desenhar

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/12/2011

Meses atrás, nesta coluna, tentei iniciar minha campanha contra o uso desenfreado do verbo “resgatar”. Não adiantou nada, estou sem moral, ninguém me fortaleceu… Mesmo aqui no Segundo Caderno, toda semana alguém resgata alguma coisa, solenemente, como até as manchetes dos artigos fazem questão de nos anunciar. Entrego minhas armas, já me acostumei. Assim como deixei de me arrepiar ao ouvir outro verbo da moda: “desenhar”. Hoje as pessoas ficam alegres, e se acham refinadas (talvez com razão), ao declarar que estão desenhando projetos ou até relações amorosas. Somos todos designers.

Culpa dos próprios designers. Não há profissão mais “estilosa”. Mesmo suas nítidas tendências expansionistas, ocupando cada vez mais postos no mercado de trabalho, são combustíveis para seu charme. Passamos a viver cercados por production designers, sound designers, landscape designers, lightning designers, fashion designers etc. Ninguém quer ser mais iluminador, produtor, jardineiro, costureiro… O mundo se sofisticou demais para caber na taxonomia profissional “desenhada” num passado pré-Apple.

Os designers mesmo, diante da invasão de sua praia, tiveram que criar novas embalagens para vender seus peixes coloridos com esmalte khaki da Chanel. Poucos deles se contentam com objetos ou arte gráfica. Agora definem o que fazem como o desenho de futuros ou, para ser ainda mais vago, de possibilidades. Diego Rodrigues, da IDEO (empresa de design que tem como lema “ajudamos organizações a inovar”), é um dos pioneiros do design de negócios. Outros, crentes que estão abafando, chegam a declarar que todos os problemas do mundo, inclusive os dos governos, podem ser resolvidos com melhores desenhos. E assim vamos, até o verbo desenhar sumir envergonhado do panorama. Já há designers que se intitulam, com orgulho, “contadores de história”.

Pode parecer que estou sendo apenas irônico, ou ridicularizando a nova onda desenhista. Não é minha intenção. Claro que alguns exageros são ridículos (como as cartas de amor, de Fernando Pessoa…). Porém, mesmo certos exagerados (como Cazuza) são pessoas que admiro muito, autores das idéias mais brilhantes emcirculação na atualidade. Como o Diego Rodriguez, citado acima, um dos cinco designer mais espertos do mundo, segundo a lista da revista Fortune. Os outros quatro: em primeiro lugar, é claro, Jonathan Ive (da Apple, o chefe de criação do iPod, iPhone e iPad); Shigeru Miyamoto (da Nintendo, que foi tema de uma coluna inteira por aqui); Indrani Medhi (pesquisadora da Microsoft, que tenta criar uma interface de computador para analfabetos); e Jan Chipchase, que ficou famoso quando trabalhava na Nokia viajando pelo mundo para observar como pessoas de diferentes culturas usam a tecnologia (principalmente celulares).

Passei a acompanhar, por RSS, o blog Future Perfect de Chipchase desde que li um artigo sobre seu trabalho em Uganda, revelando a forma engenhosa que o pessoal das periferias locais criou para enviar dinheiro para parentes através de créditos de celular (esse mesmo artigo falava de como os celulares ajudam os pescadores pobres do sul da Índia a, ainda no alto mar, descobrir que portos têm as melhores cotações para os peixes que caíram em suas redes, mas isso é material para outro texto). Em suas andanças, e muitas fotos, Chipchase conduz um trabalho que pode ser considerado fast-etnografia (a antropologia também está com tudo), mas muito bem feita, descobrindo futuros em locais perdidos da Terra, como uma beira de estrada afegã, ou uma barraca de um camelô de aldeia tibetana. Hoje, ele vai morar em Xangai. Morar em Xangai é tendência…

Também tento sempre seguir os passos de Anab Jain. Foi a primeira designer que vi se definir, enfaticamente, como contadora de histórias (depois descobri que o “story-telling” é tão tendência quanto Xangai, virando até tema de toda uma edição da revista Volume, lançada por uma das turmas do arquiteto – que acaba de “desenhar” o currículo de um novo curso de design em MoscouRem Koolhaas). A ênfase nas histórias, criada de preferência por muitas vozes, revela sua maior preocupação com o processo e não com o produto acabado. Para acompanhar um desses processos vale a pena ver os posts do “Power of 8”, desde o vídeo de Anab explicando seus objetivos e convocando outras sete pessoas, via web, para imaginar “futuros otimistas”. Foram selecionados de pedagogos a um químico. Gosto especialmente do trabalho do Charlie Tims, que incentiva muita gente a criar o que chama de “nubs”, espécie de vídeo-clipes para expor idéias.

Outro participante do Power of 8 era um especialista em permacultura, método que pretende “desenhar” plantações e até cidades inspirados nos processos naturais. O verbete da Wikipedia em inglês mostra como o design se infiltrou com sua doce e chic tirania em todos os lugares: “A permacultura é uma abordagem para desenhar assentamentos humanos e sistemas agrícolas que são modelados na relações encontradas nas ecologias naturais. A permacultura é o design do uso sustentável da terra.” Sustentável. Outro conceito que tem sido resgatado de forma descontrolada, como uma praga “natural”. Hoje em dia tudo acaba em sustentabilidade, sem explicações, inclusive este texto.

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