os vivos e os vídeos

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01/04/2011

Estou ainda obcecado com os “vivos” que invadiram esta coluna via José Miguel Wisnik. Para quem não se lembra, e radicalizando suas santas palavras: a cultura pré-digital seria basicamente o culto a mortos geniais; a cultura da internet aumentou “assustadoramente” o número de vivos. (E agora que me dou conta, brincando: os vivos também viraram fantasmas? Espectros do comunismo que ronda a internet? Derrida tinha razão?) Eu acrescentei, sorrateiro: a cultura pré-digital era fundamentada na escassez; a cultura da internet é o reino da abundância. Como é abundante! Não paro de encontrar gente viva, multidões de gente viva (gente boa e gente totalmente do mal), cada vez mais a cada link.

E não só a cada link. A revolução tecnológica (o filósofo francês Michel Serres já declarou: a era neolítica finalmente acabou…) não acontece apenas online. Nos anos 70, só grandes empresas podiam ter computadores. O computador pessoal ainda não tinha sido inventado pelos nossos heróicos hackers e doidões da Califórnia. Mas também: só as grandes empresas podiam ter câmeras de vídeo ou ilhas de edição de imagens (super-8 era ainda caro e delicado para ser encarado como uma real democratização da produção audiovisual). Acompanhei a chegada dos computadores e das produtoras independentes de vídeo no mercado “caseiro”. Sou da geração dos primeiros videomakers. Foi divertido, mas certamente não imaginávamos na época como a brincadeira ia ficar animada com a chegada de muito mais gente vivíssima, vinda de todos os lugares, mesmo das florestas.

No ano passado, a Vídeo Nas Aldeias, lá de sua central de Olinda, lançou uma coleção de DVDs chamada “Cineastas indígenas: um outro olhar” (que é acompanhada por um livreto precioso, para ser usado em escolas). É uma amostra do resultado do trabalho brilhante que Vincent Carelli e sua turma vêm fazendo há décadas por todo o Brasil, capacitando diferentes povos indígenas a produzir seus próprios vídeos, documentando suas diferentes culturas. São povos que muitas vezes foram decretados mortos, ou destinados a uma morte certa, e que hoje aparecem mais vivos do que nunca. Na coleção podemos ver os filmes dos povos Kuikuro, Huni Kuĩ, Panará, Xavante e Ashaninka.

Eu tinha uma relação romântica com os índios brasileiros. Valorizava sua tradição de não produzir “História”. Considerava todos os seus povos superiores justamente pelos motivos que os tornam inferiores para muitos outros olhares: aplaudia o fato de não terem deixado documentos ou monumentos, de poderem sair por aí sem deixar traços, vestígios, pegadas, de não terem tralhas pesadas para carregar, serem leves e soltos. Eram para mim como o Kraftwerk, banda que toca muito no estúdio, mas grava pouquíssimo. Seu componente Ralf Hutter já declarou: “Fitas são históricas. No momento em que você termina a gravação, elas se tornam históricas. Você termina com um excesso de história. Nós tentamos esquecer muito da música que tocamos.” E conclui: “Nós achamos que o mundo da música é muito orientado para a história, para as gravações. Nós queremos projetar uma atividade mais anárquica.”

Tudo bem, “aceito” de bom grado a mudança. Por que os índios deveriam permanecer para sempre assim, sem nenhuma “permanência”? Vamos ver como se saem jogando o “nosso” jogo, brincando com nossas manias, inundando o mundo com o registro de outros olhares. O que esses olhares registram é também mudança, produzida no contato com os olhares dos “brasileiros” sobre suas culturas, mediadas por novas tecnologias que também, aqui do lado não-indígena, não sabemos onde vão nos levar, ou mesmo se são registros como antigamente, ou se já se transformaram em outras atividades, elevadas pela potência de sua abundância.

Um índio huni kuĩ recomenda o modo correto para mostrar sua própria vida para a câmera: tem que ser verdadeiro, não é uma representação – “Se você ficar dando pulinho, não fica bom.” Outros índios se espantam com a mudança de espectativa dos “brancos”: antes queriam civilizá-los, agora “eles querem que a gente viva com nossos próprios costumes.” Os documentários poderiam produzir pajelança para turista. Mas não escondem nada. Ainda bem que eles sabem: não precisam ficar pelados para dizer que são índios. E são muito mais índios por estarem com uma câmera “branca” (e certamente não brasileira) na mão.

Os momentos que para mim são mais reveladores dos filmes são quando as câmeras saem das aldeias e filmam as cidades dos brancos. Como por exemplo aquele acampamento que Shomõtsi, índio ashaninka, monta na beira do rio, em frente da cidade, para esperar o avião que chegará com o dinheiro atrasado de sua aposentadoria. Numa das conversas, uma observação sobre o papel-moeda, que seria mais forte que o papel de escrever – este último, quando se molha, “desmancha como bolacha”. Ao ver os filmes passei o tempo inteiro observando esses detalhes, muitas vezes quase fora de quadro, como a garrafa térmica que vai para a caçada do índio panará. Ou a maneira sempre direta de se falar de sexo, na frente das crianças, sem inibição.

Além de filmar, os índios agora também gravam seus discos. Há música tradicional, e também pop xavante ou hip hop guarani (dos Brô MCs, de Dourados, MS). O Brasil tem cerca de 200 línguas. Imagine todas elas fazendo rap, acompanhadas por bateria eletrônica. Muita gente viva, com língua viva. Que riqueza.

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