extremismo cognitivo

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03-09-2010

Cass R. Sunstein é professor de direito em Harvard. Atualmente está de licença pois virou o principal membro da administração de seu amigo presidente Obama para cuidar da elaboração de novos marcos regulatórios que lidam com problemas tão diferentes quanto a taxação de carbono ou a crise habitacional. Não se espante com essas credenciais cascudas: quando encontrar um de seus livros, leia. Sunstein escreve bem, expondo assuntos complexos e polêmicos de forma clara, leve, original. No Brasil, foram lançados recentemente, pela editora Campus, seus “A verdade sobre os boatos“, “Nudge – O empurrão para a escolha certa” (com Richard Taller, como co-autor) e “A era do radicalismo – Entenda por que as pessoas se tornam extremistas“. Nos Estados Unidos, ele publicou também outras obras cujos títulos já mostram sua inclinação pop: “Infotopia“, “República.com 2.0” ou “Por que as sociedades precisam de discordância“.  São quase livros de auto-ajuda para bons governos e para a boa vida em sociedade a partir dos impasses/possibilidades do mundo pós-digital. Ou pelo menos para entender o que parcela influente do atual governo norte-americano pensa.

Já apelidaram o núcleo da filosofia política proposta por Sunstein de “paternalismo libertário” ou “libertarianismo paternalista”. O ponto de partida é a constatação de que as pessoas não são racionais o tempo todo. Fazemos escolhas péssimas, erradas, ou somos induzidos a escolher o que não precisamos, ou o que vai nos prejudicar (por preguiça, por medo de perder dinheiro etc.), com mais frequencia do que desejamos ou podemos admitir. Diante dessa constatação, Sunstein não propõe que as políticas governamentais façam as escolhas certas no lugar das pessoas, mas que deem um “empurrãozinho” para as melhores escolhas. Essas estratégias já são usadas por marqueteiros ou por departamentos de vendas.(Tipo cartão de crédito não solicitado que chega pelo correio como se tivéssemos ganhado um prêmio – temos preguiça de ligar para o cancelamento e acabamos pagando a anuidade…) Mas poderiam ser usadas para o bem comum, como em campanhas anti-dengue ou usos mais racionais de impostos. No livro “Nudge”, há vários exemplos práticos de como isso pode funcionar.

Com menos receitas, mas não com menos material bom para pensar, o livro (presente do meu amigo Ronaldo Lemos) “A era do radicalismo – Entenda por que as pessoas se tornam extremistas” é meu atual favorito. O título em inglês é um pouco diferente, mais abstrato, porém talvez mais preciso quanto a seu conteúdo: “Indo aos extremos – como mentes parecidas unem e dividem”.  De certa forma suas preocupações já tinham sido formuladas em trabalhos anteriores, e giram em torno dos riscos que a ciberbalcanização da internet trazem para a democracia. Na rede, uma das maravilhas é a facilidade de encontrarmos pessoas que pensam como nós, que têm os mesmos nossos interesses, por mais específicos e pouco usuais que sejam esses interesses. Toda maravilha apresenta seus perigos: nesse caso o principal é passarmos a viver em microguetos, sem contato com gente que pense diferente ou que discorde de nossos pontos de vista.

O que Sunstein mostra, a partir de muitos exemplos baseados em pesquisas comportamentais e recentes acontecimentos (como a crise dos bancos e fundos de investimento em 2008), é que quando estamos entre iguais a tendência é que radicalizemos cada vez mais nossas opiniões comuns, perdendo contato de diálogo com quem pensa diferente. O próximo passo é ignorar o diferente, ou tentar exterminá-lo. Todo mundo deve ter percebido algo assim no ar dos tempos atuais. Mesmo nas áreas mais banais. Num site frequentado por indies, os comentários ficam cada vez mais indies-roxos-extremistas, e opiniões divergentes (alguém que admite ter gostado do último clipe da Rihanna…) são esculachadas, quando não censuradas, sem piedade nenhuma, e muitas vezes acompanhadas por linchamentos públicos. Isso aconte em blogs de esquerda, de direita, gays, católicos, ambientalistas, fashionistas, e assim por diante, com divisões cada vez mais esotéricas (como descreve Sunstein: “vivem na câmera de eco de seu próprio design”).

Não há solução fácil para essa situação. Sunstein admite: quando falamos com gente parecida, nos sentimos energizados, é mais fácil partir para a ação, conquistar direitos, combater preconceitos. Se ficamos muito tempo avaliando opiniões contrárias, é provável que acabemos por “relativizar” nossas próprias certezas, ficamos mais tolerantes e respeitosos, mas também podemos nos tornar mais apáticos, indiferentes, passivos. Lembro de “Um sábio não tem idéia“, livro do filósofo francês François Jullien, especialista em China. O sábio chinês se mantém aberto a todas as verdades. Nunca toma partido de nenhuma delas. Resultado: nunca dará um bom governante, pois quem governa não pode incentivar todas as posições e cotidianamente tem que fechar com uma delas.

É portanto uma questão de bom balanço. E de criações de novas ágoras (ou fortalecimento democrático de antigas ágoras, com a televisão ou o jornal) onde grupos diferentes possam se comunicar ou se encontrar, com novos canais de intercomunicação e mediação entre suas fronteiras. Sunstein dá conselhos para os governos: trocar as arquiteturas de controle por arquiteturas da “serendipidade“, que facilitem encontros por acaso. Das surpresas desses encontros não planejados é mais fácil surgir boas novidades que promovam a “diversidade cognitiva”.

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