Dr. Bakali

testo publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 22-04-2011

Dr. Bakali escreve a coluna “Viagens na minha linha”, na Blitz, revista portuguesa de música pop. Seu título é ciberbrincadeira com “Viagens na minha terra”, livro de Almeida Garrett que se tornou clássico, com sua mistura de realidade e ficção, para a definição da identidade romântica lusitana. Na coluna do Dr. Bakali, minha terra, ou pátria, deixa de ser minha língua, para ser minha linha, ou o mesmo minha onda “wireless”, que me conecta ao mundo, cuja paisagem mistura agora o on-line e o off-line (onde o “on” é muitas vezes garantia de existência do “off”). Descobri “Viagens na minha linha” lá na sua origem mais remota, em 1994. Tive oportunidade me encontrar duas vezes com o próprio Dr. Bakali no século passado. Garanto: ele existe fora da linha. Mas perdemos o contato. Incrível como ele desaparece, sem rastros, via internet. Esta semana, quase como uma miragem, deparei-me com o número de dezembro de 2010 da Blitz misteriosamente recém-chegado às bancas do Rio. Acho que nunca tinha visto a revista por aqui antes. Fui folhear e lá continuava a “Viagens na minha linha” – para mim, uma viagem no tempo.

Claro, comprei a revista, que tem preço de publicação brasileira talvez como forma de se desculpar pela demora de sua chegada no além-mar (veio de caravela?). Não teria comprado pela capa, com mais uma foto da banda Arcade Fire em reportagem “melhores do ano” passado, bem passado. Mas eu tinha que conhecer quais viagens o Dr. Bakali anda fazendo ultimamente lá na linha dele. Foi uma surpresa vê-lo ainda viajando. Pois sabia que tinha deixado a Blitz, acho que quando a revista ainda era jornal semanal, estilo NME, conhecido como “o” Blitz. Agora, bisbilhotando a internet, percebi que sua volta aconteceu em 2006. Perdi muitas colunas. Não importa: o texto publicado sob a capa do Arcade Fire, resume viagens anteriores e merece ser lido com atenção por quem tem algum carinho por sua própria linha.

Diz a lenda que a Blitz foi a primeira revista européia a ter um cantinho na internet. Por sorte gravei seu lay-out primitivo, quase só texto que assustava os leitores: “Seja bem-vindo ao web-site do Blitz! A partir de agora está por sua conta e risco. Arrisque-se, pois, que a vida são dois bits. Zero e um. O Blitz está, calmamente, a brincar com seu código genético de modo a reproduzir-se num clone eletrônico”. Depois pedia opiniões, até se o leitor se interessaria por mais imagens, que na época demoravam uma eternidade para baixar. Quem estava por trás da experiência era o webmaster Dr. Bakali. Na sua coluna de dezembro passado, ele não esconde a saudade: “Twitter, Facebook (FB), Hi5, MySpace, etc., roubaram-nos o prazer do HTML 1 […] A Web não era lá coisa bonita de se ver, mas dizia muita coisa sobre quem falava”. Hoje tudo mudou: “Não somos donos da nossa própria sintaxe ou gramática. Somos autênticos papagaios.” Trabalhamos de graça na “grelha” dos outros. Por exemplo: os 140 caracteres do Twitter, para o qual alegremente tanta gente licencia – sem nunca ler o contrato – seu “conteúdo”. Dr. Bakali pensa que o design pós-2.0 da rede “condiciona não só a forma de expressão […] mas igualmente nossas escolhas do que queremos ou devemos exprimir”. As empresas donas das redes sociais podem fazer praticamente tudo com o que publicamos por lá.

Crianças, há “muito” tempo “atrás”, eu e o Dr. Bakali viajamos em linhas diferentes das que existem agora. Cada site era um site diferente, ninguém sabia ainda como um site deveria ser. E todos os sites conversavam uns com os outros, ninguém precisava ir no Twitter para estabelecer os links. Lembro quando apresentei o Dr. Bakali ao Dr. Mabuse, que diretamente do Recife criava o Manguetronic, talvez o primeiro programa de rádio (antes do aparecimento do podcast) realmente interessante da internet brasileira (Mabuse: não encontrei o texto que Bakali escreveu para o Manguetronic com as 10 razões para não deixar Portugal – aquilo tudo está armazenado em algum lugar?).

Lembro também de encontrar, em carne e osso, quase “todo mundo” da internet portuguesa em reunião marcada num bar cubano do Bairro Alto de Lisboa, onde as pessoas bebiam rum, ouviam pré-doom-metal e jogavam Magic, aquelas cartas RPG. Tudo em busca de novas viagens. Dr. Bakali saiu do Blitz, ajudou a fundar o Terra à Vista, que foi uma espécie de Geocities lusitano, com muitos brasileiros a bordo. Participou também da aventura do Lugar Comum, galeria/centro criativo situado em Cascais, que teve papel fundamental para a carreira de muitos produtores de arte digital portuguesa com certeza. Com todo esse passado, “Viagens na minha linha” desconfia das grelhas atuais. Mas sem cair na tentação de voltar à terrinha, onde só temos atenção para o familiar. Dr. Bakali recomenda desconfiança também para com “amigos” das redes sociais que podem ser “sereias atraindo-nos para a perdição e o esquecimento”, confirmando apenas o que já sabemos e fortalecendo preconceitos.

Tomara que a Blitz continue a aparecer assim milagrosamente em nossas bancas. Sinto falta de tudo que nos coloque em contato com Portugal (e neste número da revista li também sobre o Camané, incrível fadista, e descobri a música transmontana da banda Galandum Galundaina). Que o Dr. Bakali possa continuar viajando por aqui, na nossa linha de passe tropical.

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