presente/futuro indicativo

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/01/2011

O Estado brasileiro, sem muito marketing, anda fazendo experiências interessantes no campo “aberto” que ficou conhecido como “Gov 2.0“. Temos desde iniciativas pioneiras, como a adoção das urnas eletrônicas, a serviços e dados públicos disponíveis online, além de consultas para elaboração de novas leis. Um exemplo concluído com sucesso foi o projeto do Marco Civil da Internet, facilitado pelo Ministério da Justiça. Seguindo, esse modelo, o mesmo ministério mantém aberto, até o dia 28 de janeiro, o debate sobre Classificação Indicativa. Todo mundo interessado na educação de nossos adolescentes e crianças deveria participar.

Um dos problemas do Gov 2.0, mesmo para entusiastas como eu, é arrumar tempo para participar. Essa vai ser uma das angústias da nova democracia eletrônica. Tudo será cada vez mais transparente e colaborativo. Mas como escolher em que colaborar, diante de tanta demanda e da farta documentação para ler antes de colaborar direito/direto? Vamos ter que fazer mais esse aprendizado.

A classificação indicativa, por exemplo, é um debate que me interessa muito, mas no meio de todas minhas atividades, chegava lá no site e era tanta coisa para estudar que, não querendo ser leviano diante de questão que levo tão a sério, sempre adiava minha participação. Fui lendo aos poucos, mas ainda não consigo participar. A leitura me deixou com dúvidas muito básicas, de pano de fundo, que atrapalhariam a conversa mais pragmática que está acontecendo no debate online.

Correndo o risco do texto ficar ainda mais (já que inevitavelmente vou parecer leviano) contraditório: minhas dúvidas têm origem em observações bem pragmáticas, frutos do convívio diário com adolescentes e crianças. Muitas vezes, como educador, entro em pânico e não tenho a menor idéia do que fazer: precisaria de outros tipos de classificações indicativas para me guiar. Tento impor regras domésticas de utilização de mídia. Mas vejo que de nada adiantam regras isoladas. A garotada de hoje, independentemente da classe social (meu trabalho me faz andar muito em favelas de todo o Brasil, vejo isso acontecer em todos os lugares), deixou de ser espectadora de mídias e passou a produzir conteúdos que podem ser vistos por gente de qualquer lugar do planeta.

Cada vez mais crianças publicam fotos e vídeos no Orkut, ou brigam com os colegas via Formspring. Pensando em criar regras comuns entre os vários amigos dos meus sobrinhos, fui dar uma palestra no seu colégio. Comecei a falar, para uma turma do quinto ano, como se estivesse no palco de peça infantil boba. Uma menina de 10 anos me interrompeu e perguntou na bucha: “é possível mesmo rastrear IPs?” Ela estava preocupada com uma acusação de que teria criado, com photoshop, imagens comprometedoras dos colegas para publicar em perfis “fakes”. Tive que respirar fundo e mudar de tom: estava diante de gente cibergrande.

O debate sobre a classificação indicativa ainda tenta separar produtores de espectadores, mídia física de mídia virtual. Fico com a impressão que estamos tentando legislar sobre o passado, sobre tecnologias e práticas obsoletas. (Até quando as pessoas vão usar DVDs? Até quando as pessoas vão ver TV na hora que a TV quer?) No site, há uma explicação sobre a diferença entre jogos “puramente virtuais” e jogos que precisam ser instalados “em seu aparelho”. O problema é que as novas tecnologias misturam tudo isso. Muitos jogos hoje incentivam a criação de novas etapas do próprio jogo, que podem ser distribuídas pela internet. O jogador vira co-autor. Quem vai classificar o que todos esses milhões de produtores de conteúdo publicam o tempo todo?

Outro problema que me distancia do debate que acontece por lá: o Manual da Nova Classificação Indicativa, sugerido como fonte para as reflexões, parece partir de uma visão que Umberto Eco, há muito tempo, chamava de “apocalíptica”: conteúdos violentos geram pessoas violentas. São citadas pesquisas sem indicação bibliográfica – sempre aparecem como “algumas pesquisas” ou “alguns estudos” – que comprovam essa visão. Eu posso citar “outras pesquisas” que colocam esse “consenso” em dúvida. Ver por exemplo a imensa bibliografia do livro “Brincando de matar monstros: por que as crianças precisam de fantasia, videogames e violência de faz-de-conta“, de Gerard Jones. Ou os argumentos de “Supreendente! A televisão e o videogame nos tornam mais inteligentes“, livro de Steven Johnson.

Porém, mesmo que todos esses contra-argumentos não façam sentido: a TV brasileira corta as cenas violentas de Naruto, desenho preferido pela garotada. A garotada vai para a internet, baixa e aprende japonês para legendar a versão original sem cortes e distribui para os amigos em “perigosos” sites de torrent. Eis a política bem intencionada incentivando a pirataria?

Talvez eu seja, para continuar usando a terminologia pré-histórica de Umberto Eco, “integrado” demais para entrar nesse debate. Não tenho nem sugestões para dar, a não ser uma bem óbvia e abstrata: esses problemas não vão se resolver com cortes, ou horários de exibição; a solução é educação. Educação não apenas para consumo consciente de mídia, mas para produção de mídia. Desde os primeiros anos da escola. Nessa aula, tenho certeza, as crianças vão poder ensinar muitas coisas para os professores.

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