Chacrinha ainda nos desafia

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17-09-2010

Encontrei o livro nas prateleiras de um sebo. Não sabia da sua existência. Chama-se “Chacrinha é o desafio”, assinado por Abelardo Barbosa (para quem não sabe: esse era o nome real do Chacrinha), com ilustrações de um Henfil muito jovem, publicação da Editôra [ainda com circunflexo] do Autor em 1969. Os exemplares são numerados, o meu é o 02102. Então, acredito que não tenha sido um sucesso bombástico. Pena: o livro é incrível, divertido e um documento importantíssimo para a história dos meios de comunicação no Brasil. Como a bibliografia sobre esse assunto é minguada, geralmente formada por uma crítica versão burra da Escola de Frankfurt, feita por gente que preferiria ver um mundo sem rádio ou TV, o livro do Chacrinha merece um relançamento imediato. Os mais afoitos talvez encontrem ainda algum exemplar na livraria do Espaço de Cinema, na Voluntários da Pátria.

Engraçado: Chacrinha – que não escreveu o livro, o texto é a transcrição de um depoimento gravado (as fitas, se ainda existirem, são uma preciosidade) – fala quase o tempo todo para um intelectual genérico que não gosta de TV e rádio, e não gosta especialmente do que ele faz na TV e no rádio: “Passei vinte e poucos anos ouvindo os gênios brasileiros dizerem que eu era um sintoma grave do subdesenvolvimento do Brasil”. E assume em muitas páginas seu ressentimento: “eles, no fundo, sabem que são marginalizados pelas massas, incomunicados e incomunicáveis. Por isso me odeiam e me invejam, e não conseguem dissimular seu desprezo pelas classes populares, porque elas me aplaudem. Fico eu com elas, em boa companhia, e esses gaiatos que batam com a cabeça na parede.”

O depoimento é dado quando essa relação começa a mudar, com “a rendição dos chamados intelectuais”: “Agora a moda é vice-versa. Para dar pala de intelectual, para mostrar que está sintonizado […] o sujeito tem que afirmar que o Chacrinha é genial, um fenômeno do nosso tempo, um sujeito muito importante.” Há até citações internacionais para comprovar a mudança: “uma autoridade de reputação em matéria de comunicação de massas, o francês Edgar Morin, vindo ao Brasil numa série de conferências, declara que messiê Chacrrinhá é realmente um extrordinário talento, um expert nato em comunicação. Ah, que cipoada nessa cambada de criticóides”.

Conheço um pouco desse sentimento. Passado tanto tempo da revolução pop e tropicalista, o trabalho na TV continua sendo visto como algo menor, mesmo tendo a centralidade que obviamente tem na cultura brasileira, mesmo o Brasil tendo demonstrado talento e originalidade na produção televisiva. Quando ando em ambientes sérios, por exemplo em conferências acadêmicas, sou sempre apresentado como antropólogo, autor de tais livros (e agora colunista de jornal), mas as pessoas geralmente esquecem (e acho que esquecem mesmo, não é intencional) meu trabalho de décadas na TV. Brasil Legal e Central da Periferia foram como teses, vistas por milhões de pessoas, com impacto significativo na vida de muita gente e posição definida no debate sobre a cultura contemporânea brasileira. Mas “não contam” e chegam até serem encarados como “manchas” meu currículo. Mas já estou acostumado. É assim.

O que me espanta é o Chacrinha ter se preocupado com o palavrório do contra. Ele não tinha muito tempo para críticas. Sua vida era “rrrealmente” uma loucura. Os melhores momentos do depoimento são descrições de seu cotidiano de trabalho, com muitas revelações sobre os bastidores da produção de TV no Brasil dos anos de 60, no momento da chegada do sistema de videotape. Produzia e apresentava, na TV, dois programas ao vivo no Rio, e outros dois também ao vivo em São Paulo. Tinha dois programa diários na Rádio Globo. Escrevia ao mesmo tempo uma coluna diária, descrita como “um jornal em miniatura”, no jornal Última Hora. Chacrinha, ele mesmo, comandava toda a logística de produção, fazia pesquisas para escolher as atrações mais populares, inventava novas brincadeiras para animar a platéia, escolhia as chacretes, negociava com anunciantes.

Sua descrição sobre a angústia que precedia a chegada dos números do Ibope, crítica que realmente lhe importava (e que continua ser o que move a TV), é antológica e explica muito sobre a seriedade aloprada de sua personalidade. Naquela época não havia medição de audiência em tempo real. Os números só chegavam por telefone, no dia seguinte, e mediam a audiência de quinze em quinze minutos. Chacrinha gritava, xingava (“Sou um possesso, sou um monstro. Perco a noção de tudo, inclusive de educação”), ao ir recebendo o veredito popular. Só se acalmava quando o filho fazia as contas, apresentava a média e proclamava sua vitória sobre os concorrentes. Chacrinha era paranóico, temia a volta da penúria, períodos de fome que teve que enfrentar algumas vezes na vida, ao ser despedido de vários empregos. Sabia que, no seu negócio de comunicação, nada estava assegurado: “temos que reconquistá-lo [o público] todos os dias, e com seriedade, embora o programa seja humorístico.”

Leia o livro, vendo o que existe do Chacrinha em vídeos na internet, e siga seu conselho: “Acho que… Não, não acho nada. Primeiro, é melhor vocês me ouvirem. Depois, ou vocês me buzinam ou vou para o trono. Tá? Vou para o trono ou não vou?”

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