Chris Marker

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/12/2010

É um privilégio ter os DVDs da Coleção VideoFilmes numa loja ou locadora perto de nossas casas. Agora podemos ver e rever filmes – como “Eu, um negro” de Jean Rouch e “O país de São Saruê” de Vladimir Carvalho – que antes só eram exibidos em ciclos especiais ou sessões de festivais. A seleção mistura clássicos com novíssimas produções, de diferentes tendências estéticas/ideológicas, e ocupando lugares diversos no “contínuo” real/ficção. Um lançamento de 2010, “Gatos empoleirados”, o DVD n° 20 da coleção, me fez mergulhar novamente na obra de seu diretor, Chris Marker, que sempre trabalhou no limite entre o real e o virtual, a poesia e a “realidade mais crua”. Muito estranho, e ao mesmo tempo esclarecedor, ver este filme enquanto “lá fora” o Rio esteve em “guerra” e o capitalismo global se arrasta numa crise (“guerra cambial”?) que se revela cada vez mais enigmática, apesar de youtubada e twitada em tempo sempre real, real até demais da conta, gerando excessivas “visualizações”.

Na guerra todos os gatos são pardos, ou cinzas, como TV fora do ar? Chris Marker se pergunta: onde estão os gatos? Ele tem obsessão por gatos. Comentando seu filme “Le fond de l’air est rouge”, que também tem versão inglesa intitulada “A grin without a cat”, Marker declarou: “um gato nunca está do lado do poder.” Numa entrevista rara e brilhante de cabo a rabo, concedida em 2008 para a revista francesa Les Inrockuptibles e traduzida para inglês no site da – outra coleção excelente – Criterion, há o complemento paradoxal: “os gatos, vocês sabem, têm certos poderes”… Uma sequência assustadoramente hilária de “Gatos empoleirados”, depois de mostrar imagens da recente pilhagem dos museus arqueológicos do Iraque, o narrador confessa lacônico: “eu saberia bem o que tirar do Louvre…” Corte. Já estamos dentro da sala egípcia do museu parisiense, observando gatos exilados de suas pirâmides.

Um gato pode ser mestre de disfarces. Como Chris Marker. Seu próprio nome é uma máscara. A justificativa para o pseudônimo é mais uma lenda, com pose de verdade simples: “gosto de viajar, queria um nome fácil de pronunciar em todos os lugares.” Marker diz também que detesta fotos. No lugar de seu rosto, manda para a imprensa o desenho de – o que mais poderia ser? – um gato, que tem até nome bem conhecido entre seus fãs: Guillaume-en-Egypte. Por isso não é de se espantar que tenha ficado encantado quando apareceram em Paris grafites de gatos, empoleirados em vários edifícios, muros, paredes das estações do metrô. E das paredes, como um meme que se espalha viralmente pela cidade e depois pelo mundo, foram se infiltrando em vários outros ambientes, e acabaram nos cartazes que alegravam as manifestações políticas de uma França perplexa, entre o neo-liberal e o estado social, entre Le Pen e Chirac, com véus islâmicos fora das escolas. A câmera de “Gatos empoleirados” começa documentando um flash mob e sai pelas ruas tentando desvendar, ou aprofundar, o mistério felino.

Com quase 90 anos, Marker permanece ligado em todas as novidades importantes. Na entrevista da Les Inrocks – que obviamente não foi feita pessoalmente, mas sim no Second Life – ao ser perguntado sobre o que mantém seu interesse no mundo, a resposta é precisa: “Curiosidade. É tudo. Eu nunca senti muita coisa além disso.” Por isso seus filmes, incansavelmente curiosos, sempre lidam com tendências que o resto do mundo nem identifica ainda, tanto no uso de novas tecnologias de captação/edição das imagens, quanto na escolha dos temas e links entre vários assuntos diferentes. No cinema, acho que foi Marker que criou pela primeira vez uma protagonista (o fato de ser mulher não é de modo algum irrelevante) que tem como profissão o desenvolvimento de jogos eletrônicos.

Então, é de se esperar a abertura flash mob de “Gatos empoleirados” ou a entrevista realizada no Second Life. Um jornal de Zurique já escreveu, bem antes do filme de James Cameron, que Marker “nasceu para ser avatar”. Acrescento: seu planeta Pandora é a Terra mesmo. A Terra e a rede de informações/imagens que a envolve como um nevoeiro cada vez mais denso. Ele diz até que se aposentaria no Second Life, “como Brando no Taiti”. Só que nunca vai se aposentar. Hoje até arruma mais trabalho. A versão francesa de “Gatos empoleirados”, feita sem narração (que foi incluída depois, para públicos sem familiaridade com a política local), foi feita em casa: “eu podia me dar a pequena alegria de fazer um filme de A a Z com minhas duas mãos”. E acrescenta: “experimentei um júbilo suplementar quando, depois de gravar alguns DVDs no computador de casa, fui vendê-los no mercado do bairro Saint-Blaise. Do produtor ao consumidor sem nenhuma intervenção externa… Sem mais-valia…” Em entrevista, conclui: “é o sonho de Marx tornado realidade”. Ou: a tecnologia nos transforma a todos em artesãos… Ficamos livres dos atravessadores da indústria cultural. Todo trabalho, mesmo precário, é nosso.

Novamente na guerra, agora donos dos próprios narizes e armas de viralização ideológica, contaminando o mundo com a poesia de gatos sorridentes. Marker com a palavra: “Eu temo que o que é comumente chamado de ideologia não tenha mais nenhuma relação com sua definição original. No início, era um ardil de guerra. Hoje é meramente um substituto para uma guerra que não existe.” Algum gato para atirar a primeira pedra?

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