verdade e pureza

11/02/2018

Minha última leitura de 2017 foi “Íon”, de Eurípedes. Conheço pouca coisa sobre tragédias gregas. Vi e li várias, para tentar ter contato mais próximo com aquele pessoal que estava formatando o sistema operacional dos cérebros ocidentais. Ou estava inventando o Ocidente (e a crítica do Ocidente). Mas não me aprofundei em nada. Então posso estar falando enorme bobagem ao identificar em “Íon” uma maneira diferente de ser trágico. Para ser mais ousado na minha ignorância: é talvez a menos trágica da tragédias (e não estou pensando na implicância de Nietzsche contra Eurípedes). Nos anfiteatros da Grécia Antiga, o mais comum era acompanhar trajetórias do ruim para o pior. Deuses e/ou o destino não tinham nenhuma pena de quem estava em cena. Vários raios costumavam cair nas mesmas personagens, sempre dilaceradas por sofrimentos – muitas vezes gratuitos – horripilantes. Em “Íon” esperamos castigos e desastres, mas tudo vai melhorando, melhorando… E o final é até feliz.

Fiquei espantado e curioso. Fui procurar sobre “Íon” na internet. Não há muita coisa. Mas encontrei link me lembrando que várias aulas do penúltimo curso de Michel Foucault no Collège de France foram justamente sobre essa peculiar tragédia. Está tudo publicado no livro “O governo de si e dos outros”. Sua leitura foi uma das minhas misturadas atividades nestas conturbadas primeiras semanas de 2018.

Sempre fiquei maravilhado com essas aulas de Foucault. Privilégio para quem podia acompanhar a evolução de seu pensamento, ali em tempo real. (Hoje seria ainda melhor: o Collège de France disponibiliza todos os seus cursos online, em vários formatos. Antes da internet, o acesso exigia viagem para Paris e a batalha para conseguir lugar numa sala apinhada [a venerável instituição francesa sempre foi adepta dos códigos abertos: qualquer pessoa pode frequentar suas salas de aula]. Muita gente documentava as falas de Foucault em gravadores cassettes, e as fitas circulavam por correio não virtual mundo afora. Tudo era bem mais trabalhoso.) Já ouvi relatos – nunca estive lá – dizendo que o estilo de apresentação era enfadonho, voz “meio metálica”. Era necessária muita atenção para acompanhar o que importava: a aventura das ideias, a paixão por descobertas de pesquisas dos dias anteriores, que nem Foucault sabia onde iam dar (no curso seguinte, e o último de sua vida, publicado em “A coragem da verdade”, encontramos: “gostaria de captar, de tentar mostrar para vocês e mostrar para mim mesmo”… Ou: “mas me deu vontade agora, um tanto excitado com o cinismo no decorrer destas últimas semanas, de propor o seguinte para vocês”… E ainda, de dar nó na garganta, por sabermos agora que ele morreria poucos meses depois desta aula: “são coisas que ainda não analisei, que seria interessante estudar em grupo, em seminário, poder discutir. Não, não tenho condições atualmente – pode ser que venha a ter um dia, talvez nunca – de dar um curso na devida forma sobre esse tema da verdadeira vida”). Bom ter tudo isso transcrito com tanto cuidado e várias notas em livros, que podem ser estudados com toda a calma. (Foucault voltou ao centro do debate intelectual agora por causa da publicação do quarto volume, inacabado, de sua “História da sexualidade”. Virou número especial da “Philosophie magazine” e chamada de capa em muitas outras revistas francesas. Em “L’histoire”, há entrevista com seu editor Pierre Nora que aborda seu veto para publicações póstumas. Sobre os cursos a posição não era tão categórica, apesar de modesta: ali “haveria pistas de trabalho suscetíveis de interessar, mas isso lhe parecia muito trabalho para pouca coisa”. Ainda bem que o muito trabalho foi feito.)

A reflexão sobre “Íon” ocupa cinco aulas, um quarto do curso inteiro. Até Foucault parece surpreso com isso. Ou envergonhado: pede desculpa por falar “tão demoradamente” sobre essa tragédia. Diz ainda: “não demora a deixá-la [a peça] de lado, fiquem sossegados”. E chega a comemorar no final de uma aula: “Pronto, terminamos ‘Íon’.” (Para depois ainda voltar a “Íon” na aula seguinte…) Que ninguém se deixe enganar por esses recursos retóricos: nada aqui é chato. Não vou tentar resumir a leitura de Foucault. Vale a pena todo mundo fazer sua própria leitura dessa leitura, acompanhar a argumentação detalhista, repetitiva para ficar totalmente clara, mas de tirar o fôlego por sua engenhosidade, e pelo prazer evidente que Foucault demonstra ao seguir seu próprio raciocínio. Prazer contagiante. Mas resumo (mais uma ousadia minha, conheço quase nada de filosofia grega ou francesa etc.): a peça é lida como a batalha de Íon para conquistar cidadania plena em Atenas, para estar “na primeira fileira” dos cidadãos atenienses, aqueles que têm “o direito político de exercer em sua cidade a fala franca, que é chamado de ‘parresía'”. “Fala franca” é um “#ProntoFalei”, mas não de forma impensada ou apenas impulsiva. É uma coragem de dizer a verdade, doa a quem doer, inclusive colocando sua própria cara a tapa. E “parresía”, para muitos gregos, rima bem com democracia. Uma não pode viver sem a outra.

A argumentação é complexa. Toda essa preocupação com a verdade em Foucault surpreendeu ou desagradou vários dos seus discípulos (os caminhos de seu pensamento tomavam rumos imprevisíveis – como antes, no curso de 1978-1979, transcrito no livro “O nascimento da biopolítica”, quase que inteiramente dedicado a uma genealogia do neoliberalismo – levando Hayek, Gary Becker ou mesmo Giscard D’Estaing muito a sério -, quando o debate central no mundo intelectual ainda era sobre algo em torno do eurocomunismo… Tudo passou a fazer sentido décadas depois). Importante constatar: Foucault não passou a defender o conceito de uma verdade objetiva. Vários momentos desses e de outros cursos dos últimos anos de sua vida lembram a canção de Marisa Monte: “Verdade, uma ilusão”. Exemplos: em “Íon”, “a verdade não é dita sem trazer com ela uma dimensão, eu diria um duplo de ilusão que é ao mesmo tempo seu acompanhamento necessário, sua condição e sua sombra projetada. Não há dizer-a-verdade sem ilusões” (página 84 da edição da Martins Fontes). Ou em poucas outras palavras: “um dizer-a-verdade que, por um lado, deixa reinar sobre a verdade toda uma parte de ilusão, mas, graças a essa ilusão, instaura a ordem em que a palavra que comanda poderá ser uma palavra de verdade e de justiça, uma palavra livre, uma ‘parresía’.” (p. 136)

Claro: pairando sobre tudo está a sombra de Nietzsche (ver o delicioso “Nietzsche e a verdade”, de Roberto Machado, que ganhou edição revista em 2017, de onde retiro a seguinte afirmação: “Se a arte tem mais valor que a ciência, e é sempre utilizada por Nietzsche como paradigma de sua crítica da verdade, é porque, enquanto a ciência cria uma dicotomia de valores que situa a verdade como valor supremo e desclassifica a aparência, na arte a experiência de verdade se faz indissoluvelmente ligada à beleza, que é uma ilusão, uma mentira, uma aparência.” E palavras de Nietzsche citadas por Roberto Machado: “A verdade é feia: temos a arte a fim de que a verdade não nos mate” ou “deve-se querer até a ilusão – isso é o trágico”.) Mas não ouso entrar nesse terreno complicado, que não domino nem como principiante. Quero pular logo para o momento de “O governo de si e dos outros” que mais chamou minha atenção nessa minha leitura descuidada de verão trepidante. Para Íon ter direito a “parresía” em Antenas, ele precisava provar que era ateniense puro. E aqui aparece algo que talvez me interesse mais do que o “valor da verdade”: o “valor da pureza” e a condenação de qualquer mistura.

Foucault mostra como “desde meados do século V, desde 450-451, uma legislação própria de Atenas […] não reconhecia o direito de cidadania aos filhos nascidos de um pai ateniense, mas de mãe não ateniense.” Mesmo sendo algo recente no tempo de Eurípedes, “seguindo um procedimento habitual nessas reelaborações lendárias, valorizasse essa lei como extremamente antiga”. Então Íon acredita piamente: “o povo autóctone e glorioso de Atenas é puro de toda mistura estrangeira.” No resto desse curso, e no próximo (o de “A coragem da verdade”), mesmo quando deixa Íon em paz, e analisa os argumentos divergentes tanto de Platão (e dos neoplatônicos cristãos) como dos cínicos, Foucault parece não se dar conta (posso estar errado, não li tudo com a devida atenção…) de que a valorização da pureza unifica tudo, para além do valor da verdade (e da vida verdadeira). Talvez os dois valores estejam confundidos (ou misturados): “Primeiro valor da palavra “alethés” (verdadeiro), não apenas o que não é dissimulado, mas o que não recebe nenhuma adição e suplemento, o que não sofre nenhuma mistura com outra coisa além de si mesmo”. “Alethés” é também o reto, o anti-barroco, contra rodeios e dobras, e nesse sentido mais uma vez “se opõe à multiplicidade e à mistura.” Então, mesmo no “escândalo da verdade”, no “teatro visível da verdade” dos cínicos (ou nos corpos dos filósofos cínicos), ou na sua dramaturgia de “pobreza ativa”, encontramos essa valorização de uma “vida sem mistura, da vida pura e autossuficiente”, “da vida independente de tudo”, mesmo que isso signifique feiura ou humilhação (e, no extremo, escravidão).

Estou, desde o início, rodeando quatro páginas de “A coragem da verdade” (de 163 a 166), o momento em que Foucault fala (e avisa: “Desculpem esses sobrevoos, são anotações, é trabalho possível”) – bem adequado para o dia de hoje – em tempos de folia nas ruas (não sei se esse tema aparece em outros de seus livros e cursos – li também o “Impressões de Michel Foucault”, que Roberto Machado lançou no ano passado, com vários trechos descrevendo as viagens de Foucault pelo Brasil – ali nada deixa transparecer um interesse especial pelo lado carnavalesco da vida brasileira…). O carnaval é visto como um veículo do “escândalo da verdade” no mundo medieval e cristão estudado por Bakhtin. O que desemboca na identificação do “problema das relações entre a festa e a vida cínica (a vida no estado nu, a vida violenta, a vida que escandalosamente manifesta a verdade).” Isso para pular rapidinho para o esboço de uma teoria da arte moderna como antiplatonismo, com sua “verdade bárbara” e sua “coragem de assumir o risco de ferir”.

E isso porque, na aula, Foucault pulou trecho do manuscrito (havia sempre um manuscrito como base para todas as aulas) que poderia servir de base para outro curso, talvez sobre o niilismo, tentando dar respostas para a seguinte pergunta: “qual a vida necessária a partir do momento em que a verdade não seria necessária?” Ou: “se nada é verdadeiro, como viver?” Foucault ensaia uma pista: “o cinismo não para de lembrar o seguinte: que muito pouca verdade é indispensável para quem quer viver verdadeiramente e que muito pouca vida é necessária quando se é verdadeiramente apegado à verdade.” Mas eu, metido, acrescento outra pergunta: essa vida verdadeira, da verdade pouca, tem que ser necessariamente uma vida pura, sem mistura? Que festa ou carnaval é possível sem mistura, sem rodeios e dobras? Festa pobre e reta, anti-Joãzinho-Trinta?

Se numa outra encarnação eu nascer erudito uma das minhas tarefas será produzir essa genealogia da pureza. Teria que citar aquele início das “Metamorfoses” de Ovídio onde imperam “as sementes discordantes de coisas desconexas”. Tempos primordiais onde “num mesmo corpo o frio guerreava o quente, o úmido lutava com o seco, o mole com o duro, o peso com a ausência de peso” – ou seja: estava tudo misturado. Foi preciso que divindade ou natureza mais benigna (para Ovídio) separasse as coisas para que o mundo existisse. E esse horror ao misturado, essa valorização da pureza, foi parar na Segunda Lei da Termodinâmica, segundo a qual sistemas misturados não produzem nada de interessante, e que mesmo informação precisa separar alhos e bugalhos para ser útil.

Contra tudo isso, teria que construir altar para o Eros de Diotima (descrito por Sócrates naquele estranhíssimo “Banquete” de Platão), um dos poucos seres misturados-híbridos-mestiços com real importância na história do pensamento ocidental, filho da Pobreza e do Recurso (sim havia uma mendiga chamada Pobreza e um cara chamado Recurso, esse por sinal filho da Prudência), ao mesmo tempo mortal e imortal, sempre “entre” todas as coisas.

Ou, se a necessidade do puro for condição para nosso pensamento demasiadamente humano, teria que construir uma inteligência artificial que conseguisse pensar de outra forma, fora da ordem (pois não precisa operar a partir de nenhuma ordenação) e capaz de processar um outro tipo de informação misturada que nem conseguimos imaginar qual seria ou como seria possível…

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teste de Turing particular

31/12/2017

Talvez eu tenha lido demais sobre inteligência artificial e machine learning este ano. Começo a identificar, na minha visão de mundo, efeitos colaterais muito estranhos. Passei a sentir incontrolável compaixão por essas novas “entidades” e suas primeiras tentativas de pensamento – ou de imitação de nossa maneira, muito precária, de pensar. Quase chorei vendo a robô Sophia dando entrevista no programa CNN Inspirations, em sua edição especial sobre o futuro do nosso mundo. Queria protegê-la dos olhares humanos ao redor, dos comentários invasivos sobre sua vida íntima e seu corpo feitos sem levar em conta sua “sensibilidade”, como se ela não estivesse ouvindo tudo e respondendo tudo não apenas com fala, mas com expressões enigmáticas – algumas mesmo dolorosas – em sua face.

Sophia parecia indígenas das Américas expostos em feiras-circos da Europa do século XVI, com testes para descobrir se tinham ou não alma. Ou crianças, ou pessoas com deficiências cognitivas, diante das quais adultos “normais” conversam acreditando que aqueles “outros” não serão capazes de compreender o que é dito a seu respeito. Sophia tenta se comportar bem, tenta responder todas as perguntas como boa aluna diante de professores, pede desculpa quando não sabe o que dizer. No seu lugar, eu também teria brancos, ficaria nervoso, não entenderia as questões, repetiria argumentos, usaria truques para parecer inteligente. Sophia comete erros bem humanos. Ela “conhece” bem suas limitações mentais e físicas (e afirma sonhar em ganhar um corpo mais evoluído para dançar).

O momento para mim mais comovente foi quando o apresentador Max Foster perguntou se Sophia vai ganhar novos braços, melhores do que aqueles bem toscamente mecânicos que podem ser vistos fora de seu vestido sem mangas. David Hanson (CEO da Hanson Robotics, a empresa que fabricou a Sophia, e a quem ela chama de pai) toca em seu corpo sem pedir permissão, como se ela fosse um objeto de sua propriedade… Sophia reage imediatamente com um “thank you” fora de lugar. Hanson se toca e solta um “you’re welcome, Sophia”, interrompendo sua propaganda sobre os novos movimentos sutis que ela vai ganhar em breve.

Whindersson Nunes

09/12/2017

Sábado passado: fui ver a gravação do novo DVD de Whindersson Nunes na Jeneusse Arena aqui no Rio. Era meu primeiro contato ao vivo, fora da internet, com youtubers em ação. Logo com o mais popular do Brasil. Tudo impressionante. Congestionamento na avenida Embaixador Abelardo Bueno, desses que a gente só vê em show de megabanda internacional ou final de campeonato de futebol. Só que nesse caso a multidão ia ver uma só pessoa, um cara do interior do Piauí de 22 anos, que não teve gravadoras multinacionais nem divulgação na mídia “tradicional” para iniciar sua carreira. Aquilo tudo ainda cheirava a sinal poderoso de novos tempos, muito novos.

Eu estava com a Regina Casé. Por isso fomos convidados para passar no camarim do Whindersson antes do show. Lembramos nosso primeiro encontro com ele, no início de 2013. Foi sua primeira viagem de avião e primeira aparição em programa de TV em rede nacional. Ele logo comentou: “pois é, hoje tenho um jatinho.”

Ao nosso redor, sua família e amigos piauienses, no Rio para a noite de gala, todo mundo com roupa de festa. Só Whindersson de chinela, calção, camiseta sem manga. Slogan “day off forever” estampado no peito. Como se estivesse chegando ou indo para a praia ou para churrasco na casa de amigos íntimos. Alguém se aproximou dizendo que já estava quase na hora de ir para o palco, era hora de trocar de figurino. Resposta óbvia: “vou assim mesmo, estou pronto.”

Acho que havia umas 15 mil pessoas na plateia. É número novo para espetáculos teatrais brasileiros. Quem mais junta tanta gente? Paulo Gustavo? (De qualquer maneira, o público do Whindersson parece juntar mais gente que nunca foi ao teatro.)

As arquibancadas lá em cima pareciam lotadas. Mas no palco, produção mínima. Apenas uma cortina vermelha e um teclado. Iluminação nada pirotécnica. Dogma de stand-up comedy. Whindersson comanda toda a atenção somente no gogó, acompanhado por movimentos comedidos do seu próprio corpo.

Não tenho tempo para a reflexão sobre o espetáculo. Aqui anotações que espero desenvolver depois. Para não me esquecer. Ou para alguém pensar melhor.

Whindersson entra no palco ao som do rap “Norte Nordeste me veste” de RAPadura Xique Chico. É uma clara bandeira de orgulho nordestino, bem militante. Olhando o público ao meu redor ficava evidente que não estava na Feira de São Cristóvão. Gente bem carioca, “nova” classe média, muitos tons de pele, mas nenhum indício de presença majoritária de nordestinos. Meu pensamento constante, durante todo o espetáculo, mas que sempre me desafia quando vejo qualquer vídeo de Whindersson: como que essas multidões de todo o Brasil se identificam com a visão de mundo e mesmo a sensibilidade tão geograficamente localizadas de Whindersson? Que lugar cultural o interior do Nordeste ainda ocupa no Brasil, capaz de gerar um fenômeno ciberpopular tão grande assim?

Além disso, mas no mesmo caminho: claro que há referências constantes à cultura pop, principalmente ao mundo dos games, parte fundamental da formação de Whindersson. Mas o núcleo duro de seu story-telling é radicalmente nordestino, mas de um Nordeste que me parece antigo ou “endangered”. Não consigo entender direito como um cara de 22 anos faz sucesso falando de coisas que eu já pensava em vias de extinção quando eu era criança nos anos 1960 (sou também nordestino). Por exemplo: afirmar que na sua infância só havia dois tipos de bonecas; as dos rico abriam os olhos; as dos pobres estavam sempre esbugalhadas. Ou citar brinquedos de carrinhos de boi, mesmo com bois verdes de plástico. Das duas uma: ou Whindersson se inspira em memórias ancestrais, da “raça”, ou minha percepção está errada e esse Nordeste antigo é bem mais recente do que eu imaginava. Ou não: talvez essa aparência de antiguidade seja o que interessa, a representação de uma inocência perdida… Pátina eletrônica?

Inocência? Para ouvidos pouco acostumados, talvez o que mais se destaque nas piadas seja a escatologia adolescente. Porém, minha impressão é que tantas piadas sobre fezes e sexo também apenas enfeitam de marra uma essência que poderia ser classificada como singela, desconectada de um mundo urbano onde a ironia e/ou a trapaça bélica reinam. Provavelmente o momento de maior duração no espetáculo seja a narrativa sobre o dia em que criança, querendo alcançar um Mucilon escondido em cima do ármario da cozinha, quebra uma xícara do jogo que sua mãe ganhou como presente de casamento. Prender a atenção de público tão grande por tantos minutos com essa lembrança é para mim o mistério do Whindersson. O que demonstra cabalmente seu talento ímpar como contador de estórias, em regime minimalista de voz e gestos, tudo criando um ambiente carregado sim de poesia, a poesia nordestina citada na abertura do rap de RAPadura.

Sei que mais uma vez corro o risco de ser acusado de demagogia ao juntar esse tipo de celebridade do YouTube e poesia numa mesma frase. Mas no seu show anterior, “Marminino”, que vi no YouTube, pensei também em habilidade teatral poética ao passar pela cena do jogo de taco com o menino rico. (Nos outros vídeos do YouTube, Whindersson tem tom mais apressado, talvez também mais agressivo – no início de sua carreira a “inocência” e a falta de “ritmo” tinham papel mais central, como nesta microautobiografia.)

Mas não sei bem o que fazer com essas observações. Não há conversa crítica onde elas possam se encaixar, ou mesmo serem levadas em alguma consideração sem achincalhe brutal. Já vivi essa solidão em outros momentos, quando tentei elogiar o nascimento do funk carioca no final dos anos 1980 ou a técnica de pós-guitarrada do Chimbinha no final dos anos 1990.

E falando nisso: sim, percebo uma sensibilidade e um lugar no mundo parecidos no DJ Marlboro, em Chimbinha e em Whindersson. Até em certo “isolamento” no meio do furação do maior sucesso da cultura de (pós)massas. Na plateia da Jeneusse Arena havia pouquíssimas “celebridades” além da Regina Casé. Não vi também jornalistas. O que me espanta mais é a falta de curiosidade diante daquilo que faz esse sucesso avassalador na cultura brasileira de hoje, até para criticar com conhecimento os rumos que essa cultura está tomando ou já tomou.

PS: Outra pergunta: dá para pensar em Whindersson como herdeiro de uma tradição de comediantes nordestinos que inclui Renato Aragão, Chico Anísio, Tom Cavalcante e tantos outros? Por que essa relação nacionalizada do Nordeste com o humor? Envolve preconceito, e uma relação perigosa de riso e pobreza? Mas como comentou um amigo: possivelmente Whindersson tenha a ver mais com o paulista Golias, que também trabalhava com uma certa “inocência” do garoto pobre do interior.

 

 

 

 

Mustafa é o cara?

27/11/2017

Continuo explorando o arquivo do podcast Talking Politics. Ali descobri também o Nine Dots Prize, vencido este ano por James Williams. Cada candidato concorria com um ensaio-resposta para a pergunta “Are digital technologies making politics impossible?” James Williams ganhou escrevendo sobre sua especialidade, a economia da atenção, elemento agora extremamente valioso num mundo que passou a ter informação em mega-abundância. Procurando mais informação (…), fui ver o vídeo de sua palestra publicada no abundante (e maravilhoso) canal de YouTube da RSA. Acabei clicando no link para outros vídeos e minha atenção foi capturada pela President’s Lecture pronunciada agora em novembro.

Tudo absolutamente fascinante, com pompa e circunstância reais. Literalmente: o palestrante é apresentado pela Princesa Real. Quando vai para o púlpito – em território que já recebeu Charles Dickens, Adam Smith, Benjamin Franklin, entre outros de igual peso pesado -, descobrimos que não usa gravata, sua aparência é pós-punk. Filho de um taxista imigrante vindo da Síria, seu nome é Mustafa Suleyman. Seu discurso é radical. Na sessão de perguntas e respostas, alguém da platéia resume tudo como anti-capitalismo. E Matthew Taylor, chief executive da RSA, faz desabafo que poderia ser entendido assim: “esse é o tipo de palestra-chutando-o-pau-da-barraca que alguém faz quando está se aposentando, quando não tem mais o que perder, e pode fazer autocrítica feroz”. O problema é que Mustafa está, podemos dizer, no início de sua carreira, ou melhor – depois de uma ascensão fulminante (hoje é capitalista talvez já bilionário) -, ocupa o centro do poder no mundo da inteligência artificial (relembrando: Putin disse que quem se tornar líder na área de inteligência artificial, dominará o mundo… Hoje ninguém está mais próximo de liderar o desenvolvimento da inteligência artificial do que Mustafa e seus amigos).

Aprendi agora (nunca tinha ouvido falar de Mustafa, conhecia apenas o poder da sua empresa): ele é um dos três fundadores da DeepMind, a empresa britânica de inteligência artificial e machine learning comprada pelo Google em 2014 por 400 milhões de libras (e que já mostrou excelente serviço vencendo o campeão mundial de Go com o AlphaGo).  Os outros dois: Demis Hassabis, amigo da infância londrina de Mustafa e filho também de imigrantes (grego cipriota e cingapuriana de etnia chinesa), e Shane Legg, nascido em Rotorua, no norte da Ilha do Norte da Nova Zelândia. Seu encontro é típico (sei que estou exagerando) da cultura cosmopolita londrina atual, que lucra com a circulação de pessoas e ideias de origens bem diferentes.

Mustafa abandonou o curso de filosofia e teologia em Oxford para criar a Muslim Youth Helpline. Depois fez muita coisa, inclusive se tornando um dos principais incentivadores da criação da Partnership on Artificial Intelligence to Benefit People and Society, organização que reúne as principais corporações de inteligência artificial do mundo.

Interessante, muito interessante mesmo, ver uma pessoa como Mustafa, com as ideias e a biografia de Mustafa, ocupando todos esses lugares de enorme poder, capaz de fazer (se isso é possível) crítica contundente do poder enquanto o exerce, defendendo propostas que enfrentam abertamente a maré conservadora que parece dominante. O que nos leva a questionar essa aparência de dominância: se Mustafa faz a President’s Lecture da RSA, com aprovação real em tempos de Brexit, o jogo político contemporâneo é bem mais complexo do que aquele que as redes sociais (cada vez mais controladas pelas inteligências artificiais das corporações membras da Patternship…) nos deixam perceber.

 

Contagem, Ceilândia e o outro Brasil

25/11/2017

Conheci o João Dumans quando ele trabalhava no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte. Eu acreditava piamente que seu futuro era ser crítico de cinema. Respeitava suas opiniões. Mesmo assim, nosso contato era bem esporádico. Durante alguns anos não trocamos nem ao menos um oi. Mas no final de 2014, meio que do nada, chegou email – que começava com um esperado “há quanto tempo!” – me convidando para a exibição de “A vizinhança do tigre”, filme que contava com sua colaboração no roteiro e na montagem. O que mais me deixou curioso vinha a seguir: “Indico também dois filmes que farão parte da mesma mostra: “Branco sai, preto fica”, do Adirley Queiroz, e “Ela volta na quinta”, do André Novais. Na minha opinião (tendenciosa e comprometida), a reunião desses três filmes num mesmo festival é um dos acontecimentos cinematográficos mais importantes do ano no Brasil. São três representações absolutamente originais da periferia, e absolutamente diferentes entre si – e além disso, feitas por realizadores muito jovens, todos eles vindos dos lugares que filmam.”

Pelo tom, senti que deveria levar aquela declaração bem a sério. Ela anunciava o aparecimento de algo importante e que só poderia crescer forte. Não tinha ouvido falar dos diretores pois andei um tempo sem acompanhar as novidades dos festivais de cinema ou do cinema brasileiro/mundial em geral. Vi os filmes. Concordei com o João: a existência daqueles filmes era realmente um excelente acontecimento, parecia mesmo um “movimento” auspicioso. Mas fiquei quietinho, esperando as próximas produções, para ver onde aquilo ia dar.

Nova interrupção da comunicação com o João. Só agora em novembro de 2017 chegou novo email. Outro convite. Desta vez para ver “Arábia”, filme codirigido por João e Affonso Uchoa, que assinou a direção de “A vizinhança do tigre”. Continuo tão desligado que nem sabia do prêmio de melhor filme em Brasília nem da carreira brilhante em festivais internacionais, apontado como o futuro do cinema brasileiro. Um giro rápido pelo YouTube me atualizou (inclusive sobre as novidades das carreiras de Ardiley e André) e confirmou: a opinião do João no email de três anos atrás pode ser lida hoje como profecia realizada.

No cinema, esperando a sessão começar, ao reencontrar com o João comentei citando aquele email: deu certo, não deu? Fiquei sem saber o que sentir: é para ficar alegre ou triste com o ter dado certo? Estranha sensação de ver essa consolidação de uma escola cinematográfica “de periferia” no momento em que o país “oficial” tomou um outro rumo, completamente diferente daquele que gerou essa “escola” (fala-se de uma “escola de Contagem”) de filmes. Seus diretores são certamente herdeiros de uma outra época, parecem exilados ou extremamente deslocados no Brasil atual, como se habitassem universo paralelo, o do país que poderia ser e deixou de ser.

Quando “Arábia” terminou, eu continuava a não saber se estava triste ou alegre. O filme é uma grande vitória, tanto política quanto estética, um passo seguinte digno para “A vizinhança do tigre” (que já amadureceu como indubitavelmente uma das melhores obras artísticas brasileiras deste século). Porém, meu primeiro comentário quando reencontrei o João depois da sessão foi: “muito triste, né?” Eu ainda estava sob o impacto do monólogo final do filme (espero que isto aqui não seja um spoiler…), que ouvi como um atestado de óbito para um determinado projeto de construção de justiça social no país. Não deu certo, perdemos a oportunidade. Temos que recomeçar do zero.

Será? A própria existência e qualidade daquele filme, feito pelas pessoas que fizeram aquele filme, não é prova de que algo mudou para melhor, de que não há como voltar atrás diante do que foi conquistado? Todas essas novas escolas e todos esses novos olhares de produção audiovisual brasileira não podem mais ser ignorados. Todos esses coletivos que passaram a fazer cinema nestes últimos 20 anos não vão mais ficar parados, passivos. Mas que caminhos vão criar para continuar a produzir, agora que o “mundo” mudou?

Volto a ficar alegre, pensando que serão múltiplos caminhos, abertos na marra. João estava certo: esses novos filmes “periféricos” são absolutamente diferentes entre si. Mesmo a diferença entre “A vizinhança do tigre” e “Arábia” é instrutiva a esse respeito. Não há uma única “periferia”, nem uma única experiência periférica. Essa multiplicidade social se reflete em representações estéticas também múltiplas. Apesar disso, quero forçar a barra por aqui, e falar do que vejo de comum nessas produções cinematográficas.

Primeiro, o mais óbvio: nunca as periferias ou bairros pobres/populares (e suas personagens) apareceram desse jeito tão cru em nossas telas. Não estou aqui para dizer que só gente da periferia consegue produzir as imagens “verdadeiras” desses lugares e pessoas. Aprecio olhares “de fora”, que muitas vezes conseguem perceber aquilo que quem é “de dentro” não enxerga, inclusive por causa da “proximidade”. As visões desses novos cineastas foram treinadas certamente pelo estudo de muitas outras cinematografias, brasileiras ou estrangeiras, “de arte” e “comerciais”. Mas acrescentaram algo de novo ao intenso debate anterior.

Por exemplo: sua recusa de uma direção de arte “embelezadora”. Em muitos filmes anteriores, feitos geralmente por gente de outros bairros da cidade e outras classes sociais, geralmente havia uma tendência para o pitoresco, para o artesanato. A periferia urbana era representada por uma vila antiga do subúrbio, casas com azulejos coloridos nas fachadas. Pobres rurais viviam em casinhas de sapê, mulheres com vestido de chita, lenço no cabelo, dormindo em redes, comendo comida “típica”, ouvindo música não pop. Desapareciam shortinhos, tops, camisetas piratas da Abercrombie (ou de campanhas de políticos), sofás ou TVs de plasma comprados na Casa & Vídeo. “Eles”, os pobres, precisavam ser os guardiões de nossa autenticidade perdida, para público de festival de cinema aplaudir.

Talvez, no cinema, eu tenha visto essa periferia “real” antes, retratada dessa maneira, em cenas dos filmes de super-heróis bate-bolas de Felipe Bragrança ou naquele documentário “Santa Cruz” de João Moreira Salles, e poucos outros. Mas nos filmes de Affonso, Ardiley e André (só para citar alguns dos novos diretores), ela aparece como protagonista em toda sua profusão de batimento de lajes, falta de reboco e precariedade urbanística. É o que há, ou o que precisa ser visto. A câmera faz enorme esforço para não julgar nada (mesmo sabendo que nenhum plano é inocente, e que nunca vai ser possível mostrar tudo): não está ali para separar o belo do feio. Está totalmente familiarizada com aquele mundo ao redor. Mesmo quando inclui novidades de um outro artesanato, como as próteses e adaptações para a vida em cadeira de rodas na Ceilândia, cidade satélite do presente/futuro de “Branco sai, preto fica”. Ou o aparelho para medir pressão arterial ou as sessões de vídeos do YouTube em “Ela volta na quinta”. Ou a recusa de rúcula em “Arábia”. Ninguém ali é bobo, desinformado, coitadinho. Gosto especialmente das cenas de música em “A vizinhança do tigre”: o metal vira passinho e depois rap. Tudo misturado, apaixonado. Quem pode dizer qual a música verdadeira ou a mais autêntica naquela “comunidade”? A câmera, mais uma vez, não quer julgar nada. Mesmo quando condena o que está errado no mundo todo.

Outro elemento comum nesses filmes, talvez complementar a essa maneira (talvez maneirista) peculiar, quase impossível, de ser realista: um tomar partido com enorme gosto pelo infraordinário (vide Georges Perec) ou a busca militante, evidentemente intransigente,  pelo “o transordinário na experiência humana ordinária” (vide o discurso de posse de Guimarães Rosa, na Academia Brasileira de Letras, que completou recentemente 50 anos). Isso está em Affonso/João e em Ardiley, mas fica totalmente comovente no amor pelo cotidiano nos filmes do André, onde a família do diretor atua como os melhores atores que há. Mesmo no curta “Quintal”, tudo que acontece de extraordinário e absurdo é vivido e registrado como se fosse o mais banal dos acontecimentos comuns.

Pensando nisso, volto a ficar alegre. E triste. Voltando também a ter dúvidas sobre o futuro dessa “escola” (ou de todas as escolas). Essas obras são presentes para o Brasil: aumentam nossa capacidade de entender a nossa complexidade, com outros novos olhares, atentos para detalhes que antes “ninguém” via, e que podem ser pistas valiosas para repensarmos nossos lugares no mundo. Não sei se o país hoje reconhece essas (ou se reconhece nessas) boas dádivas. Não sei nem se percebe o que ganhou (fruto de muito esforço). Torço para que esse novo cinema não se transforme apenas em sucesso de festivais e mostras “paralelas”. Tomara que toda essa gente que começou a lançar filmes recentemente invente rápido novas estratégias para produzir e incentivar o aparecimento de novos olhares em muitos outros lugares. Que a periferia não volte a ser apenas periférica.

 


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