PercPan 2010

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01-10-2010

Não gosto de quem legisla em causa própria. E de quem utiliza sua coluna para fazer propaganda de seus próprios trabalhos…  Mas o texto hoje é utilidade pública. Este fim de semana em Salvador e no início da semana que vem aqui no Rio, com um show avulso em São Paulo, vai acontecer o festival PercPan. Junto a diretora Beth Cayres e com Carlos Galilea, jornalista do El País e um dos maiores conhecedores da música mundial e brasileira, fiz a curadoria desta edição. Já trabalhei em outros festivais. Sei como uma boa seleção de atrações é fruto de muita batalha, mas também questão de sorte. Depende daquela banda querer vir ao Brasil, aceitar o nosso cachê, nossas datas. A América do Sul nunca é prioridade no mercado de shows. Muitas vezes, fazemos planos perfeitos. No final do processo, chegamos a uma escalação totalmente diferente. Porém, neste PercPan, todos nossos melhores sonhos se tornaram realidade. Apesar de serem nomes desconhecidos do grande público (e é por isso que me sinto na obrigação de escrever este texto – os jornais ainda não publicaram artigos sobre quem vem tocar), não pode haver festival mais bacana, em qualquer lugar do mundo. Se você tem algum interesse por música, por favor – para o seu próprio bem – não perca nenhum show. É oportunidade rara para ver nomes que dificilmente se apresentarão no Brasil novamente.

Não estou exagerando. Sou o maior crítico do que faço, sem piedade: procuro defeitos em tudo. Mas é difícil encontrar algum detalhe que não gosto neste PercPan. Não saberia indicar a melhor noite, ou uma única atração. O conjunto é o mais interessante, a proximidade entre estilos diferentes. Vou passar a fazer comentários específicos sobre cada atração. Quem quiser escutar as músicas antes, tendo que escolher o que vai assistir, pode entrar no site do festival, onde encontrará áudio e vídeo, além de mais informações.

Jon Pareles, o chefe da crítica musical do New York Times, já resumiu de forma provocadora: “A Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, do Benin, pertence à lista muito pequena das melhores bandas de funk do mundo.” Completo: para mim é tão boa quanto a banda de James Brown no início do anos 70 ou a de Fela Kuti no final da mesma década. Era, até bem pouco tempo, um segredo africano. Foi preciso que um colecionador de vinil tenha visitado Cotonou à procura dos seus ídolos para descobrir que a banda continua na atividade, com a mesma força há quase 50 anos. Foi só em 2009 que fez seus primeiros shows na Europa e em 2010 nos Estados Unidos, para platéias eufóricas. Por aqui, este primeiro show tem significado especial por conta dos fortes laços culturais que unem as histórias do Brasil e do Benin, com tantas trocas no Século XIX (e antes) e poucas recentemente. O público brasileiro vai identificar elementos poderosos de candomblé e tambor de mina logo no início puramente percussivo do show. E depois, quando os instrumentos elétricos atacarem, vai cair num transe afrofunk de sofisticação absoluta.

O Hypnotic Brass Ensemble, de Chicago, é também uma das melhores bandas funk do mundo, apesar de tocar apenas com sopros e bateria. Não importa se toca num palco ou na rua, onde se apresenta sem microfones no meio do povo: seu suingue é irresistível, atraindo cada vez maior legião de fãs. Como os componentes do Gorillaz, que convidaram o Hypnotic para tocar em seu último disco e em sua próxima excursão. O repertório inclui versões para Fela Kuti, Outkast, Jay-Z e até Art of Noise.

Buraka Som Sistema é um coletivo luso-angolano que levou o kuduro, música eletrônica criada nas favelas de Luanda, para os mais influentes festivais do mundo e para fusões com house, dubstep e funk carioca, tendo gravado inclusive um grande sucesso com a nossa Deise Tigrona. O Nortec Collective reúne vários artistas baseados em Tijuana, na problemática fronteira México/EUA. A visão de mundo fronteiriça, inclusive a política de repressão/incentivo à imigração ilegal, influencia sua música, um cruzamento alucinado da eletrônica com o folclórico. O resultado muitas vezes parece um Kraftwerk de sombrero, embriagado pela dose certa de margaritas.

Não sei se a banda gosta desta comparação, mas é boa para atrair público: o Nova Lima está para a música afroperuana assim como o Bajofondo ou o Gotan Project estão para o tango. A combinação de pop e eletrônica com o tradicional é feita com elegância, sem perder a potência dançante jamais.  As Tucanas são mulheres que, em Portugal, misturam tradições musicais de todo mundo lusófono criando novos instrumentos de percussão e batucando também em seus próprios corpos. A Kocani Orkestar faz a festa misturando tradições ciganas e dos Balcãs.

Fui diminuindo os comentários sobre cada atração pois já estou na fronteira do espaço desta coluna. Não se trata de preferência. E ainda nem falei dos convidados brasileiros e dos apresentadores. A complexa fusão big-band-no-candomblé da Orkestra Rumpilezz, as novas big bands paulistanas reunidas no Movimento Elefantes, o pós-samba-duro-rap do EdCity, o carnaval indie do Bloco Cru: todos eles merecem colunas inteiras para comentar seus trabalhos. E os apresentadores são os bateristas Charles Gavin, João Barone e Igor Cavalera. Este último leva seu MixHell para a festa do Caneção.

O festival quer ser o MixCéu.  Bom rebolado, em todos os ritmos!

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