Archive for fevereiro \28\UTC 2011

Cosplay in Rio

28/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/02/2011

Pedro Carvalho tem 22 anos. Ainda se formará em produção cultural, mas já pode – há muito tempo – ser considerado um dos mais importantes produtores culturais do Rio. Tudo começou quando tinha 13 anos, no quarto, com incentivo de sua mãe. Pedro não era um menino popular. O pessoal da escola já o rotulava como nerd: tinha paixão apenas por animes, os desenhos animados japoneses. Na época, banda larga era raridade, o YouTube não existia – para ver seus animes preferidos tinha que importar VHSs do bairro da Liberdade, São Paulo. Então levava os poucos amigos para ver as novidades em casa. O boca a boca trouxe mais gente. Não cabia mais no quarto. A garotada ocupou a sala. Não cabia mais na sala, a mãe alugou um salão. O “evento” ficou tão grande que deixou de apresentar apenas animes, virou ponto de encontro de fãs de cultura pop japonesa em geral (cosplay, mangá, games etc.) e tomou conta de quadras e teatros da UERJ, para onde volta neste domingo, ainda maior, não mais como Anime Center (nome com o qual o evento aconteceu até agora), mas como Cosplay in Rio.

Fui pela primeira vez a um evento produzido pelo Pedro em 2006. No dia seguinte, publiquei no Overmundo texto ainda espantado com o que encontrei por lá. Não tinha a menor ideia de que havia tantos fãs de pop nipônico no Rio e que seus encontros eram tão empolgantes. Escrevi que aquilo parecia uma “micareta de ETs” (para mim, isso é grande elogio) e até inventei uma teoria pop-antropológia sobre a pagação de mico com necessidade básica do ser humano. Virei frequentador assíduo dos eventos do Anime Center, que logo depois passaram a acontecer nas dependências do Clube Hebraica, Laranjeiras (pena que acabou o buffet de comida judaica que havia por lá: era um contraste fascinante e bem brasileiro…) Estranhava não haver nenhum patrocinador, e de tudo aquilo ser produzido na marra, quase sem nenhuma divulgação na mídia, pois eram sempre milhares de adolescentes – de todas as classes sociais, cores de pele (é íncrivel a quantidade de garotos negros vestidos de personagens japoneses) e zonas da cidade. Já fiz curadoria de vários eventos com grana, assessoria de imprensa e páginas e páginas de anúncios nos jornais: sei como é difícil reunir aquela quantidade de gente mesmo com shows de bandas bombadas nas rádios. Os eventos do Pedro, onde o público é a maior atração, aconteciam quase na “invisibilidade”, mas nos davam lições de como, quando algo é vital, o sucesso é inevitável. Ainda bem que agora o Cosplay in Rio tem patrocinador e lei de incentivo. Foi enorme batalha para chegar até aqui.

E que batalha divertida. O pop japonês desembarca ao Brasil e sofre mutações antropofágicas. Vide as apresentações do Anime Daiko, grupos de tocadores de taikos (tambores japoneses) de Londrina, que se apresentará na UERJ novamente este domingo. Os dançarinos – muitos fantasiados – fazem rodas em torno dos taikos, cantando letras das trilhas sonoras dos animes (em japonês, é claro), desenvolvendo coreografias estilo macarena ou rebolation, num ritual pós-moderno (se isso não for pós-modernidade, o que mais será?) que não existe em nenhum outro canto do mundo. Esses eventos – outros produtores culturais como Pedro realizam encontros similares em quase todas as grandes cidades brasileiras, com destaque especial para Fortaleza – também desenvolveram uma forma peculiar de comunicação interna, que só existe (até onde eu consegui descobrir) no Brasil: plaquinhas onde são escritas mensagens que funcionam como pop-ups, ou balões de fala de quadrinhos, em 3D, numa conversa descentralizada muitas vezes hilária.

Num Anime Center de 2008, tive oportunidade de ouvir a palestra e depois conversar com Keisuke Iwata, diretor da TV Tokyo que produziu, entre muitos outros sucessos, nada menos que Pokemon, Yu-Gih-Oh e Naruto. Qualquer pessoa que tenha tido contato com crianças dos anos 90 para cá pode comprovar a influência que esse cara exerce, não só no Brasil. Pena que não havia nenhum executivo da indústria cultural carioca na palestra, pois Iwata explicou com detalhes como funciona o modelo de negócios do novo pop japonês, com sua estratégia globalizada. Perguntei para ele sobre direitos autorais, se não o incomodava ver tantos garotos vestidos com suas personagens, sem autorização. Iwata me respondeu que a TV Tokyo tratava aquele tipo de evento, mesmo com ingressos pagos, como “festas de colégio”. Em outras palavras: no lugar de processar adolescentes, aceitava e incentivava a divulgação gratuita.

Os produtores de mangás-animes-games sabem que hoje os fãs não querem mais ser apenas espectadores passivos. Precisam interagir com aquilo que consomem, mergulhando nos universos ficcionais, dos quais passam também a ser produtores. Produzem o teatro do cosplay. Remixam cenas de seus desenhos preferidos em anime music videos. Muitos grandes estudios de mangá surgiram com garotos que apenas criavam novas histórias, sem autorização, misturando personagens de autores diferentes. É o império do cortar-e-colar. No Cosplay in Rio você poderá ver isso acontecendo ao vivo. Vá fantasiado, afinal já é quase carnaval.

Outra dica para o fim de semana: o festival Não-Onda, “uma pequena mostra do que há de improvável, impróprio e irredutível no underground de BH”. Também recomendo enfaticamente.

Albert Cossery

23/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/02/2011

Comentando os recentes acontecimentos no Egito, Roger Cohen, em artigo publicado na página de Opinião deste jornal (aqui o texto em inglês), falou sobre uma “subcultura interessante”, aquela dos “livros que saem na hora errada”. Ele se referia especificamente ao recém-lançado “A desilusão da net“, de Evgeny Morozov, mais uma dessas publicações que buscam sucesso tentando nos provar que a internet é território do mal, contra o que existe de bom e “culto” no mundo. Morozov combate a “ilusão” de que as redes sociais poderiam ser usadas para o ativismo democrático. Cohen aponta a ironia do lançamento acontecer justamente quando a combinação de Facebook, Twitter, YouTube etc. se mostra fundamental para a organização das manifestações no mundo árabe, levando o governo egípcio a “desligar” a internet no país.

Ao ler o artigo de Cohen lembrei de outra subcultura bibliográfica não menos interessante: a dos romances profecias, lançados bem antes dos fatos que transformam o que era ficção em realidade. Esses meus pensamentos ganharam substância com outra coincidência, bem pessoal: passei este início de verão lendo todos os livros de Albert Cossery lançados no Brasil. Meu corpo andava pelo Rio de Janeiro, mas minha imaginação vagabundeava pelas ruas do Cairo e de outras cidades árabes. Tive a introdução perfeita para as notícias que agora persigo na internet.

Nunca tinha ouvido falar em Cossery até ler uma entrevista que ele deu em 2005, quando já tinha 92 anos, para a revista Le Magazine Littéraire. Fiquei imediatamente apaixonado. Como demorei tanto tempo para encontrar esse cara, tão sábio e hilário? Dava gargalhadas com cada resposta. Não era difícil me deixar fascinar por alguém que tinha a petulância de dizer coisas como: “Eu gostaria que depois de ter lido um de meus livros, as pessoas não fossem mais trabalhar no dia seguinte, que elas compreendessem que a ambição de viver é suficiente, que nenhuma outra ambição vale a pena.” Nada disso era da boca para fora. Cossery vivia o que pregava, tanto que morou 60 anos num mesmo hotel, e não queria possuir nada. “A cada vez que meus amigos pintores e escultores me davam obras eles sabiam que no dia seguinte eu as venderia para pagar meu hotel e os cigarros.” Mesmo sua vida amorosa era pura errância: “Eu amo as mulheres. Jamais posso ficar sem sua companhia. Eles aparecem, elas se vão, nunca tenho aborrecimentos com elas.”

Cossery escreveu como viveu. Sem pressa. A lenda diz que redigia uma frase por dia. Publicou apenas nove romances, um para cada década de vida. Demorei para ler qualquer um deles. Tinha medo de quebrar o encanto da entrevista, do homem ser muito mais bacana que seus livros. Porém, ao acabar os três romances editados no Brasil pela Conrad, meu fascínio aumentava. Todo mundo deveria mergulhar nas suas narrativas agora, como contraponto para os fatos do mundo real/virtual.

As cores da infâmia” e “Mendigos e altivos” se passam no Cairo, entre pequenos subversivos, funcionários e criminosos que criam uma vida paralela para recusar a pior de todas humilhações segundo Cossery: o trabalho. Um velho jornalista vai até morar num mausoléu no cemitério da cidade para não ter que pagar aluguel, opção que parece ser comum no Egito. Ao mesmo tempo, suas ações vão revelando a corrupção que governa o país, algo bem próximo àquilo contra o que as massas se revoltaram nas últimas semanas.

Acho que meu romance preferido, entre os três disponíveis nas livrarias brasileiras, é “Ambição no deserto“, publicado em 1984. Não exatamente por sua trama, que é frágil em muitos momentos. Cossery não se dizia romancista, e sim escritor: “eu não escrevo para contar estórias, mas para dizer o que penso. Meus personagens estão lá para exprimir minhas idéias.” Em “Ambição no deserto” há um tsunami de idéias desconcertantes. Meu exemplar está todo sublinhado com frases que poderia citar aqui, ocupando a coluna inteira. Tudo se passa num emirado do Golfo Pérsico, que não tem petróleo como os vizinhos. O que, para Samantar – personagem principal – era uma benção, pois afastava “os gigantescos navios-tanques [que] navegavam rumo aos hemisférios cruéis, carregando em seus flancos pesados a substância vital aos perfeitos genocídios.”

“O que Samantar detestava acima de tudo era o que os tecnocratas ocidentais denominavam, em seu jargão barroco, de expansão econômica. Com essa expressão de feiticeira, os antigos colonialistas se esforçavam para perpetuar as próprias rapinagens, introduzindo sua psicose de consumo nos povos sadios que não tinham a menor necessidade de possuir um automóvel para provar sua presença neste mundo.” Qualquer semelhança com os movimentos slow-qualquer-coisa não deve ser encarada com espanto. Imagino que os manifestantes do Cairo tenham outras preocupações no momento, talvez até lutem por “expansão econômica”. Deveriam ler “Ambição no deserto” para dar rumo realmente surpreendente para seu movimento: quem sabe a volta de um Dom Sebastião muçulmano?

PS: Quando li que, no meio da revolta, Mubarak colocou como vice-presidente um tal Omar Suleiman, por um momento achei que o mundo tinha pirado de vez e quem estava no poder era o cantor sírio Omar Souleyman. Veja o vídeo e imagine que maravilha seria se fosse verdade: as massas rebeldes dançando essa música brega, louca e excelente.

minc-cc novamente

23/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/02/2011

Em sua coluna de domingo passado, Caetano Veloso transcreveu email de Joyce Moreno, apoiando a decisão da ministra Ana de Hollanda de não mais publicar o conteúdo do site do MinC sob licença Creative Commons (CC). O texto de Joyce contém imprecisões. Diz, por exemplo, que o Google patrocina o CC com “30 milhões de dólares!” Gostaria de saber quem passou essa informação para Joyce, e se ela checou sua veracidade antes de fazer seu texto circular pela internet. O que eu sei é que o Google doou 30 mil dólares para o CC em 2006 e, na última década, doou uma média de 100 mil dólares por ano. A diferença para os 30 milhões é enorme.

Em 2010, o Google fez doações num valor total de 145 milhões de dólares. Entre as muitas organizações que receberam doações estão: a Bharti Foundation, que cuida de escolarização de crianças na Índia; a Global Strategies for HIV Prevention, que melhora o acesso a medicamentos na África; a UNICEF; a Ashoka; a APC. Insinuar que, ao receber doações, todos passam a trabalhar para os interesses do Google, não me parece nada sensato. (E, mesmo sem doações, o ECAD tem acordo comercial com o Google – ver bit.ly/f1FFbw.)

O CC, como a Wikipedia, é sustentado primordialmente por doações descentralizadas de indivíduos do mundo inteiro. Todo fim de ano, faz uma campanha mundial para doações. Em 2010, a campanha arrecadou 522.151,25 dólares, incluindo os apoios de empresas. É possível ver os dados da campanha neste link. Há uma lista de todos os doadores em bit.ly/aV3J9d e o relatório financeiro de 2009 pode ser consultado, na íntegra, em bit.ly/hpHZki. Antes de levantar suspeitas sobre a atuação do CC, todos deveriam estudar com atenção esses documentos, que são de transparência exemplar.

Outra imprecisão no texto de Joyce: o CC não é uma “licença norte-americana privada”. É sim uma organização não-governamental que criou um sistema de licenças que podem ser usadas por criadores, organizações e empresas. A Al Jazeera acaba de licenciar as imagens das manifestações do Cairo em CC, autorizando sua exibição em todas as TVs. Ninguém é obrigado a usar as licenças se não quiser.

Voluntários de 70 países se inspiraram no trabalho do CC norte-americano e desenvolveram sistemas de licenciamentos semelhantes a partir de legislações locais. Assim foram criadas entidades independentes e separadas do CC norte-americano, que por sua vez redigiram licenças também diferentes das norte-americanas. As licenças CC-BR, criadas pelo Creative Commons Brasil, são totalmente brasileiras e só podem ser aplicadas no Brasil.

O conteúdo do site do MinC era publicado com uma dessas licenças totalmente brasileiras (mesmo com a inspiração norte-americana – e não entendo por que não podemos nos inspirar em boas ideias norte-americanas, afinal somos ou não o país da antropofagia cultural?), produzida por uma entidade brasileira, o CC Brasil, independente do CC norte-americano. A ministra Ana de Hollanda declarou para matéria do caderno Prosa e Verso, aqui deste jornal, que “o MinC só retirou o selo das Creative Commons do site, mas não o licenciamento”. Infelizmente o MinC retirou o licenciamento sim, ministra – e nada havia de irregular nesse licenciamento. Agora temos apenas uma frase vaga: “O conteúdo deste site, produzido pelo Ministério da Cultura, pode ser reproduzido, desde que citada a fonte”. Essa é a “licença” que vale hoje. A licença CC-BR anterior tinha outro texto, que inclusive diferenciava reprodução de publicação, como exige a Lei do Direito Autoral brasileira. Agora as pessoas podem reproduzir o conteúdo, mas ao publicá-los em seus blogs estão fazendo algo sem autorização explícita – isso cria uma incerteza jurídica desnecessária. Por isso digo que as licenças CC levam o direito autoral mais a sério.

Tudo o que li em defesa da atitude do MinC deixa claro que o problema não era a licença. A própria ministra acredita que o licenciamento continua o mesmo. O problema era a sigla CC e o desconhecimento sobre o que é o CC. Em seu blog, Joyce escreveu: “Como ela [Ana de Hollanda] retirou do site do MinC o logo do Creative Commons, houve a celeuma, reclamando que ela estaria ‘se alinhando ao ECAD’ e se aliando ‘ao que há de mais conservador’. Mas peraí, pessoal: se eu entro num restaurante, faço meu prato, almoço e vou embora, não vão chamar a polícia para me cobrar o calote? Então, por que a criação alheia (alimento da alma) pode ser usada à vontade, sem que os autores recebam???”  Aldir Blanc também declarou: “Não há retrocesso algum em querer pagar com justiça o direito autoral dos criadores”. Não entendi o raciocínio. Quem é contra o pagamento para autores? O CC nunca disse que criadores não devem ser pagos. E o que o licenciamento do conteúdo do site do MinC tem a ver pagamento para autores? Parece que a sigla CC no site do MinC era entendida como um manifesto em prol do calote aos autores. Isso é um absurdo. Repito mais uma vez: a licença CC defendia muito mais rigidamente os direitos de autor do que a frase que está no site agora.

A história da batalha pelo direito do autor começa bem antes do início do século XX. É uma bela e complexa história. O Creative

minc-cc

23/02/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/01/2011

O plano era passar um tempo sem falar em direito autoral por aqui. Há outras coisas interessantes no mundo. Também seria deselegante parecer estar pressionando a ministra da cultura a ter rápida posição sobre o assunto. Posse em ministérios exige calma e tempo. Como a história de Ana de Hollanda comprova disposição para diálogo, pensava que era isso que pedia em suas primeiras manifestações como ministra, declarando que só voltaria a falar sobre a reforma da Lei do Direito Autoral quando tivesse tempo para estudar com calma o projeto apresentado pela gestão Juca/Gil.

Estava então imerso em outros temas quando fui surpreendido pela barulheira no Twitter. A causa? O site do MinC, na calada da noite, havia trocado o licenciamento Creative Commons por declaração vaga: “O conteúdo deste site, produzido pelo Ministério da Cultura, pode ser reproduzido, desde que citada a fonte”. Diante do protesto, foi publicada nota de esclarecimento, falando erroneamente em referência e não em licenciamento: “A retirada da referência ao Creative Commons da página principal do Ministério da Cultura se deu porque a legislação brasileira permite a liberação de conteúdo. Não há necessidade do ministério dar destaque a uma iniciativa específica. Isso não impede que o Creative Commons ou outras formas de licenciamento sejam utilizados pelos interessados.” Esclarecimento nada esclarecedor, que coloca ponto final em conversa que não teve início.

Volto ao assunto Gov 2.0, que dominou esta coluna recentemente. O site culturadigital.br, hóspede dos debates sobre o Marco Civil da Internet e a Classificação Indicativa, iniciativas do Ministério da Justiça, tem seu conteúdo publicado sob uma licença Creative Commons (CC). O blog do Palácio do Planalto tem licença CC (diferente da usada no culturadigital.br). O site da Casa Branca dos EUA “é” CC. O blog do Departamento de Finanças da Austrália é CC. Já o OpenData do governo britânico é diferente: não tem licença CC. Porém, seus responsáveis criaram uma outra licença, a Open Government Licence, parecida com uma licença CC, mas com outros detalhes e finalidades.

O MinC deveria ter seguido o exemplo do governo britânico. Ninguém é obrigado a usar licenças CC. Mas alguma licença é necessária (assim como, mesmo com uma legislação trabalhista geral, precisamos assinar diferentes contratos ao iniciar novos trabalhos). A declaração do MinC (“O conteúdo deste site, produzido pelo Ministério da Cultura, pode ser reproduzido, desde que citada a fonte”) não é uma licença, não tem validade jurídica. Sim: a legislação brasileira já permite a “liberação” de conteúdo. As licenças CC-BR são totalmente baseadas na legislação brasileira – não propõem nada que essa legislação não permita. Sua novidade é dar uma redação juridicamente clara para a autorização prévia de alguns, não todos, tipos bem específicos de utilização desse conteúdo. Por exemplo: sua reprodução, sua tradução, sua “remixagem” etc. – dependendo da licença escolhida.

Se o novo MinC não queria sigla CC em seu site, que pelo menos se desse tempo para criar uma nova licença válida em tribunais, como fez o governo britânico. Isso não se faz apressadamente. Bons advogados são necessários para esse trabalho, que pode custar caro aos cofres públicos (vantagens das licenças CC: já estão prontas, são válidas juridicamente, são compreensíveis em qualquer lugar do mundo e ninguém precisa pagar para utilizá-las). Com a pressa, o conteúdo do site do MinC e as pessoas que reproduzem esse conteúdo estão agora desprotegidos. (E com muitas dúvidas. Um exemplo: o conteúdo do site pode ser usado para finalidades comerciais? Acredito que sim, mas o texto não deixa isso claro.) Essa atitude não incentiva a defesa dos direitos autorais e sim cria um clima de “ninguém precisa licenciar nada” ou vale tudo.

Já há muita complexidade no debate sobre direito autoral. O MinC não pode atuar para criar confusão. Precisamos de licenças e regras claras. O CC prega exatamente o contrário do liberou geral. Com suas licenças todo mundo fica sabendo exatamente o que pode ou não fazer com cada conteúdo, seguindo as determinações de seus próprios autores. Ninguém “abre mão de seus direitos” e sim exerce mais plenamente seus direitos ao estabelecer o que pode ser feito com suas obras. Para “liberar” (prefiro dizer “autorizar”) alguns usos do conteúdo produzido seja em sites governamentais ou privados, precisamos deixar clara que liberação é essa. Sem algum tipo de licença, a lei entende que ninguém pode fazer nada com esse conteúdo, sem autorização a cada vez que for usado para qualquer fim. Uma experiência como a Wikipedia, onde podemos a todo momento editar o texto dos outros, seria ilegal se não acontecesse com licença clara que autoriza a reedição contínua.

Não estou aqui para pedir a volta da licença CC. Quanto mais licenças, melhor: aumentam nossas opções, segurança e legalidade. Seria ótimo que o MinC fizesse a crítica das licenças CC, para aperfeiçoá-las em outras licenças. Que comece logo o diálogo, com calma e tempo. Agradeço a Caetano Veloso por ter, em sua coluna do domingo passado, expressado seu desejo que é uma (boa) ordem: precisamos de uma “conversa produtiva” entre todos os grupos interessados em “levar o Brasil para a frente sem perder a dignidade.”

Gov 2.0

23/02/2011

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 21/01/2011

Na coluna da semana passada, apenas para introduzir o debate sobre classificação indicativa, falei de Gov 2.0. O assunto merece mais atenção do que aquele parágrafo introdutório. Tudo bem, o Segundo Caderno não é lugar para falar de política sem ligação clara com o mundo da cultura. Porém, não tenho nem dúvida: por trás do Gov 2.0 está acontecendo uma das transformações culturais mais interessantes deste novo século, que redefine o lugar da política em nossas vidas. O fato de ter o onipresente 2.0 na sigla é apenas mais uma evidência de suas conexões para além do Estado, para além da política convencional.

Hoje tudo é 2.0. Há medicina 2.0, educação 2.0, marketing 2.0 etc. Isso tem a ver com a utilização da internet em todos esses ambientes, mas não é só a tecnologia que importa, ou o que mais importa. A mudança principal acontece no relacionamento entre as pessoas, sendo praticamente irrelevante se estão em contato para fazer publicidade, política ou tratamento médico. Cada uma dessas áreas, mesmo com a resistência de antigos detentores do poder, tem agora que se abrir para a colaboração de todos. Não são mais caminhos de mão única, do centro para a periferia dos vários saberes e práticas. São redes, de muitos para muitos, sem distinção precisa entre quem fala e quem escuta, quem produz o “conteúdo” e quem o consome, quem manda e quem obedece.

2.0, em muitos contextos, é quase sinônimo de aberto, seguindo o modelo informático do “código aberto” (ou “open source”, em inglês, que por sua vez é quase sinônimo de “free software“, mas não há espaço aqui para abordar as sutis – e não tão sutis assim – diferenças políticas nas quais essas denominações se fundamentam). Gov 2.0 pode ser traduzido por governo aberto, ou “open government”. Tem gente que diz que hoje a abertura da internet está ameaçada (ou “a web está morta“) por causa de fatores tão díspares quanto o modelo de negócios do iPad, as “apps” de celulares, a reação anti-ou-pró-wikileaks, ou o cada vez mais poderoso combate reacionário contra a “neutralidade da rede“. Talvez tenham razão, se olharmos só para a rede. Mas se considerarmos a maneira como os princípios “libertários” da abertura da rede se “infiltraram” no mundo “off-line” (será que ainda dá para separar on-line de off-line?), o panorama é mais favorável a ambições democráticas. Um dos elementos dessa “expansão” aberta é bem visível: os pensamentos de muitos governos estão cada vez mais parecidos com os dos hackers.

As experiências do governo brasileiro felizmente não são únicas. Há países em que a “abertura” do modo de se governar acontece de forma mais planejada e consistente. A Casa Branca, por exemplo, criou a Open Government Initiative, que tem como lema “transparência, participação, colaboração”. São palavras do presidente Obama: “A abertura vai fortalecer nossa democracia e promover eficiência e eficácia no governo.” Já os australianos criaram um termo mais viril: não fizeram uma iniciativa e sim uma Government 2.0 Taskforce, que busca “promover transparência, inovação e agregar valor à informação governamental.”

Acompanho com mais atenção as experiência do governo do Reino Unido, até porque muitas delas são lideradas por Tim Berners-Lee, o inventor da web 1.0, que já promete a 3.0 (ou web semântica, em que os dados poderão “conversar” entre si, produzindo novos usos para as informações, sem interferência humana). Na “Spending challenge“, a Secretaria do Tesouro de Sua Majestade organizou uma elaborada consulta para que todos os cidadãos pudessem sugerir cortes de orçamento. Em “YouFreedom“, os súditos da Rainha podiam dizer que leis queriam ver abolidas.

Na semana passada, o site O’Reilly Radar (capitaneado por Tim O’Reilly, o inventor do termo “web 2.0” e o organizador do Gov 2.0 Summit que aconteceu em Washington em 2011) publicou uma lista de organizações de “inovação cívica” cujos trabalhos devem ser acompanhados de perto em 2011. Só ideias extremamente bacanas. Como a da organização “Code for America“, que tem como objetivo criar aplicações que ajudarão o governo a oferecer melhores serviços para os cidadãos. Ou a “Civic Commons“, que inventa sistemas para que prefeituras possam compartilhar softwares, não precisando pagar para criar programas que já foram desenvolvidos em outras cidades, ou mesmo em outras secretarias da mesma cidade.

Claro que nada disso significa a conquista da utopia. O motor da democracia é a crise, e maiores liberdades são conquistadas em meio a crises constantes. Como diz o historiador Pierre Rosanvallon, do Collège de France, em debate recente promovido pela revista “Le nouvel observateur“: o ideal democrático se sustenta sobre eternas contradições: entre a representação e o “movimento direto”; entre votar em quem pensa como pensamos e votar nos governantes mais eficientes; entre o “povo” e o “indivíduo”; entre a eleição como momento do “yes we can” e a pós-eleição como império das dificuldades para se fazer o que podemos…

Rosavallon alerta: “formas de progresso democrático podem também mascarar tentações de regressão.” É preciso que todas essas ferramentas de governo colaborativo não se aliem a populismos que querem promover a descrença total em processos eleitorais.  O Gov 2.0 vai precisar sempre de um bom Gov 1.0.


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