mais Cingapura

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10-09-2010

Sempre me surpreende a repercussão desta coluna. Assuntos que esperava poderem causar debates acalorados são recebidos com silêncio intrigante. Divagações ultrapessoais que pensava não interessar a mais ninguém geram um bombardeio de comentários. Como meu texto sobre Cingapura. Depois da minha introdução de semanas atrás, recebi dezenas de pedidos de dicas de viagem. Resolvi dar aqui uma resposta coletiva, que pode motivar também boas explorações virtuais, via fotografias 360 graus do Google Earth ou sites devidamente “linkados” abaixo. Boa viagem!

Uma primeira parada obrigatória, ao chegar em território cingapuriano, é a BooksActually, situada nas ruas hoje chiques, atrás de Chinatown. Na conversa com os vendedores dessa livraria totalmente independente, ligada em novidades locais, será possível ter um panorama do que mais interessante acontece no país em matéria de exposições, festas, peças e shows, além de comprar livros, discos e filmes lançados por editoras pequenas, que não têm seus produtos distribuídos em outras lojas.

Andando entre suas estantes, o visitante logo percebe um barulho estranho no ambiente. Quem é novo de idade não vai conseguir descobrir o que é. Quem tem mais de 30, vai desconfiar dos seus sentidos, até ter certeza: aquilo é som de máquina de escrever. Sim, várias pessoas trabalham na BooksActually datilografando trechos de livros em cartões ou na capa de cadernos criados em papel especial e depois vendidos pela editora da casa. É algo como um culto ao vinil, à fita cassete ou ao super 8. Nostalgia da pré-história da mídia, encanto por velhas máquinas e tecnologias. Descobri logo que a livraria era parte de uma rede de coletivos, espalhados pelo mundo, que têm obsessão comum não apenas por datilografia mas por técnicas de imprensa da época de Gutenberg, incluindo o cheiro de tinta “vintage”. Ali na loja, fui transportado da Ásia para Sintra, Portugal, através das publicações do pessoal do Serrote, sobretudo os exemplares da série Cadernos, com capas imitando padronagem de toalhas de mesa ou de floppy discs, todos produtos de uma impressora Heidelberg do tempo do ronca. É tão retrô que parece o futuro.

De volta à Cingapura e ao presente, próxima da livraria, se o visitante tiver sorte, ainda vai encontrar aberta a loja, sem nome (como convém hoje a tudo esquisito, “de guerrilha”, ou “pop-up”), que vende roupa de novos estilistas suecos e música tão experimental, mas tão experimental que nunca vi anunciada nem na revista The Wire. O local também funciona como sede de uma empresa de design responsável pela Chocolate Research Facility, cadeia que vende barras de chocolate de cerca de 100 sabores diferentes (incluindo uma com recheio de durian, fruta adorada por locais e que estrangeiros consideram ter gosto de putrefação), com embalagens de vanguarda.

Ao lado das compras, comida é outro passatempo preferido em Cingapura. Há de tudo, incluindo culinária molecular. Mas obviamente o mais recomendado é se esbaldar com a variedade asiática, principalmente em termos de comida de rua, fresca, feita na hora. Para faciltar nossa vida surgiu a Food Republic, idéia matadora de qualquer fome, que certamente virará império global. É uma megareunião, tipo praça de alimentação de shopping, de antigos vendedores ambulantes (thai, coreanos, indianos, indonésios etc.), tudo limpinho e com controle de qualidade. Experimente a culinária peranakan, com sua mestiçagem chino-malaia.

Se exagerar na comida o bom é passar em alguma filial da Eu Yan Sang, antiga loja de ervas de Chinatown, que agora atende até no aeroporto Changi ou no shopping Paragon, do lado da Gucci. Quem teve a felicidade de ser tratado pelo Mestre Liu, medico chinês que morou em São Paulo, sabe o que vai encontrar por lá: aquela combinação de raízes, folhas e, sei lá, cauda de escorpião que faz um bem horrível. Mas na Eu Yan Sang tudo agora vem em doses certas, sacos hermeticamente limpos, prontos para uso. Se você for exigente mesmo, pode escolher entre uma variedade incrível de ninhos de pássaros que custam uma pequena fortuna.

Dá para visitar quase tudo isso andando. Cansou? Você pode descansar vendo o último sucesso do cinema tâmil perto da Little India, ou encarar um narguilé no fumódromo-espécie-de-Baixo-Gávea ao redor da mesquita Sultan, em Kampong Glam, ou se entregar aos cuidados de um dos massagistas da cadeia Kenko, espécie de McDonald’s da reflexologia. Ou melhor, no Kenko mesmo, pode experimentar o cibercafé, twittando à vontade com os pés dentro de uma água cheia de ervas e centenas de peixinhos que fazem massagem sublime no dedão.
Já cheguei ao fim da coluna e nem falei ainda de dois de meus restaurantes preferidos, o Din Tai Fung ou Ci Yan Organic Vegetarian Health Food (que apesar do nome não tem nada de moderno: parece que você está comendo no refeitório de um mosteiro – não tem nem site próprio…) Não haverá espaço para escrever sobre a coleção do Museu das Civilizações Asiáticas, nem sobre nenhum dos templos de reza obrigatória. Também não vou conseguir introduzir a história subterrânea do seu punk-rock-local, nem o cinema de Eric Khoo. Fica para alguma próxima coluna, se os leitores novamente exigirem.

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