Fábio Cavalcante

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/05/2010

Ouvi pela primeira vez a música de Fábio Cavalcante via Overmundo. Desde seu lançamento em 2006, esse site sempre me traz boas surpresas. Participei de sua criação. Frequento suas seções diariamente. Como a publicação é aberta para qualquer pessoa, e o destaque para cada colaboração é uma decisão coletiva, ninguém sabe o que vai encontrar em suas páginas a cada visita. O que existe de mais interessante no Overmundo não é o que está na home, numa determinada hora, mas sim a produção descentralizada de um já enorme banco de dados que revela nossa diversidade artística, sobretudo em seus aspectos “invisíveis” na grande mídia. Cinema no Piauí, quadrinhos no Maranhão, games em Santa Catarina? Tudo isso está no Overmundo. E apareceu por lá não porque um editor decidiu, mas sim porque um de seus milhares de colaboradores achou importante compartilhar a novidade. Mesmo sendo uma experiência pioneira, aberta mas com foco exclusivo na cultura brasileira “fora-do-eixo”, sem portanto os assuntos considerados mais “populares”, o site é um sucesso com cerca de 1 milhão de visitantes mensais. Muitas tentativas semelhantes, surgidas na ali no início da Web 2.0, falharam. O Overmundo continua firme, o que reafirma talvez uma aptidão nacional pela vida online.

Fábio Cavalcante começou a colaborar com o Overmundo em 2006. Publicou várias músicas, uma por uma. Mais recentemente organizou tudo por disco. A cada audição eu ficava mais confuso e fã. Parecia música eletro-acústica, mas tinha elementos de canção, salpicados de referências ao folclore paraense. Tudo isso misturado de forma bem pessoal, sem paralelo próximo com nenhum outro compositor, brasileiro ou não. Suas outras publicações no Overmundo iam aumentando minha perplexidade/admiração (já deve ter dado para perceber que cultuo esses sentimentos ambíguos). Um dia me deparei com seu texto teórico sobre a Doristi, “o nome de uma escala usada na Grécia antiga, e que serve de base para o sistema alternativo de organização melódico-harmônica dos sons” desenvolvida em disco, acompanhado por partituras. Também vi um vídeo de animação e ouvi várias gravações excelentes de bois-bumbás da cidade de Ourém, tudo produções de Fábio.

Sempre deixava meus comentários elogiosos nas colaborações, mas só estabeleci contato agora, para escrever este texto. Fiquei mais impressionado. Fábio tem 34 anos. Formado em música pela Universidade Estadual do Pará, onde hoje é professor. Ouviu atentamente tudo: de Debussy a Melindrosas, passando por Cage e Cure. Toca desde criança: guitarra, sax, se profissionalizou na flauta aos 16, e depois – primeiro pela enorme dificuldade de encontrar quem tocasse suas composições e em seguida por opção estética – passou a dominar softwares de edição sonora.

Em 2001 inventou o selo fonográfico FGC Produções Independentes, por onde passou a lançar seus discos primeiro como objeto físico (CDs, com capas de material reciclado, desenhadas, impressas e tudo mais pelo próprio compositor), mas depois disponíveis para download de graça pela internet, do Vol.1 até o Vol. 5, este de 2009. Seu selo também divulga o trabalho de outros artistas, gravados por Fábio. Ele morou cinco anos em Ourém, onde fazia um programa para a rádio comunitária local, a Tembés FM. Toda semana tocava material inédito de um artista da cidade ou de seus arredores. Quase inacreditável: tem gente que fala em crise da música, mas em Ourém, no interior do Pará, toda semana, por cinco anos, uma rádio comunitária lançou tal quantidade de artistas! Havia de tudo: brega, bolero, samba, toada de boi. Conheço apenas os discos dos bois e do Mestre Cardoso que Fábio lançou na rede. São preciosidades. Nunca ouvi o boi paraense tão bem gravado, revelando uma riqueza de detalhes rítmicos e uma poética eclética, que canta tanto a sereia encantada quanto a prisão de Saddam Hussein, a boniteza da garça e o futebol do Remo.

No início de 2010, Fábio se mudou para Santarém. Não perdeu tempo. Já se aliou ao coletivo Puraqué (“cultura digital e autonomia na Amazônia”) e ajudou a montar um estúdio livre – todo com software livre – que tem como objetivo gravar quinzenalmente um músico local, disponibilizando as músicas, entrevistas e fotos no seu site.

Tudo isso foi feito na marra. Fábio não fica reclamando de falta de apoio ou patrocínio. Ele faz o que quer fazer, o que precisa fazer. E já construiu um acervo vigoroso não só de seu próprio trabalho como também de músicos que vivem ao seu redor. Nada é fácil. A nova realidade da música, pós-indústria-fonográfica, não se resume mais em ficar compondo ou gravando. É preciso trabalho duro para cuidar do site, da divulgação nas redes sociais, e muito mais. Mas há vantagens óbvias: imagine a chance do Fábio no mundo das gravadoras tradicionais, morando em Ourém ou Santarém, fazendo a música estranha que faz, sem se importar em nada com o que está na moda, ou com o que pode agradar a maioria… Hoje ele pode, em casa, na rádio comunitária ou no coletivo digital amazônico, gravar sua música e divulgá-la para o planeta todo. Não há mais barreiras de executivos dizendo o que o mundo deve ou pode ouvir.

Por essas e outras, vou – de vez em quando – trazer notícias-pílulas do Overmundo para esta coluna, selecionando surpresas para quem quiser se surpreender. Há muitos projetos e pessoas incríveis como o Fábio, mandando brasa pelo Brasil afora.

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