scott pilgrim e cia.

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/06/2010

 

Uma das melhores iniciativas recentes do mercado editorial brasileiro foi a criação do selo Quadrinhos na Cia, pela Companhia das Letras. Confesso não acompanhar com muita atenção as novidades das “graphic novels“. É muita coisa boa, com novos artistas de peso surgindo em vários países. Preciso de filtros para me orientar, indicando o que é mais bacana. Quadrinhos na Cia virou meu filtro preferido para esse universo. Confio no gosto de quem escolhe o que publicar. Ou melhor, o selo tem um gosto parecido com o meu, mesmo para aquilo que desconheço. Muitos de seus autores se já tornaram centrais no meu panteão literário: Gene Luen Yang, de O Chinês Americano; Craig Thompson, de Retalhos; Dash Shaw, de Umbigo Sem Fundo – leituras obrigatórias, com visões artísticas originais, complexas e perturbadoras.

 

Mesmo assim, com todas essas descobertas indutoras do efeito “quero mais”, mantenho um certo pé atrás diante dos mundo dos quadrinhos hypados. A luta pela sua legitimação como Arte foi – ou tem sido – tão séria, que talvez seus criadores tenham adquirido o vício de se levar a sério demais, ainda que buscando permanecer no conforto contestatório de um mítico underground (Gonzolândia! Todo mundo tem a Disney que merece…), ou – pior – de uma sensibilidade indie. Tenho cada vez menos paciência para tudo que tem cheiro de indie, de filme premiado em Sundance a namorada de Pete Doherty. Há um maneirismo vazio e adolescente bobo que quer – como um Super-Homem de calça skinny – parar o mundo no início dos anos 80, ao som do mesmo riff de guitarra repetido ad infinitum. Por isso, ainda que confiando no julgamento editorial do Quadrinhos na Cia, demorei a encarar Scott Pilgrim Contra o Mundo. A menção na contracapa ao “vibrante mundo do rock’n’roll canadense” atuou como exterminador de meus neurotransmissores consumistas. Considero Arcade Fire ou Broken Social Scene tolices pretensiosas, intoleráveis. Então, só depois de apalpar, “com o amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, suas capa e páginas em várias idas a livrarias, é que fiz a compra. A obra de Bryan Lee O’Malley, o criador de Scott Pilgrim, virou minha obsessão principal desta semana, desencadeando um carinho descontrolado por qualquer coisa canadense, mesmo suas bandas indies (“são crianças, não sabem o que fazem…”).

 

Resultado: já li todos os outros livros Scott Pilgrim (esperarei ansioso o lançamento o último volume no dia 20 de julho, se a obsessão durar até lá) e o Lost at Sea, primeira produção de Bryan, mesmo que ainda não lançados pelo Quadrinhos na Cia. Vi os trailers do filme que estreará em agosto baseado na série, e já formei minha opinião que Michael Cera, o ator de Juno, foi a escolha certa para encarnar Scott, apesar de ele parecer sempre Michael Cera, ou justamente por isso: Scott é um pouco cada um de nós que fomos adolescentes em qualquer década e país do planeta pós-rock. Conferi o material disponível na internet sobre o game também baseado na série, mas percebi que a pancadaria ninja domina, acabando com o contraste delicioso entre ação e momentos-nada, com suas encanações existencialmente românticas, existentes nos quadrinhos. Pois é nessa amalucada oscilação de tons e estilos narrativos que está o mais curioso e sedutor de Scott Pilgrim, quando o blá-blá-blá indie – dominante em Lost at Sea, cuja protagonista acredita não ter alma – é decorado por um visual mangá e por recursos gráficos dos jogos eletrônicos, como mudanças de nível na partida ou indicadores de quantidade de karma ou “vida” de cada uma das personagens.

 

Alexandre Lancaster, nossa enciclopédia de cultura pop japonesa, diretamente de Todos os Santos, no Grande Meier (terra de Lima Barreto), decreta – em seu blog Maximum Cosmo – que Scott Pilgrim é “a primeira grande obra pop do mangá canadense/americano”, e analisa com detalhes (“No segundo volume, as calhas horizontais entre os quadros se tornam mais espessas do que as verticais – uma característica tradicional do mangá.”) como a mestiçagem nipônica foi ganhando espaço durante a obra. Bryan Lee O’Malley – que é mestiço coreano-francês-canadense, se sentindo fora de lugar nesses vários ambientes étnicos – pensa o que faz uma derivação do mangá, já mixando alguns estilos bem específicos dentro da rica história dos quadrinhos japoneses. E talvez isso seja o mais interessante: já chegamos naquela fase em que, como aconteceu com o rock, a novidade do Japão vai se adaptando às realidades culturais diferentes do resto do mundo, gerando produtos híbridos, orientais-locais.

 

NOTÍCIAS DO OVERMUNDO – Tomado por essa nipomestiçagem global, encontro o anúncio da Game Anime Expo, que vai se realizar em Aracaju no final de julho. A agenda do Overmundo já havia publicado notícias sobre eventos semelhantes em Santo André, São Luís, Teresina, Natal, Palmas etc. São sempre reuniões de milhares de adolescentes, de todos os grupos étnicos e classes sociais, unidos pelo seu interesse por pop japonês, quadrinhos e jogos eletrônicos. Na Expo de Aracaju fui surpreendido, lendo a lista de palestrantes, por uma cena sergipana de produção de games, com empresas como Fluidplay, Elfland e Lumentech, todas exportando seu produtos há vários anos. Hoje, não importa nossa localização geográfica, próxima ou não dos “centros”, para o estabelecimento de conexões artísticas-produtivas globais.

 

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