Albert Cossery

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/02/2011

Comentando os recentes acontecimentos no Egito, Roger Cohen, em artigo publicado na página de Opinião deste jornal (aqui o texto em inglês), falou sobre uma “subcultura interessante”, aquela dos “livros que saem na hora errada”. Ele se referia especificamente ao recém-lançado “A desilusão da net“, de Evgeny Morozov, mais uma dessas publicações que buscam sucesso tentando nos provar que a internet é território do mal, contra o que existe de bom e “culto” no mundo. Morozov combate a “ilusão” de que as redes sociais poderiam ser usadas para o ativismo democrático. Cohen aponta a ironia do lançamento acontecer justamente quando a combinação de Facebook, Twitter, YouTube etc. se mostra fundamental para a organização das manifestações no mundo árabe, levando o governo egípcio a “desligar” a internet no país.

Ao ler o artigo de Cohen lembrei de outra subcultura bibliográfica não menos interessante: a dos romances profecias, lançados bem antes dos fatos que transformam o que era ficção em realidade. Esses meus pensamentos ganharam substância com outra coincidência, bem pessoal: passei este início de verão lendo todos os livros de Albert Cossery lançados no Brasil. Meu corpo andava pelo Rio de Janeiro, mas minha imaginação vagabundeava pelas ruas do Cairo e de outras cidades árabes. Tive a introdução perfeita para as notícias que agora persigo na internet.

Nunca tinha ouvido falar em Cossery até ler uma entrevista que ele deu em 2005, quando já tinha 92 anos, para a revista Le Magazine Littéraire. Fiquei imediatamente apaixonado. Como demorei tanto tempo para encontrar esse cara, tão sábio e hilário? Dava gargalhadas com cada resposta. Não era difícil me deixar fascinar por alguém que tinha a petulância de dizer coisas como: “Eu gostaria que depois de ter lido um de meus livros, as pessoas não fossem mais trabalhar no dia seguinte, que elas compreendessem que a ambição de viver é suficiente, que nenhuma outra ambição vale a pena.” Nada disso era da boca para fora. Cossery vivia o que pregava, tanto que morou 60 anos num mesmo hotel, e não queria possuir nada. “A cada vez que meus amigos pintores e escultores me davam obras eles sabiam que no dia seguinte eu as venderia para pagar meu hotel e os cigarros.” Mesmo sua vida amorosa era pura errância: “Eu amo as mulheres. Jamais posso ficar sem sua companhia. Eles aparecem, elas se vão, nunca tenho aborrecimentos com elas.”

Cossery escreveu como viveu. Sem pressa. A lenda diz que redigia uma frase por dia. Publicou apenas nove romances, um para cada década de vida. Demorei para ler qualquer um deles. Tinha medo de quebrar o encanto da entrevista, do homem ser muito mais bacana que seus livros. Porém, ao acabar os três romances editados no Brasil pela Conrad, meu fascínio aumentava. Todo mundo deveria mergulhar nas suas narrativas agora, como contraponto para os fatos do mundo real/virtual.

As cores da infâmia” e “Mendigos e altivos” se passam no Cairo, entre pequenos subversivos, funcionários e criminosos que criam uma vida paralela para recusar a pior de todas humilhações segundo Cossery: o trabalho. Um velho jornalista vai até morar num mausoléu no cemitério da cidade para não ter que pagar aluguel, opção que parece ser comum no Egito. Ao mesmo tempo, suas ações vão revelando a corrupção que governa o país, algo bem próximo àquilo contra o que as massas se revoltaram nas últimas semanas.

Acho que meu romance preferido, entre os três disponíveis nas livrarias brasileiras, é “Ambição no deserto“, publicado em 1984. Não exatamente por sua trama, que é frágil em muitos momentos. Cossery não se dizia romancista, e sim escritor: “eu não escrevo para contar estórias, mas para dizer o que penso. Meus personagens estão lá para exprimir minhas idéias.” Em “Ambição no deserto” há um tsunami de idéias desconcertantes. Meu exemplar está todo sublinhado com frases que poderia citar aqui, ocupando a coluna inteira. Tudo se passa num emirado do Golfo Pérsico, que não tem petróleo como os vizinhos. O que, para Samantar – personagem principal – era uma benção, pois afastava “os gigantescos navios-tanques [que] navegavam rumo aos hemisférios cruéis, carregando em seus flancos pesados a substância vital aos perfeitos genocídios.”

“O que Samantar detestava acima de tudo era o que os tecnocratas ocidentais denominavam, em seu jargão barroco, de expansão econômica. Com essa expressão de feiticeira, os antigos colonialistas se esforçavam para perpetuar as próprias rapinagens, introduzindo sua psicose de consumo nos povos sadios que não tinham a menor necessidade de possuir um automóvel para provar sua presença neste mundo.” Qualquer semelhança com os movimentos slow-qualquer-coisa não deve ser encarada com espanto. Imagino que os manifestantes do Cairo tenham outras preocupações no momento, talvez até lutem por “expansão econômica”. Deveriam ler “Ambição no deserto” para dar rumo realmente surpreendente para seu movimento: quem sabe a volta de um Dom Sebastião muçulmano?

PS: Quando li que, no meio da revolta, Mubarak colocou como vice-presidente um tal Omar Suleiman, por um momento achei que o mundo tinha pirado de vez e quem estava no poder era o cantor sírio Omar Souleyman. Veja o vídeo e imagine que maravilha seria se fosse verdade: as massas rebeldes dançando essa música brega, louca e excelente.

Anúncios

Tags: , , ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: