nova cibercultura infantil

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/06/2010

 

Há um mês, nunca tinha ouvido falar de Greyson Chance. Eu, a torcida do Flamengo, o planeta inteiro. Tudo bem: sua família e o pessoal da escola, na cidade de Edmond, Oklahoma, já deviam ter notado seu talento. Hoje, tudo mudou. Se você passou as últimas semanas praticando ecoterrorismo no planeta Pandora, talvez não saiba do que falo. Vou resumir. No dia 28 de abril foi publicado um vídeo no YouTube documentando a apresentação de Greyson, 12 anos, sexto ano, tocando piano e cantando Paparazzi da Lady Gaga em show do colégio. O vídeo é precário, mas o som é suspeitamente bom – dá para ouvir que o garoto canta bem. No dia 11 de maio, quando Ellen DeGeneris, apresentadora de TV, viu o vídeo (seguindo, diz a lenda, recomendação de email enviado para sua produção pelo irmão de Greyson), sua performance ainda era modesta: cerca de 10 mil pageviews. 24 horas depois, o menino já tinha feito sua primeira viagem de avião e gravava entrevista para o Ellen Show, interrompida por telefonema da própria Lady Gaga, super-afetuosa, mesmo diante de uso não-autorizado de sua música. Daí para frente a reação-celebridade-instantânea foi explosiva: atualmente são mais de 30 milhões de pageviews só no YouTube – e outros vídeos, com composições próprias, vão pelo mesmo caminho. Depois de boatos de um contrato com a Interscope (gravadora de Lady Gaga), Ellen DeGeneris anunciou a criação de seu próprio selo fonográfico que terá como primeiro lançamento o disco de Greyson Chance.

 

Chance. Gosto desse sobrenome. Sou fã de um outro cantor, bem menos fofo, chamado James Chance, que gravou, entre outras pérolas, a sintomática I Don’t Want to Be Happy. Chance significa acaso. Mas o que há realmente de acaso na história de Greyson Chance? Isso importa? Ainda sabemos distinguir o espontâneo do fabricado, a autenticidade da manipulação? A distinção tem alguma utilidade? Mesmo se tudo fosse espontaneamente autêntico, não poderíamos, sem simplificação brutal ou ingenuidade, entender esse sucesso como comprovação da vitória das novas mídias contra a coitadinha da mídia tradicional. Para começar: a ascensão está baseada num cover de Lady Gaga, ela fenômeno de massas que é resultado de uma campanha de marketing violentíssima produzida pela velha indústria. No ano passado, eu moderei o blog do Vem Com Tudo, quadro do Fantástico – comandado por Regina Casé – que parodiava a tendência dos caçadores de tendências, e era bombardeado por comentários irritantes de supostos fãs da Lady Gaga, que pareciam todos pagos para ser fãs (mas que acabaram produzindo fãs verdadeiros…) O vídeo de Greyson Chance estava no YouTube, mas foi só depois de aparecer na TV, ultimamente sempre diagnosticada como “sem salvação” (justamente por causa do YouTube), que virou fenômeno viral. E assim por diante, revelando uma tabelinha caprichada – talvez por acaso – entre o centralizado e o descentralizado, o broadcast e o de-muitos-para-muitos.

 

Acho que gosto também de Greyson Chance. Ele precisa controlar um tique nervoso que o faz balançar o cabelo pós-emo de forma sutil mas levemente inquietante. Precisa também ser menos natural em suas aparições públicas. Fico desconfiado de gente de 12 anos que se sente tão em casa dando entrevista em auditório de TV, como se tivesse estudado para isso com um batalhão de assessores de políticos. A maioria dos pré-adolescentes que conheço só tem dois vocábulos: parada e caraca. Greyson não: Lady Gaga “é uma grande inspiração pois amo sua individualidade e a maneira com que ela atrela isso ao seu talento.” Wow! Parece que ele estava se preparando para ser a capa da Caras por toda a vida. Mas tem gente que é naturalmente assim. Como o Justin Bieber

 

Justamente: Greyson tem sido chamado do novo Justin Bieber. A comparação me encantou: era a web se referindo à própria web, o mundo novo ancorado na sua novidade, sem precisar do tal mundo real. Claro: a comparação poderia ser feita com personagens mais, na falta de palavra melhor, concretas. Greyson seria o novo irmão dos Jonas, a nova Miley Cirus, o novo aluno da escola de High School Musical, de Glee ou da turma de Isa TKM. Estaria sempre em milionária companhia: se tem alguma coisa que a mídia centralizada/tradicional/velha ainda faz muito bem é produzir esses fenômenos de consumo quase infantis, totalmente multimidias. Compre o DVD, o álbum de figurinhas, a roupa, a pasta de dente, o biscoito, a boneca etc. etc. – e pense que sua vida depende disso, desse comprar desvairado, dessa necessidade padronizada, dessa emoção tão nanofabricada.

 

Não acreditava tanto na potência poética desses produtos até que fui obrigado a levar minhas sobrinhas ao show de despedida do Rebelde. De repente me vi no meio de um mar de meninas que choravam sem parar, totalmente desamparadas, perdidas, sozinhas no mundo, como se estivessem num funeral, como se aquela fosse uma escola de educação sentimental, no curso “como lidar com a Perda”. Fui tomado por uma tristeza absoluta, metafísica, a mesma que despedaçou meu coração quando vi Tristão e Isolda pela primeira vez. Só que a ópera não estava no palco, e sim na platéia. Que importa se o ponto de partida daquela emoção coletiva tão fulminante é a rapa-de-tacho de uma aventura comercialesca mexicana? Poucas vezes na vida presenciei algo tão intenso. Essa criançada pós-virtual e esses marqueteiros estão brincando com fogo, fogo muito provavelmente sagrado.

 

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