Cingapura e consumo

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30-07-2010

Para a maioria dos turistas que pretende conhecer a Ásia, Cingapura é apenas um aeroporto, local de troca de aviões para destinos classificados como mais autênticos. Eu, com minha incurável alergia a tudo que se vende como tradicional, e acreditando piamente que não existe nada culturalmente puro no mundo, penso que consigo descobrir melhor a “verdadeira” Ásia, e o nosso futuro bric-asiático, no trajeto entre Potong Pasir e Yio Chu Kang, estações do metrô cingapuriano, do que em aldeia do Laos ou mosteiro do Butão. Apesar do país ser uma ilha minúscula, nunca esgotarei meu interesse pelas maneiras múltiplas como suas identidades vão se renovando velozmente, no encontro entre várias etnias e modernidades ocidentais-orientais. O fascínio poderia ser puramente econômico, aliado à crítica de seu modelo político: afinal como não ficar curioso com a experiência vertiginosa de uma ex-colônia britânica, com maioria da população miserável na sua independência de 1965, para a nação que mais cresceu em 2010 e ocupa o topo da lista de competitividade global, isso em regime de partido único, com pena de morte, e que até proíbe a entrada de chiclete em suas alfândegas? Mas não me interesso tanto por esses números e por essas leis e sim como as pessoas vão inventando maneiras sutis e criativas de viver suas vidas nas ruas, negociando diferenças, para muito além, ou aquém, da globalização autoritária.

Cingapura é um porto, é uma quebrada, ponto de encontro entre povos muito distintos uns dos outros. O país tem quatro idiomas oficiais, com escritas radicalmente variadas. No metrô, os anúncios são feitos em mandarim, malaiotâmil, inglês. Programas de televisão são legendados às vezes em ideogramas chineses e alfabeto indiano, ao mesmo tempo. Estive por lá na Semana Santa deste ano e pude, no espaço de poucos quarteirões, ouvir uma ladainha tâmil na Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, ver o ensaio de uma orquestra chinesa na porta de um templo taoísta que se preparava para o Qing Ming, festival dos mortos chineses, acompanhar uma procissão – com sopros e percussão excelentes – dentro do templo de Vishnu, e ainda ver show de metal islâmico/malaio num parque. Não conheço outro lugar onde essas grandes religiões se mantenham tão vivas e próximas.

Mas há outra religião importante na cidade, com até maiores templos: o consumismo e os shopping centers. Não existe rua no mundo como Orchard Road. É tudo que a avenida das Américas quer ser quando crescer: um shopping atrás do outro, com todas as grifes mais poderosas lado a lado – inclusive a mesma grife com lojas vizinhas, como a Louis Vuitton do Ngee Ann City e do Ion Orchard – de uma vitrina você pode ver a outra. Isso para não falar da Hermès, da Gucci, da Prada, da Miu Miu, todas ao alcance da vista, mas de exploração inesgotável e crescimento espantoso. O Ion Orchard foi um dos quatro grandes shoppings inaugurados do final de 2009 para cá, agora todos com ciberparedes que à noite se transformam em novas fontes luminosas ou decoração de Natal permanentes. Não dá para não se perguntar: isso tudo é sustentável? Há clientes suficientes no mundo todo para bancar essa farra cara?

Nada contra shoppings, pelo contrário.  Gosto de comércio de rua, mas adoro shoppings, e acho cafona quem fala mal de shopping para parecer superior às massas (pronto, falei!) Porém, não posso deixar de me espantar com as proporções que o fenômeno ganhou sob o calor equatorial da Orchard Road. Claro que é uma vantagem ar condicionado, mas friozinho artificial não explica tudo. Na imensa livraria Kinokuniya – com suas infindáveis prateleiras de livros e revistas japoneses, chineses e americanos – encontrei parte da resposta para minhas indagações. O consumo é obsessão interna, bem explicada no livro A Vida não é Perfeita sem Compras, do sociólogo Chua Beng Huat, título que foi extraído de discurso do primeiro ministro Goh Chok Tong no Dia da Independência. Não pense que é puxa-saquismo oficial. O livro contém uma das mais espertas reflexões críticas sobre a cultura do consumo que já li, mostrando como a globalização ganha sentidos diferentes em diferentes países, e para diferentes grupos de sua população. Num lugar tão obviamente multicultural como Cingapura, que por longos anos incentivou cada etnia a cultivar as tradições de seus países de origem (originando então várias novas tradições inventadas), esses sentidos ganham complexidade estonteante.

Chua Beng Huat estuda desde como a roupa tradicional cheongsam se transformou em vestido de gala para mulheres chinesas, ao contrário do desaparecimento da kebaya para as malaias, até como as lojas do McDonald’s viraram pontos de encontros jovens por causa da característica do ensino público local de espalhar os alunos em diversas escolas da cidade não por local de moradia, mas por notas. Entendemos também porque a influência cultural japonesa é mínima, apesar do poderio econômico nipônico no país, ou quais são as razões do sucesso dos filmes de Taiwan.

Queria indicar esse livro para alguma editora brasileira. É parte de campanha antiga: pelo estabelecimento de links diretos entre pensamentos de vários lugares do mundo sem necessidade de mediação do primeiro mundo. É também para celebrar a maturidade da crítica em Cingapura. O país sabe: para crescer mais a economia precisa ser criativa. Não há criatividade sem crítica.

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Uma resposta to “Cingapura e consumo”

  1. hermanovianna Says:

    mais Cingapura neste outro post deste blog:

    https://hermanovianna.wordpress.com/2011/01/04/mais-cingapura/

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