urbanidade africana

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16-07-2010

Muita gente apostou que a Copa 2010, por ter sido realizada num país africano, seria o caos. As previsões preconceituosas indicavam explosão da criminalidade, com todos os turistas como vítimas, sobretudo em Johannesburgo, ainda classificada como “anticidade” mesmo por jornalistas brasileiros. Porém, campeão anunciado, os resultados em termos de violência foram insignificantes. Na falta de notícias piores, até a maconha da amiga de Paris Hilton foi celebrizada como escândalo internacional. A África do Sul conseguiu uma vitória simbólica: no imaginário global o continente negro já ocupa outro lugar, menos estereotipado. “A Fifa se vê aliviada”? Os efeitos não são apenas de mão única. Como disse Danny Jordaan, executivo da Copa, para o New York Times: “Não houve só as pessoas vindo aqui para descobrir a África do Sul. Houve os sul-africanos descobrindo a si mesmos.” O ex-presidente Thabo Mberi também afirmou que o evento pode ser interpretado como “uma declaração para nós mesmos de que temos a capacidade de mudar.” Os encontros entre culturas diferentes, quando bem realizados, têm esta capacidade: transformam, para melhor, o modo como nos vemos e como os outros nos veem.

Visitei Johannesburgo em 1997, três anos depois das primeiras eleições livres pós-Apartheid. Estava vindo de Moçambique, onde participara da filmagens de Além-Mar, série de televisão sobre lugares do mundo onde se fala o português. Tive um dia de folga. Todos os membros da equipe quiseram conhecer os animais do Kruger Park. Eu, que não tenho muita curiosidade com relação a feras rurais, resolvi descansar sozinho na selva urbana. A oportunidade era rara: sabia que Jozi, como seus habitantes típicos carinhosamente chamam a cidade, estava hospedando uma bienal de arte contemporânea.

Fiquei num hotel perto do aeroporto. Deixei minha bagagem no quarto e sai imediatamente para pegar um táxi, que me levaria ao local de uma das exposições, no centro da cidade. Quando mostrei o endereço para o taxista zulu, ele me olhou assustado, dizendo que eu não deveria ir lá de jeito nenhum, pois seria assaltado na certa. Ou pior: seria espancado, sequestrado, e iria acordar amordaçado num barraco de Botswana, país vizinho. Minha resposta: “eu me garanto: vivo no Rio, cidade perigosíssima!” O senhor cedeu aos meus temerários desejos de arte esquisita. Mas vi que sua preocupação era sincera, tanto que não me deixou sair do carro antes de até a porta do museu para se assegurar que havia realmente uma exposição acontecendo dentro do edifício. Passei algumas horas entre obras de arte, mas na saída resolvi arriscar ainda mais, passeando pelos arredores como o único “branco” (nunca quis ser branco, mas ali não tinha como convencer ninguém da minha condição mestiça) naquelas ruas. Depois de vários quarteirões entrei numa loja de discos, onde tive conversa ótima com os donos congoleses (eles ficaram encantados quando souberam que eu conhecia Kinshasa, onde tinha visto os grandes criadores da rumba zairense ao vivo), mas não encontrei nenhum disco de kwaito, a música que descobrira no rádio do táxi e era tão nova que não tinha discos à venda (e preciso declarar: uma cidade que produziu músicas tão excelentes quanto o kwaito e a mbaqanga não pode de maneira alguma ser uma anticidade). Fui então aconselhado a sair daquele bairro imediatamente. Obedeci.

Ainda bem que estive na Bienal. A exposição tem ainda hoje importância crescente, quase mítica. Acabou com a ideia de que a África só tem arte tradicional ou folclórica, revelando dezenas de novos criadores tão modernos quanto Hélio Oiticica ou Jeff Koons. A curadoria catapultou o nome do nigeriano Okwui Enwezor para a lista de mais poderosos da arte contemporânea, levando-o a comandar, anos depois, uma edição muito importante da Documenta de Kassel. Talvez essa Bienal tenha sido um dos motivos, mesmo indireto, que levaram o arquiteto Rem Koolhaas a fazer um grande estudo sobre a urbanidade de Lagos, megalópole da Nigéria que passou a ser vista como o “futuro” das cidades do mundo todo. A visão de Koolhaas por sua vez serviu de incentivo para novas pesquisas urbanísticas em cidades da África, feita por africanos e estrangeiros, que trazem algumas das ideias mais interessantes originais do pensamento de hoje, em qualquer área. Gosto especialmente dos escritos de Achille Mbembe, sobre a “superfluidez” de Johannesburgo, e de Abdoumaliq Simone, sobre a “espectralidade” de Douala. Mas indico com entusiasmo absoluto qualquer coisa que Filip de Boeck publica sobre Kinshasa, radicalizando ainda mais as ideias de Simone (corpos e pessoas, e não edifícios, como infraestrutura – pois infraestrutura não-humana ali é miragem) e propondo uma análise das cidades como “arquiteturas do verbo”. Tomara que esse afro-pessoal passe um dia no Brasil para estudar nossas metrópoles, também produtoras de precariedade e desigualdade radicais, e ao mesmo tempo de misteriosa e resistente vitalidade cultural. Gosto sempre de olhares estrangeiros que possam desafiar nossos próprios olhares, combatendo a preguiça de refletir sobre o novo de maneira nova.

NOTÍCIAS DO OVERMUNDO: Sou sempre bem surpreendido por cada música lançada pelo MC Priguissa, de Natal. Sua base é o ragga eletrônico jamaicano, mas cheio de outras bossas: reggaeton, embolada, funk carioca, e agora também carimbó e guitarrada. Confira neste link. Lançamentos da Coletivo Records, que mapeia as ecléticas novidades da produção musical potiguar.

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