ainda Gilberto Freyre – “a vida às claras”

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20-08-2010

Fernando Henrique Cardoso fez a conferência de abertura na recente homenagem da Flip para Gilberto Freyre. Decidiu falar de improviso, mas sobre as idéias de um longo ensaio que pode ser lido na internet. No primeiro parágrafo, comentando o deslumbramento proporcionado pela escrita do autor de “Casa grande e senzala”, FHC relembra o incômodo que sentiu ao se deixar fascinar pela beleza de um texto que o “arqui-conservador” Borges publicou para agradecer outra homenagem, esta prestada por uma academia chilena silenciosa diante dos horrores de Pinochet. Seu dilema: “o brilho do talento do escritor argentino me [fez] esquecer quem era o homenageado, quem o homenageava e em quais circunstâncias. Não é possível, pensei, que o senso estético me afaste tanto da moral.” Quando li essas palavras, angustiadas e corretas, me lembrei de um artigo de jornal publicado por Gilberto quando tinha apenas 25 anos. É uma dessas pérolas de incorreção, impossíveis de serem enunciadas por um ex-presidente que ainda tem muito a perder politicamente com qualquer ambiguidade em seus pensamentos públicos.

Aviso aos leitores sensíveis: quem precisa de um moralismo com separação clara entre o Bem e o Mal não deve se aventurar pelo resto desta coluna. Gilberto não escrevia para quem procura certezas, para quem quer fortalecer os fundamentos éticos inabaláveis, ou para quem não pode encarar o mais sério do mundo com uma saudável dose de elegante bom humor. No artigo “Viver às claras” (Diário de Pernambuco, 15-5-1925) – na verdade um elogio da penumbra – essas características típicas de seu estilo de argumentação se apresentam em versão mais perigosa, abrindo imenso telhado de vidro (por favor: com insulfilm, para ficar escurinho mesmo ao meio-dia de sol) e dando de graça munição pesada para inimigos. Era tudo bem intencional, calculado. Gilberto já havia declarado ser mais “doloroso” viver sem inimigos do que sem amigos. Obviamente: “inimigos dignos de nós mesmos, do nosso tamanho”. Por isso, ele tinha prazer em produzir grandes inimizades intelectuais.

Mas vamos logo ao perigo, confissão culpada de FHC assumida como convicção infeliz mas transbordante de orgulho e boa prosa: “prefiro o pecador com pudor dos seus pecados ao pecador que peca às claras. Sob um critério rigidamente moral pecar às claras será talvez superior a pecar às escuras ou à meia-luz. Mas sob o critério estético-moral, que infelizmente é o que eu sigo, pecar às escuras é mais bonito; e o próprio sabor do pecado se aguça na discrição.” Daí preferir também, ao doente que “que nos conta em minúcias seus padecimentos e às vezes nos expõe suas feridas”, o “doente para si”. O que resvala numa apologia da “boa hipocrisia” (há a má…), contra “espontaneidade dos impulsos e dos instintos”, e vai até ao combate contra o urbanismo francês de avenidas claras e largas, traçadas como num tabuleiro de xadrez, em favor da manutenção do zig-zag sombrio de nossas antigas ruas quase árabes. Mas isso não significa preferência pelo pecado: mesmo a manifestação da virtude, para ser bela, deve ser realizada com o máximo de pudor.

Consequência lógica (mesmo Gilberto não suportando a lógica…): seria preferível ser racista “para si” do que racista “às claras”. Radicalizar Gilberto seria tornar o pudor tão poderoso, tão sufocante, para o racismo, não deixando dele nenhum vestígio. Assim como radicalizar o elogio da miscigenação seria praticar com tal rigor e extremismo nossa mulatice para não mais haver nenhum espaço para sobrevivência das discriminações baseadas em raças, que continuam a penalizar nosso cotidiano – mesmo quando sabemos que raças são categorias científicas duvidosas.

Talvez o Brasil já tenha escolhido o caminho político oposto, com opção pela vida às claras confundida com a única possibilidade democrática. Mesmo ser mestiço virou ameaça. Anos atrás, quando a inscrição para o Enem não era online, uma amiga lindamente morena foi impedida de se declarar parda pois, como não era pobre, parecia que estava querendo aproveitar as cotas para sucesso fácil e imerecido nas provas. Ela nunca tinha se pensado como branca, não se considera branca, mas foi obrigada – moralmente e pela funcionária que recebia a sua inscrição – a se declarar branca. Este ano, ajudei meu sobrinho a preencher um questionário sociocultural para vestibular. Além de ter que dizer se era a favor ou contra cotas para afrodescendentes, estudantes de escolas públicas ou filhos de policiais, precisava também declarar qual era sua raça. Em casa, sempre o ensinei a ter orgulho de sua herança misturada, visível em nossos olhos indígenas, na maravilhosa variação de tonalidades de pele na família. Sempre considerei isso um aprendizado político, emancipador: pensando-se mestiço, atento para todas as consequências dessa identidade misturada, ele deveria se engajar nos movimentos contra o racismo e contra qualquer discriminação com base em raça. Mas ali, ao buscar acesso à universidade, ele aprendia – para não usurpar direitos de quem pode realmente de beneficiar com cotas, para acabar com a injustiça social/racial brasileira – que precisava se declarar branco.

Impossível não pensar: estamos perdendo algo importante, que poderia ser utilizado – talvez como nunca foi, devidamente – no combate ao racismo? Não quero pecar às escuras. Porém quem tem certeza que acentuar a diferença entre brancos e negros é a melhor maneira de acabar com o pecado?

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