Malcolm McLaren

texto publicado na minha coluna no Segundo Caderno do Globo em 23-07-2010

Lembrança é cruel: atrai mais lembrança.  Desde que escrevi sobre Johannesburgo na coluna da semana passada, não parei de pensar na África. Tive a sorte de conhecer várias cidades africanas, que me proporcionaram experiências incríveis, fontes de algumas das melhores e piores recordações que carregarei pelo resto da vida. Estive em Praia, Dacar, Lagos, Maputo, Bissau, Luanda, isso para falar só de capitais. Visitei também Kinshasa, quando era capital da vida noturna do continente, além de sede da ditadura terrível de Mobutu Sese Seko. Em jantar na casa de um diplomata, eu comentava meu fascínio diante do ambiente, contrastante com o clima político desastroso, de festa constante do Matonge, bairro musical da cidade, insinuando que não deveria haver lugar mais animado no mundo. O mordomo – sim, há mordomos no mundo diplomático, e eles podem se intrometer em conversas dos patrões… – ao ouvir meus elogios, desdenhou: “você fala isso pois não conhece Cartum.” Tive que me recolher a minha ignorância. Desde aquele  momento, Cartum ocupa lugar mítico no meu imaginário. Um dia ainda verei a folia dos bailes sufis nos seus desertos periféricos.

Na falta de Cartum, continuo a venerar aquele lado rumba de Kinshasa, que talvez não exista mais. Assim como aquele país não se chama mais Zaire. Tempos distantes. Na época, na minha mochila de viagem, não podia faltar um walkman. Será que os garotos de hoje em dia sabem o que é um walkman? Como fita cassete é a moda um tanto boba e retrô  do momento talvez seja novamente chique ter esses aparelhos. Os meus sempre tinham rádio, e eu gravava a programação FM e AM dos lugares que visitava. Tenho ainda o registro de um programa político de Brazzaville, a capital da República do Congo, separada de Kinshasa pelas águas do Congo. O regime político na outra margem do rio era comunista, ou uma vertente africana do comunismo. O programa era doutrinário, feito para dar às massas um gosto de Revolução e patriotismo. A música de fundo dava tons afro para o discurso verbal. Tinha algo de moderno também, como se buscasse indicar um futuro glorioso e negro para o mundo. Mas algo parecia estranho, não sabia bem o quê. De repente, a iluminação punk: identifiquei a música. Era uma das faixas do Duck Rock, o disco sensacional – um dos melhores de todos os tempos, segundo minha humilde opinião – de Malcolm McLaren, que apresentou o pop africano e o hip hop para muita gente, na contramão de um momento em que o bacana era ser gótico e triste.

Contei essa história para o próprio Malcolm McLaren, anos depois. É óbvio, ele vibrou ao ouvi-la pois sempre se pensou como um ladrão, e adorava ser roubado também. Malcolm roubou ritmos zulus, e ainda fez um coral zulu louvá-lo cantando “i’m a sex pistol man”: nada melhor do que ter sua música roubada por um regime comunista africano. Isso é que é metaroubo.

Meu encontro com Malcolm McLaren não foi menos absurdo. Tudo começou com um telefonema da Regina Casé, dizendo que tinha sido convidada para um jantar em homenagem ao sex pistol man na casa do adido cultural francês no Rio (o que seria do nosso mundo sem diplomatas e mordomos?), pois estava lançando seu disco “Paris”. Regina sabia que Malcolm era um dos meus grandes heróis e me deu de presente a oportunidade de tietá-lo.

Provavelmente por sermos seus maiores fãs no jantar, quando fomos nos despedir, pois eu queria ir ao lançamento de um livro de Hermínio Bello de Carvalho, ele disse que iria sair conosco. Há prova: uma foto na livraria Timbre, no Shopping da Gávea: eu, Hermínio, Regina, Malcolm e Paulinho da Viola! Isso é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida: juntar gente diferente. Mas colocar lado a lado o príncipe da pureza do samba e o ladrão detonador da impureza punk, isso vai ser difícil de superar.

Malcolm morreu este ano. No texto em sua homenagem, publicado na revista Art Forum, Greil Marcus escreve o que considero ser o mais sério elogio que se pode emitir sobre qualquer pessoa: “ele fez coisas que transformaram o mundo num lugar mais interessante.” Mesmo quem nunca ouviu falar seu nome, vive de alguma maneira sob sua influência. Sem o punk, golpe de mestre de Malcolm, não haveria quase tudo de mais emblemático da arte contemporânea, de Blade Runner a Damien Hirst, passando pela última coleção da Givenchy e por qualquer rave. Não forma, nem conteúdo, mas sensibilidade. Estamos imersos na sensibilidade punk até bem mais que o pescoço ou o cabelo moicano arrepiado.

Uma das mais interessantes obras deixadas por Malcolm foi seu programa de governo, lançado em 1999, quando ameaçou se candidatar à prefeitura de Londres. Eram 16 propostas, todas aparentemente dementes, mas que ainda hoje nos desafiam plenas de bons sentidos. Gosto particularmente da idéia do carnaval na Oxford Street, da arquitetura feita por sem-tetos, de artesãos nas grande cadeias de lojas, de transporte por carros elétricos ou a cavalo, de democracia eletrônica e bares dentro das bibliotecas. Hoje, neste ambiente eleitoral chocho, mas não só no Brasil, a maioria quase absoluta dos políticos banca o bom moço, e não fala nada polêmico, tentando concordar sempre com todas as pesquisas de opinião, mesmo contraditórias. Há raríssimas propostas realmente surpreendentes, capazes de nos tirar do lugar comum certinho e produzir alguma mudança boa. Malcolm McLaren vai fazer muita falta.

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2 Respostas to “Malcolm McLaren”

  1. Spirito Santo Says:

    Muito maneiro, Hermano. Caí aqui de um link lá nomeu blog. Leio em O Globo. Da coluna, você e o Caetano são os que eu leio sempre com prazer.

    Abs

  2. hermanovianna Says:

    Valeu Spirito Santo! Bom encontrá-lo por aqui!

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