deixa não/sim

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 31/12/2010

Último dia de 2010. A Modern Sound, loja de discos de Copacabana, encerra suas atividades. A Blockbuster americana entrou com pedido de falência este ano. Final de uma época. Lembro das minhas viagens de adolescente, do Rio de volta para Brasília, com LPs importados carregados cuidadosamente na sacola da Modern Sound – medo do vinil empenar e assim perder a grana de muitas mesadas. Estranho, agora me dou conta: nunca mais tinha comprado nada ali. E nas minhas mais recentes viagens internacionais trouxe pouquíssimos CDs. Meu som está quebrado, não tem peça para reposição e fico com preguiça de tentar resolver o problema. Não baixo música, escuto quase tudo que me interessa via YouTube, ou sites de streaming. Nem penso em arrumar mais espaço em prateleiras (na verdade no chão da minha casa, onde pilhas de CDs e LPs atravancam todos os caminhos) ou nos discos rígidos para armazenar pesados arquivos sonoros. Tudo está na “nuvem”, abençoada nuvem, facilmente navegável com a ajuda do Google. Esses meus novos hábitos não são minoritários. O fechamento da Modern Sound é mais uma prova de que todo mundo passou a consumir música online.

Ou não. A internet não é a única culpada. O buraco do modelo de negócios fonográfico é bem mais embaixo, ou acima e por todos os lados. E também não é só questão de economia. Vivemos uma grande transformação cultural no modo como nos relacionamos com a música. Mais precisamente: voltamos ao padrão básico de consumo musical da humanidade, aquele que prevaleceu na maior parte das culturas e mesmo na história da chamada Civilização Ocidental até pelo menos o início do Século XX. Música quase sempre foi um bem efêmero, sem registros físicos (mesmo partituras são invenções recentes). Só com a chegada dos toca-discos e depois dos gravadores é que isso mudou e as pessoas aprenderam a comprar discos e fitas para escutar em casa na hora que sentissem necessidade. Mesmo durante o tempo de império do fonograma, as comunidades que ainda produziam “folclore” tinham uma outra relação com a arte sonora, nunca tratada exatamente como Arte. Não havia divisão clara entre quem tocava e quem escutava, tudo era feito na hora, mais ou menos improvisadamente, com autoria coletiva. A idéia de se registrar aquilo para escutar depois, fora da festa, não fazia sentido. Para escutar novamente aquela música, ou para fazer novamente aquela música, a gente precisava esperar por novas festas.

Quando passeio pelo YouTube, não posso deixar de pensar: eis o novo folclore. Como diz o Kraftwerk: “music, non-stop”. Festa, non-stop, tanto em termos geográficos quanto temporais. Todo mundo fazendo música, todo mundo fazendo clipes para as músicas dos outros, todos os quartos do mundo unidos por web-cams numa produção musical/dançante/festiva constante e avassaladora. Ninguém se contenta apenas em ouvir a música: é preciso expor para o mundo sua própria interpretação sonora/visual/coreográfica daquele hit do momento, numa conversa musical sem fim. Hit: não é mais questão de discos vendidos, mas sim de “views”, audições, número de clipes feitos por fãs, o que pode gerar dinheiro com shows, pois os shows são materializações – também efêmeras, mesmo quando registradas por milhões de celulares – da festa que acontece na rede.

O hit do momento, a música que vai sacudir o Brasil neste verão é “Minha mulher não deixa não”. Fico na dúvida até se é música, e aqui não vai nenhum juízo de qualidade artística. Acho que é mais um mote, um tema para improviso e diversão das massas. Procure por esse título no YouTube. Você vai encontrar milhares de vídeos. Há a música tocada em todos os ritmos imagináveis, com muitas letras diferentes. Há tecnobrega, forró, samba, funk, sertanejo. Há respostas para a letra “original” (mas nesse caso, ninguém sabe qual a verdadeira origem), inclusive dizendo o oposto: “Minha mulher não manda em mim“. Isso sem contar com os vídeos que apenas criam novas imagens para uma das versões da música, geralmente com gente se esbaldando de dançar, em seus quartos, quintais e ruas de todo o Brasil. É uma grande brincadeira coletiva, uma explosão de criatividade jocosa, uma gargalhada eletrônica juntando incontáveis risadinhas. (E, claro, para a atual Lei do Direito Autoral, toda essa brincadeira está fora da lei.) Na vitrola, e mesmo na TV, perde grande parte da sua melhor graça.

Diante dessa saudável bagunça toda, e do fechamento da Modern Sound, resta a pergunta: o disco acabou? Claro que não! Sei lá como vai funcionar o negócio, mas nunca escutei tanto disco bom recém-“lançado” para vendas em canto nenhum. Como o maravilhoso Mafaro, de André Abujamra, um dos meus preferidos de 2010. Diz a letra da sua faixa “Daunloudaram”: “Ei tudo bom / Quem sabe algum dia alguém / escute o seu som / Ei num esquenta, esquece / Já baixaram seu CD inteiro na / internet”. Tomara que baixem mesmo, e comprem, e façam vídeos incríveis para cada música. (Tomara que apareça um jeito do artista ganhar dinheiro com isso.) Motivos para a festa não faltam no disco. Festa de muitas fantasias étnicas: do afro-beat à farra árabe ou cigana, tudo linkado pela luz da cauda da flecha de Oxossi ou pela proteção de Logun-Éde.

André se explica: “Mafaro quer dizer Alegria na língua do Zimbabwe. Este CD é para aceitar a alegria.” Tudo muda o tempo todo. Que todo mundo, incluindo meu querido Pedrinho da Modern Sound, fique protegido da tristeza e encontre motivos para alegria nova em 2011. E depois.

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