colaboração

28/03/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/03/2015

Iris van Herpen pode ser apresentada como inventora holandesa. A revista “Time” escolheu suas roupas produzidas em impressoras 3D como uma das “melhores invenções de 2011″. Foi procurando exemplos de utilização bem criativa dessa nova técnica de impressão que descobri seu nome. Um hiperlink depois e já estava no seu site, que me apresentou a uma multidão de outros artistas/pensadores que até então desconhecia. Sempre defendi por aqui que a moda é hoje um dos territórios mais inovadores da cultura contemporânea. Mesmo assim não estava preparado para ser levado tão longe pelo trabalho de uma única estilista.

Claro, Rei Kawakubo ou Vivienne Westwood são igualmente mestras em colaborações transdisciplinares. Mas parecem mais focadas, perseguindo algumas trilhas bem definidas, apesar de todas as rupturas. O trabalho de Iris van Herpen busca a diversidade de maneira ainda mais extrema, incluindo os temas que inspiraram cada uma de suas coleções desde a estreia, em 2007.

Citarei alguns exemplos, os que me deixaram mais espantado, curioso e alegre. Vários assuntos queridos desta coluna foram materializados nas passarelas. Começando pelo desfile mais recente, o do Outono/Inverno 2015-16, que explorou a ideia de terraformação, o projeto de modificar outros planetas para que possam ter biosferas terráqueas (para mais informações vide minha coluna sobre a literatura de Kim Stanley Robinson). O texto de apresentação usa outras palavras que não esperamos encontrar normalmente em press-releases de estilistas: estruturas biomiméticas, infinitos “hackeáveis”, geologia mineral, couro cortado a laser. Minha praia total.

Voltando no tempo a mistura de conceitos das mais variadas procedências vai ficando explosiva. No ano passado as duas coleções tiveram como títulos “Movimentos magnéticos” e “Biopirataria”. A inspiração para a primeira veio de uma visita que Iris van Herpen fez ao CERN, o gigantesco acelerador de Genebra, que produz campo magnético 20 mil vezes maior que o da Terra. “Biopirataria” apresentou modelos flutuando em posições embrionárias dentro de úteros artificiais, tudo para discutir a comercialização de sequenciamento genético e a atual confusão público/privado no mais íntimo de nossos corpos.

Em 2013 suas roupas viraram orquestra de instrumentos musicais eletrônicos. Antes seus desfiles já tinham sampleado imagens de microscópios eletrônicos e fumaças de refinarias. Obviamente: não há pessoa no mundo que domine todas essas áreas de conhecimento. Por isso a criação de Iris van Herpen está baseada em intensa colaboração, com cientistas, arquitetos, escultores, coreógrafos, músicos, cineastas. A lista de créditos de cada coleção impressiona e por isso seu site hoje funciona para mim como enciclopédia de novidades, onde sempre sou apresentado a outras pessoas que me interessam demais. Não há espaço para escrever sobre todas elas. Recomendo que cada leitor faça suas próprias descobertas. Seleciono aqui apenas alguns nomes que quero passar adiante.

O arquiteto canadense Philip Beesley já colaborou em várias coleções. Seu “método” entrelaça desenho industrial, prototipagem digital, engenharia mecatrônica (seja lá o que isso for), vida artificial e arquitetura interativa (as construções reagem a atividades naturais e dos seres vivos em seu interior e ao seu redor). Os resultados, por incrível que pareça, são ambientes/instalações de beleza alienígena estonteante e/ou assustadora, tipo vegetação do planeta Pandora ou enxames de monstros que nem Sigourney Weaver conseguiria combater. Alguns deles levam bem a sério o conceito de hilozoísmo e panpsiquismo de maneira que só tinha encontrado antes na ficção científica de Rudy Rucker, muso desta coluna.

Aleksandra Gaca é uma designer têxtil polonesa. Sua especialidade tem sido a criação de tecidos a partir de novos materiais, ou novas maneiras de produzir materiais. Ela também trabalha com “architextiles” que podem ser usados em construções, substituindo paredes e divisórias com vantagens sustentáveis (circulação de luz, purificação do ar etc.). A austríaca (hoje trabalhando no Suprastudio da UCLA) Julia Koerner usa impressoras 3D e tecnologia robótica para misturar arquitetura, moda e design. O designer holandês Jólan van der Wiel inventa processos em que os objetos adquirem suas formas fora da influência humana.

Em cada um dos sites desses criadores encontro outros nomes formando redes de colaboração cada vez mais complexas. Roupas e objetos passam a circular por outros cenários, como os shows e clipes de Bjork, que recentemente sempre apresentam invenções de Iris van Herpen e sua turma. É assim que o mundo hoje segue adiante.

 

LKJ

21/03/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/03/2015

Linton Kwesi Johnson (LKJ) se apresenta hoje no festival Back2Black. É sua primeira vez em palco carioca. Portanto: noite de gala. Não se atrase no trânsito de sexta-feira na Barra. O show começa às 21 horas, antes de Planet Hemp e Damian “Jr. Gong” Marley. Prepare seu corpo (incluindo o cérebro) para ser massageado pelo dub da banda de Dennis Bovell acompanhando a voz grave e a poesia  de LKJ. Será ocasião rara para contato imediato com um dos trabalhos mais criativos das artes atuais.

Para quem gosta de credenciais: sua poesia foi premiada com o Golden PEN, honraria concedida para seleto grupo de escritores que inclui Harold Pinter e Doris Lessing. Também foi o segundo poeta vivo – e o primeiro poeta negro – a ser publicado na série Modern Classics da editora Penguin. Seus discos são igualmente considerados clássicos. Por exemplo: o site AllMusic  elege “Forces of Victory” (1979) “um dos mais importantes discos de reggae já gravados”. Na minha opinião, qualquer coletânea de grandes sucessos de LKJ deveria figurar entre os melhores disco de todos os tempos e todos os estilos. Sempre preciso reescutar “Making History” para entender as transformações do mundo. Mesmo com décadas de vida, os poemas/letras continuam urgentes, e o instrumental produzido por Dennis Bovell tem som de futuro.

Poesia e música estão plenamente integradas nas obras de LKJ, em termos estéticos e políticos (inclusive na indumentária, de extrema elegância, estilo PhD da rebelião). Tudo ali é radical, no melhor sentido. Por isso é interessante acompanhar sua entrada no “cânone”, para desconforto de muitos ocidentalistas que não suportam nem os primeiros acordes de “Inglan is a Bitch”. “Inglan” é a grafia de patuá jamaicanos para “England”. “Bitch” ainda precisa ser traduzida por palavrão ou, depois de tantos anos de funk carioca, “cachorra” dá conta do recado? Existe ousadia maior que um imigrante dando lições com tal autoridade moral para sua ex-metrópole?

A trajetória biográfica de LKJ, e de sua parceria com Dennis Bovell, reflete as sucessivas reviravoltas daquilo que foi o Império Britânico ou, generalizando, a Civilização Ocidental. Nascido na Jamaica, imigrou para a Inglaterra com 11 anos para se encontrar com a mãe que já trabalhava em Londres (Dennis Bovell nasceu em Barbados e foi para o Reino Unido com 12 anos). Morou no bairro de Brixton, caldeirão étnico, território de conflitos com frquente violência policial, inspiração para várias de suas poesias. Cursou sociologia no Goldsmith College. Teve contato intenso o braço britânico dos Panteras Negras e com o coletivo da revista “Race Today”, pioneira na análise política do racismo contemporâneo, e que publicou pela primeira vez seus poemas.

Na mesma época os jamaicanos criavam o reggae, e a nova música cruzou rapidamente o Atlãntico, emplacando vários sucessos nas paradas inglesas. Em 1970 Dennis Bovell, que também foi DJ no clube Metro, já tinha formado o grupo Matumbi, e nos anos seguintes vai inventando maneiras de produzir um dub cada vez mais pesado, sofisticado, vanguardista. Quando LKJ e Dennis Bovell começam a lançar discos juntos, nasce a “poesia dub”, levando as experiências dos DJs jamaicanos (viva U-Roy!) para outros territórios estéticos e outras militâncias políticas. O resto é História, com H maiúsculo, que continua no Rio esta noite.

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Nota familiar: uma das maiores façanhas dos Paralamas do Sucesso foi juntar as vozes de Tom Zé e LKJ na faixa “Navegar impreciso” do álbum “Severino” (1994). A letra, em português e inglês, lamenta a atitude de um Portugal seduzido pela Comunidade Econômica Europeia, na época fechando as portas para imigrantes (muitos dentistas!) brasileiros. Apesar de tudo, havia carinho (assumidamente ingênuo) na acusação. Herbert me contou que LKJ, depois de gravar sua surpreendente participação (nossa admiração por ele era imensa – era tanta nobreza artística que ele parecia inacessível), comentou que gostaria que o mundo mudasse para poder escrever algo com sentimento semelhante para a Inglaterra. Não deve ter sido exatamente isso o que ele ou Herbert disseram, mas é assim quero guardar na memória. O mundo mudou muito de lá para cá? Neste século outros “riots” tocaram fogo nas ruas londrinas, muito parecidos com os de Brixton, décadas atrás. Portugal é que vive o fim do sonho do Euro. E talvez agora tenha oportunidade de se descobrir africano. Tema para conversa com José Eduardo Agualusa e Ângelo Kalaf (os melhores “lusófonos” que há), também no Back2Black, antes do show de LKJ.

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Mais familiar ainda: parabéns para minha mãe, que hoje completa 80 anos.

vivendo bem e aprendendo

14/03/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/03/2015

“Sumak Kawsay” – expressão em quíchua, língua falada por cerca de 10 milhões de pessoas principalmente no Peru, Bolívia e Equador – é conceito de difícil tradução. Significa algo como vida boa, ou vida plena, em comunidade e em harmonia com a natureza. Hoje é base de movimento social/político que se espalha pela América do Sul: o “Buen Vivir”. Rapidamente deixou de ser bandeira levantada por pequenos grupos e conseguiu local de destaque nas novas constituições do Equador (promulgada em 2008) e da Bolívia (2009). Revela aliança entre tradições indígenas e outras modernidades.

Na Constituição da Bolívia, aparece em outras línguas no Artigo 8, Capítulo Segundo, que aborda “Princípios, valores e fins do Estado”: “O Estado assume e promove como princípios ético-morais da sociedade plural: ama qhilla, ama llulla, ama suwa (não sejas preguiçoso, não sejas mentiroso nem sejas ladrão), suma qamaña (viver bem), ñandereko (vida harmoniosa), teko kavi (vida boa), ivi maraei (terra sem mal) y qhapaj ñan (caminho ou vida nobre).” (Uma lembrança: quando teremos nova edição de “Terra sem mal”, livro sublime de Helène Clastres?)

No Equador – sigo comentário de Eduardo Gudynas, apresentado abaixo – o “Buen Vivir” tem interpretação pragmática, transformado em conjunto de direitos. O capítulo “Direitos do Bem Viver” é dividido nos seguintes tópicos: água e alimentação, ambiente são, comunicação e informação, cultura e ciência, educação, habitat e moradia, saúde, trabalho e seguridade social. Citei todas para mostrar como o “Buen Vivir” foi empossado no fundamento de tudo. O Equador criou o “Plano Nacional Buen Vivir”. Vale transcrever trecho especialmente expressivo: “O ‘Buen Vivir’ supõe ter tempo livre para a contemplação e a emancipação, e que as liberdades, oportunidades, capacidades e potencialidades reais dos indivíduos se ampliem e floresçam de modo que permitam lograr simultaneamente aquilo que a sociedade, os territórios, as diversas identidades coletivas e cada um – visto como um ser humano universal e particular ao mesmo tempo – valoriza como objetivo de vida desejável (tanto material como subjetivamente e sem produzir nenhum tipo de dominação de um sobre outro)”.

Repare bem: isso não é um manifesto utópico, é um plano de governo realmente existente, que gera tarefas para todos os ministérios. Por exemplo: no Ministério da Educação há o “Projeto Escolas do ‘Buen Vivir'”, sugerindo até alimentação natural e de produção local para os “bares escolares”.

Claro que intenções tão bonitas geram desconfianças. Ou mesmo críticas contundentes, como aquelas que apontam contradição entre discursos e ações governamentais. No Equador, a pregação sustentável convive com protestos contra os planos de “megamineração” de cobre também do governo em acordo com empresas chinesas.

Eduardo Gudynas – um dos mais influentes pensadores do “Buen Vivir” e pesquisador do Centro Latino-americano de Ecologia Social no Uruguai – faz diagnóstico dessa situação contraditória comum a tantos governos de esquerda da região: o apego ao “progressismo”, que confunde crescimento com ideal de vida, investindo em extração de commodities ou aumento do consumo como salvação nacional, colocando considerações ambientais em segundo plano. Viver bem seria produzir riqueza para produzir mais riqueza e assim por diante, até o Fim. Gudynas, que admite semelhanças entre o “Buen Vivir” e o movimento do “decrescimento” (que este ano também fez sua estreia nesta coluna), diz que hoje o “desenvolvimento” atua como uma “categoria zumbi” na política latino-americana. Todo mundo sabe que é um morto cada vez mais vivo, do qual nenhum país ou política consegue se livrar, apesar de todos acreditarem em palavras que decretam seu esgotamento total.

E a sedução zumbi ostentação do consumismo desenvolvimentista continua vigorosa, mesmo na cultura. Acabo de descobrir (obrigado pela dica, Jô Hallack) a arquitetura cholet, criada pela nova classe média boliviana, que inspira os cenários e figurinos do Esquenta! este mês. Comerciantes ambulantes indígenas ganharam grana e agora colorem suas casas e ruas com uma mistura de tradição e futuro, o outro lado do “Buen Viver”. Volto à tragédia de “A novidade”: sereia estendida na praia, metade busto de deusa maia, alguns a desejar seus beijos divinos, outros fritando seu rabo para ceia. Tudo complexo demais.

***

Confissão e agradecimento: há um mês nunca tinha ouvido falar do “Buen Vivir”. Quem me apresentou ao movimento foi Eduardo González, um dos fundadores do Partido Pirata Argentino, que publica vários textos desta coluna em espanhol. Vivendo e aprendendo. Só vivo bem quando aprendo coisas novas.

FabTudo

07/03/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/03/2015

Neil Gershenfeld faz o futuro. Bem naquele sentido de quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Ou acompanhando o movimento maker, que sempre reaparece aqui na coluna. Acompanhando não: Gershenfeld está na vanguarda fazedoura. Pode até ser considerado o pai fundador do atual tsunami faça-você-mesmo, versão século XXI, pós-cibercultura.

Tudo começou na sua sala de aula do MIT, no curso “Como fazer (quase) tudo”. Quando propôs a ementa, Gershenfeld tinha em mente uma turma de poucos nerds. Para sua surpresa, nos anos seguintes, houve superlotação de alunos, com as mais variadas formações: cientistas da computação (como Jason Taylor, que cuida da infraestrutura do Facebook, e Rafi Krikkorian, infraestrutura do Twitter) ao lado de artistas. Por isso seus ensinamentos foram viralizados em vários ambientes, e se transformaram num movimento/atitude/estratégia de vida e produção das coisas necessárias para a vida. Deu na revista “Make” e nas feiras Maker, que são cada vez maiores, e mais influentes. Tanto que no ano passado uma delas foi realizada, com Gershenfeld na organização, nos jardins da Casa Branca, Obama presente e entusiasta.

A metodologia e as máquinas fazedoras utilizadas no curso “Como fazer (quase) tudo” formaram a base para a criação, também por Gershenfeld e o pessoal do seu departamento do MIT (chamado Centro para Bits e Átomos, justamente por trabalhar na convergência dos territórios “digital” e “real”), dos Fab Lab, que são pequenos laboratórios/fábricas públicos capazes de produzir quase tudo (equipamentos comuns: cortadoras a laser; cortadoras de vinil; prensadoras; impressoras 3D). O primeiro Fab Lab foi aberto em 2001. Rapidamente uma rede fazedora se espalhou pelo mundo, de Jalalabad ao Rio de Janeiro, passando por áreas rurais africanas.

Em palestra recente publicada no site “edge.org”, Gershenfeld explica o caminho do Fab Lab para a Fab Academy, utilizando a rede de labs e aulas online para formar novos fazedores, capazes de criar até máquinas que criem máquinas e assim por diante. É uma nova proposta pedagógica: as universidade tradicionais, como o MIT, seriam como um computador mainframe, pesado, e a Fab Academy funcionaria como a internet, conectando milhares de pequenos computadores. O futuro nos transportaria para uma organização de saberes pré-Renascença, época na qual – Gershenfeld acredita – houve a ruptura perniciosa entre artesãos – fazedores, os que colocam a mão na massa – e cientistas – pensadores, que criam conceitos abstratos. Hoje, e cada vez mais no futuro, pensar e fazer devem ser atividades simultâneas, misturadas. Mais interessante ainda: a Fab Academy concede diplomas que estão em vias de serem reconhecidos por ministérios da educação de todo mundo. As matrículas para os vários cursos de 2015 ainda estão abertas. Bom aproveitar.

No Rio de Janeiro, o “Olabi”, em Botafogo, e o SENAI FabLab, em Benfica, são nossas portas de entrada para esse admirável mundo novo da manufatura digital e personalizada, que é muitas vezes descrito já como a mais recente etapa da revolução industrial. Os computadores pessoais e a internet descentralizaram a produção de bits, agora chegou a hora de fazer a mesma coisa com os átomos dos objetos físicos, incluindo máquinas e seres vivos. A cidade que parece estar na dianteira neste processo tecnocultural é Barcelona, que planeja ter fablabs em cada um de seus bairros e trabalha com meta bem ousada: produzir (quase) tudo que consome dentro do seu perímetro urbano.

O “Olabi” realizou na semana passada seu primeiro evento de biohack. Essa é uma tendência também global. O próprio Neil Gershenfeld tem trabalhado com George Church – geneticista, engenheiro molecular – na elaboração de novo curso, que promete ser também popular: agora o objetivo é “Como cultivar (quase) tudo”. O “tudo” inclui novos organismos biológicos, dos mais simples aos mais complexos. Claro que as questões éticas levantadas pela proliferação de laboratórios públicos capazes até de modificar DNA devem ser tratadas com enorme cuidado, pois evidentemente os perigos são enormes. Mas não há caminho de volta: os conhecimentos científicos de ponta, e os aparelhos para produção desses conhecimentos, são cada vez mais acessíveis para toda a população. Ninguém mais conseguirá escondê-los em tubos de ensaio de grandes universidades ou grandes empresas. Assim como para as indústrias culturais (fonográfica, cinematográfica etc.) nada será como antes desde a popularização da internet, agora todas as outras indústrias (farmacêutica, automotiva, construção etc.) vão ter que se reinventar se quiserem continuar relevantes no nosso fab-futuro-aqui-agora.

 

Rede Sarah

28/02/2015

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/02/2015

O doutor Campos da Paz faleceu há pouco mais de um mês. Precisamos continuar a homenageá-lo. Para isso, nada melhor do que aprender com os ensinamentos de sua rica trajetória de vida. Sabemos que saúde pública é um dos principais problemas do Brasil. Nenhum programa nessa área deve ser inventado sem levar em consideração a história, as batalhas e as conquistas da Rede Sarah, criação muito original do doutor Campos. Falo de dentro, sem distanciamento: hoje sou conselheiro dessa instituição. É uma grande honra poder contribuir para seu trabalho, garantia de melhores condições de vida para muitos brasileiros, e que inspira outras experiências de medicina em vários outros países, tanto pobres como ricos. Para entender a razão para essa minha convicção vou tentar resumir o caminho bem pessoal que me aproximou, no pior momento de minha vida, da Rede Sarah e do doutor Campos.

Muitos leitores devem lembrar que há 14 anos meu irmão Herbert sofreu um grave acidente, no qual perdi minha cunhada Lucy. Naquele período de tristeza avassaladora, um conforto foi receber generosas ofertas de ajuda, tanto de amigos próximos quanto de desconhecidos. Havia a necessidade de fazer escolhas de tratamentos para dois tipos de lesão, a medular e a cerebral. As opções eram radicalmente díspares. Hoje consigo até rir quando penso no seguinte dilema quase político: houve convites para ir para Cuba e para Miami. Como tomar a decisão? Gosto de estudar: mergulhei em livros e em revistas médicas procurando a fronteira do conhecimento nessas áreas.

Ainda bem que as neurociências já estavam vivendo momento de popularização. Em capítulo de António Damásio encontrei a descrição de um problema que imaginei ter a ver com o que estava vivendo em casa. Nem pensei duas vezes: fiz uma busca na internet e consegui o endereço eletrônico de Damásio. Estava tão desesperado que mandei imediatamente email para ele, na cara de pau, explicando a situação. Para minha surpresa, logo recebi sua resposta, com indicação do nome de médico de Iowa que poderia me orientar melhor. Várias mensagens adiante, um conselho: não havia motivos para tratamento longo e/ou custoso fora do Brasil. Era importante para a melhora a permanência perto da família. O tal médico de Iowa terminava sua correspondência comigo indicando o nome de uma das maiores especialistas em reabilitação neuropsicológica do mundo: Lúcia Willadino Braga, hoje presidente da Rede Sarah.

Tomei coragem novamente e escrevi para a doutora Lúcia. Li tudo o que podia sobre a Rede Sarah. Outros pacientes me alertaram inclusive para me preparar para um eventual encontro com o doutor Campos. Ele seria duro, não tentaria nos seduzir com falsas promessas de cura. Acompanhei a internação do Herbert no Sarah Brasília. No andar onde ficam os pacientes com lesão cerebral convivi com sofrimentos que não imaginava suportáveis por nenhum ser humano, tudo agravado pela desigualdade social brasileira. Uma vizinha de leito tinha viajado, enfrentando dores extremas, de canoa e kombi, partindo de localidade remota da Amazônia. Era um panorama terrível do Brasil. Mas ao mesmo tempo estávamos ali reunidos em hospital público, recebendo um tratamento de excelência, que antes eu não tinha ideia que existia no país.

Quando escrevo tratamento de excelência, não estou pensando em luxo. Hoje, há uma tendência no serviço hospitalar privado que confunde qualidade com aparência de hotel cinco estrelas. As pessoas fingem não perceber como isso encarece de forma desnecessária os tratamentos. Na Rede Sarah tudo é digno, e de ponta, mas nada é ostentação. Muitas soluções, como prédios construídos para aproveitar luz e ventilação naturais, foram produtos da parceria criativa entre o doutor Campos e o arquiteto Lelé. Não entendo a razão para objetos inventados nas oficinas da Rede Sarah não sejam adotados em outras casas de saúde. Como aquelas camas, leves e de design lindo, bem diferentes daqueles monstrengos eletrônicos importados, que devem custar pequenas fortunas, além de consumir energia e manutenção difícil. (O pior é que vejo muita gente acreditando que hospital bom tem que ter esse tipo de cama cara. Até quando vamos ignorar ou desprezar as boas soluções criadas por aqui?)

Tive o privilégio de conviver com o doutor Campos nas reuniões do Conselho. Ele estava na cadeira de rodas, com aparelho de respiração. Mas falava animado dos livros que queria escrever. Sabia que agora tinha tempo, pois preparou equipe brilhante para continuar a missão da Rede Sarah. O tempo foi curto. Mas sei que um livro está pronto e que a qualidade do atendimento da Rede Sarah permanecerá como sua melhor lição.


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