Kaos

Jorge Mautner completou 70 anos, no dia 17 de janeiro. Não consegui ir à festa-show. Tenho trabalhado feito um condenado este verão. E fui obrigado a tratar de outros assuntos nesta coluna. Por isso esta homenagem, só agora, mais de um mês atrasada. Poderia falar do passado, de tudo que Mautner já fez para nos deixar mais espertos. Mas quero tratar da História do Futuro que, como padre Antônio Vieira, escreveu para todos nós. Mautner é profeta: anunciou o Kaos, a ecologia, a brasilificação para o bem do mundo (“Ou o mundo se brasilifica ou então tornar-se-á nazista!”) Isso muita gente já comentou. O que poucos notaram, e não com a ênfase necessária, é sua percepção do papel da tecnologia, sobretudo do computador, como ferramenta libertadora para a humanidade.

Escrevendo no início dos anos 70 (quando não havia ainda computador pessoal e a informática era propriedade de militares, universidades e empresas milionárias, com seus gigantescos mainframes que ocupavam edifícios inteiros apesar da capacidade de processamento muito inferior a um celular atual), Mautner profetizou uma realidade na qual ainda damos nossos primeiros passos. São suas palavras: “Haverá máquinas imensas, cérebros eletrônicos imensos, onde os seres colocarão cartões indicando quais outros seres que eles querem conhecer. E assim a comunicação será total: os bilhões de seres vivos, que se agitam como geléia neste mundo poluído, travarão contato carnal e espiritual através do imenso sistema nervoso das máquinas promovendo o encontro dos variados sexos e intenções […] O humanismo será tecnológico, eficiente, dirigido completamente para o presente.” Hoje sabemos: imensas não são as máquinas, mas as redes que conectam pessoas através de bilhões de micromáquinas. E não precisamos mais de cartões: temos perfis no Orkut, no Twitter, no YouTube, no Tumblr e no que mais vier por aí.

O profeta tinha certeza que a era comunicação total traria grandes mudanças também para o modo de se fazer política: “Essa própria máquina atingiu agora sua linguagem própria, não depende mais (segundo o próprio Marx) de se vestir com as roupagens de épocas passadas para poder explicar-se.” Isso se transforma em programa de Gov 2.0: “Eu sou um democrata eletrônico que acredita (porque vê, viu, e espera ainda ver muito) na chegada do dia da abundância mundial, na era da automação e ecologia da Justiça Social para todos, mas não mais através de grupos ou pessoas messiânicas, mas sim pelo tão mais elevado, educado, sofisticado braço da tecnologia.” Não foi surpresa, portanto, ver Mautner abraçar o projeto dos Pontos de Cultura, com sua rede de computadores conectada por software livre.

O mundo mudou, irremediavelmente. É preciso encontrar novas formas de ação, proteção, produção. Mautner nos ensina: “Tudo se fragmentou, e essa é a consciência nova. Anseiam a unidade perdida, os cacos em trajetória meteórica. Mas não há volta para a unidade. Só é possível encontrar uma harmonia mais profunda na velocidade cada vez maior e fragmentada de cada caco.” Gosto desta idéia: o que nos une, nossa harmonia, é a velocidade. Pegamos todos o bonde andando, na velocidade com a qual um byte de informação dá a volta no planeta e vai parar, por exemplo, no estúdio de produção musical do coletivo Puraqué, que promove “cultura digital e autonomia na Amazônia”, e segue pulando de nó em nó da rede.

A velocidade assusta. Mas não tem jeito. Temos que fazer nossas experiências em movimento. Nas palavras de Mautner: inaugurando “espaços culturais tão velozes e diferentes entre si que um mal reconhece o outro, os equívocos nascendo do fato de tão novas situações serem descritas por linguagens lineares”. O não-linear dá trabalho, nada está claro, mas é preciso experimentar novas possibilidades. Já recomendei para o Mautner a leitura do “Manual de sobrevivência no mundo digital“, livro recém-lançado por Leoni (Prestígio editorial), que narra com detalhes sua trajetória do mundo linear das grandes gravadoras para o campo em aberto, imprevisível, da música na internet.

Muitos livros falam da nova situação de maneira distanciada. O interessante no guia do Leoni é que tudo que está escrito é resultado de experiência vivida, testada pelo próprio autor. Leoni fala de seus erros e acertos com sites, blogs, redes sociais, vendas de música online, jabás, composição com fãs, shows com listas de músicas escolhidas pelos fãsetc. – tudo com uma visão prática, de quem trabalhou muito procurando novos caminhos. Há, é claro, o capítulo “Onde está o dinheiro se a música é gratuita? Todo cuidado é inútil”, com reflexões sobre Spotify, licença universal (ou pagar música “como se fosse água”), financiamento através dos fãs – e a conclusão é até otimista.

Recomendei também para Mautner dar uma olhada num novo serviço, o www.songtrust.com, que parece simplificar o processo de publicação musical e coleta de royalties das músicas no mundo todo, sempre em parcerias com sociedades coletoras. São novidades que aparecem todos os dias em sites como o Hypebot. Claro, ninguém sabe qual dessas experiências terá futuro, todas são arriscadas. Mas somos corajosos, gostamos de coisas difíceis. E das dificuldades fazemos festa, carnaval. Temos, isso também aprendi com Mautner, “um olho macunaímico, e não entediado. Com o micróbio do frevo dentro do corpo, e do trio elétrico dentro de si.”

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