Benjamin Biolay

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04-03-2011

Benjamin Biolay é dono de trajetória artística estapafúrdia. Anos atrás, ele aparentemente tinha tudo: elogios da crítica, “grande” gravadora e Chiara Mastroianni, sua mulher, filha de Catherine e Marcello. Só faltava real sucesso popular. Então tudo começou a ruir. Acabou o casamento, foi despedido da EMI. Para recomeçar, escolheu caminho difícil. Lançou, no final de 2009, um CD duplo, independente. Ninguém poderia prever o que aconteceu: Biolay caiu nas graças do público, vendeu centenas de milhares de discos e virou novo um rei pop na França. Na edição 2010 do “Victoires de la musique“, Grammy da terra de Serge Gainsbourg (a quem Biolay sempre foi comparado), ele venceu nas categorias de melhor intérprete e melhor álbum. No prêmio 2011, realizado esta semana, foi indicado para melhor show e melhor música (“Ton héritage“, bela de doer – alguém já disse que condensa todo Freud em sete estrofes). Como canta nas faixas de abertura e encerramento deste CD, intitulado orgulhosamente “La superbe”: “quelle aventure“!

Não sei como o primeiro disco de Biolay veio parar em minhas mãos. Tornei-me fã, imediatamente. Boas melodias me conquistam fácil. Gosto de muita música ruim, sob todos outros aspectos, só porque tem um fiapo de melodia bonita, mesmo se for cafonamente bonita. Mas esse disco apresenta também uma esquisitice bem avançada. A começar pela faixa título, Rose Kennedy, dedicada aos últimos dias solitários da matriarca de uma das famílias de história mais trágica depois daquela vivida pelo pessoal de Agamémnon e Clitemnestra, como encenada por Ésquilo. A óbvia sedução de canções bem acabadas é como que sabotada por muitos detalhes surpreendentes, entre eles a citação de “River of no return” interrompendo brusca/delicadamente “Les cerfs volants“, que depois volta com tudo (com o auxílio “covarde” de muitas cordas) num daqueles momentos pop-musicais que meu irmão Herbert classifica como “é-o-amor-chegando- triunfal”.

Por acaso, e também pela generosidade de amigos (muito obrigado, Moniquinha!), tenho todos os outros discos, coisa rara no meu consumo cultural streaming dos dias de hoje. Preciso declarar: acho que gosto de todas as músicas. Além de bom compositor de melodias, Biolay é músico CDF, toca milhares de instrumentos, escreve os arranjos. E tem mais: suas letras sempre me fazem redescobrir a beleza da língua francesa.

A poética de Biolay às vezes se parece com a de Chico Buarque (a troca de bilhetes na obra-prima “Brandt rhapsodie” é parente, mais neurótica, de “Trocando em miúdos”). Há aquela procura da rima perfeita, inusitada, não muito diferente da de um rapper na Batalha do Real, apesar de talvez mais cerebral ou erudita. Provavelmente nada se compara com o tour de force da faixa secreta (a do refrão “Woodstock, estado de New York”) do CD Trash Yé Yé, de 2007, com versos terminando com subsonique, soviètique, paraplègique e Honda Civic (pronunciada à francesa, é claro – gosto da França permanecer afrancesando foneticamente as palavras estrangeiras, costume que nós brasileiros estamos perdendo para adotar o corretamente americano). “La superbe” mantém a rima afiada: “Hedi Slimane” com “première dame”; “sex toy” com – óbvio! – Tolstoi; “somnifère” e “hemisphère” se transformando em “secondaire” para terminar em “la mèr”.

Porém, há algo em Biolay que me lembra mais Caetano, por contraste (se bem que “Jaloux de tout” lembra “Odeio” por afinidade). Canções como “Cajuína” também me fazem redescobrir a beleza da língua portuguesa. Mas Caetano abre a língua, tornando cada som de cada palavra mais nítido, aberto mesmo. A beleza do francês é, para mim (e falo isso humildemente, sem querer convencer ninguém), produto de outra estratégia, de fechar a língua, comendo os sons das consoantes finais, fundindo uma palavra com a próxima, colocando apóstrofos em tudo, abusando do “en”, do “y”, coisa que só quem é nativo, ou que devém nativo, consegue dominar. Caetano é cristalino, mesmo quando desolado, ao ver o mundo, pela janela de um avião sobrevoando Los Angeles, com os olhos cheios de lágrimas. A Los Angeles de Biolay é obscura, dita com sons truncados (mesmo “sonho americano” vira um quase grunhido) vista com olhos artificiais de um cyborg movido a vallium, coca e lithium. Em Caetano, não há chão. Em Biolay, a terra treme e come tudo.

Isso para não falar dos diferentes usos do rock inglês, em Caetano e em Biolay (“Beaux souvenirs” é a música mais bonita do New Order, que o New Order nunca fez?), e também no minimalismo moderno de Caetano e no maximalismo romântico de Biolay. Sou mais minimalista. No entanto, a ingenuidade apaixonada, épica, pode me encantar, como quando Biolay canta: “não há céus, há apenas um só horizonte” ou “não há mais acasos, há apenas decisões.” Tudo isso é parte de uma inesperada revitalização do romantismo da canção francesa, abençoada por seus deuses (como Charles Aznavour, que estava na platéia do concerto de “La superbe”). Biolay abriu espaço para novos talentos aparecerem num ambiente que estava vivendo das glórias do passado. Os também brilhantes (cada um com sua esquisitice) Florent Marchet e Arnaud Fleurent Didier detestam ser chamados de novos Biolays. Eles precisam relaxar. A comparação, hoje, é inevitável.

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