Archive for maio \28\UTC 2011

interessante

28/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20-05-2011

Esta coluna fez um ano de vida no dia 14. No início achei que seria difícil completar a meta semanal de 5.400 caracteres de texto. Não sou prolixo. Gosto de dizer tudo em poucas palavras. Detesto ter a impressão que estou fazendo os outros perderem tempo. Mas não sei o que aconteceu comigo; é o mistério da coluna. Continuo julgando 5.400 caracteres quase uma eternidade New Yorker. O estranho é que vou escrevendo e quando dou por mim já cheguei ao limite, sem ter dito tudo que precisava dizer para passar todas as informações que considero interessantes para os leitores. Meu sonho de consumo como colunista é deixar de lado os textos longos sobre um único assunto, e adotar um estilo mais fragmentário, de notas e comentários curtos, com diversos temas para exploração; quem não se interessar por um assunto não precisaria reclamar, pois no próximo parágrafo viria algo totalmente diferente. Não consigo. Mesmo este texto comemorativo parece um saco de gatos, mas apenas junta uma pá de coisas que não couberam numa coluna passada, por questão de espaço.

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A coluna era sobre Julian Dibbell.  Não falei sobre outra de nossas descobertas conjuntas, que acabou sendo muito mais importante na minha vida do que da dele. No meu livro “O mundo funk carioca” (hoje fora de catálogo por vacilo meu, não da Zahar, que sempre me cobra nova edição – mas o texto que apresentei na defesa de mestrado está disponível para download sob licença Creative Commons no Overmundo), há o seguinte trecho sobre o baile funk que me levou a estudar aquilo tudo: “Fui à quadra da escola de samba Estácio de Sá levando um amigo americano que quer ver show de Martinho da Vila.” O amigo americano – uma private joke citando filme de Win Wenders e tentando “desmoralizá-lo” injustamente como gringo amante de autenticidade – era o Julian. Ele chegou até a trazer discos de Nova York para o DJ Marlboro, e alguns deles chegaram a fazer sucesso nos bailes. Joe Levy, editor junto com Julian da revista Nadine, escreveu sobre os bailes na sua coluna da Cash Box, antes que os jornalistas brasileiros se interessassem pelo fenômeno. Se não fosse o incentivo do Julian, eu provavelmente não teria também me interessado tanto pelos bailes, e talvez a história do funk carioca tivesse tomado caminho diferente… Não que eu considere central nessa história. Tudo é periferia…

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O motivo principal para eu ter escrito a coluna sobre o Julian foi sua palestra numa universidade de Copenhagen sobre games e morte. Acabei nem falando da morte, que ficou acuada num último parágrafo telegráfico. O assunto merece novo comentário. Muitos ataques contra os games dizem que os jogadores são incentivados a se transformar em assassinos de massa. Poucos estudiosos lembram que os jogadores não apenas matam – talvez o ato central nos games seja morrer. Morre-se o tempo todo jogando. E volta-se a viver, e a morrer – e assim até o “fim”. Há até um termo nativo, na tribo dos gamers, para denominar a morte definitiva, a que põe um ponto realmente final na aventura: “permanent death”, ou – para os íntimos – “permadeath”, permamorte. Julian destaca que poucos outros jogos, antes dos jogos eletrônicos, incorporaram a morte em seu mecanismo lúdico. Talvez só o jogo da forca. Mesmo nos jogos maias ou romanos: a morte era uma pena aplicada ao perdedor pós-jogo; não era parte integrante do jogo.

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Em sua palestra Julian citou o último trabalho de Jason Rohrer, criador de jogos independentes que apareceu recentemente aqui no Segundo Caderno na matéria de Isabel Butcher sobre games e arte. Sua última criação é absolutamente incrível: um jogo chamado “Chain world” que existe apenas em um único pen-drive, que pode ser jogado apenas uma vez por um único jogador. Então cada jogador morre apenas uma vez no game, e é obrigado a passar o pen-drive (modificado por suas jogadas), para o próximo “vivo”. Tudo em torno de “Chain world” é meio lenda. Dizem que na fila para jogar (alguns lugares nessa fila são leiloados no eBay) estão Jane McGonigal, autora do livro “Reality is broken” (ela não quer só arte: profetiza que um criador de games será agraciado em breve com o Prêmio Nobel da Paz), e Will Wright, pai de todos os vivos do The Sims. Não importa se isso é verdade, ou mesmo se o pen-drive existe realmente. Vale a idéia. E a possibilidade de jogar os outros games criados por Rohrer, todos desconcertantes. Ele não é artista se utilizando da mídia game. É criador de games fazendo a arte mais interessante.

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Repeti de propósito, várias vezes, a palavra interessante. Uma declaração do historiador francês e meu ídolo Paul Veyne, norteia o que tento fazer aqui na coluna: “Essa palavra ‘interessante’ designa uma coisa misteriosa que faz com que os seres humanos possam sair deles mesmos. Eles estão em vias de se interessar por aquilo que não lhes concerne diretamente, na medida em que eles tenham a virtude nietzscheana ou aristotélica da ‘força’. Se as pessoas têm pouca força, elas vivem isoladas em seus pequenos mundos, se elas têm muita força, elas se interesam por alguma coisa e saem delas mesmas.” Veyne cita La Rochefoucauld: “Um imbecil não tem força suficiente para ser bom.”

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Bom… Já cheguei na beirada dos 5.400 caracteres. Havia ainda tantas coisas interessantes – e, acredito, incentivadoras de saídas de nós mesmos – para escrever…

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capa dura

21/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13-05-2o11

Vivo repetindo esta conversa de antropólogo por aqui: sempre é bom escutar o que forasteiros dizem sobre nossa(s) cultura(s). Tudo bem, às vezes se enganam redondamente, pensando estar nos dando lições de superioridade/inferioridade. Mas outras vezes acertam na mosca que pousou em nossa sopa, e nos abrem os olhos de tal maneira que passamos a nos entender melhor, nossos defeitos e qualidades. Comprei o livro do escritor português Antônio Pinto Ribeiro pois, ao folheá-lo, descobri que declara o Rio ainda mais belo por causa das nossas livrarias. Não é que ele tem razão? Gosto de outras livrarias mundo afora. Tirando onda: nada como se perder na imensidão da Blackwell’s, de Oxford, ou nos diversos alfabetos da Kinokuniya, de Cingapura; nada também como se defrontar com a seleção precisa da pequena ProQM de Berlim, onde tudo me interessa. Mas tenho que confessar: não existe livraria tão boa como a Leonardo da Vinci, ou sebos como o Berinjela, ou seleções como a da Malasartes e da Folha Seca. E fico mesmo encantado com a existência de três megalivrarias no complexo BarraShopping/New York City Center. Acabo de enumerar tudo isso (e nem falei da resistência da Camões e tantas outras) e me pego espantado: ao contrário das lojas de discos, que foram desaparecendo, as livrarias e editoras parecem viver época de grande expansão/transformação.

Também espanta a quantidade de novos livros e editoras no mercado brasileiro. As prateleiras de lançamentos parecem sempre superlotadas, agora também com livros de capa dura, em edições bem cuidadas, revelando surpreendentes frentes de pesquisa entre nós. Não estou acostumado com tanta abundância, fico nervoso achando que pode ser fase passageira, que a tiragem é limitada e acabo comprando muita coisa por imaginar que nunca mais vou encontrar um exemplar novamente. Penso: “vai que um dia eu fico interessado nisso…” Vício de peso: cada um desses livros de capa dura, além de caros, são muitos quilos para carregar e armazenar. Ainda bem que não tenho que trazê-los do exterior.

Na coluna de hoje, vou comentar algumas das minhas recentes aquisições, que não vi serem resenhadas em outros lugares (sugiro também a leitura do texto que publiquei no Overmundo sobre “Brasil rupestre – arte pré-histórica brasileira”, uma preciosidade que nunca vi elogiada em outros lugares – imagino que as seções de livros de jornais e revistas também não saibam muito bem como lidar com essa cada vez maior eflorescência editorial, vinda de todos os cantos). Não consegui resistir, por exemplo, ao olho do jaguar que está na capa de – que outro título mais justo poderia ter? –  “Jaguar”, de Evaristo Eduardo de Miranda e Liana John, lançado pela Metalivros. Até que resisti: com tanta coisa que para ler antes, vou arrumar tempo para me interessar pela vida das onças? Claro que arrumei. O sangue indígena que corre nas minhas veias deve ter falado mais alto que qualquer outra necessidade. Uma vez – eu juro que essas coisas acontecem comigo – levei o pajé Sapaim e seu neto para um passeio pelo zoológico do Rio. Foi comovente observá-los contemplando respeitosamente, avô apontando detalhes para o neto, as onças em suas jaulas. Foram os únicos animais que mereceram tanto tempo de “culto”. Também pudera: o jaguar ocupa alguns topos das mitologias indígenas americanas (como Liana John descreve bem em “Jaguar”, enumerando mitos – ilustrados com muitas fotos – de procedências históricas e geográficas diversas), e o pajé realmente poderoso é quem é capaz de se transformar em onça.

Aprendi também muita coisa sobre a biologia/ecologia que envolve o mundo dos jaguares, esses animais crepusculares e solitários – os belos e cruéis reis de nossas selvas – graças aos textos de Evaristo Eduardo de Miranda. Fui tentar conhecer melhor esse doutor em ecologia da Embrapa com uma pesquisa no Google e fiquei ainda mais seu admirador: ele escreveu vários outros livros interessantes, que tornam públicas suas pesquisas profundas em religião, com especialização na história e no significado do batismo e também no ministério de exéquias, além de obras mais leves como um “Guia de Curiosidades Católicas”. Já deu para perceber que gosto de gente assim, curiosa diante da diversidade estonteante do mundo.

Outra compra irresistível foi “O círculo Veloso-Guerra e Darius Milhaud no Brasil”, que tem como subtítulo “Modernismo musical no Rio de Janeiro antes da Semana” e é assinado por Manoel Aranha Corrêa do Lago (editora ReLer). Já escrevi em algum lugar que se um dia pudesse viajar no tempo não iria para Grécia Antiga ou para a China da época da invenção do I-Ching. Ficaria aqui pertinho, no Rio de Janeiro que estava inventando o samba, cidade fascinante que não se cansa de nos surpreender com novas facetas de sua riqueza cultural. Pois esse livro nos mostra que também surpreendido ficou Darius Milhaud quando chegou por aqui e foi introduzido até à obra de Erik Satie que não conhecia em Paris. Impressionante a história esquecida da pianista de vanguarda Nininha Veloso Guerra, apresentada com material iconográfico inédito, com programas de concertos desconcertantes. Essa época do Rio ainda vai ser fonte para muitos outros bons livros, que vão encher as prateleiras (reais e virtuais) de nossas cada vez melhores livrarias. Otimista, eu?

Saint Etienne

14/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06-05-2011

Saint Étienne, além de ser o nome françês para Santo Estêvão, protomártir da Igreja Católica, é também cidade da França, e o time de futebol dessa cidade. Atravessando o Canal da Mancha, e perdendo o acento agudo na viagem, vira nome de banda – provavelmente a banda mais chique da história da música pop (e a mais londrina depois do The Kinks?). Para não haver dúvidas de que foi uma homenagem ao time, seu primeiro disco, “Foxbase alpha”, de 1991, tem início com a vinheta “This is radio Etienne”, com narração de locutor futebolístico da terra de Étienne de La Boétie, que logo dá lugar a uma versão celestial e dançante (a Wikipedia classifica a banda como “alternative dance”) de “Only love can break your heart, canção de Neil Young. Preciso deixar logo claro: Saint Etienne é minha banda pop preferida, talvez a mais completa tradução da perfeição pop. Continuando exagerado: sua música é uma das melhores coisas da vida, talvez só comparável a um doce de caju bem feito. Infalivelmente, quando coloco um de seus discos para tocar, fico alegre. Uma alegria leve, mas potente, que aumentou recentemente quando soube que a banda voltou a viajar, primeiro para um show em Cingapura, e agora para uma excursão escandinava. Isso aumenta minha esperança de um dia vê-la tocando no Rio.

Sean O’Hagan, músico dos grupos Microdisney e The High Llamas, escreveu no jornal The Guardian que os componentes do Saint Etienne são “românticos urbanos”. Eu diria mais: ninguém pode amar tanto a vida na cidade – ou, especificamente, a vida em Londres – quanto eles. Sua mais recente compilação de sucessos é intitulada “London conversations”. Toda sua obra pode ser pensada como um hino de amor para essa cidade, compartilhável em outras realidades urbanas diferentes, sobretudo vistas por gente que não sente nenhuma vontade de trocar a confusão metropolitana por uma casa no campo. Em seu último álbum de estúdios, o concentual “Tales of Turnpike House”, lançado em 2005 e narrando a vida de condôminos de um edifício londrino, há a faixa “Relocate” cuja a letra é a enésima briga de um casal: a mulher que quer ar puro, porcos e galinhas; seu marido não dá o braço a torcer: “eu amo a cidade, sei que não é bonitinha, mas pelo menos tem vida”. Duas visões se mundo incompatíveis. Não preciso nem dizer de que lado a banda Saint Etienne está.

Eu andei pelas ruas de Londres em julho de 2005, na época em que a cidade sofreu vários atentados. Olhava para seus típicos ônibus de dois andares, vermelhos, e não podia deixar de pensar: “lá vem uma bomba”. Foi nessa viagem que comprei o DVD Finisterre, que trazia um documentário sobre Londres cujas imagens eram projetadas nos shows que o Saint Etienne fez para o lançamento do disco de mesmo título. Não pode haver mais sincero elogio para uma cidade e sua capacidade de se transformar, superando várias crises sem se fechar em tola xenofobia. Londres é o que é por ser ponto de encontro especial, de forte identidade, mesmo mutante. Costumo dizer que uma cidade não fica completa, satisfeita consigo própria, se não produz um estilo musical para chamar de seu. Londres produziu o drum’n’bass e as variantes do two-step garage. Aquilo é primeiro de Londres. Mas seus bairros também souberam absorver invenções sonoras de todos os continentes, do barroco alemão ao rhythm’n’blues norte americano (até chegar ao reggae de Kingston e ao house de Chicago), dando-lhes seus sotaques (pois são vários) inconfundíveis. O Saint Etienne processa – em seu estúdio-instrumento-musical – Burt Bacharach, Ennio Morricone, nothern souldisco italiano, dub e outras belezas/estranhezas e o resultado se tivesse GPS daria as coordenadas geográficas do mapa londrino.

Vários de seus discos têm o costume de apresentar vinhetas entre as canções – por sua vez sempre frágeis, algo tronchas, vaporosas que quase se desmancham na primeira audição (vide “London belongs to me”) até revelar sua já citada perfeição – e textos de escritores nos encartes. Douglas Coupland, autor do mais-que-influente romance “Generation X”, produziu uma mistura de ficção e juramento de fã para acompanhar o disco “Good humor” (o lançamento mais pop da gravadora “grunge” Sub Pop?). Para ele, mesmo as palavras “Saint Etienne” transmitem o sentimento de “um mundo onde as mulheres usam pérolas e podem cantar afinadas”, ou “um mundo onde a nostalgia é fora de propósito pois todos nós vivemos num presente glorioso”. (É preciso acrescentar: Sarah Cracknell, cantora do Saint Etienne se veste como uma senhora chique e tem voz afinadamente anti-expressionista de elegância bem britânica.)

Gosto também do texto de Simon Reynolds publicado no encarte de “Sound of water”, que lança a idéia de que o “adorável” – ou simplesmente a busca do belo – pode ser a nova vanguarda, e que o experimental não precisa ser chato ou “difícil”. Em cada canção do Saint Etienne, os mais belos lugares comuns da tradição pop convivem com um rigor eletroacústico produtor de esquisitice braba, audível só para quem se interessar por esse “dark side” do som.

Apenas uma coisa me incomoda no Saint Etienne (algo que também chega a me irritar em Londres): uma ditadura exagerada do bom gosto. A imagem, o som, a referência: tudo opressivamente certo. Mas é assim: não existe nada apenas perfeito. Nem na perfeição pop.

Século McLuhan

07/05/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 29-04-2011

Meu amigo André Stangl, que conheci nos tempos pioneiros dos estudos ciberculturais baianos e hoje vive em São Paulo, manda avisar: Marshall McLuhan está de volta aos meios universitários paulistanos, depois de anos numa certa berlinda. Mais precisamente: segunda e terça-feira será realizado “O século McLuhan”, evento realizado pelo Atopos, centro de pesquisa “fora-de-lugar”, mas de certa forma baseado na ECA da USP (inscrições em www.atopos.usp.br/mcluhan). O leitor pode se perguntar: qual século, o XX ou o XXI? Qualquer um. Tom Wolfe, na introdução para o livro “Understand me” (cujo título é uma brincadeira com seu clássico “Understand media” e que foi publicado no Brasil, pela Ediouro, como “McLuhan por McLuhan”), afirma: “Não consigo pensar em outra figura que tenha assim dominado um campo de estudo inteiro na segunda metade do século XX. Na virada do século XIX e nas primeiras décadas do XX, havia Darwin na biologia, Marx na ciência política, Einstein na física, e Freud na psicologia. Desde então houve apenas McLuhan nos estudos da comunicação”. Outras pessoas dizem que as profecias de McLuhan só se tornarão realidade, ou dominarão nossa realidade, agora depois do ano 2000. Mesmo assim, o evento se refere a um outro século, bem mais preciso: em 2011 comemoramos os 100 anos de nascimento do cara que, entre outras coisas, nos disse que o mundo se transformou numa aldeia global e que o meio sempre foi a mensagem.

Fiquei surpreso ao ser lembrado que McLuhan nasceu em 1911. Isso significa que quando publicou suas obras mais inovadoras e de maior impacto já tinha mais de 50 anos e cerca de três décadas dando aulas. De certa forma, livros como “A galáxia Gutenberg” ou o “Understanding media” parecem ser trabalhos de uma mente mais jovem, capaz de comprar qualquer briga sem temer perder respeitabilidade conquistada em já longa carreira acadêmica. McLuhan permaneceu jovem audacioso até o final de sua vida, em 1980. Foi um desses muleks eternos como John Cage, Miles Davis, Mário Pedrosa, para quem a idade transmite não peso intelectual, mas leveza para encarar o mundo ainda com mais audácia e liberdade. É possível comprovar isso assistindo os vários vídeos com aparições de McLuhan na TV dos anos 60 e 70 que estão disponíveis na internet. Uma alma bondosa, talvez anônima para evitar problemas relativos a direito autoral, nos fez o favor de compilar todos essas imagens num único site para a comemoração do centenário. Procure por “Marshall McLuhan Speaks” em qualquer ferramenta de busca. Além da introdução de Tom Wolfe, que começa com a aparição de McLuhan no filme “Noivo neurótico, noiva nervosa” de Woody Allen, podemos ver clipes de suas respostas, divididas por assunto, que revelam como sua maior diversão era causar polêmicas, ou falar aquilo que fundia a cuca de seus interlocutores, que mesmo com vontade de não levá-lo à sério acabavam se deixando encantar pela convicção maluca, e inteligência impressionante, do mestre pop.

Quem ainda estiver desconfiado, talvez por causa dos ternos de McLuhan (afinal o meio, nesse caso corpo e roupa, passa muita mensagem), deve visitar o UbuWeb (viva Kenneth Goldsmith! Todo mundo leu sua entrevista no Prosa & Verso? Aula obrigatória…), fechar os olhos e escutar os arquivos com a gravação do LP “The medium is the massage”, lançado por McLuhan pela Columbia Records no final dos anos 60, portanto quando ele tinha quase 60 anos. O que está ali registrado é uma das experiências de colagem sonora mais radicais e psicodélicas da história da indústria fonográfica. A Wikipedia diz que a produção foi de John Simon, que já assinara a beleza minimalista de “Songs of Leonard Cohen”. Com a “massagem midiática” o espírito era de total maximalismo, imagino que uma tentativa de registrar para a posteridade como podemos aproveitar melhor aquilo que McLuhan chamava de “espaço acústico”, onde tudo convive ao mesmo tempo agora, sem centro e periferia, sem a linearidade da escrita e do campo visual.

Se possível, e os neurônios deixarem, esculache a audição lendo ao mesmo tempo a entrevista que McLuhan deu para a Playboy em 1969. Kevin Kelly (tenho que escrever uma coluna sobre este outro cara urgentemente), no blog que era apenas para preparar seu maravilhoso e já-lançado livro “The technium” mas onde há novos posts e tomara que nunca tenha fim, disse que McLuhan não escrevia: deitava no sofá e começava a falar seus deliciosos absurdos, que eram transcritos por alunos. Era um feiticeiro da oralidade, uma máquina de produzir slogans, uma campanha permanente de marketing para seu próprio pensamento. Por isso se dava tão bem em entrevistas. Na da Playboy, bem longa, estava especialmente inspirado. A primeira resposta, eu gostaria de dar hoje, para explicar o que tento produzir aqui nesta coluna: “Estou fazendo explorações. Não sei onde elas vão me levar. Meu trabalho é desenhado para o objetivo pragmático de entender nosso ambiente tecnológico e suas consequências psíquicas e sociais. Mas meus textos constituem o processo mais que o produto completo da descoberta; meu propósito é empregar os fatos como sondas investigativas, como meios de insights, de reconhecimento de padrões, mais que usá-los no sentido tradicional e estéril de classificação, categorias, contêineres. Eu quero mapear novos terrenos e não cartografar velhas fronteiras.”


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