meu relativismo antropológico): achamos bonitas suas máscaras e capas coloridas; queremos que sejam felizes em seus universos; adoraríamos também testar a dor e a delícia de voar, ser invisível, ter cromossomo mutante. Queremos que seus mundos sejam realmente mágicos.</p>
<p>Conflito sem trégua entre realistas e desbundados, que torna nosso mundo da produção cultural mais divertido. Ao ler a tese do Grant Morrison me lembrei da volta de <a href="http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=personalidades_biografia&amp;cd_verbete=703">Augusto Boal</a> para o Brasil, quando apresentou seu <a href="http://www.estantevirtual.com.br/q/stop-c'est-magique">&#8220;c&#8217;est magique&#8221;</a> no Teatro Cacilda Becker (já se chamava assim?) no Catete. No palco os atores tentavam encontrar soluções para um problema social. A platéia poderia interromper a encenação a qualquer momento se considerasse mágica a solução apresentada por quem conduzia o espetáculo. Bastava gritar &#8220;c&#8217;est magique&#8221; e expor a razão para considerar que tal solução não funcionaria na realidade. Eu estava na platéia. <a href="http://www.reginacase.com.br/">Regina Casé </a>também estava. Naquela época eu apenas era fã do <a href="http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=cias_biografia&amp;cd_verbete=486">Asdrúbal Trouxe o Trombone</a> (vi &#8220;Trate-me Leão&#8221;, &#8220;Aquela Coisa Toda&#8221; e &#8220;A Farra da Terra&#8221;, todos várias vezes). Fiquei mais admirador da Regina quando ela, com enorme coragem, se levantou para dizer que fazia teatro justamente por ser espaço onde poderíamos inventar soluções mágicas. Não foi a toa que anos depois iniciamos uma amizade que já rendeu inúmeros produtos &#8220;antropológicos&#8221;, inclusive o programa <a href="http://esquenta.globo.com/platb/programa/">Esquenta!</a> que estará em cartaz na TV Globo durante todo este verão, e que na temporada passada apresentou empolgado a música <a href="http://www.youtube.com/watch?v=7ljYt9ASgU8">&#8220;Liga da Justiça&#8221;</a>, do LevaNóiz, que fez mágica no carnaval de 2011 em Salvador.</p>
<p>O &#8220;missionário&#8221; que Grant Morrison mais se delicia em atacar é <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Alan_Moore">Alan Moore</a>, autor de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Watchmen">&#8220;Watchmen&#8221;</a>. Em &#8220;Supergods&#8221;, Morrison acusa Moore de militar pelo fim de toda a mágica no universo dos super-heróis: mesmo seu planeta Krypton é &#8220;um mundo despedaçado por tensões raciais, fanatismo religioso e brutal violência nas ruas, mas eu posso ver isso na TV&#8221;. Grant Morrison sempre quis que os super-heróis fizessem aquilo que os noticiários não mostram. Quem sabe assim não nos inspiram a ocupar o mundo diferentemente? Ou pelo menos nos ensinam que &#8220;as coisas não precisam ser reais para serem verdadeiras&#8221;.</p>
<p>***</p>
<p>Hoje é o dia dos <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%AAs_Reis_Magos">Santos Reis</a>. Feliz <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Folia_de_Reis">folia</a> para todo mundo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/618/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/618/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/618/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/618/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/618/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/618/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/618/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/618/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/618/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/618/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/618/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/618/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/618/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/618/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=618&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Grant Morrison</title>
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		<pubDate>Sat, 07 Jan 2012 02:12:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Inglaterra]]></category>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/12/2011 Grant Morrison escreveu &#8220;Supergods&#8221;, meu livro favorito de 2011. As listas de melhores do ano não concordam comigo. Houve grande espectativa pré-lançamento. O autor é um dos artistas contemporâneos mais influentes e respeitados, para muito além das fronteiras do seu mundo de origem, [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=612&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/12/2011</p>
<p><a href="http://www.grant-morrison.com/">Grant Morrison</a> escreveu <a href="http://www.grant-morrison.com/bibliography/category/supergods.html">&#8220;Supergods&#8221;</a>, meu livro favorito de 2011. As listas de melhores do ano não concordam comigo. Houve grande espectativa pré-lançamento. O autor é um dos artistas contemporâneos mais influentes e respeitados, para muito além das fronteiras do seu mundo de origem, o dos quadrinhos. Na publicidade de &#8220;Supergods&#8221; apareciam os elogios rasgados de três figuras que só Grant Morrison poderia reunir: <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Stan_Lee">Stan Lee</a>, um dos criadores do Homem-Aranha, do Hulk, dos X-Men (etc!); <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Gerard_Way">Gerard Way</a>, cantor da banda de rock My Chemical Romance; e <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Deepak_Chopra">Deepak Chopra</a>, talvez o mais popular escritor de auto-ajuda. Mesmo assim, depois que o livro foi publicado, houve um silêncio bizarro sobre seu conteúdo, como se ninguém soubesse o que fazer com aquela avalanche de informações.</p>
<p>&#8220;Supergods&#8221; estaria para os quadrinhos de super-heróis assim como <a href="http://www.orestoeruido.com.br/">&#8220;O resto é ruído&#8221;</a> estaria para a música contemporânea se Alex Ross (o autor de &#8220;O resto é ruído&#8221;) fosse <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/John_Cage">John Cage</a> ou outro personagem central para a história contada no livro. Grant Morrison escreveu a saga dos super-heróis modernos, desde a aparição do Super-Homem em gibi de 1938, com uma profusão de detalhes, inclusive acontecimentos fabulosos de sua própria biografia, como se ele mesmo fosse super também.</p>
<p>Tem direito. Stan Lee decretou sobre sua obra: &#8220;Grant Morrison é um dos grandes escritores de quadrinhos de todos os tempos. Eu gostaria de não ter que competir com alguém tão bom quanto ele.&#8221; Para citar apenas um de seus feitos: <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Arkham_Asylum:_A_Serious_House_on_Serious_Earth">&#8220;Batman: Arkham Asylum&#8221;</a>, escrita por Grant Morrison, é a novela gráfica original mais vendida também em todos os tempos. Além disso há a invenção de<a href="http://en.wikipedia.org/wiki/New_X-Men"> &#8220;New X-Men&#8221;</a> e muitos outros universos punk-apocalípticos, como a saga <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/The_Invisibles">&#8220;Os Invisíveis&#8221;</a>, na minha opinião uma das criações artísticas mais importantes do século XX, que será lida em tempos vindouros com a mesma reverência que hoje dedicamos a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%80_bout_de_souffle">&#8220;Acossado&#8221;</a> ou <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Montanha_M%C3%A1gica">&#8220;A montanha mágica&#8221;</a>.</p>
<p>Confesso minha dificuldade com a leitura de &#8220;Supergods&#8221;. Certamente faltou editor cuidando de transformar o material em algo mais palatável para quem, como eu, nunca teve muita familiaridade com os bastidores dos quadrinhos. Havia momentos em que me perdia no meio de tantos nomes de escritores, desenhistas, coloristas ou mesmo super-heróis que apesar de grande sucesso eram para mim superdesconhecidos. Essa opção enciclopédica afasta leitores que buscam apenas uma história alternativa da cultura do século XX através de alguns de seus personagens mais pitorescos, os que têm superpoderes até para mudar o curso da História.</p>
<p>Nunca fui fanático por quadrinhos, mas reconheço nos super-heróis um pano de fundo essencial para minha visão de mundo, que me conecta com as outras pessoas que vivem em nosso mundo. Uma das experiências mais desnorteadoras da minha vida aconteceu em Nova York, em 1989, quando a cidade estava tomada pela publicidade da estréia do primeiro filme <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Batman_(1989_film)">&#8220;Batman&#8221;</a>. Os cartazes não precisavam de palavras &#8211; só aquela figura do morcego estilizado dava conta do recado: todo mundo sabia do que se tratava. Eu estava hospedado no apartamento do meu amigo <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/04/23/julian-dibbell/">Julian Dibbell</a>, antes de sua transformação em super-herói dos estudos ciberculturais. Naquela época, Julian subalugava um quarto para desconhecidos. Cada vez que o visitei tinha que conviver com seres bem esquisitos. Em 1989, o subinquilino era um russo chamado Vadim, que em época pré-perestroika fugira da URSS via Israel. Era filho de médico e engenheira, morava em Leningrado (hoje novamente São Petersburgo), perto dos estúdios da Lenfilm. Eu e Julian o convidamos para ver Batman conosco. Ele perguntou: o que é Batman? Foi o contato mais próximo que já tive com um alienígena. Um abismo de imaginação nos separava.</p>
<p>Hoje os jovens russos devem saber bem o que é Batman, ou mesmo Lanterna Verde. Não foi só o capitalismo, com todas suas bolhas e crises terminais, que penetrou na Cortina de Ferro ou na mais tradicional aldeia da savana africana. Com o triunfo dos chips de silício o mundo também se nerdificou: o que era antes obsessão de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Geek">&#8220;geeks&#8221;</a>, hoje é &#8220;mainstream&#8221; planetário. Tá tudo dominado por super-heróis, que conquistaram o mundo mesmo com suas fantasias ridículas. Como escreve Grant Morrison: &#8220;Numa cultura secular, científica e racional sem qualquer liderança espiritual convincente, as histórias de super-heróis falam em alto e bom tom com nossos maiores medos, mais profundos anseios, mais altas aspirações. [...] Nós deveríamos escutar o que eles têm a nos dizer.&#8221;</p>
<p>E eles não dizem todos a mesma coisa. Grant Morrison começa o livro contrapondo o Super-Homem apolíneo, solar, socialista e o Batman dionisíaco, noir e capitalista. Clark Kent é um órfão de outro planeta que usa seus superpoderes para ajudar nossa pobre humanidade; Bruce Wayne é um milionário que combate o crime para vingar a morte dos pais.</p>
<p>As divergências não surgem apenas entre os super-heróis, mas entre diferentes &#8220;encarnações&#8221; de um mesmo super-herói, devido ao tratamento que receberam de seus vários autores &#8211; um mesmo tema sujeito a surpreendentes variações. Mas isso fica para a coluna da próxima semana. Até 2012! Que os super-heróis nos protejam do fim do mundo.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/612/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/612/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/612/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/612/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/612/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/612/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/612/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/612/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/612/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/612/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/612/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/612/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/612/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/612/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=612&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>1967-2011</title>
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		<pubDate>Sat, 31 Dec 2011 03:01:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>hermanovianna</dc:creator>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/12/2011 Provavelmente, o acontecimento musical mais importante de 2011, entre &#8220;formadores de opinião&#8221;, foi o lançamento não de disco, mas sim de livro: o &#8220;Retromania&#8221;, de Simon Reynolds. Ninguém precisa ler suas 496 páginas para conhecer o conteúdo. As ideias de &#8220;Retromania&#8221; foram tão [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=604&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/12/2011</p>
<p>Provavelmente, o acontecimento musical mais importante de 2011, entre &#8220;formadores de opinião&#8221;, foi o lançamento não de disco, mas sim de livro: o <a href="http://www.amazon.com/Retromania-Pop-Cultures-Addiction-Past/dp/0865479941">&#8220;Retromania&#8221;</a>, de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Simon_Reynolds">Simon Reynolds</a>. Ninguém precisa ler suas 496 páginas para conhecer o conteúdo. As ideias de &#8220;Retromania&#8221; foram <a href="http://retromaniabysimonreynolds.blogspot.com/">tão debatidas e enriquecidas na internet</a> que o texto original parece ultrapassado. Isso vai acontecer cada vez mais com todos os produtos culturais, que se tornarão obras em progresso, sempre em modo &#8220;beta&#8221;, sem edição definitiva, ou com versão final logo transformada em matéria prima para remixagens eternas &#8211; o que vem confirmar parte da tese de &#8220;Retromania&#8221;, que vivemos um tempo em que o novo é resultado de um &#8220;revival&#8221; ininterrupto de modas passadas.</p>
<p>O próprio Simon Reynolds já aproveitou a onda retrô. É de sua autoria a obra (<a href="http://www.amazon.com/Rip-Up-Start-Again-1978-1984/dp/0143036726/ref=pd_sim_b_1">&#8220;Rip it up and start again&#8221;</a>) que se tornou referência básica para o conhecimento sobre a era <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Post-punk">pós-punk</a>, na qual uma parcela influente de nossa juventude vai viver para sempre, como se a cultura da humanidade inteira se resumisse a um show do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Gang_of_Four_(band)">Gang of Four</a> em 1981. Vamos ter que nos acostumar com essas tribos que habitam tempos históricos culturais diferentes, tudo ao mesmo tempo agora. Mesmo cultuando o passado, elas vão ser anunciadas como o futuro &#8211; ou pelo menos como a última moda de quem está mais conectado com presente, sendo protagonista da definição do espírito do seu tempo (não importa que sua sonoridade tenha sido criada pela geração de seus pais ou avós). Então resta a dúvida: ninguém vai mais criar nada realmente novo? Em música: nunca mais vamos ouvir o que ninguém nunca ouviu antes?</p>
<p>Diante dessa garotada hipster-passadista, fico alegre/espantado ao constatar que os discos mais inovadores de 2011 foram produzidos por artistas de mais de 60 anos. Mais interessante ainda: meus dois lançamentos preferidos do ano têm a ver com 1967.</p>
<p>O primeiro foi gravado em 1967, mas não tinha sido lançado até o mês passado. É <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Smile_(The_Beach_Boys_album)">&#8220;Smile&#8221;</a>, o disco inacabado dos Beach Boys. Imaginava que nunca iria ouvi-lo de cabo a rabo, e teria me contentar com os fragmentos que apareceram como faixas bônus de caixas de CD ou com <a href="http://www.amazon.com/Smile-Brian-Wilson/dp/B0002LI11M/ref=sr_1_3?s=music&amp;ie=UTF8&amp;qid=1324497761&amp;sr=1-3">a regravação que Brian Wilson lançou em 2004</a>. Tudo já era uma maravilha, mas não me preparou para a mixagem/masterização que 2011 nos deu de presente. Muita música pop-experimental recente, de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Jim_O%27Rourke_(musician)">Jim O&#8217;Rourke</a> a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Panda_Bear_(musician)">Panda Bear</a>, tentou levar para frente as lições dos Beach Boys, mas agora comprovamos que nada foi tão radical como o &#8220;original&#8221;. Smile poderá ainda por muito anos nos servir de guia para o futuro da arte. Impossível não ficar desconcertado ao perceber que aquilo foi gravado sem mesas de muitos canais, sem computadores, sem samplers, sem softwares como <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Pro_Tools">Pro Tools</a>, com músicos tocando e cantando juntos (como conseguiam fazer isso? mesmo hoje com toda a tecnologia, seria quase impossível).</p>
<p>Outra razão para desconcerto: o experimentalismo de &#8220;Smile&#8221; está sempre a serviço da beleza totalmente angelical, beleza que dói de tão bela, mais que aquele trecho adorado da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Symphony_No._5_(Sibelius)">Quinta Sinfonia do Sibelius</a>. Não dá para existir algo que supere <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Surf%27s_Up_(song)">&#8220;Surf&#8217;s Up&#8221;</a>, mesmo com letra escalafobética de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Van_Dyke_Parks">Van Dyke Parks</a>. É para se ajoelhar e ficar chorando na frente das caixas de som ou sob <a href="http://www.beatsbydre.com/">o fone de ouvido do Dr. Dre</a>.</p>
<p>O outro disco mais inovador de 2011 tem a ver com 1967 por tabela. É <a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=29104122&amp;sid=911917879131221659481632825">&#8220;Recanto&#8221;</a>, de Gal Costa. Em 1967, ela e Caetano Veloso lançaram <a href="http://www.caetanoveloso.com.br/sec_discogra_view.php?language=pt_BR&amp;id=1">&#8220;Domingo&#8221;</a>. 44 anos depois os amigos baianos se reúnem novamente para nos presentear com um álbum que quase se chamou Segunda. Esperava algo assim da música popular do Brasil há anos. Imaginava que seria obra de músico de poucos anos de vida. Porém, os mais jovens pareciam vítimas de culto a um passado mais criativo, diante do qual só podemos tentar enfeitar nossa inferioridade com trinados de teclado Hammond e chiado de vinil. (Nesse ambiente o funk carioca emergiu como uma ilha futurista, com o uso mais desabusado da tecnologia em território nacional. Mas todos sabemos que funk não faz parte da tal &#8220;linha evolutiva&#8221; da MPB, e muitos críticos fizeram o possível para mantê-lo isolado na favela pré-UPP.) Foi preciso novamente a ação de heróis tropicalistas para nos salvar. (E depois reclamam da centralidade de Caetano em nossa cultura: não aparece ninguém mais jovem para fazer seu trabalho, então ele precisa continuar orientando nosso carnaval e inaugurando novos monumentos.)</p>
<p>Semelhança de &#8220;Recanto&#8221; com &#8220;Smile&#8221;: a radicalidade estética e a esquisitice sonora estão a serviço da canção, da bela canção. (E que safra de canções há em &#8220;Recanto&#8221;! &#8211; com as melodias que fazem falta nos discos da Bjork, ou do <a href="http://www.alvanoto.com/">Alva Noto</a>.) Reconfortado, preciso fazer coro para a letra de <a href="http://www.youtube.com/watch?v=4vhMAUyHVrs">&#8220;Mansidão&#8221;</a>: &#8220;está tudo onde deve estar&#8221;. Finalmente.</p>
<p>***</p>
<p><a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/12/24/make-ventura/">Minha coluna passada</a> me obrigou a reler vários artigos de Michael Ventura. Redescobri o deslumbrante <a href="http://findarticles.com/p/articles/mi_m1510/is_1987_Summer/ai_5042007/">&#8220;Hear that long snake moan&#8221;</a>, talvez o melhor texto já escrito sobre o rock, ou sobre a história da música popular dos EUA. Aqui tenho espaço para comentar apenas um detalhe: Ventura revela que o Brasil não é o único lugar do mundo onde se diz &#8220;aqui ninguém é branco&#8221;; há um ditado sulista norte-americano que é até mais específico: &#8220;there ain&#8217;t no white people in New Orleans&#8221; (não há brancos em Nova Orleans). Todos os branquelos iam pedir a benção de <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Marie_Laveau">Marie Laveau</a>, <a href="http://www.austinchronicle.com/columns/2000-03-17/letters-at-3am/">cabeleireira e sacerdotisa voodoo</a>. Por isso o batuque se manteve vivo na cidade e hoje até neguinhos brasileiros podemos dançar <a href="http://www.youtube.com/watch?v=CKoAojTtuY8">&#8220;Miami Maculelê&#8221;</a>.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/hermanovianna.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/hermanovianna.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/hermanovianna.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/hermanovianna.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/hermanovianna.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/hermanovianna.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/hermanovianna.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/hermanovianna.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/hermanovianna.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/hermanovianna.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/hermanovianna.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/hermanovianna.wordpress.com/604/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/hermanovianna.wordpress.com/604/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/hermanovianna.wordpress.com/604/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=604&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Make Ventura</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 06:18:08 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/12/2011 Poucos meses depois do início da presidência Obama, a revista Make trazia na capa uma proposta audaciosa: ReMake America (ou ReFaça a América). A página 1 estava ocupada por um manifesto que poderia ser transformado em programa de governo, ou receita para desenvolvimento [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=hermanovianna.wordpress.com&amp;blog=5419560&amp;post=596&amp;subd=hermanovianna&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/12/2011</p>
<p>Poucos meses depois do início da presidência Obama, a revista <a href="http://makezine.com/">Make</a> trazia na capa uma proposta audaciosa: <a href="http://makezine.com/18/">ReMake America</a> (ou ReFaça a América). A página 1 estava ocupada por <a href="http://cdn.makezine.com/make/remake/ReMake_America.pdf">um manifesto</a> que poderia ser transformado em programa de governo, ou receita para desenvolvimento econômico mais sustentável. Vale a pena citar algumas de suas recomendações, que foram divididas em cinco tópicos básicos: faça coisas; uso de energia; transporte; comida e água; aprendizado. Veja como não se trata de nenhuma utopia: &#8220;faça coisas que outras pessoas precisem&#8221;; &#8220;faça coisas para que você não precise comprá-las&#8221;; &#8220;crie um negócio que empregue pessoas que façam coisas&#8221;; &#8220;faça coisas mais perto do lugar onde vão ser usadas&#8221;; &#8220;conserte as coisas em vez de trocá-las&#8221;; &#8220;cultive sua própria comida&#8221;; &#8220;encoraje a curiosidade e o aprendizado autodirigido&#8221;; &#8220;aceite o fracasso &#8211; o fracasso é parte do aprendizado&#8221;.</p>
<p>Não consegui descobrir o número de leitores da Make. A <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Make_(magazine)">revista foi fundada</a> em 2005 e só lança quatro números por ano. Talvez sua face mais visível não seja a publicação em papel, nem o site, mas sim grandes encontros chamados <a href="http://makerfaire.com/">Maker Faire</a>. O primeiro deles, realizado perto de San Francisco em 2006, reuniu 20 mil pessoal. A Maker Faire de 2011 juntou 100 mil, e já há feiras semelhantes realizadas em outras cidades americanas e <a href="http://makerfaireafrica.com/">até africanas</a>. Esse crescimento chamou a atenção da revista The Economist, que no início de dezembro publicou <a href="http://www.economist.com/node/21540392">artigo com a seguinte declaração apoteótica</a>: &#8220;o movimento &#8216;maker&#8217; pode mudar como a ciência é ensinada e impulsionar a inovação. Ele pode mesmo anunciar uma nova revolução industrial.&#8221;</p>
<p>Criada por <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dale_Dougherty">Dale Dougherty</a>, um dos fundadores da empresa <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/O%27Reilly_Media">O&#8217;Reilly Media</a> (que teve início nos anos 80 com a publicação pioneira de manuais de programas de computador), a Make tem como inspiração principal a estratégia descentralizada de produção dos <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Free_software">softwares livres</a>, incentivando sua aplicação para muito além da informática. Seu mandamento: produza com código aberto, de modo colaborativo. A revista está repleta de textos e fotos com passo a passo para a produção sem segredos de equipamentos como uma <a href="http://makezine.com/18/laundry/">máquina de lavar roupas que funciona sem eletricidade</a> ou uma <a href="http://blog.makezine.com/archive/2011/11/building-the-makergear-mosaic-3d-printer-part-i.html">impressora 3-D</a>.</p>
<p>Comparado com o barroquismo da <a href="http://hermanovianna.wordpress.com/2011/12/10/adbusters/">Adbusters</a>, tudo na Make tem pinta de ciberpuritanismo. A Adbusters também poderia ser vista como mais europeia, com uma profusão de citações de filósofos franceses pós-Maio 68, e a Make como mais americana &#8211; no sentido mais pé-no-chão, e mesmo ingênuo (ingenuidade diferente daquela escorada em corpos sem órgãos deleuzianos), sem floreios intelectuais, que a cultura da América pode ter.</p>
<p>Pensando nessa dicotomia Europa/Améria, ou Adbusters/Make, paralizante ou empobrecedora, andei à procura de um pensamento que pudesse conectar os dois lados de forma original. Foi assim que me deparei com os <a href="http://www.austinchronicle.com/columns/2011-11-04/letters-at-3am-flash-mob-dance-revolution-part-1/">últimos textos</a> de <a href="http://www.michaelventura.org/">Michael Ventura</a> em &#8220;Cartas às 3 da madrugada&#8221;, coluna &#8211; primeiro no L.A Weekly e hoje no Austin Chronicle &#8211; publicada há 3 décadas. Sua crença: movimentos como o &#8220;maker&#8221; e o &#8220;Occupy Wall Street&#8221; são sinais sim do &#8220;fim do capitalismo e de sua reposição por um modo de comércio para o qual, ainda, não há um &#8216;ismo&#8217;.&#8221;</p>
<p>Michael Ventura é meu pensador americano favorito. Seu livro <a href="http://www.amazon.com/Shadow-Dancing-USA-Michael-Ventura/dp/0874774020">&#8220;Shadow dancing in the USA&#8221;</a> tem lugar garantido na minha lista de melhores obras do século XX. Foi ali, nos anos 80, que me deparei com palavras que &#8211; entre muitas outras coisas &#8211; me fizeram perder os preconceitos, que certa filosofia europeia me vendera como chiques, contra shopping centers: &#8220;os jovens vão para tais lugares porque se sentir em casa na cacofonia de formas é o que eles mais desesperadamente precisam aprender, e eles não estão aprendendo isso na escola. Nós estamos profundamente mais desconfortáveis no mundo do que eles estão. O que procuram não é algo que saibamos como ensinar.&#8221; Claro: nada disso é enunciado com sofisticação desconstrucionista. Tudo é meio rasteiro (fiz a citação só para mostrar que ele não é anti-consumo como o pessoal também rasteiro &#8211; e isso não é crítica &#8211; da Adbusters), mas muitas vezes precisamos de um índio americano para nos revelar o que estava oculto <a href="http://www.caetanoveloso.com.br/sec_busca_obra.php?language=pt_BR&amp;id=91&amp;sec_discogra_todas=1&amp;PAGE=25">&#8220;quando terá sido o óbvio&#8221;</a>.</p>
<p>Esse mesmo livro termina com o artigo &#8220;Previsões: os próximos 200 anos&#8221;. Foi publicado em 1985, estamos ainda no início dos tais dois séculos, mas tudo que ali foi previsto praticamente já é passado: &#8220;a criação de um sistema econômico mundial&#8221;; &#8220;avanços na cibernética, biologia, pesquisa espacial e cerebral&#8221;; &#8220;fortalecimento dos povos mulatos, negros e amarelos&#8221;; &#8220;equalização de homem e mulher&#8221;. Só falta &#8220;a criação de uma nova cosmologia que substituirá o judeu-cristão-muçulmanismo&#8221;(anunciando a &#8220;exaustão&#8221; do extremismo de origem islâmica ele dizia: isso não é aparente agora pois só extremistas aparecem na mídia e não vemos os &#8220;milhões que só querem viver vidas normais&#8221; &#8211; os milhões representados pelo pessoal da <a href="http://www.guardian.co.uk/global/2011/feb/10/egypt-miracle-tahrir-square">praça Tahir</a>?)</p>
<p>Nesse artigo, o que mais me impressionou não era uma previsão e sim uma constatação: &#8220;as crises de nosso mundo se expressam como crises políticas mas elas não têm solução política. Isso deixa bem louco todo mundo envolvido em suas resoluções.  As únicas soluções possíveis são culturais, e soluções culturais não podem ser legisladas e geralmente elas não podem ser impostas. Soluções culturais evoluem. E as pessoas têm dificuldade de explicar como elas evoluem. O que é uma mera ideia num século vira instituição poderosa no próximo. É por isso que expressar ideias é tão importante. Nada acontece sem elas.&#8221; Eu digo: por isso é essencial ficar atento ao que a Make publica. As novas ideias, as mais poderosas delas, estão ali.</p>
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