Edge

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/12/2010

Quando recebi o convite para escrever por aqui, havia ainda a dúvida se as novas colunas teriam nomes diferentes daqueles de seus autores. Fiquei pensando em algumas possibilidades. A primeira idéia foi “name dropper”, termo em inglês para chatos que têm o vício de citar nomes de pessoas importantes, para impressionar os ouvintes. Pensei até em começar todos os textos com algum nome, sem importância para muita gente, tentando difundir seus trabalhos, e formando aos poucos um catálogo biográfico bem idiossincrático, que pudesse ser útil para espíritos aventureiros. O fato de ser expressão em língua inglesa, e de não ter encontrado uma boa tradução irônica, acabou me fazendo desistir da brincadeira. Então fiquei namorando o título Fronteira. No fundo, continuava pensando em inglês: fronteira no sentido de “edge”. Trataria apenas da produção cultural que cruzasse limites estabelecidos pelo lugar comum, transformando o mundo ou inventando novas maneiras para se viver a vida. Minha inspiração vinha de coisas diferentes entre si: como o disco “Close to the edge” do Yes ou o ensaio “Edge culture” de Brian Eno. Mas, sobretudo, eu queria imitar, de maneira absurdamente individual e inutilmente pretensiosa, o site www.edge.org.

Acompanho a trajetória de John Brockman, o homem que movimenta o Edge, desde quando a web não existia. Comprei o primeiro livro da série “The reality club” na época de seu lançamento, em 1990. Fiquei impressionado com a reunião de pensadores tão interessantes, vindos de áreas distintas, como o filósofo Daniel Dennett, a bióloga LynnMargulis, ou o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi. Aprendi que o que estava ali publicado era amostra de uma diversidade muito maior. O Realidade, clube “só para convidados”, reunia mensalmente em Nova York – desde 1981 – um time fascinante que incluía do físico Freeman Dyson ao diretor teatral Richard Foreman, quase todos meus ídolos. O lema do clube era ambicioso: “Chegar ao “edge” do conhecimento mundial, procurando as mentes mais complexas e sofisticadas e colocando-as juntas numa sala, buscando com que façam para as outras as questões que estão fazendo para si mesmas.”

Hoje a sala se transformou no site Edge. A transformação não foi exatamente democratizante. O clube continua tão elitista (não é uma crítica, é uma constatação) quanto antes, talvez até mais, pois seus membros se tornaram celebridades (sinal dos tempos: hoje cientistas podem ser mais pop que Mick Jagger) e muitos deles incrivelmente mais ricos. Não é um site aberto, onde qualquer um pode colaborar. Permanece “invitation-only”, com edição central. A diferença: quem não é da turma iluminada e selecionada agora pode acompanhar as conversas quase em tempo real, depois de um filtro claro. Brockman permanece decidindo quem pode falar naquele fórum. Atualmente ele é um dos agentes literários (especializado principalmente em livros de ciência) mais poderosos do mundo, conseguindo convencer as principais editoras a pagar adiantamentos literalmente milionários para seus clientes (uma das lendas que giram em torno do seu método de trabalho é a que diz que fica triste quando um livro começa a pagar royalties, pois descobre que poderia ter conseguido um adiantamento maior). Brockman é agente de Richard Dawkins, Jared Diamond, Martin Rees e outros do mesmo quilate.

O site tem várias seções. Uma delas – espécie de revista Caras das pessoas que o Edge considera as mais interessantes e inteligentes do mundo – é álbum de fotos de um evento anual ciceroneado por Brockman, que já foi chamado “Jantar dos milionários” e de uns anos para cá teve upgrade para “Jantar dos bilionários”. Na comilança de 2010 estavam presentes figuras nada fáceis como os donos do Google, do Twitter, do Huffington Post, Bill Gates, Benoit Mandelbrot (dos fractais), Craig Venter (do Projeto Genoma). Preciso “dropar” mais nomes? Uma bomba no jantar e perderíamos grande parte de uma certa inteligência criativa que impulsiona nosso mundo para o tal futuro, ou o futuro que esse pessoal criou para todos nós. A fronteira nerd virou o centro do poder.

Outra seção muito popular do Edge é a das perguntas. A cada ano alguém lança uma pergunta diferente. Em novembro, Richard H. Thaler, o pai da “economia comportamental” (o campo mais “hypado” dos estudos econômicos), propôs a seguinte questão: “algumas crenças científicas errôneas foram mantidas por longos períodos de tempo – qual sua favorita?” Até agora recebeu 65 respostas assinadas por, entre outros, o físico Lee Smolin e o artista Matthew Ritchie. Esta semana uma pergunta especial foi publicada. O inquisidor agora é Danny Hillis, pioneiro da supercomputação, que – sob o impacto de wiki-vazamentos – quer saber: como podemos ou se devemos manter segredos na era da informação.

Mas isso é o aspecto festivo do Edge. O que ali queima mesmo meus neurônios são os posts mais comuns, com textos frequentemente brilhantes, como o mais recente, “Metáforas, modelos e teorias”, de Emanuel Derman, um desses físicos que na última década deixaram as universidades para tentar descobrir as leis dos mercados financeiros (aprofundarei esse assunto palpitante em futura coluna). É por isso que volto sempre para o Edge. Para o mundo das idéias anglo-saxãs (que ainda acreditam ser o mundo todo, ou a elite do mundo), não há guia mais esperto.

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