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Dr. Bakali

30/04/2011

testo publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22-04-2011

Dr. Bakali escreve a coluna “Viagens na minha linha”, na Blitz, revista portuguesa de música pop. Seu título é ciberbrincadeira com “Viagens na minha terra”, livro de Almeida Garrett que se tornou clássico, com sua mistura de realidade e ficção, para a definição da identidade romântica lusitana. Na coluna do Dr. Bakali, minha terra, ou pátria, deixa de ser minha língua, para ser minha linha, ou o mesmo minha onda “wireless”, que me conecta ao mundo, cuja paisagem mistura agora o on-line e o off-line (onde o “on” é muitas vezes garantia de existência do “off”). Descobri “Viagens na minha linha” lá na sua origem mais remota, em 1994. Tive oportunidade me encontrar duas vezes com o próprio Dr. Bakali no século passado. Garanto: ele existe fora da linha. Mas perdemos o contato. Incrível como ele desaparece, sem rastros, via internet. Esta semana, quase como uma miragem, deparei-me com o número de dezembro de 2010 da Blitz misteriosamente recém-chegado às bancas do Rio. Acho que nunca tinha visto a revista por aqui antes. Fui folhear e lá continuava a “Viagens na minha linha” – para mim, uma viagem no tempo.

Claro, comprei a revista, que tem preço de publicação brasileira talvez como forma de se desculpar pela demora de sua chegada no além-mar (veio de caravela?). Não teria comprado pela capa, com mais uma foto da banda Arcade Fire em reportagem “melhores do ano” passado, bem passado. Mas eu tinha que conhecer quais viagens o Dr. Bakali anda fazendo ultimamente lá na linha dele. Foi uma surpresa vê-lo ainda viajando. Pois sabia que tinha deixado a Blitz, acho que quando a revista ainda era jornal semanal, estilo NME, conhecido como “o” Blitz. Agora, bisbilhotando a internet, percebi que sua volta aconteceu em 2006. Perdi muitas colunas. Não importa: o texto publicado sob a capa do Arcade Fire, resume viagens anteriores e merece ser lido com atenção por quem tem algum carinho por sua própria linha.

Diz a lenda que a Blitz foi a primeira revista européia a ter um cantinho na internet. Por sorte gravei seu lay-out primitivo, quase só texto que assustava os leitores: “Seja bem-vindo ao web-site do Blitz! A partir de agora está por sua conta e risco. Arrisque-se, pois, que a vida são dois bits. Zero e um. O Blitz está, calmamente, a brincar com seu código genético de modo a reproduzir-se num clone eletrônico”. Depois pedia opiniões, até se o leitor se interessaria por mais imagens, que na época demoravam uma eternidade para baixar. Quem estava por trás da experiência era o webmaster Dr. Bakali. Na sua coluna de dezembro passado, ele não esconde a saudade: “Twitter, Facebook (FB), Hi5, MySpace, etc., roubaram-nos o prazer do HTML 1 […] A Web não era lá coisa bonita de se ver, mas dizia muita coisa sobre quem falava”. Hoje tudo mudou: “Não somos donos da nossa própria sintaxe ou gramática. Somos autênticos papagaios.” Trabalhamos de graça na “grelha” dos outros. Por exemplo: os 140 caracteres do Twitter, para o qual alegremente tanta gente licencia – sem nunca ler o contrato – seu “conteúdo”. Dr. Bakali pensa que o design pós-2.0 da rede “condiciona não só a forma de expressão […] mas igualmente nossas escolhas do que queremos ou devemos exprimir”. As empresas donas das redes sociais podem fazer praticamente tudo com o que publicamos por lá.

Crianças, há “muito” tempo “atrás”, eu e o Dr. Bakali viajamos em linhas diferentes das que existem agora. Cada site era um site diferente, ninguém sabia ainda como um site deveria ser. E todos os sites conversavam uns com os outros, ninguém precisava ir no Twitter para estabelecer os links. Lembro quando apresentei o Dr. Bakali ao Dr. Mabuse, que diretamente do Recife criava o Manguetronic, talvez o primeiro programa de rádio (antes do aparecimento do podcast) realmente interessante da internet brasileira (Mabuse: não encontrei o texto que Bakali escreveu para o Manguetronic com as 10 razões para não deixar Portugal – aquilo tudo está armazenado em algum lugar?).

Lembro também de encontrar, em carne e osso, quase “todo mundo” da internet portuguesa em reunião marcada num bar cubano do Bairro Alto de Lisboa, onde as pessoas bebiam rum, ouviam pré-doom-metal e jogavam Magic, aquelas cartas RPG. Tudo em busca de novas viagens. Dr. Bakali saiu do Blitz, ajudou a fundar o Terra à Vista, que foi uma espécie de Geocities lusitano, com muitos brasileiros a bordo. Participou também da aventura do Lugar Comum, galeria/centro criativo situado em Cascais, que teve papel fundamental para a carreira de muitos produtores de arte digital portuguesa com certeza. Com todo esse passado, “Viagens na minha linha” desconfia das grelhas atuais. Mas sem cair na tentação de voltar à terrinha, onde só temos atenção para o familiar. Dr. Bakali recomenda desconfiança também para com “amigos” das redes sociais que podem ser “sereias atraindo-nos para a perdição e o esquecimento”, confirmando apenas o que já sabemos e fortalecendo preconceitos.

Tomara que a Blitz continue a aparecer assim milagrosamente em nossas bancas. Sinto falta de tudo que nos coloque em contato com Portugal (e neste número da revista li também sobre o Camané, incrível fadista, e descobri a música transmontana da banda Galandum Galundaina). Que o Dr. Bakali possa continuar viajando por aqui, na nossa linha de passe tropical.

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Julian Dibbell

23/04/2011

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15/04/2011

Julian Dibbell, segundo Caetano Veloso, é jornalista “que sabe muito sobre música popular brasileira – e tem uma visão muitas vezes original e sempre inteligente sobre o tema”. O elogio, em “Verdade tropical”, se referia especificamente ao artigo de 1988 e do Village Voice, onde Julian caracterizava “João Gilberto como o Elvis do Brasil”. A afirmação, feita “quase em tom de brincadeira”, se revelava como “imediatamente rica de estímulos para uma mente brasileira.” Minha amizade de quase três décadas com Julian sempre teve este efeito sobre minha mente: incentivo poderoso para enxergar o Brasil e o mundo de forma renovada. Minhas descobertas são sempre mais alegres quando compartilhadas com (ou estimuladas pelo) Julian. Para mim, nada de melhor se pode viver com um amigo.

Aquele Julian que comparou João Gilberto e Elvis parece personagem de outra encarnação, na qual poderia ter sido importante brasilianista ou crítico musical. Eu o conheci quando era um daqueles estudantes estrangeiros que a PUC recebe no Rio. Impressionava seu português (costumo dizer, sem brincadeira, que meu português é pior que o dele), aprendido por acaso com professor mórmon que deu aula de graça na sua “high school”. Causava também espanto seu conhecimento sobre a música brasileira dos anos 60, muito antes do tropicalismo virar moda mundial com o empurrão de David Byrne (que, levado por Arto Lindsay, apareceu uma vez na minha casa, quando Julian era meu hóspede. Byrne, pouco depois de ser capa da Time, estava lançando True Stories no Rio. Arto me apresentou Byrne e Caetano. Julian e Beth Nolasco me apresentaram Arto – eu era fã de sua banda DNA mas não sabia de suas conexões brasileiras, descobertas quando Julian o entrevistou para seu – e de Joe Levy, que depois foi editor da Rolling Stone – fanzine Nadine, publicado em Yale. Como já repetiu Caetano: este mundo é um pandeiro.)

Descobrimos, eu e Julian, o cyberpunk ao mesmo tempo. Ele leu meu exemplar de “Neuromancer”. Julian voltou para os EUA no final dos anos 80 e, por cartas, começou a me falar sobre as maravilhas da internet. Encontrei o Alternex, do Ibase, que era a única porta de acesso – fora de governo e poucas universidades – à internet no Brasil. Deixamos o papel de lado para trocar mensagens por email, que naquela época exigia a memorização de dezenas de comandos Unix. Também nos encontrávamos virtualmente no LambdaMoo, um bisavô do Second Life que funcionava só com texto, pois a web ainda não fora inventada. Apesar do novo tipo de proximidade, senti que os computadores podiam nos afastar. Julian trocou de avatar: parou de escrever sobre música e o Brasil, e virou pensador/desbravador da vida on-line.

Em 1993, ainda no Village Voice, apareceu “Rape in cyberspace”, artigo hoje clássico para os estudos sobre a internet, falando sobre a confusão virtual/real dentro do LambdaMoo. Esse texto se tornou o primeiro capítulo do seu livro “My tiny life” e mote para muita coisa que publicou nos anos pioneiros da revista Wired. Julian foi mergulhando cada vez mais no mundo ciberespacial, e chegou a se tornar – na vida real – comerciante de itens de games on-line, com os quais ganhou quase tanto dinheiro quanto como jornalista, experiência narrada no livro “Play money”, cuja sequência foi reportagem na China – para o New York Times – sobre as “gold farms”, lugares onde garotos trabalham em regime de semi-escravidão produzindo dinheiro de jogos virtuais, depois convertidos em dinheiro real.

O feitiço brasileiro não iria deixar Julian escondido em algum lugar obscuro da rede, fora do nosso alcance. Há até uma lenda de que ele teria sido um dos maiores responsáveis pela disseminação do Orkut no Brasil. Não foi bem assim: entrei no Orkut a convite do pessoal da Insite paulistana (que tinha algum contato interno no Google – acho que foi ali que a onda brasileira do Orkut começou). Não sei se mandei convite para o Julian ou se o encontrei depois por lá. Sua contribuição para o ciberespaço brasileiro foi menos apoteótica, mas talvez mais decisiva. Gil iria fazer sua primeira viagem como ministro para a Midem, feira da indústria fonográfica. Descobri que John Perry Barlow, autor da “Declaração de independência do ciberespaço”, faria palestra no evento. Pedi ajuda a Julian, que colocou Gil em contato com Barlow.

Na época, Julian dava aula com Lawrence Lessig, do Creative Commons, em Stanford. Pouco tempo depois os dois mais Barlow e Gil participaram de um seminário sobre direito e internet organizado no Rio por Ronaldo Lemos e a FGV. Meses adiante, eu estava com Julian em São Paulo, entrevistando José Serra sobre patentes e genéricos e em seguida, ciceroneados por Sérgio Amadeu e João Cassino, visitando telecentros, para uma matéria da Wired que foi lançada com show pró-Creative Commons, de Gil e Byrne, em Nova York.

Lembrei de tudo isso ao ver a palestra (vimeo.com/21964000) que Julian deu em Copenhagen na semana passada, sobre games e morte. Reflexão mais uma vez original e estimulante, complexificando a relação entre computadores (a metafísica/máquina de Alan Turing) e violência. Devemos aproveitar suas últimas incursões nessa área. Ainda este ano, Julian vai abandonar o tecnojornalismo por uma pós-graduação em Direito. Nova mutação em sua carreira. Tomara que o Brasil o encontre novamente, logo mais, à frente.

a onda do rap

16/04/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 08/04/2011

El Général não deve ser confundido com El General. Repare os acentos do primeiro nome: são detalhes que fazem toda a diferença e nos transportam do Panamá para a Tunísia, no ritmo de uma batida perfeita e globalizada. El General, sem acento, pronuncia-se com sonoridade castelhana: o “g” tem quase som de “rr” em português ou de “h” em árabe, emitido com a garganta. El Général é pronunciado seguindo as regras fonéticas francesas, com sotaque do norte da África. Apesar das diferenças, os dois são nomes artísticos. El General nasceu como Edgardo Franco, e é considerado um dos pais do “reggae en español”. El Général foi registrado como Hamada Ben Amor, e ficou conhecido agora no início de 2011 como criador do rap que virou hino das manifestações de rua que estão mudando vários regimes políticos do mundo árabe.

El General, sem acentos, causou grande impacto quando surgiu, no início dos anos 90, com sua música galhofeira, que parecia ter como objetivo único sacudir os popozões em hits como “Ta pum pum” ou “Rica y apretadita”. Segurando as pontas da diversão libidinal, sua sonoridade de mestre mixava o mais novo dancehall jamaicano com rap e vários ritmos/timbres da América Central, da metaleira das “bandas” mexicanas (com não sair pulando e com o cérebro mais inteligente ao ouvir os primeiros acordes de “Las chicas” em sua “version banda reggae”?). Sua ousadia serviu de exemplo para muitos rapazes (e moças) latino-americanos fazerem suas antropofagias particulares, gerando – em Porto Rico – a invenção do reggaeton, um dos estilos mais emblemáticos do século XXI.

El Général – 21 anos – tem história bem mais recente e ninguém pode adivinhar as consequências própriamente artísticas que sua música vai ter, para além dos efeitos políticos já evidentes. Até o final do ano passado, como explicou Andy Morgan (que foi empresário da banda tuareg Tinariwen e hoje tem importante blog dedicado à “world music”), ele era figura escondida do terceiro escalão do rap tunisiano, por sua vez obscurecido internacionalmente pela maior criatividade do rap marroquino ou daquele feito pelos imigrantes árabes na França. O fato de também não ser contratado por nenhuma gravadora não teve a menor relevância para sua meteórica ascensão ao protagonismo político/pop planetário. Tudo o que El Général precisou foi de dois raps e uma conexão com a internet.

Em 7 de novembro de 2010 ele publicou o primeiro rap – “Presidente, seu país” – no YouTube, causando furor no Facebook e indo parar nas telas da al-Jazeera. Resultado: o governo tunisiano fechou sua página no MySpace e até emudeceu seu telefone. Tarde demais, pois a música já tinha sido copiada milhares de vezes e era cantada nas ruas. Em dezembro, El Général encontrou uma maneira de subir para a internet outro rap, “Tunísia nosso país”, e no dia 6 de janeiro deste ano foi preso, passou três dias sendo interrogado pela polícia e a reação popular foi tão forte que a polícia teve que soltá-lo. Nascia uma estrela, um herói nacional que logo virou internacional: seus raps foram cantados pelas massas da praça Tahrir, no Cairo, e hoje podem ser ouvidos em manifestações na Síria ou na Líbia. Poucas vezes outras músicas – a Marselhesa? a Internacional? – tiveram tanta importância política.

Enquanto escrevo sobre El Géneral, vejo o rosto de Kanye West, em fotografia de Karl Lagerfeld (conhecido como o tsar da moda, o chefão da Chanel), na capa da revista VMAN, irmã masculina da Visionaire, publicação que permanece central para o imaginário fashionista contemporâneo. Kanye é provavelmente o artista mais influente da música atual, influência que não fica restrita apenas ao ambiente musical. É também milionário, como muito outros rappers norte-americanos (o ex-aposentado Jay-Z, o recém-ex-presidiário Lil’ Wayne, ou mesmo a novata extraordinária Nicki Minaj), que hoje devem produzir a metade do PIB pop dos EUA.

Quem diria: o rap surgiu – sob influência caribenha – no Bronx, periferia miserável de Nova York, com todos os problemas sociais imagináveis. Era uma música barulhenta (“faz barulho aí!”), bastarda (até hoje muita gente ainda questiona se é música), feita com colagens de músicas dos outros e até com o arranhar da agulha no vinil dos outros. Aquilo que era considerado algo bizarro, condenado como modismo passageiro, já tem mais de 30 anos e continua a nos surpreender, produzindo ao mesmo tempo grana e rebelião, mega-status-quo e voz para todos os tipos de oprimidos, em qualquer lugar e língua. O rap não foi uma invenção da indústria fonográfica norte-americana, veio de fora e subjugou a indústria que teve que passar a trabalhar para propagar ainda mais seu “vírus”. Ao que tudo indica, a indústria vai desaparecer e o rap vai ficar cada vez mais forte, rico.

Para isso é vital a capacidade do rap de se adaptar a cada realidade que encontra. Chegou no Brasil e virou Racionais MCs, Bro MCs (rap indígena!), CUFA e funk carioca (eu estava do lado de Afrika Bambaataa quando ele chegou no baile do Complexo do Alemão, reconheceu seu filho e abriu largo sorriso); em Houston deu na desaceleração radical do DJ Screw; na Nova Zelândia fortaleceu a militância maori do King Kapisi; na Tanzânia foi dar pulos maasais com o X-Plastaz; na Tunísia fez Hamad Ben Amor virar El Général. Qual o mistério do rap, meu querido D2? Essa onda que ele tira, qual é?

os vivos e os vídeos

09/04/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/04/2011

Estou ainda obcecado com os “vivos” que invadiram esta coluna via José Miguel Wisnik. Para quem não se lembra, e radicalizando suas santas palavras: a cultura pré-digital seria basicamente o culto a mortos geniais; a cultura da internet aumentou “assustadoramente” o número de vivos. (E agora que me dou conta, brincando: os vivos também viraram fantasmas? Espectros do comunismo que ronda a internet? Derrida tinha razão?) Eu acrescentei, sorrateiro: a cultura pré-digital era fundamentada na escassez; a cultura da internet é o reino da abundância. Como é abundante! Não paro de encontrar gente viva, multidões de gente viva (gente boa e gente totalmente do mal), cada vez mais a cada link.

E não só a cada link. A revolução tecnológica (o filósofo francês Michel Serres já declarou: a era neolítica finalmente acabou…) não acontece apenas online. Nos anos 70, só grandes empresas podiam ter computadores. O computador pessoal ainda não tinha sido inventado pelos nossos heróicos hackers e doidões da Califórnia. Mas também: só as grandes empresas podiam ter câmeras de vídeo ou ilhas de edição de imagens (super-8 era ainda caro e delicado para ser encarado como uma real democratização da produção audiovisual). Acompanhei a chegada dos computadores e das produtoras independentes de vídeo no mercado “caseiro”. Sou da geração dos primeiros videomakers. Foi divertido, mas certamente não imaginávamos na época como a brincadeira ia ficar animada com a chegada de muito mais gente vivíssima, vinda de todos os lugares, mesmo das florestas.

No ano passado, a Vídeo Nas Aldeias, lá de sua central de Olinda, lançou uma coleção de DVDs chamada “Cineastas indígenas: um outro olhar” (que é acompanhada por um livreto precioso, para ser usado em escolas). É uma amostra do resultado do trabalho brilhante que Vincent Carelli e sua turma vêm fazendo há décadas por todo o Brasil, capacitando diferentes povos indígenas a produzir seus próprios vídeos, documentando suas diferentes culturas. São povos que muitas vezes foram decretados mortos, ou destinados a uma morte certa, e que hoje aparecem mais vivos do que nunca. Na coleção podemos ver os filmes dos povos Kuikuro, Huni Kuĩ, Panará, Xavante e Ashaninka.

Eu tinha uma relação romântica com os índios brasileiros. Valorizava sua tradição de não produzir “História”. Considerava todos os seus povos superiores justamente pelos motivos que os tornam inferiores para muitos outros olhares: aplaudia o fato de não terem deixado documentos ou monumentos, de poderem sair por aí sem deixar traços, vestígios, pegadas, de não terem tralhas pesadas para carregar, serem leves e soltos. Eram para mim como o Kraftwerk, banda que toca muito no estúdio, mas grava pouquíssimo. Seu componente Ralf Hutter já declarou: “Fitas são históricas. No momento em que você termina a gravação, elas se tornam históricas. Você termina com um excesso de história. Nós tentamos esquecer muito da música que tocamos.” E conclui: “Nós achamos que o mundo da música é muito orientado para a história, para as gravações. Nós queremos projetar uma atividade mais anárquica.”

Tudo bem, “aceito” de bom grado a mudança. Por que os índios deveriam permanecer para sempre assim, sem nenhuma “permanência”? Vamos ver como se saem jogando o “nosso” jogo, brincando com nossas manias, inundando o mundo com o registro de outros olhares. O que esses olhares registram é também mudança, produzida no contato com os olhares dos “brasileiros” sobre suas culturas, mediadas por novas tecnologias que também, aqui do lado não-indígena, não sabemos onde vão nos levar, ou mesmo se são registros como antigamente, ou se já se transformaram em outras atividades, elevadas pela potência de sua abundância.

Um índio huni kuĩ recomenda o modo correto para mostrar sua própria vida para a câmera: tem que ser verdadeiro, não é uma representação – “Se você ficar dando pulinho, não fica bom.” Outros índios se espantam com a mudança de espectativa dos “brancos”: antes queriam civilizá-los, agora “eles querem que a gente viva com nossos próprios costumes.” Os documentários poderiam produzir pajelança para turista. Mas não escondem nada. Ainda bem que eles sabem: não precisam ficar pelados para dizer que são índios. E são muito mais índios por estarem com uma câmera “branca” (e certamente não brasileira) na mão.

Os momentos que para mim são mais reveladores dos filmes são quando as câmeras saem das aldeias e filmam as cidades dos brancos. Como por exemplo aquele acampamento que Shomõtsi, índio ashaninka, monta na beira do rio, em frente da cidade, para esperar o avião que chegará com o dinheiro atrasado de sua aposentadoria. Numa das conversas, uma observação sobre o papel-moeda, que seria mais forte que o papel de escrever – este último, quando se molha, “desmancha como bolacha”. Ao ver os filmes passei o tempo inteiro observando esses detalhes, muitas vezes quase fora de quadro, como a garrafa térmica que vai para a caçada do índio panará. Ou a maneira sempre direta de se falar de sexo, na frente das crianças, sem inibição.

Além de filmar, os índios agora também gravam seus discos. Há música tradicional, e também pop xavante ou hip hop guarani (dos Brô MCs, de Dourados, MS). O Brasil tem cerca de 200 línguas. Imagine todas elas fazendo rap, acompanhadas por bateria eletrônica. Muita gente viva, com língua viva. Que riqueza.

abundância

06/04/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 25/03/2011

O comentário mais inspirador que já encontrei sobre a transformação que a internet provocou na vida cultural foi publicado por José Miguel Wisnik em sua coluna de 05/03/2011, aqui no Segundo Caderno. Antigamente, na era pré-digital, “as coisas eram decantadas pelo tempo. Porque o seu valor e seu preço simbólico eram ditados pela capacidade de sobreviver à morte. A cultura era em grande parte um culto aos mortos.” Hoje, aumentou “assustadoramente o número dos vivos.” Wisnik se pergunta: “Quem dá conta da cascata infinita de autores de tudo? Quem decanta essa massa informe e simultânea, epidérmica, cheia de potencialidades e de engano?” Indagações que contêm os principais desafios da cultura contemporânea. O que fazer com tanta vida, transbordante, que não cabe mais nem nos modelos de negócio nem nas instituições artísticas que até outro dia tentavam organizar nossa relação com a cultura?

Sintetizando: a cultura dos mortos se fundamentava na escassez; a cultura dos vivos produz cada vez maior abundância. Pense nos exemplos de uma gravadora, de uma produtora de filmes, de uma empresa de rádio e TV, de uma revista de arte. Eram poucos os artistas contratados, eram limitados os recursos que faziam com que as obras fossem produzidas, ganhassem visibilidade e fossem distribuídas no restrito circuito de comércio e divulgação (lojas de discos, salas de cinema, os 13 canais de TV, o “dial” do rádio, o número de páginas da revista). E mesmo assim nem tudo o que era lançado fazia sucesso: um raro hit pagava o prejuízo de muitos fracassos. Mas a conta tinha que fechar; então sempre foi reduzido o número lançamentos e contratações, mesmo em épocas de grandes lucros.

As restrições orçamentárias e mesmo físicas (o espectro por onde podem ser transmitidas ondas radiofônicas tem limites preci(o)sos) se combinava com a crença, provavelmente “verdadeira”, de que o talento é um igualmente um bem escasso, e que só talentosos – ou sortudos enganadores – podem ser artistas de sucesso (seja lá como é feita a medição do grau de sucesso). Estou relendo “O mal-estar na civilização”, na nova tradução (a primeira diretamente do alemão) de Paulo César de Sousa. Ali Freud também denuncia a “fraqueza” do método da sublimação dos instintos através da arte, pois não é de “aplicação geral” e “pressupõe talentos e disposições especiais”, aos quais poucos têm “acesso”. Então tudo conspirava para que a produção de arte fosse vista necessariamente como uma atividade de poucos para muitos. E os poucos eram filtrados por uma série de intermediários para chegar aos muitos.

A internet bagunçou com o coreto pequenininho, onde só haveria espaço para pouquinhas pessoas. Hoje qualquer menino com uma webcam pode transmitir sua nova dança diretamente da laje da favela para mundo inteiro (e alguma dessas danças viram logo “a melhor dança de todos os tempos” – já viu a moda planetária do “choque” colombiano em bit.ly/9EVGQe?), através de novos tipos de intermediários – por exemplo, o YouTube – que não mais selecionam o que vão lançar, e sim aceitam tudo e mais alguma coisa. É Arte com A maiúsculo? Talvez não seja, talvez seja algo diferente, um jogo de diversão coletiva, sem pretensão à eternidade. Um novo mundo pior ou melhor? Quem pode saber com certeza? Se como diz Freud, em seu Mal-estar, a finalidade da vida é “a busca da felicidade”, penso que hoje há mais gente feliz, “brincando” de ser artista, como faziam seus antepassados em outras brincadeiras que ficaram conhecidas como folclore e onde, geralmente, não havia diferença entre quem estava no palco e na platéia.

Essa mudança radical e rapidíssima, da escassez para a abundância, exige outras posturas diante da criação, sua distribuição e seu consumo. Muita gente já apontou, mas isso fica cada vez mais claro, que estamos deixando de lado o império da propriedade para entrarmos na era do serviço. Eu não quero ser o feliz proprietário de todos os vídeos de gente dançando choque colombiano, até porque isso seria impossível – agora mesmo dezenas de vídeos com novos movimentos de choque estão sendo publicados. Quero poder ver esses vídeos na hora que quiser, e melhor, quero poder fazer meus remixes desses vídeos e publicá-los na rede, retroalimentando a brincadeira. Então quem quiser que copie meu vídeo à vontade, e espalhe por aí. Provavelmente não vou nem guardar cópia desse vídeo, que se transformará apenas num item perdido no meu mar de bookmarks. Claro que seria bom ganhar dinheiro com o meu remix, pagando também para os produtores de todas as imagens que remixei. Isso será cada vez mais fácil, pois saberemos exatamente quantas pessoas assistiram o vídeo completo, ou quantas outras fizeram remixes do meu remix.

Evoluindo: o melhor é deixar a obra aberta, facilitando sua circulação de diversas maneiras. Quanto mais gente republicá-la ou remixá-la melhor. A abertura está se tornando a norma, mesmo para o bom senso comercial. O segredo e a proteção atrapalham. Vide o caso do Kinect, da Microsoft. Logo após seu lançamento, hackers abriram o aparelho e inventaram para ele novos usos. A Microsoft desistiu de proibir e começa timidamente a facilitar a vida dos hackers lançando um kit de desenvolvimento. Os hackers agora podem ganhar dinheiro ajudando a Microsoft a lucrar mais com o Kinect. O que é bom para todo mundo. Os vivos agradecem.


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