mangá

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/12/2010

Hoje é véspera de Natal. Se você ainda precisa comprar presentes, tenho uma sugestão. Não é muito criativa – só sei dar livros ou discos… Mas é dica prática, e pode agradar pessoas de muitos gostos diferentes: presenteie mangá. Nos últimos anos, uma leva bem eclética dessas histórias em quadrinhos japonesas – lidas de trás para frente – invadiu livrarias brasileiras e mundiais. Não perca tempo achando que é leitura só para crianças. Há de tudo, inclusive publicações que deixam muitos marmanjos chocados, ou alegremente perdidos.

A estética do mangá tem raízes aéreas, absorvendo nutrientes de diversas tradições, não só as cultivadas em solos nipônicos. Técnicas milenares da ilustração japonesa se encontraram com os mais comerciais comics norte-americanos e também com as mais estranhas experiências gráficas européias. Paul Gravett esteve recentemente no Rio analisando detalhes dessa história durante a Comic Con. Eu perdi a palestra. Ainda bem que a editora Conrad lançou no mercado brasileiro seu “Mangá – como o Japão reinventou os quadrinhos“, referência para quem quer conhecer melhor esse mundo não tão novo assim, pois já tem mais de meio século de intensa atividade criativa.

Osamu Tezuka aparece em quase todos os capítulos do livro de Gravett, inclusive com seu personagem Astro Boy na capa. Não há como não reconhecer sua importância como o principal produtor daquilo que define os quadrinhos japoneses de hoje, nas suas várias tendências. Tezuka é mestre para todo criador de mangá. A Conrad publicou sua biografia em quatro volumes (e em quadrinhos, é claro). Outro presente espetacular, para todas as idades, é a coleção completa de “Buda“, em 20 volumes, a saga de Sidarta segundo Tezuka. É deslumbrante. Não foi à toa que ganhou o Eisner Awards, um Oscar dos quadrinhos. Conheço adolescentes que hoje se consideram budistas só porque leram esses mangás na infância.

Agora no final do ano, chegou às nossas livrarias um dos primeiros sucessos de Tezuka, “Metrópolis” (editora New Pop), publicado no Japão em 1949. Eu já tinha visto o filme, dirigido por Rintaro e lançado depois da morte de Tezuka (que em vida nunca autorizou a filmagem de sua história), com imagens elaboradíssimas. O constraste entre o que vemos na tela e no papel é evidente: o mangá tem desenho quase ingênuo, bem infantil. Porém, gosto das duas versões. A inadequação de traços naives para contar uma história sinistra da gerra/simbiose de homens e máquinas, do natural e do artificial, dá charme extra para o trabalho de Tezuka em início de carreira.

Nada infantis são as “Mulheres“, de Yoshihiro Tatsumi (editora Zarabatana). Deixamos o mundo dos super-heróis, da ficção científica, para entrar nos bastidores sombrios de relações demasiadamente humanas, e realistas, da sociedade japonesa hoje, com suas taras, prostitutas, criminosos, amores trágicos. Tatsumi inventou o termo “gekigá” para denominar seus mangás adultos, desconcertantes e até cruéis. A crônica dessa invenção, misturada a uma narrativa de romance de formação, pode ser lida no calhamaço (850 páginas) “Uma vida em deriva“, auto-biografia (combinada com uma reflexão muito pessoal sobre a história japonesa pós-Segunda Guerra) em quadrinhos de Tatsumi, ainda não traduzida para o português, mas com elogiada edição em língua inglesa.

Se Tezuka é solar (mesmo quando aborda temas sinistros como em “Adolf“, pesada reflexão sobre o nazismo que tem como personagem central um judeu japonês), e Tatsumi noturno, talvez eu me sinta mais em casa com Jiro Taniguchi. Com seu desenho, no Brasil, temos o primeiro volume de “Seton” (editora Panini Comics – quando sairá a sequência?), uma história deleuziana (devir animal) de um naturalista e sua relação com os lobos selvagens. Já em “Gourmet“, outro lançamento da Conrad, o assunto é a perambulação de um cara bem comum pelas ruas de cidades como Tóquio e Osaka à procura, mesmo sem a consciência da procura, da comida perfeita, que pode aparecer nos lugares mais banais. A orelha do livro não exagera ao insinuar: “é possível que o lugar ideal para essa obra seja a seção de poesia”. Poesia contemporânea, com emoções concretas, como se educadas por uma pedra de João Cabral. Essa contemporaneidade contemplativa e distanciada, onde o núcleo duro das coisas e do desenho é o vazio do aqui-agora zen, é levada a extremos deliciosos em “O andarilho”, mangá de Taniguchi penso que ainda não publicado no Brasil (mas que tem traduções inglesa e francesa).

A oferta de quadrinhos japoneses não se limita à ficção. Os mangás exercem fascínio tão poderoso em tanta gente que muitas outras áreas tentam tornar seus livros mais divertidos ou vendáveis contratando um mangaká (criador de mangá) para cuidar das aparências e roteirização do conteúdo. Temos por exemplo o livro “Japonês em quadrinhos” (Conrad), de Marc Bernabé. Mas seu uso do mangá é secundário diante de uma estrutura mais convencional de texto, muito texto. O mangá (mesmo com ordenamento ocidental das páginas, da frente para trás) torna-se realmente fio condutor em outra coleção de livros didáticos traduzida para português pela Novatec. Os assuntos são cabeludos: biologia molecular, banco de dados etc. Haverá sempre alguém que vai vibrar ao receber um mangá sobre estatística como presente de Natal. Ainda bem que o mundo não é homogêneo.

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