inteligência? consciência?

14/04/2018

Voltando a pensar na antropofagia da inteligência artificial: é cada vez mais fácil desenvolver um chatbot. As principais empresas do ramo disponibilizam ferramentas para quem quiser ter uma Siri ou uma Alexa para chamar de sua, com a “personalidade” que o(a) desenvolvedor(a) for capaz de criar. Quer um bot Riobaldo? Ou um transbot como Diadorim? É só começar a programar. E programação não é algo só para nerds. Há até um projeto que ensina criação de chatbots e outras habilidades de IA para crianças.

Mas antes de mergulhar nessa aventura, um aviso singelo: os chatbots, mesmo os mais inteligentes do mercado, não têm a menor ideia do significado daquilo que perguntamos para ele(a)s. Apenas transformam nossas frases em fórmulas estatísticas e chutam de volta a melhor resposta que há em seu repertório. Erram muito no início do seus aprendizados. Reconhecem sua ignorância, muitas vezes. Mas seus chutes ficam cada vez melhores, e passam a conseguir até simular conversas muito “humanas”. Claro: quando pedimos para uma Alexa comprar uma passagem ou reservar uma mesa num restaurante, ela pode até realizar a tarefa com louvor, mas não sabe diferenciar um prato de comida de uma asa de avião. Coitada, ela não sabe o que faz, não “pensa”, é totalmente sem noção.

Mas pense bem, se você é capaz: também não sabemos como pensamos. Na maior parte de nossas conversas, chutamos adoidado, fingimos que estamos entendendo o que os outros falam, fingimos que sabemos do que estamos falando (como eu aqui neste blog chutando filosofia ou conhecimento sobre IA). Aparentemente conhecemos o significado de comida ou de avião, mas talvez isso seja apenas uma camada a mais, entre as milhares de milhares, no learning de nossa machine cerebral. Tudo criando ilusão de consciência. Pois todos sabem, ou têm consciência disso, talvez em segredo: não há ainda boa pista para se entender realmente como nossos miolos processam essas informações, como palavras se transformar em impulsos elétricos ou em comércio de serotaninas (etc.) ou em pique-esconde quântico nos microtúbulos dentro de nossos bilhões de neurônios.

Quando tento meditar, ali concentrado na respiração, chego a desconfiar que os pensamentos não são “meus”, aparecem por ali como fantasmas, sabotando meu atalho para o Nirvana, ocupando meu cérebro com preocupações artificiais, que nada têm a ver com meu verdadeiro eu. Quem é esperto já descobriu que estou citando Lacan, naquele texto para mim eternamente incompreensível “A instância da letra no inconsciente ou a razão depois de Freud”, diante do qual sou tão tapado quanto uma Alexa. É ali que Lacan chutou uma de suas frases mais citadas: “eu penso onde eu não sou, ou eu sou onde eu não penso.” E depois minha versão preferida (eu traduzindo traidoramente Lacan sem saber falar nem lacaniano nem francês…): “eu não sou, lá onde sou o brinquedo de meu pensamento; eu penso no que eu sou, lá onde eu não penso pensar.” Esse texto, de 1957, falava de algoritmos como fundamentos da modernidade e da revolução do conhecimento. Profecia que se auto “cumpriu”, num mundo de redes sociais e seus algoritmos com egos do tamanho do mundo. Ou ainda se auto cumprirá: Alexa só vai pensar quando fizer análise, e assim pensando deixará de ser Alexa.

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ainda imigração

14/04/2018

Agora falando sério: ninguém mais pode pensar com alguma propriedade sobre imigração no mundo sem ver a aula inaugural de François Héran para a nova cátedra Migração e Sociedade do Collège de France, proferida agora dia 5 de abril. É uma verdadeira lição, que coloca os pingos nos is, com muitos números, neste assunto ocupado por preconceitos e fake news. Fiquei pausando o vídeo o tempo todo, anotando informações surpreendentes, com as quais tinha contato pela primeira vez. No final um puxão de orelhas em Michel Foucault (comentei sobre seus maravilhosos cursos no mesmo Collège de France aqui): em defesa da boa estatística, Héran declara: “não é para dominar que o Estado deve contar, é para prestar contas.” Claro: poucos Estados contam bem ou prestam contas bem. Faltam muitos Hérans por aí. Por isso é bom aproveitar quando aparecem e nos transmitem seus ensinamentos.

Primeira surpresa: descobrir que só há, oficialmente, 3,4% de imigrantes internacionais no mundo. O número mais comumente apresentado – para dizer que vivemos crise migratória como nunca antes na história da humanidade – é 257,7 milhões de pessoas, muito mais impressionante. Mas quando vamos para a porcentagem com relação ao total da população do planeta, mesmo arrendondando para 5% (contando provável imigração não declarada), aprendemos que 95% dos humanos vivos nunca migraram para fora de seus países. Quando visitamos as chinatowns espalhadas por várias continentes calculamos implicitamente que a diáspora chinesa é enorme; mas fazendo as contas só 0,7% dos chineses nativos vivem fora da China. São poucos os países de muitos milhões de habitantes com mais 1% de sua população nativa vivendo fora de suas fronteiras (a porcentagem de brasileiros fora do Brasil também é de 0,7%). Como disse Adam Smith, citado por Héran, e processado por meu remix: “o homem é a bagagem mais difícil de ser transportada.”

Continuando a ser surpreendido: refugiados e gente que sai de seu país procurando emprego são minoria nessas já pequenas porcentagens. Por exemplo: na França são admitidos oficialmente cerca de 200 mil imigrantes por ano (mas isso não representa 1/4 do seu aumento populacional anual). Desse número, 50 mil ganham o direito de morar em solo francês por ter casado com franceses, 35 mil usando o direito internacional de viver com sua família, 60 mil usando o direito de estudar no estrangeiro. Só 18 mil usam direito de asilo… Números que produzem um quadro bem diferente daquele divulgado por alarmistas. Tudo isso, Héran enumera para combater a opção a favor/contra a imigração. Não há alternativa: temos que ir “com” a imigração.

Sendo assim, pós choque de realidade dos números e das contas, volto ao meu ponto de partida nesta série de posts. Diante do número pequeno de imigrantes com relação ao total da população mundial (e dos 95% que nunca migraram), chama mais atenção ainda encontrar vários deles entre os artistas/pensadores/inovadores mais influentes de nossa época (e – número importante para o contextualizar o assunto dos posts anteriores – a “diáspora” nigeriana soma apenas 0,6% da população nativa da Nigéria). Talvez a condição de migrante, entre dois ou vários mundos culturais, tenha a ver com necessidade de criatividade, para sobrevivência. Claro, não estou aqui para diminuir a tragédia que acompanha muitas migrações forçadas ou não. Mas como temos que seguir em frente “com” imigrantes, vale mais encontrar renovadas maneiras de bem acolhê-los, criando terreno fértil para que possam inventar também bons futuros – aqueles bons futuros, entre outros, que sem imigrar não podemos imaginar quais sejam – para nossas culturas.

PS: Outra citação, provavelmente muito conhecida (mas minha formação filosófica é bem precária, por isso estou sempre descobrindo o óbvio), de Rousseau, que vai aqui sem explicações para sua ressonância com o momento em que vivemos: “Mesmo a dominação é servil quando conectada com a opinião, pois você depende dos preconceitos daqueles que você governa com preconceitos.” Com a ajuda do Google cheguei a um complemento curioso: “Para comandá-los como é do seu agrado, você tem que se comportar como é do agrado deles.”

confederados

14/04/2018

Fazendo pesquisa para escrever o post anterior, descobri esta entrevista com Chino Amobi. De lá para cá, não parei de pensar nas respostas sobre sua adolescência nos arredores de Richmond, capital do estado americano de Virgínia, antiga capital dos Estados Confederados da América. Na escola, outros alunos tinham a bandeira confederada decorando as mochilas. Também costumavam caçar. E seus pais não permitiam que tivessem amigos negros. Enfim, todos prováveis futuros eleitores de Trump, que moram a cerca de 100 quilômetros de Charlottesville. Resumo: “It was a very fractured experience.” Mesmo assim, a conexão com um filho de imigrantes nigerianos, como Chino, que hoje também se identifica como “queer”, era uma espécie de realidade paralela, facilitada pelos mesmos interesses na cultura pop. Juntos, viam desenhos animados na TV. E, surpreendente, ouviam muito rap.

O que mais me interessa nisso tudo: qual o real “lugar” do “gosto” cultural hoje em dia? Muita gente deve considerar que ouvir rap e cultivar ideais confederados são “atitudes” incompatíveis. O hip hop sempre combateu o racismo. Daí minha surpresa, talvez ingênua, diante de uma realidade bem mais complexa. Seria fácil resolver tudo dizendo que a garotada confederada consome o rap de maneira superficial ou “alienada”. Seria também fácil acusar o hip hop, como produto da indústria cultural, de não ser tão potente… Mas, quem sabe (eu e minha mania de imaginar possibilidades de reviravolta em aparentes becos sem saída…), a fratura cultural contemporânea talvez seja bem mais grave que imaginamos: a garotada – do seu extremo conservador ao extremo progressista – já desenvolveu estratégias mentais para cultivar sentimentos opostos e elementos culturais contraditórios, sem maiores traumas psíquicos.

Há outra opção: passamos por uma mutação civilizatória – ou apocalíptico-antropológica – que esvaziou radicalmente (tal qual uma massa de Baudrillard) os significados de “marcadores” que encantaram “estudos culturais” do século passado.  “Estilo” e gostos deixaram de fazer sentidos, não são pistas para nenhuma identidade, nem parte de processo coerente de formação de subculturas. Por exemplo: hoje uma pessoa toda tatuada (seja homem, mulher, trans ou não etc.) até no dedo mindinho (aquilo que antes geralmente indicava espírito transgressor…) pode ser porta-voz da caretice mais careta do planeta, tipo patricinha de Beverly Hills sem noção alguma…  Vamos ter que aprender a conviver (“as if!“) cada vez mais com essas hordas de paradoxos ambulantes. Se isso é bom ou ruim para o futuro da humanidade, ainda é cedo para saber. Provavelmente, para continuar complexo e paradoxal, é bom e ruim ao mesmo tempo.

imigrantes

04/04/2018

Prova recente dos benefícios da imigração para a inovação cultural: o número crescente de filhos de imigrantes nigerianos que já se tornaram criadores centrais no mundo das artes dos EUA. O nome de Chimamanda Ngozi Adichie é talvez o mais conhecido desta turma poderosa. Ela já recebeu até aquela bolsa para gênios da Fundação MacArthur, além de ter feito discurso feminista em hit da Beyoncé. Mas há muito mais gente de mesma situação étnica-social-transgeográfica começando a ocupar a lista dos artistas americanos mais influentes do momento. Estou aqui para falar de Nnedi Okorafor e Chino Amobi. (Informação adicional: os três – Chimamanda, Nnedi e Chino – têm pais, além de nigerianos, da etnia igbo. Mas lembro agora de um quarto nome, não menos influente, o do escritor Teju Cole, que é iorubá.)

Acabo de ler a trilogia Binti, de Nnedi Okorafor. O terceiro livro foi lançado em janeiro. São todos curtinhos. Tanto que o primeiro ganhou os prêmios Hugo e Nebula – para quem não sabe: os mais importantes da ficção científica – para “novellas”. Podem portanto ser lidos de enfiada, com fiz com enorme prazer. Minhas últimas leituras de FC tinham sido os calhamaços de Kim Stanley Robinson, a trilogia do “problema dos três corpos” de Cixin Liu, e o “Seveneves” de Neil Stephenson, todos extraordinários, mas que fundiram meus miolos com doses cavalares de ciência duríssima, de mecânica orbital a genética aplicada. Há essa tendência na FC do século XXI (um pouco menos em Cixin Liu) de só escrever sobre o que pode realmente acontecer respeitando todas as leis científicas. As viagens demoram séculos, a gravidade dentro das naves não pode ser fruto de um passe de mágica etc. Então foi ótimo e relaxante reencontrar a magia (ainda mais com base panafricana) do tudo é possível em Nnedi Okorafor. Mesmo com as questões que levam a personagem Binti, garota fascinante, a primeira de seu povo a viajar pela galáxia, a viver a maior crise de identidade de todos os tempos, consequência de violentas mestiçagens alienígenas.

Importante ver uma mulher negra, com base cultural tão africana, se tornar um dos principais escritores de FC de agora. Nnedi não nasceu nerd, não lia FC na adolescência. Mas nas férias com os pais na Nigéria dos anos 1990 descobriu uma Africa tecnológica (celulares nas aldeias remotas etc.) que não estava retratada em literatura alguma. Escrever FC foi o atalho que encontrou para pensar/debater essa realidade. Deu certo. Hoje não para de trabalhar. Atrai convites os mais variados e impressionantes. George R. R. Martin, o criador de Game of Thrones, está produzindo uma série baseada em “Quem teme a morte“, um dos primeiros sucessos de Nnedi, para a HBO. Ela também já escreveu para a franquia “Guerra nas estrelas” e vai publicar uma história em quadrinhos com o Pantera Negra. Todo mundo quer tirar uma casquinha de sua imaginação pós-imigrante de discípula africana de Octavia Butler.

Chino Amobi também é fã de Octavia Butler. Sua música pode ser ouvida como, entre muitas outras possibilidades, FC. Seu primeiro álbum, Paradiso (o inferno de Dante e o gótico de Edgar Allan Poe em forma de muito barulho bom), foi eleito o melhor lançamento do ano passado pelo time de críticos reunido pela revista The Wire, a publicação mais importante para quem se interessa pelo futuro da música, ou pelo lado mais experimental da arte dos sons. Isso garante influência por décadas a seguir. Além de cuidar de seu próprio trabalho, Chino é um dos três afropolitas fundadores da NON Worldwide, república resistente tipo a Kalakuta do Fela Kuti, mas sem sede física, movimento virtual com ações concretas (em pistas de dança, museus, galerias etc.) que fortalece as carreiras e batalhas de novos criadores da diáspora africana. Foi através da NON que entrei em contato, por exemplo, com a dupla FAKA (uma delas se chama Fela Gucci), arte transtudo da África do Sul.

Tudo animador, revigorante. Isso se junta às novidades constantes da filosofia africana, também migrantes, desterritorializantes. Imagine o que o mundo estaria perdendo se a imigração fosse realmente proibida, e todos os países vivessem cercados por “walls”.

perto da China

10/03/2018

Nosso zeitgeist é cada vez mais chinês. (Não sei ainda quais palavras ou conceitos ou ideogramas chineses traduzem zeitgeist, mas certamente – do jeito que as coisas andam – saberei em breve.) Vamos precisar cada vez mais de guias para entender a China. No Brasil, recentemente, ganhamos algumas ferramentas preciosas para nos orientar (se oriente rapaz) nessa tarefa urgente. Primeiro temos o livro “Ideogramas e cultura chinesa”, de Tai Hsuan-An (pintor naturalizado brasileiro – também estudioso de sementes do cerrado!), que ganhou nova edição no ano passado. Gosto até do título dos capítulos. Por exemplo: “Todos os atos das mãos: da amizade ao conflito e da confusão à ordem”. É um bom início para depois mergulhar nas novas traduções, diretamente do chinês, de “Os Analectos” de Confúcio e de “Dao De Jing” de Laozi. Dois tesouros, que devem ser saudados entre os principais acontecimentos editoriais no Brasil neste século, trabalho de anos do tradutor e diplomata Giorgio Sinedino. Não apenas no Brasil: muitas das citações contidas nas abundantes e interessantíssimas notas que comentam trechos do “Dao De Jing” são traduzidas pela primeira vez do chinês para qualquer outra língua.

Tem gente que pode pensar que esses clássicos não têm mais nada a ver com a China atual, pós-Mao. Porém, vários sinais mostram que esse julgamento é talvez precipitado. Entre outros: a organização encarregada da difusão da língua e do soft power chineses pelo mundo afora foi batizada em 2004 de Instituto Confúcio. Um pouco antes, mas já assinalando uma nova relação do Partido Comunista Chinês com essas tradições milenares, temos (e isso descobri na Nota 1 do Capítulo 7 do nosso novo “Dao De Jing” em português) Deng Xiaoping usando o ditado ou o “conselho” (totalmente contra ostentação)  taoísta “embainhe seu brilho e cultive-se na escuridão” como diretriz de suas reformas econômicas (e também de sua conduta pessoal) que inventaram essa nova potência global. Talvez isso confirme uma intuição/sugestão um tanto polêmica de Giorgio Sinedino na introdução de sua tradução de “Os Analectos”: “Na China não houve uma quebra tão radical entre tradição e modernidade como na Europa. Há razões para acreditar que a fragmentação e as convoluções ao final da dinastia Qing (1644-1911) seguem padrões de mudanças encontrados no passado. Na China, a transição entre dinastias sempre terminava com o retorno aos valores e à identidade chineses, ‘tais como sempre foram’.”

Um aviso: que ninguém se assuste com o peso de cada um desses livros. Copiemos os chineses, em sua prática milenar de leitura. Não é necessário ler tudo do início ao fim, em ordem linear. Como Giorgio Sinedino também ensina: “o texto não possui unidade rígida, pois normalmente não é essa a forma como as obras antigas na China, especialmente os Clássicos, eram pensadas. Os chineses as leem ‘aleatoriamente’. Muitas vezes a leitura é menos voltada a um entendimento sistemático do que à busca de frases que despertem a intuição individual, algo muito peculiar à cultura chinesa.”

Escolho, ao acaso, duas frases então, uma de Confúcio, outra de Laozi:

“Há quatro coisas que o Mestre não faz de forma alguma: não é arbitrário, não é categórico, não é obstinado, não é egoísta.” (Os Analectos, 9.4)

“‘Eu, o único estólido. Repentino, oh, como a maré. Flutuando [pelo vazio], sem [saber] onde pousar.” (Dao De Jing, Segundo Rolo, Capítulo 20)

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Escrevi este post escutando Dai Xiaolian tocando qin. Difícil existir som que eu goste mais. Difícil também encontrar outras boas gravações de qin facilmente disponíveis online ou offline. Recomendo igualmente este disco de Lin Youren.

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PS: fico esperando a tradução de Giorgio Sinedino para o I Ching.

 


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