tolerância

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 02/07/2010

 

Outra Ceia, do grupo Pura Tentação, é atualmente uma das músicas mais tocadas nas rádios populares e nas ruas do Rio de Janeiro. O sucesso é interessante por três motivos principais. Primeiro: ainda não foi lançado em disco. Aliás, o Pura Tentação nunca gravou um disco, nem teve grandes hits anteriores – é praticamente um grupo estreante. Segundo: é uma reza para Oxalá e sua corrente de orixás, num tempo de crescimento de algumas (não todas, é claro) igrejas neopentecostais que combatem manifestações da religiosidade afrobrasileira como prática do Mal. Terceiro: revela a permanência da centralidade/vitalidade do samba, especialmente do pagode pop detestado pela crítica, para o consumo cultural da população carioca, de todas as faixas etárias e zonas urbanas, mesmo em tempos de tantas outras ofertas e modas, nacionais ou internacionais.

A melodia de Outra Ceia conquista facilmente o ouvinte. Nos comentários para o clipe improvisado – apenas uma edição de fotografias – que foi enviado pelo grupo para o YouTube, muita gente diz que ficou arrepiada quando escutou sua letra no rádio. A comentarista Batatinha537, que frequenta igreja evangélica (“mas não sou batizada”) se rende: “tenho que admitir que essa música é linda demais!” Trunfo123, responsável pela publicação do “vídeo”, responde: “esse é o verdadeiro espírito da música, ou seja, independente da religião, ela toca todos os corações”. O samba narra o sonho bom com Oxalá, “em plena sexta-feira”, de uma pessoa que está cansada de carregar sua cruz e pede perdão por tudo que errou. Oxalá se comove, resolve cuidar do devoto, reunindo outros orixás para ajudá-lo: Iemanjá, Oxum e Oxumaré lavam seu coração; Iansã sopra seu vento com amor; Xangô faz justiça; Ogum ganha batalhas com sua espada; Oxossi cuida da ceia; Ossaim dá banho de ervas. No momento de maior empolgação, com o dobro de animação na percussão, Omolu cuida da saúde. É história com final feliz.

Marquinho PQD, um dos compositores de Outra Ceia, é ainda um dos responsáveis por Ogum, sucesso de Zeca Pagodinho, outra reza afrobrasileira que recentemente conquistou as rádios Brasil afora. No acompanhamento musical dessas duas músicas que celebram a força dos orixás, uma flauta torna a mensagem mais doce, tranquila, porém ao mesmo tempo segura, convicta, como se dissesse: não estamos aqui para briga, mas quem quiser entrar no (ou ficar ao lado do) nosso terreiro, tem que nos respeitar, tem que conviver conosco, pois somos alicerce desta nação. E a aceitação na mídia – sem espanto e contra todos os episódios violentos – parece confirmar ou pregar (ou pelo menos eu quero que seja assim) que esta é a vontade majoritária popular, também entre evangélicos: a tolerância entre contrastantes visões de mundo e além-mundo. E isso gera situações benéficas para todos: ninguém pode dizer, por exemplo, que o gospel não tenha vez no país do samba, até porque já temos samba-gospel (e futebol evangélico) de ótima qualidade.

O samba se garante, conquista novos adeptos o tempo todo. A rede do samba é poderosa, engrenando parcerias e links de vários tipos, uns fortalecendo os outros. Vide Marquinho PQD. Sua história não começou com Outra Ceia ou Ogum. Sua lista de sucessos tem início nos anos 80, naquele ambiente extremamente fértil que girava em torno dos pagodes do Cacique de Ramos, bloco que por sinal vai completar 50 anos em janeiro de 2011. Marquinho foi gravado pelo Fundo de Quintal. Fez várias composições com Arlindo Cruz, o rei do Rio que recolocou Madureira na boca da cidade. Arlindo é parceiro de Leandro Sapucahy, e também de Marcelo D2. O Fundo de Quintal prepara parceria Via Dutra com Leandro Lehart, que por sua vez acaba de colocar no estúdio toda uma bateria, formada pelos melhores músicos das escolas de samba paulistanas (escute, vale a pena), para tocar Carlinhos Brown. Quer mais? Há todas as novas raízes da Lapa. E a guitarra de Rômulo Froes. E os 25 anos de carreira do Exaltasamba. Tudo junto, misturado, e de nobreza inabalável.

Mesmo os lugares aparentemente mais anti-samba do mundo não resistem. Como o shopping Downtown, hoje palco de pagode querido da garotada da Barra, toda quarta-feira. E o funk, que muita gente decretou que teria nascido para acabar com a verdadeira música do Rio, cada vez mais se revela como herdeiro aplicado do samba, provavelmente seu melhor herdeiro. Tanto que hoje estão na moda festas como RevelaFunk ou ExaltaFunk. Os passos de dança também se misturam e um dia talvez fiquem tão parecidos que vai ser impossível diferenciar quem dança uma coisa ou outra.

Tudo bem, alguém pode dizer que sertanejo é mais popular aqui, forró acolá. Mas o samba é o máximo denominador comum, em constante renovação, de todo o país. É ruim aparecer outro ritmo para ocupar esse seu lugar. Há quase um século, o Rio transformou o Brasil no país do samba, e nada parece conseguir mudar essa nossa bendita condição. Orgulhosamente, convictamente, insistentemente: não marchamos, e mesmo orando, sambamos.

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