Satoshi Kon

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/05/2010, antes da morte de Kon

Satoshi Kon é um dos meus cineastas favoritos, ao lado de Tarkovski, Marker e poucos outros. Cineasta, ponto. Poderia ter dito cineasta de animação. Ou de anime, território japonês dentro da animação. Mas seria colocá-lo num gueto, cercado por olhares preconceituosos ou condescendentes. Prefiro, ao contrário, pensá-lo como grande artista das imagens em movimento, cuja obra propõe reflexão original sobre os dilemas mais centrais da cultura contemporânea.

Talvez, na campanha aqui iniciada para tirar o anime do gueto, o mais “correto” fosse dizer que Mamoru Oshii é meu cineasta favorito. Ou Hayao Miyazaki. Oshii é autor de Ghost in The Shell e queridinho da crítica internacional, tanto que teve seu Inocência selecionado em Cannes – o primeiro anime a realizar tal façanha – e depois The Sky Crawlers competiu em Veneza. Por sua vez, com prestígio mais “estabelecido” e apoio da Disney, Miyazaki ganhou até Oscar – claro, de animação… – com A Viagem de Chichiro.

Outros nomes importantes: Shinichiro Watanabe, Hideaki Anno, Katsuhiro Otomo… Só com essa pequena lista – poderiam ser incluídos vários outros nomes – percebemos uma cena artística privilegiada, que por uma dessas coincidências felizes da história reúne várias personalidades geniais, todas com visões muito particulares sobre a condição humana hoje. O fato de ser tratada, muitas vezes, como marginal, é mais um mistério fascinante da hierarquização esquisita de valores à qual estamos submetidos.

Tenho interesse especial por Satoshi Kon, talvez pela maneira cada vez mais alucinada e complexa com que ele trata um tema querido, aquele que também me leva a ler Philip K. Dick como tratado de sociologia: a confusão violenta e suculenta entre o artificial e o autêntico, que a onipresença da cibertecnologia radicaliza. Os quatro filmes de Kon são como que variações sobre esse mesmo tema.

Que Haruki Murakami me perdoe, mas a grande obra sobre o Japão pós-moderno é Perfect Blue, o primeiro filme de Kon, lançado em 1998. A nova cultura pop japonesa – que, para a juventude planetária, tem hoje importância semelhante àquela do rock anglo-saxão em décadas anteriores –  conecta várias áreas criativas: os mangás (histórias em quadrinho), os animes, os games, a música pop dos “idols” (fabricados pela indústria fonográfica), os otakus (fãs, nerds obsessivos) etc. Uma área alimenta a outra: o otaku vira desenhista de mangá, o game gera um anime e assim por diante. Kon estudou artes na universidade, trabalhou com mangá e depois como assistente de Katsuhiro Otomo, o mítico diretor de Akira. Perfect Blue é um resumo do que aprendeu nesses mundos interligados.

A primeira cena nos confunde, parece que começamos a ver o filme errado: é uma luta de Power Rangers. A “câmera” muda de enquadramento e percebemos que aquilo era uma encenação teatral de trecho de anime, sobre palco montado no teto de um edifício, em frente a uma platéia de otakus. No número seguinte surge a protagonista: uma “idol” em show de despedida como cantora, pois seu empresário tinha decidido que deveria seguir a carreira mais adulta de atriz. O resto do filme narra sua perseguição por um otaku-stalker que não admite a mudança e cria um diário falso na internet (antes dos blogs – numa cena vemos um browser Mosaic “pré-histórico”), com reviravoltas vertiginosas que expõem as entranhas da indústria pop nipônica, que também produz filmes como Perfect Blue. A autoreferência e as trocas constantes de perspectivas são marcas poderosas do cinema de Kon.

Millenium Actress (2001) aprofunda essas características, agora com uma visão transversal e ambiciosa onde a história do cinema japonês se confunde com a história do Japão e com a biografia de uma atriz no final de carreira que dá uma longa entrevista para um jornalista fã. A “verdade” individual se mistura ao drama coletivo nacional e ao drama ficcional de vários filmes de época, num jogo de ilusão e realidade. Muitos trechos dos filmes são reencenados pela dupla entrevistador-entrevistado, com a cumplicidade de um câmera.

Em Tokyo Godfathers (2003 – este filme e o seguinte, Paprika, são facilmente encontráveis no Brasil em DVD – os outros têm trailers e extras na internet), Kon volta às ruas de Tokyo, em imagens que revelam detalhes escondidos de sua vida urbana, que só um observador carinhoso percebe. Talvez a cidade nunca tenha sido tão bem filmada, logo para contar uma história destrambelhada, de uma turma de mendigos – incluindo um mendigo travesti – que encontra um bebê abandonado. É incrível que um filme como esse, tão caro e tão na contramão de tantas regras do cinema comercial (o suicídio é tema central…), tenha sido lançado e tenha feito sucesso.

Paprika, sobre uma máquina que permite que entremos em sonhos alheios, incluindo um sonho magnífico de uma “parada de tudo que existe”, é baseado em livro de Yasutaka Tsutsui, mestre da vanguarda literária japonesa (o jornal inglês The Guardian o descreve: “imagine um JG Ballard maníaco”!) Essas colaborações são comuns no anime: músicos extraordinários também fazem trilha sonora, isso para não falar nas equipes – centenas de pessoas – da computação gráfica, da dublagem, da direção de arte.

Hoje, Kon trabalha escondido na sua próxima produção, novamente sobre o sonho, The Dream Machine. Não há humanos no roteiro. Só robôs. É um “road movie” para robôs. Tomara que humanos possam ver o filme também.

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