Harari etc.

19/11/2017

Não li os livros de Yuval Noah Harari. Não por preconceito com best-sellers. (Sinto até saudade dos lançamentos de Judith Krantz…) Mas a megadivulgação não me convenceu de que encontraria por ali uma reflexão que me forneceria “valor agregado” (como dizem…) Fiquei com a impressão, talvez errônea, de ser um bom mapeamento de ideias que já foram aprofundadas de forma mais surpreendente por outros muitos autores. (O que já seria um bom serviço…)

Porém, comecei a escutar agora, atrasado, o podcast do David Runciman (aqui minha apresentação bem desatualizada – como os anos depois de sua publicação foram cruéis… Penso que mesmo Runciman anda revendo muita coisa que escreveu em “The confidence trap”…) O primeiro episódio é uma entrevista com Harari. Um trecho me chamou muito a atenção. Harari fala do poder em breve possivelmente imbatível de grande corporações que sabem tudo sobre nossas vidas e podem também prever tudo que vamos fazer, em quem vamos votar etc. Mas suas observações são de antes de todas as descobertas bem recentes sobre a atuação de bots “russos” em eleições e plebiscitos do “Ocidente”. Seria até confortável acreditar (como Theresa May em seu já famoso discurso “we know what you are doing“) que o Kremlin está por trás de tudo. Teríamos um “inimigo” único para atacar. Mas e se não houver essa coordenação? E se Putin estiver surfando numa onda que não pode controlar (e que pode, de uma hora para outra, se voltar contra seu governo)? E se tudo for resultado da ação randômica de centenas de milhares de hackers lobos solitários escondidos na Dark Net pelo planeta afora?

As Grandes Corporações e mesmo os Estados Nacionais parecem perdidinhos, sem ter a menor ideia sobre o que fazer para combater as novas ameaças. O poder dos poderosos não parece mais tão eficaz. Ou estou sendo ingênuo?

 

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Alberto Mussa

11/11/2017

Escrevi este texto no início de 2016. Era para a revista Boca Coletiva, que parece que encerrou suas atividades. Então publico aqui atrasado. Com atualização no final, pois saiu este ano um novo volume do “compêndio mítico sobre o Rio de Janeiro”, assinado por Alberto Mussa. Talvez o correto fosse reescrever tudo. Mas não tenho tempo agora. Vai assim, com remendo:

Alguns livros de ficção provocaram efeitos concretos, talvez até biologicamente transformadores, na minha maneira de estar no mundo ou processar informações do mundo, incluindo upgrade na interface corpo/mundo. Não foi sempre assim. É fenômeno recente na minha relação com a literatura, percebido depois de cinco décadas de vida. Lembro ter ficado transtornado com a leitura de “Os três estigmas de Palmer Eldrich” (aqui a edição brasileira mais recente), de Philip K. Dick, no início dos meus vinte anos, ao absorver cada uma de suas palavras geralmente no ônibus no Aterro ou na barca atravessando a Baía de Guanabara (eu estudava na UFF e morava em Copacabana). Parecia que vivia overdose da droga intergaláctica traficada na ficção. Pensei que nunca mais voltaria ao “normal”. Mas voltei, com poucas sequelas, algum tempo depois de atingir a última página.

Coisa diferente, e surpreendente, aconteceu quando descobri Kim Stanley Robinson, lendo “2312” três anos atrás. Tenho certeza: não piso mais na Terra da mesma forma. Agora, a não ser quando estou muito distraído, tenho plena consciência de estar a bordo de um planeta totalmente especial, neste sistema solar. Aprendi a concordar, de maneira visceral, com a reflexão da personagem central de “Aurora“, seu lançamento de 2015: “Talvez a resposta adequada para ficar de pé na superfície de um planeta, ao ar livre na sua atmosfera, bem próximo de sua estrela local, é sempre terror. Talvez tudo o que os humanos fizeram ou planejaram fazer foi projetado para se esquivar desse terror.” Mesmo agora, em fevereiro de 2016, quando vejo Júpiter pairar bem brilhante sobre as águas de Copacabana, eu permaneço, por longos instantes, aterrorizado (e também de certa forma maravilhado) com a sensação física opressiva (e também de certa forma leve) de estar preso/viajando aqui neste canto do universo. Ando com o Google Sky Map ligado. Nem saberia que aquele brilho ali vem de Júpiter se meus neurônios e o resto das células do meu corpo não tivessem passado pelo tratamento radioativo da ficção de Kim Stanley Robinson.

Neste canto do universo: Rio de Janeiro, sensação térmica beirando os 50 graus. (Escrevo em pleno carnaval.) Minha maneira de pisar nos asfaltos, morros, areias e pós-manguezais da cidade se transformou radicalmente e visceralmente depois que li Alberto Mussa. Não consigo mais atravessar o Aterro sem pontadas constantes de terror/maravilhamento lembrando o delta formado pela foz do rio Carioca, terreno quase impossível de ser cruzado por terra para chegar ao Castelo há 400 anos. Em cada caminho passei a carregar todas as épocas superpostas, sem ordem cronológica, tudo junto e misturado, ficção e realidade, seguindo as lições trans-históricas do projeto de cinco romances policiais que Mussa está publicando, um para cada século do Rio, mas não lançados na ordem “certa” (o primeiro foi “O trono da rainha Jinga“, ambientado no século XVII, o segundo foi “O senhor do lado esquerdo“, século XX, o terceiro “A primeira história do mundo“, século XVI – o próximo está prometido para o século XIX).

Terror sim, basicamente, isto é, na base de tudo, todo o resto. O narrador de “O senhor do lado esquerdo”, cujo subtítulo é “O romance da Casa de Trocas”, deve anunciar o projeto de Mussa para o “compêndio mítico”, “projeto absurdo”, formado por cinco volumes cariocas: “o que define uma cidade é a história dos seus crimes”, e não arquitetura, geografia, heróis, costumes, poesia. E faz questão de explicar melhor: “Falo dos crimes fundadores, dos crimes necessários; e que seriam inconcebíveis, que nunca poderiam ter existido a não ser na cidade a que pertencem.” Não é exatamente uma teoria ufanista, mas ao mesmo tempo não é inventada ou investigada por alguém que despreza a cidade. Há certamente um amor febril, trágico, na descrição desse fundamento cruel, assustador, aterrorizante.

Cada um dos povos que passaram por aqui, sobretudo os que mais ajudaram a formar a cara da cidade, deixou sua receita para tornar a crueldade mais requintada, mais específica, sem paralelo em outras cidades. Há algo da pá virada no feng shui de seus bairros. Tudo sangue quente. Muito quente. Em “A primeira história do mundo” encontramos a descrição da mais dura lição/contribuição tupi: “essa categoria metafísica fundamental, causa última de todos os fenômenos da natureza e da cultura: a vingança.” Consequência prática: a vida é uma guerra de tudo contra tudo. Mesmo na relação entre vivos e mortos: “Porque os mortos, na verdade, cantam. Descrevem como, quando e por quem morreram. Não dizem a causa, apenas, porque esta é única, é universal: a vingança. É o canto dos mortos que os sacis aprendem e reproduzem para os pajés, durante o sono, para exigir que sejam vingados – e não termine nunca o pêndulo que move o mundo.” Dá para imaginar o terror dos portugueses, holandeses, franceses, piratas ou não, que aqui também guerrearam, diante de práticas/teorias da crueldade tão diferentes das suas. Era preciso rachar a cabeça dos inimigos mortos, para ganhar um nome e poder ter filhos. Portanto, sem inimigos não havia reprodução da vida, biológica e social: “quando os parentes eram muitos, e havia poucos inimigos, se dividiam em metades que passavam a se matar.” Quem era comido por inimigos ia direto para a “terra sem mal”. A crueldade era também piedade, uma forma alienígena de bondade, incompreensível para europeus cristãos e também cruéis.

Em “O trono da rainha Jinga” somos apresentados a uma seita de africanos com sua peculiar maneira de lidar com e explicar a existência do mal no mundo. Haveria desde sempre e para toda a eternidade, uma quantidade finita de maldade para ser cometida. Por isso, nos crimes que praticavam nas ruas do Rio de Janeiro do início do século XVII, com a cidade fundada há pouco mais de cinquenta anos, não bastava matar inimigos. Era necessária uma morte com crueldade horripilante. Na verdade, quem morria, ou era torturado em meio aos mais violentos rituais e piores venenos, nem precisava ser inimigo. Aquela irmandade comandada por gente de Angola praticava atos de maldade aleatória. Cada ato mais cruel que o anterior, para dar baixa na cota de mal, e o resto do mundo – principalmente os membros da irmandade – poder ficar em paz: “quer o máximo de mal sobre os outros, para que nada lhes reste.” (Estranha semelhança com a tese central de um dos sete romances que compõem “7”, de Tristan Garcia: para cada rosto belo que existe, há um rosto horrível – a cota de beleza no mundo também é finita.)

Então, no compêndio mítico de Mussa, a cidade se converte em campo de batalha para todas essas metafísicas conflitantes sobre a origem e o destino do mal no mundo. Ou laboratório onde novas possibilidades de crimes fundadores são testados, atraindo gente de todos os cantos do planeta, como o polonês de “O senhor do lado esquerdo”, que chega no Rio para realizar experiências pré-Wilhelm-Reich ou pós-Marquês-de-Sade da sexualidade humana, logo na casa que foi da Marquesa de Santos. Gente que acredita que a vida tem que ter necessariamente dois lados, não exatamente espelhados no par yin-yang chinês, mas em “velhas tradições africanas que associam o homem à luz, aos números ímpares, às florestas e ao lado direito. Femininos são, portanto, a noite, os números pares, as profundezas aquáticas e o lado esquerdo. Trata-se, como se vê, de mundos incomunicáveis.” Assim como não havia possibilidade de comunicação entre um pajé tupinambá e um jesuíta catequizador. A cidade é resultado dessa falta de comunicação em série. Ainda que tenha produzido alianças inesperadas, ou possivelmente esperadas demais. Um exemplo: “Herdeiros imediatos da filosofia tupi – já incorporada à cidade -, segundo a qual o indivíduo só se torna pleno se tiver um inimigo, os capoeiras passaram a se dividir em maltas, com territórios definidos e emblemas específicos (como fitas de cor, assobios e espíritos tutelares).” Origem bem diferente das congêneres da Bahia, de Cuba, da Venezuela, onde tudo começou como “brincadeira e jogo de piruetagens”. No Rio, explica o narrador de “O senhor do lado esquerdo” o fundamento é “tática de guerra”.

Nesse sentido é possível entender o elogio que esse mesmo narrador faz para o prefeito que resolveu derrubar o morro do Castelo, algo impensável (e quando vi pela primeira vez as tais fotografias da derrubada achei que contemplava Serra Pelada) em qualquer cidade que cultiva sua memória em modo linear: “Para mim, todavia, Carlos Sampaio foi um místico: primeiro, porque – ao destruir os sítios de fundação – ratificou a condição atemporal do Rio de Janeiro, cidade que existe desde sempre, não apenas a partir de 1565.” Por isso sua opção de estabelecer mito de fundação “fora da cronologia” (opção também de Mussa), pois “o conceito de cidade independe da noção de tempo”.

Herdamos assim uma eternidade urbana cruel. Mussa, com seus novos mitos cariocas, escreve a biografia (as biografias) desse nosso coração das trevas particular, e – nas entrelinhas – aponta as linhas de fuga e túneis secretos (inclusive ligando os cinco romances), para quem quiser enxergar, virar onça, e fugir para frente.

*****

REMENDO 2017: apenas alguns trechos de “A hipótese humana“, que reforçam/expandem os diagnósticos – transétnicos, transclasses, transtudo… – do Rio de Janeiro (em qualquer século de sua história) e os objetivos ontológicos/metafísicos da literatura de Alberto Mussa descritos acima:

  • “era uma criminalidade essencialmente endógena: capoeiras vitimavam capoeiras, membros de grupos rivais” (p. 24)
  • “homens de verdade não se importam com justiça; apenas com vingança” (p. 40)
  • “a morte natural é logicamente impossível.” (p. 135)
  • “O transe não constitui uma perda dos sentidos: é precisamente o fenômeno inverso; a conquista de uma plenitude cognitiva, perceptiva e perspectiva, relativamente às várias configurações do mundo.” (pp. 136-137)
  • “Um homem triste não pode ser inteligente” (p. 142)
  • “não pode haver literatura , no sentido mais essencial do termo, se se prescindir do Mal. Porque 0 Mal é a exceção; o Mal é o Outro – elemento contrastivo necessário que cria em nós a noção de humanidade.” (p. 70)
  • “Embora eu mesmo tenha escrito o livro, não sei tudo. Presumo apenas.” (p. 89)
  • “E todas as versões, mesmo as mentirosas, contribuem para a composição da verdade.” (p. 130)
  • “o que não é segredo, não se pode descobrir.” (p. 137)
  • “nem todas as verdades podem ser provadas.” (p. 151)

mistério do planeta

01/11/2017

Escrevi este texto no início de 2016. Foi uma sugestão da querida Ana de Oliveira, corajosa realizadora da Iyá Omin, com quem eu já havia tido a alegria de colaborar no projeto do livro sobre o disco “Tropicalia ou Panis et Circencis”. A ideia era agora fazer homenagem/reflexão semelhante para outro disco da mesma importância, o “Acabou Chorare”, com vários autores e artistas se dedicando a cada uma de suas faixas. O novo livro foi lançado no primeiro semestre deste ano. É uma maravilha. Além das muito diversas interpretações de todas as canções, há material de arquivo que só a Ana sabe coletar e publicar, como já fizera no tesouro que é o site Tropicalia. Pena que não teve a divulgação merecida nas mídias tradicionais e “novas”. Muito mais gente deveria saber da sua existência. Até porque “Acabou Chorare” deveria nos servir de guia para enfrentar a crise de hoje. Foi produto de uma das épocas mais aterrorizantes da história brasileira, mas não pode existir lição maior de liberdade e criatividade.

Minha canção escolhida foi “O mistério do planeta”:

O mistério de “Acabou chorare”: João Gilberto. O que não é novidade ou surpresa: ele é mistério maior da cultura brasileira, uma das encarnações mais esotéricas do mistério do samba, cada vez mais cercado por segredos sagrados. Sua relação com a turma dos Novos Baianos, no Rio de Janeiro, pode ser pensada como um dos momentos mais públicos de sua trajetória misteriosa, quando o próprio mistério sai de seu retiro e trabalha determinadamente para produzir um milagre que transforma eficazmente os destinos artísticos do país, e também a maneira com a qual uma nova geração inventava seu lugar no mundo. Apesar de toda determinação e eficácia, os procedimentos não são claros – algo bem adequado a todo acontecimento realmente misterioso ou milagroso.

Há, como era de se esperar, muitas versões sobre cada momento da relação. Seu mito de origem mais difundido fala da aparição inesperada de João Gilberto na porta da cobertura de Botafogo onde os Novos Baianos viviam, sendo confundido com um policial por causa de seu terno. O que seria pitoresco: a lei divina travestida de lei dos homens, a condenação que depois vira redenção. Outras narrativas menos detalhistas resumem a principal lição do encontro: João Gilberto teria revelado o Brasil para a turma de cabeludos hippies, direcionando seu olhar para “dentro”, para sua “verdade interior” vista como nacional: do rock para o samba, de Jimi Hendrix para Assis Valente. Na visão de gente que acredita na tese tola da bossa nova vista como inovação traidora do samba “de raiz”, ou o autêntico nacional submisso ao jazz internacional, tal atitude já foi interpretada como admissão de culpa ou remissão de pecado: o caminho escolhido agora seguiria sentido oposto, a mão contrária, desaprovando o fora, encaminhando ovelhas perdidas na ilusão do rock para a verdade do pandeiro.

Isso sim seria traição da bossa nova, do samba, do grande poder transformador com o qual samba e João Gilberto desafiam o Brasil. Seria também traição do rock. A lição de João Gilberto não poderia ter sido tão pequena, menor – isso não seria um milagre, e sim a voz de prisão, o enquadramento de um policial mesquinho. Seus ensinamentos foram bem diferentes, muito mais amplos, complexos, libertários, profundos, misteriosos. E seus discípulos estavam longe de serem meninos ingênuos, alienados, de costas para o Brasil.

Os meninos (e as meninas) eram espertos, informados, sabiam muito bem em que terra pisavam. A turma nasceu assim: Galvão passou na pensão de dona Maritó para encontrar Moraes. Suas primeiras palavras: “Tom Zé mandou-me aqui. Estávamos fazendo música, mas o Tropicalismo o chamou para São Paulo e ele profetizou que seríamos parceiros.” Com profecia de Tom Zé, o mais ousado estudioso do samba, não se brinca. Quando encontraram João Gilberto (para Galvão era um reencontro, mas desde 1961 em Juazeiro os dois não se viam), já tinham trocado ideias com o melhor da “avant-garde na Bahia” e com o concretismo paulistano. “É ferro na boneca”, o primeiro LP, era disco com rock sob filtro tropicalista, com sanfona, com tangolete, nem um pouco distante das contradições que movem as identidades brasileiras, como comprova a faixa “O samba me traiu“, na verdade um hino bem nietzscheano para o sol daqui (um dos hinos para o sol lançado pelos Novos Baianos). João Gilberto escutara “É ferro na boneca” com atenção, sabia quem iria encontrar. E escolheu a forma como o encontro iria acontecer.

Minha narrativa preferida do encontro está contida no livro “Anos 70: novos e baianos”, de Galvão. Para continuar em ambiente misterioso, posso chamá-lo de “Evangelho segundo Galvão”. Há contradições na comparação com outras narrativas. Não estou aqui em busca de verdade, mesmo tropical. Quero aprofundar o mistério. A letra de “Mistério do planeta” também pode nos guiar nessa empreitada. Lembrando, começa assim: “Vou mostrando como sou / E vou sendo como posso / Jogando meu corpo no mundo / Andando por todos os cantos / E pela lei natural dos encontros / Eu deixo e recebo um tanto”. A lei natural dos encontros favoreceu os Novos Baianos. Eles vinham jogando seus corpos pelo mundo, andando por todos os cantos, inclusive prisões e Arembepe, e acabaram chegando ao Rio, na cobertura de Botafogo. Segundo Galvão, João Gilberto, que também passava temporada no Rio, descobriu que Galvão estava por perto e tomou a iniciativa do encontro. O primeiro recado, com número de telefone, chegou “por um primo”. Galvão foi imediatamente para o orelhão, João Gilberto atendeu e deu as seguintes instruções: “Venha às duas da madrugada que eu tenho um presente para você. Preste atenção, Luizinho, ligue para mim às cinco da tarde. Não esqueça.” No telefonema das cinco, depois de tocar duas músicas, incluindo “Antonico” que Galvão não ouvira antes, mais ordens: “Vá descansar, temos que estar preparados. Um encontro é coisa séria. É o melhor que se pode dar a alguém. Não esqueça de telefonar quando chegar na esquina. Até mais. Seja feita a vontade divina.”

Qualquer semelhança com regras de iniciação esotérica não é, obviamente, mera coincidência. Tudo faz parte de uma lei natural dos encontros criada por João Gilberto, que sabia como cada detalhe deveria se passar, mesmo diante das surpresas aprontadas pelo acaso. Quando Galvão, o Luizinho, após passar três dias quase sem dormir na casa do mestre, pede para voltar com Moraes, Paulinho e Baby, João Gilberto reluta, diz já conhece gente demais: “só você está bom. Ou não está gostando?” Galvão responde: “não sou mais sozinho. Faço parte de um todo.” Uma hora de argumentação de Galvão depois, João reconsidera dizendo até que Baby poderia vir com “espelho na testa”, mostrando que sabia muito bem com quem estava falando, e como o admirável novo mundo baiano lhe interessava.

Repetindo: para João Gilberto, um encontro é “coisa séria”, “o melhor que se pode dar a alguém”. Ele escolheu dar seu melhor para os Novos Baianos. Contrariando seus hábitos de eremita, visitou a cobertura de Botafogo várias vezes. Parecia descobrir ali uma utopia, uma zona autônoma temporária, um sonho. Ao ouvir uma notícia ruim, João Gilberto mudou o rumo da conversa: “Não esquentem não. Vamos continuar com o som. Vamos continuar com o sonho.” Não se tratava de maneira alguma de conselho para fuga da realidade. Como a canção “Na fogueira” anunciou, no último disco dos Novos Baianos, “o sonho é o mais belo caminho para a realidade/eternidade“. (Em “Sou o caso deles”, colocar alguém no mundo, significa botar na realidade e também mostrar a eternidade.)

A lição de João Gilberto para os Novos Baianos não pode ser entendida como uma exigência de brasilidade. Seus presentes foram múltiplos: vitaminas americanas (“Dizem que isso rejuvenesce e até tira rugas.”), dólares para o café da manhã, pedaço de letra para “Acabou chorare”, a descoberta de “Autobiografia de um iogue” (“Não é um livro comum para você apenas ler, mas ele mudou a minha vida e o tenho além da minha cabeceira. É o meu outro lado da Bíblia. Ele é meu guru bendito Paramahansa Yogananda.”), e samba, é claro, muito samba (os Novos Baianos aprenderam rapidamente sambas do repertório de João Gilberto, e mostraram suas versões em primeira mão para Glauber Rocha).

Outras aulas eram dadas com didática desconcertante. Gosto especialmente da descrição do momento em que ele tocou, ou deixou de tocar, com Pepeu: “Pepeu, que estava junto, e por ser um jovem de muito talento e um brilhante músico já reconhecido pela juventude, entrou no som com seu violão, mas, em minutos, Pepeu teve que parar a viola, porque João já estava em outra, com o jovem músico consequentemente sobrando. João tratou imediatamente de tranquilizá-lo: ‘Pepeuzinho, não se grile, estou apenas ensinando-lhe a fórmula'”. João Gilberto tinha Pepeu em alta conta. Conversando com Galvão, ele deixou entrever o que imaginava/desejava ser o futuro dos Novos Baianos: “Olhe, se Pepeu quiser ir para os Estados Unidos, eu falo com Stan Getz ou Sergio Mendes e ele tocará com um deles. Acho, no entanto, que o melhor seria ele ficar com vocês, porque vocês têm um grande trabalho para realizar no Brasil junto a essa juventude.”

O mestre verdadeiro é este: aquele que sabe descobrir o melhor em seus discípulos, para eles conseguirem realizar o melhor para o mundo. João Gilberto não provoca uma mudança radical nos Novos Baianos, suas lições apenas aceleram um processo natural de desenvolvimento artístico. O que havia ali como potencial, força bruta ainda desorganizada em “É ferro na boneca”, adquire rigor, clareza, segurança, mesmo mantendo sua integridade caótica e ar espontâneo juvenil. Mas a intensidade do desenvolvimento, com resultado em “Acabou chorare”, é tão fulminante, que só pode ser ouvida como milagrosa.

“Mistério do planeta” condensa todo o aprendizado em letra e som. Paulinho Boca de Cantor parece cantar o capítulo seguinte do tratado de filosofia da imanência radical contido no verso minha opinião central de “Besta é tu” (“por que não viver neste mundo, se não há outro mundo”): o jogo de corpo para se aproximar do grande mistério é descobrir que não há mistério nenhum, ou o mistério está todo (“o tríplice mistério do stop”) nesta vida, sem explicação escondida em outra vida, outro mundo, outro planeta. Mesmo assim, ainda há espaço para um parêntesis, onde surge o malandro/moleque brasileiro, que anda por aí como o louco (o vagabundo e a vadiagem são imagens recorrentes na lírica de Galvão) do Tarot, em andança pelos Trópicos, sabendo tornar invisível sua sacola. Não haver outro mundo não significa ausência de mágica (quem contrariar a lei do Cosmos já paga ao contrariar). E então, como do nada, ouvimos o noise também radical da guitarra malandra do moleque brasileiro Pepeu, que se mostra digno da fórmula de João Gilberto.

lições de cosmologia

30/10/2017

Não paro de pensar nesse “misterioso” objeto que está nos visitando por pouco tempo, aqui em nosso sistema solar (veja a animação de sua trajetória que ilustra a matéria do New York Times). No anúncio de sua chegada, o que mais me impressionou foi descobrir ser acontecimento tão raro, o primeiro registrado pela astronomia. Imaginava que haveria vários outros corpos interestelares semelhantes andando por aqui o tempo todo. Agora que fui surpreendido pela notícia de que esse não é o caso, tenho sensação inteiramente nova de claustrofobia. Vivemos isolados em nosso cantinho na periferia do Braço de Órion da Via Láctea. Não recebemos visitas, nem nada local vai visitar outros lugares do Universo.

E se sair daqui vai demorar muito tempo para chegar perto de qualquer outra estrela. O outra notícia “recente” impressionante, mas também para mim decepcionante, foi a colisão de duas estrelas de neutrons há  130 milhões de anos, mas que só agora pôde ser observada aqui da Terra. A observação provou que as ondas gravitacionais viajam na velocidade da luz. Então é provável que Einstein esteja totalmente certo: nada, nem essa onda esquisita que brinca com a “elasticidade” do espaço-tempo, ultrapassa os 299.792.458 metros por segundo, passo de tartaruga para distâncias galáticas. Estamos condenados a ir “só”, e com muito esforço, até Plutão, ou quem sabe, Alfa Centauri (4,4 anos luz do Sol)? Com tanta coisa estranha e curiosa no resto do Universo? Que monotonia… Cadê minha Enterprise quando mais preciso dela?

Na falta da Enterprise…: a viagem da Voyager completou 40 anos agora em setembro. Primeiro objeto produzido por humanos fora do Sistema Solar. A matéria de Nadia Drake para a National Geographic chega a ser comovente, até por sua autora ser filha de Frank Drake, astrofísico que desenhou o mapa que ilustra o famoso disco de ouro da Voyager (finalmente podemos escutar sua seleção musical) indicando o lugar que a Terra ocupa no Universo. Em 40 anos o zeitgeist parece ter mudado completamente. O otimismo dos anos 1970 gerava atitude despreocupada: queremos fazer contato, venham nos visitar! Agora vivemos paranoia dominante: fomos loucos, imprudentes, de mandar aquele mapa para o espaço. Os ETs, conhecendo nossa localização, certamente viajarão para cá com o objetivo de nos destruir. A repercussão da matéria de Nadia Drake exigiu um outro artigo negando o perigo. Nele, Frank Drake afirma que na época do lançamento da Voyager não passou pela cabeça de ninguém a possibilidade de ETs do mal radical. O Universo era visto como território amigável…

Anos atrás, quando fazíamos juntos o programa Navegador, Ronaldo Lemos me apresentou a ficção científica chinesa de Cixin Liu. Já li toda a trilogia dos três corpos (o primeiro livro foi lançado no Brasil). Tudo fascinante, uma das melhores leituras da minha vida (também recomendada por Obama). Mas é produto de visão pessimista bem característica dos tempos atuais, não importa o continente ou a cultura do observador: a premissa básica é que o Universo é território mais que hostil. Portanto devemos ficar escondidos aqui no nosso canto. Calados. No escuro sideral. Quanto mais isolados melhor… Tentarei escrever sobre Cixin Liu em breve, neste blog.

inteligência artificial antropófaga

21/10/2017

Em agosto, recebi surpreendente convite do laboratório brasileiro da IBM Research para participar de painel no seu Colloquium 2017, abordando os impactos culturais da inteligência artificial (IA) em nosso país.  Sempre me interessei por inteligência artificial, mas de forma totalmente diletante. Tive menos que dois meses para preparar minha fala. Foi uma correria. Mesmo assim, nem precisava me esforçar para encontrar material de pesquisa pois, quase que diariamente, o assunto estava nas manchetes de jornais e capas de revistas. Deixo aqui anotações que fui colecionando durante o aprendizado mais que intensivo. Como o convite era maluco (por que eu?), achei exigia uma intervenção maluca. Chegando lá – diante de seleta plateia de centenas de cientistas e engenheiros – amarelei. Fui bem comedido. Mas, aqui no blog, posso exagerar na maluquice irresponsável (ou talvez responsável demais, dependendo do ponto de vista):

No dia primeiro de setembro, Vladimir Putin proferiu uma “aula aberta” via satélite para abrir o ano letivo russo. Da lição científica presidencial, a frase mais retuitada foi a seguinte: “quem se tornar o líder nessa área [IA], dominará o mundo”. Parecia recado para seus coleguinhas, também viciados em testosterona, Donald Trump e Kim Jong-un. Como se dissesse, bancando o mais inteligente: “vocês perdem tempo brincando com mísseis, a batalha mais importante acontece em outro campo e usa outras armas…” Porém, o que mais me chamou a atenção foi algo pouco comentado nos artigos que repercutiram os ensinamentos do professor Putin: o objetivo principal da produção de conhecimento por uma nação não é algo vago como “contribuir para o aumento dos índices de felicidade geral” ou o “combate contra a injustiça” ou a “descoberta da verdade”, mas sim “dominar o mundo”. Eis o bê-a-bá do imperialismo.

Melhor deixar de lado esse tipo de especulação. Afinal, como descobrir o que realmente se passa na inteligência de Putin? Como se certificar se seus discursos não sejam apenas pistas falsas, escondendo seus verdadeiros planos de dominação global? Até porque, se há realmente uma corrida armamentista no campo da IA, a Rússia – ao que tudo indica… – não parece ocupar postos próximos aos primeiros colocados. EUA, China e talvez Índia estariam correndo na frente, quase isolados dos demais países.  O resto é o resto.

E o Brasil estaria no resto do resto. O que isso significa? Está tudo – para ser – dominado por IAs que não pensam em português, que vão nos impor – sem escapatória – seus vieses culturais, suas maneiras bem específicas de classificar ou enxergar ou manipular a realidade, o mundo ao redor? Penso na IA do Google que colocou pessoas negras sob a tag “gorila”, provavelmente por, no seu processo de aprendizado, só ter lidado com seres humanos brancos. Os brasileiros seremos invisíveis, meros ruídos incompreensíveis (ou insignificantes, ou desclassificados), fantasmas nas máquinas da nova ciber-ordem? A quem interessará o investimento em machine learning para tornar detectáveis nossas diferenças?

Fiquei assustado com o cenário apocalítico, mas descrito com frieza ou objetividade comercial espantosas, que aparece no artigo que Kai-fu Lee, poderoso investidor “venture” chinês (ex-diretor do Google na China), publicou este ano no New York Times. Em resumo: a corrida é entre EUA e China. A IA vai acabar com a maioria dos postos de trabalho. A única saída será alguma espécie de renda universal, com impostos sobre as empresas vencedoras. Maior problema: o que fazer com os países que não terão empresas vencedoras? Não haverá alternativa (a pregação da crença neoliberal do artigo resposta de colunista da Forbes não me deixou menos preocupado): teremos que virar colônias dos vencedores, como mercado do consumo, aceitando os quadrados ou bolhas nos quais os algoritmos de Washington ou Beijing nos colocaram.

Mais assustador ainda foi descobrir recente edição especial sobre IA da revista Science e tomar conhecimento do trabalho do Centro de Psicologia Positiva da Universidade da Pensilvânia (comandado pelo psicólogo superstar Martin Seligman) com algoritmos para identificar sinais de depressão e outros problemas bem humanos nas redes sociais. Tudo bem intencionado. Um dos projetos se chama Bem-estar Mundial. Não quero ser ranzinza e alertar apenas para os problemas éticos óbvios, que todos os “papers” assinados pelos pesquisadores dessa instituição fazem questão de identificar com alertas: nossa saúde mental vai ser agora diagnosticada sem nossa autorização? Esse é somente uma característica de nossa realidade big brother/data cada vez mais sofisticada. Questão mais sutil: que diagnóstico será esse? Sabemos que culturas diferentes classificam estados mentais de maneiras distintas. Depressão em distantes bairros de uma mesma cidade pode não significar a mesma coisa. Vamos aceitar os laudos de algoritmos, mesmo com vieses “positivos”, feitos na Pensilvânia?

Sei que não sou a primeira pessoa me preocupar com esses aspectos da dominação global da IA. Há importantes debates e instituições nos EUA que tentam encontrar saídas para vários desses impasses. Cito a FATML.org, que cuida de “fairness, accountability and transparency” (prefiro não traduzir, pois são conceitos – até eles – que funcionam melhor em inglês) em processos de machine learning. Ou a diversity.ai, que lida com “inclusion, balance, neutrality”. Muitas empresas, como a Autodesk, criam departamentos para combater várias espécies de vieses. Tudo bem, tentam fazer sua parte. Mas qual a nossa parte? Seremos apenas espectadores, mendigando por algumas migalhas de atenção para nossas especificidades culturais, ou queremos ter voz ativa na invenção da nova política global? Nem espero tanta atividade: uma pequena intervenção realmente original nesta conversa já me deixaria menos desanimado.

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Tudo bem, muito o que se fala atualmente sobre IA é hype. Mas o hype geralmente cria as tais “janelas de oportunidade” que podem ser aproveitadas por quem está de fora do debate principal, usando a confusão blá-blá-blá geral para dar pitaco na conversa para a qual não fomos chamados. Na minha opinião o Brasil perdeu a oportunidade da internet. Não inventamos um aplicativo original para o uso da Grande Rede, como o Skype criado por estonianos, suecos e dinamarqueses (mas talvez seja o único exemplo de algo que realmente se internacionalizou – junto ao Waze? – vindo de fora dos EUA… e que acabou sendo comprado pela Microsoft). Nem criamos versões locais de ferramentas globais capazes de em seguida terem impacto no resto do mundo, como os chineses conseguiram com o Alibaba ou o Baidu. Os brasileiros se contentaram basicamente com o papel de consumidores vorazes das novidades, campeões ou vice-campeões em uso de redes sociais, publicação de vídeos, números de mensagens instantâneas trocadas… Nosso comportamento foi cada vez mais adquirindo o padrão de servidão voluntária diante de grandes corporações como Facebook. Trocamos a liberdade do código aberto (ou da noção de que a informação quer ser livre) por condomínios fechados administrados por empresas cada vez mais espertas no uso e na venda de nossos dados privados. Desconfio que quando falam em desenvolvimento nacional, grande parte dos brasileiros (inclusive dos economistas brasileiros) está pensando apenas na compra de camisetas da Abercrombie via Amazon. E todos ficam felizes com os mesmos uniformes aparentemente cosmopolitas, ou descaradamente submissos.

Meu consolo: pode existir algo criativamente predatório nessa tendência apenas consumista. Muitos estudos e artigos (por exemplo este aqui) sobre os trabalhos em vias de desaparecer por causa da IA profetizam que as juventudes das periferias pobres serão as parcelas da população mais prejudicadas quando operários ou pessoal administrativo forem substituídos por computadores. Habilidades mais sofisticadas, ou menos “algoritmizáveis”, como a comunicação, seriam monopolizadas por gente mais rica, estudantes de MBAs caros. Olhando para o que aconteceu no Brasil, sinto alívio em descobrir furos interessantes nessa tese. Novos comunicadores das periferias parecem ser os mais bem sucedidos criadores de conteúdo online no país.

Pense no Whindersson, que apareceu recentemente no topo da lista dos maiores influenciadores do Brasil, acima de apresentadores e atores da “mídia tradicional”. Ele foi criado em Bom Jesus, interior do Piauí, e hoje lota estádios de todas as capitais brasileiras com seu show solo de comédia stand-up. Observe atentamente a plateia da gravação de seu DVD em Salvador: em sua maioria parece ser formada por gente que não costuma frequentar teatro, uma novidade no show business brasileiro. Está ali para ouvir um monólogo que mistura observações de cultura tradicional nordestina com cultura pop de jogos eletrônicos e mangás japoneses, um mash-up de referências que são sempre pensadas, em ambientes acadêmicos, como mundos sem conexão.

Outro exemplo importante: Kondzilla é hoje um dos principais empresários de música e audiovisual no país. Seu canal no YouTube tem mais de 20 milhões de assinantes. O conjunto de vídeos ali publicados já acumulou mais de 7 bilhões de visualizações. Nenhuma outra empresa da mídia brasileira tem o mesmo tipo de sucesso online, construído na marra, inventando estratégias de viralização originais. Kondzilla tinha apenas 18 anos quando, com o dinheiro do seguro recebido após o falecimento de sua mãe, comprou sua primeira câmera de vídeo e começou a publicar clipes de MCs do funk santista e paulistano na internet. Vários outros fenômenos das periferias das grandes cidades brasileiras, do tecnobrega paraense ao sertanejo do Centro-Oeste, tiveram trajetórias semelhantes, abrindo caminhos em nova realidade diante da qual grandes gravadoras fracassaram.

Mas claro: tudo isso acontece utilizando plataformas de novas grandes corporações, em nuvens que não habitam céus brasileiros. Continuamos totalmente dependentes de tecnologia estrangeira para estabelecer links entre produtores e público.

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Também considero tímidas as tentativas de reflexão crítica sobre essa situação por parte das ciências sociais brasileiras. Há esforços isolados, aqui e ali. Pouca continuidade entre as tentativas, que surgem e desaparecem ao sabor de mudanças das políticas científicas e institucionais.

Em 1995, fui convocado por Tadao Takahashi, então diretor da RNP (a instituição que criou a – e ainda cuida da – espinha dorsal da internet brasileira, na época com sede carioca numa sala de fundos do IMPA), para organizar seminário “sobre aspectos sócio-culturais da internet no Brasil”. Chamei meus colegas antropólogos Eduardo Viveiros de Castro e Jayme Aranha Filho para me ajudar na tarefa. Eram tempos bem “ingênuos”: não havia ainda internet comercial no país. Para quem não era de universidade e governo, a única porta de entrada para a rede era uma ONG, o Ibase. A RNP imaginava que haveria tempo para planejar qual seria a melhor maneira da abertura comercial. O seminário aconteceu nos dias 28 e 29 de agosto daquele ano, no auditório do LNCC. Pouco tempo depois, o ministro Sérgio Motta autorizava a criação de provedores, que gerou um boom (a internet era o único futuro para tudo) que não deu muito em nada.

Se não fosse o esforço pessoal do Jayme Aranha Filho provavelmente o material do seminário estaria perdido. Os anais podem ser lidos neste link e retratam tentativa de estabelecimento de diálogo entre cientistas sociais e “das exatas” que não teve sequência realmente consistente e profunda, mas que agora em tempos de IA deveria ser considerado prioritário.

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Sou antropólogo. Os antropólogos são seres estranhos, escolheram trabalhar não com big data, mas com small data: nosso método principal de pesquisa é o “trabalho de campo”, imersão por período longo de tempo na vida cotidiana de um grupo pequeno de pessoas, mesmo quando estudamos em grandes cidades, com suas culturas complexas e heterogêneas. O contato face a face é a ferramenta principal para nossas melhores descobertas. Obviamente um olhar big data pode nos ajudar em várias tarefas (até porque podemos pensar a cultura como a primeira inteligência artificial) – um dos aspectos mais fecundos da reflexão antropológica vem de seu pendor comparativo, quando estabelecemos conexões entre costumes de muitas culturas diferentes (fico imaginando se a IA ajudaria Lévi-Strauss na investigação sobre seus mitemas). Porém, é preciso desconfiar de gente que tenta nos vender a ideia de que tudo agora será resolvido com machine learning.

Aprendi a cultivar essa desconfiança com um sociólogo, para muitos o maior sociólogo americano vivo. Tive a enorme sorte, a partir da apresentação de Gilberto Velho, de ter Howard S. Becker como orientador no ano que passei com bolsa sanduíche na Northwestern University, entre os créditos e a defesa de tese do meu doutorado. Howie, como exige ser chamado pelos estudantes, se tornou um de meus principais interlocutores para conversas nas quais o tema principal era tecnologia, pois sempre esteve atento aos avanços de várias áreas ciberculturais, como comprova o texto pioneiro que escreveu sobre o hipertexto (e sua amizade com Michael Joyce) ou o outro sobre novas mídias e a web.

Quando cheguei na Northwestern, fiz, com Howie e o saudoso Dwight Conquergood, um curso sobre performance e ciências sociais. Não era teoria: em todas as aulas tínhamos que fazer performances artísticas baseadas em textos de sociologia e antropologia. Mas ele insistiu que eu me inscrevesse também no curso do professor Charles Ragin, que envolvia estatística pesada (hoje o trabalho de Ragin é bem conhecido pelo uso inovador que faz dos “fuzzy sets“, que também têm aplicações bem curiosas no campo da IA). Portanto, não pensei duas vezes antes de mandar para o Howie, em 2008, um dos primeiros artigos que li sobre pesquisas big data nas ciências sociais.

Eu tinha ficado empolgado com a abertura de novas possibilidades para nosso trabalho. Achei que meu orientador americano, hipster de 80 anos, vibraria também. A primeira mensagem de volta, sempre recebida com rapidez impressionante, foi uma ducha de água gelada. Howie dizia que não tínhamos conjuntos de dados massivos sobre as coisas que realmente nos interessam pesquisar. O exemplo que me deu era sobre o livro que estava escrevendo na época, em parceria com Robert Faulkner, que agora já foi publicado como “Do you know…?“, sobre como músicos que nunca antes trabalharam juntos decidem repertórios para tocar na noite ou em festas. Não há banco de dados com todas as música tocadas nessas ocasiões. Não interessa a ninguém e seria muito caro criar esses bancos de dados.

Insisti, maravilhado com a riqueza dos outros bancos de dados que estariam sendo formados a partir da interação de milhões de pessoas nas redes sociais então nascentes. Cito a resposta quase completa (pedi autorização, era apenas um email pessoal) para não ser infiel a nenhuma sutileza do argumento (palavras para mim fundamentais não apenas para cientistas sociais, mas para qualquer uso de big data):

I’m always a little (more than a little, really) suspicious when someone tells me about a way to find out all the things that fieldworkers are really interested without having to do all the work that it usually requires. In this case, everyone (not just you!) is telling me that I don’t have to do anything, the internet and social networking sites and so forth are more or less automatically accumulating mountains of information about all the things I’m interested in and it’s there for the taking. There’s usually a catch in all this, which is that there’s data about some things and not about others, and it’s only human to say to yourself, “Well, I might as well look at what’s available and see what we can do with that,” instead of saying, “Here’s what I’d like to know about, does this material tell me about that or not?”

To take what’s on my mind right now, which is the repertoire, the songs musicians play when they get on the bandstand, let’s even imagine that some site would accumulate information about all the music that anyone, anywhere, anytime is playing and has played, and who played it and in what kind of setting, etc. What would still be missing is the interchange among the players that led to them playing just those songs, and that’s the part that we’re convinced is crucial. The rest is interesting, nice and even helpful to know. But what tells the story decisively is what they talk about as they negotiate things.

Claro, há sempre a possibilidade – digamos que não temos mais custos de armazenamento – de gravar em vídeo 3D ou traquitana semelhante todas as negociações. Mas – e aqui eu Hermano acrescento – isso seria como o mapa de Borges, que fica inútil por ser do tamanho do território, ser uma cópia exata do território que queríamos representar. Teríamos que enviar antropólogos para fazer trabalho de campo nessa “second life” (antes que vire cartografia despedaçada, apodrecendo no “deserto do real”). Ou ensinar uma IA a ter olhar antropológico e mesmo os anthropological blues de Roberto da Matta. É isso realmente o que queremos? Podemos criar também IAs antropólogas brasileiras?

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Há uma maneira brasileira de pensar? Conseguiríamos aqui construir uma inteligência artificial realmente outra, alienígena para padrões dominantes, ou fora do projeto Putin de dominação mundial? O Brasil não acabou? Por que insisto nessa ideia de que o Brasil tem algo de original para propor para o mundo? A realidade recente toda não me contradiz?

Sou insistente, repetitivo, não consigo sair desse loop… Quando Cláudio Pinhanez me convidou para o colóquio da IBM brinquei com ele: temos que inventar uma inteligência artificial antropófaga, ou tropicalista. Lembrei os aforismos do Manifesto de Oswald: “nunca fomos catequisados, fizemos foi o carnaval”. E o carnaval é sim uma outra forma de inteligência, bem artificial. Mais um aforismo, este mais adequado ao tema em questão: “nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós”. Há inteligência artificial ilógica? Outra lembrança: admitimos sim, entre nós, o nascimento da lógica paraconsistente de Newton da Costa, e que poderia nos guiar no caminho para uma IA brasileira ambígua, não entre o sim e o não, mas acreditando piamente no sim e no não, tudo ao mesmo tempo agora, uma outra lógica talvez também chinesa (lembremos que – como Gilberto Freyre sonhava – o Brasil é a China Tropical).Uma IA que talvez nos ensine a lidar com a mistura não apenas como entropia, e sim como um sinal de que nada é puro. Pensar a bagunça, na bagunça – isso não deveria ser considerado tarefa impossível para seres inteligentes.

Outro caminho: fazer a IA virar escritora fan fiction de Guimarães Rosa (via também Eduardo Viveiros de Castro) se metamorfoseando em IA onça, não humana. Gosto da ideia de Close AIs e Far AIs. Quanto mais longe a gente conseguir ir, melhor, mais surpresas. Ir além de Wittgenstein: se um leão falar, vamos dar um jeito de entender o que ele diz. Remixagem xamânica de “formas de vida”, algumas naturais  (mas nem todas humanas), outras artificiais. Navegando contra a (in)sensatez de John Searle, seguindo trilha multinaturalista: pensamento é um só, corpo e perceptos/afectos são múltiplos. Ou não. Vamos descobrir. Ou não tão longe: que tal uma IA que fale as quase 200 línguas indígenas ainda vivas no Brasil? Sei que as IAs ainda engatinham no português. Mas por que se contentar com pouco?

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Durante o período em que fazia pesquisa em busca do que falar no colóquio da IBM, ouvi – como faço religiosamente – vários episódios do podcast do meu amigo Erik Davis. Foi assim que descobri o pensamento de Ken Goldberg. Não parei mais de devorar, como uma onça, suas ideias, que saio por aí replicando memeticamente. O texto que escreveu para o Wall Street Journal é um bom resumo. Gosto especialmente – eu empenhado deleuziano – de sua ordem para esquecermos a Singularidade e pensarmos a multiplicidade. Não um algoritmo único no final da História. mas um enxame de sistemas cognitivos, baseados em uma matilha de modelos diferentes, junto com humanos e outras formas de vida, não guerreando pela dominação total/mundial, mas estabelecendo múltiplas formas de colaboração entre si.

Assim, guiado por Ken Goldberg, cheguei ao conceito (já patenteado!) de random forest, ou florestas randômicas (explicação simples neste podcast). Tudo por aí me atraí, e tento juntar com o que acho interessante quando penso em IAs brasileiras: não um monólito 2001, copiado igual em todo o universo, mas um conjunto fuzzy de fragmentos muito diversos, cada um com sua experiência, e a soma das experiências produzindo um carnaval, ou carnavais. Mandei o artigo do Ken Goldberg para o Eduardo Viveiros de Castro. Ele me respondeu, sintético e preciso: “Sobretudo temos de colocar a floresta literal nesta multiplicidade… Fazer o salto, da Amazon à Amazônia…”

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Minhas melhores descobertas de livros não acontecem com o uso dos algoritmos da Amazon. Foi numa estante de livraria tradicional que encontrei “La France contre les robots” de Georges Bernanos. Contém textos escritos por volta de 1945, quando estava exilado no Brasil, cuidando de uma fazenda em Barbacena. Fiquei fascinado, imaginando Bernanos no seu cavalo, indo todo dia da fazenda para um café na cidade, onde escrevia em francês seus sermões desancando os imbecis. Digo isso como introdução pitoresca para citar um trecho que agora, com a IA, faz novo sentido: “O perigo não está nas máquinas, senão deveríamos realizar o sonho absurdo de destruí-las pela força, à maneira dos iconoclastas que, espatifando as imagens, pensavam aniquilar também as crenças. O perigo não está na multiplicação das máquinas, mas no número incessantemente crescente de homens habituados, desde sua infância, a desejar apenas aquilo que as máquinas podem dar.”

Lembrei-me então de outro europeu aqui exilado, o português Agostinho da Silva, em suas entrevistas publicadas no livro “Vida conversável”, que é um dos meus favoritos, sempre na cabeceira. Não era contra as máquinas. Achava que deveríamos prestar homenagens ao parque industrial que pode contribuir para a “libertação do homem”, se bem utilizado. Acreditava que a economia global já produz o suficiente para um regime de renda universal, onde só trabalharia quem quiser e gostar daquele trabalho específico. Mas o professor Agostinho da Silva escreveu o seguinte: “Nunca ninguém enamorado do imprevisível conseguiu construir uma máquina.”

Então com essa mistura improvável de Georges Bernanos com Agostinho da Silva ficam aqui minhas sugestões para um projeto realmente original de IA brasileira: vamos imaginar outros desejos, múltiplos? E outras máquinas que nos presenteiem com o imprevisível? Máquinas que produzam as transformações desejadas por Gilberto Gil em “Cibernética“, canção dos anos 1970:

Onde lia-se alfândega leia-se pândega
Onde lia-se lei leia-se lá-lá-lá


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