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texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03-06-2011

Uma das armas mais poderosas da cultura da escassez, antes da abundância proporcionada pelos meios digitais, foi o segredo. Como o acesso às informações era difícil e caro, e sua distribuição monopólio de poucos canais de comunicação (ciosos de manter artificialmente um alto nível de raridade, para garantir preços também elevados num regime de muita procura e “pouca” oferta, onde poucos produziam e muitos só podiam consumir), as pessoas escondiam suas “fontes” a sete chaves, ganhando respeitabilidade por serem as primeiras a saber das coisas, prestígio “exclusivo” logo convertido em grana e/ou poder. Lembro de jornalistas de cultura no Brasil que criaram fama não pela originalidade de suas reportagens mas apenas por terem acesso privilegiado a revistas internacionais que não chegavam às nossas bancas, e cujos nomes eram mantidos na surdina. Havia estratégia parecida para o monopólio do sucesso entre as equipes de baile funk até final dos anos 80. Os discos – antes de haver funk carioca – eram todos importados, comprados a peso de ouro num mercado precário e paralelo. Quem descobria um sucesso raspava o selo do vinil para as equipes concorrentes não descobrirem o nome da música. A mesma coisa acontecia entre os sound systems da Jamaica pré-reggae, com discos de rhythm and blues importados de Nova Orleans.

Hoje, tudo isso seria impossível. Ouvimos falar de uma nova banda que algum hipster diz que vai ser a “next cool thing” no Cazaquistão e em poucos cliques já podemos ver o seu concerto da noite de ontem que tinha na platéia apenas dois caçadores de tendências japoneses. Vivemos um tempo de transparência cada vez mais impositiva e perturbadora (vide os efeitos do WikiLeaks), onde os instantes que separam a “descoberta” da “massificação” não são suficientes para ninguém tirar onda (“eu falei antes disso”), muito menos para ganhar dinheiro com isso ou emplacar a matéria na capa da revista. Marshall McLuhan, em 1974, comentando o escândalo Watergate, já decretava: “Nenhuma forma de segredo é possível na velocidade elétrica. Seja no mundo das patentes, no mundo da moda, no mundo político. O padrão se torna claro uma milha antes que qualquer pessoa possa falar qualquer coisa sobre ele. Na velocidade elétrica tudo está sob efeito do raio X. […] Não é possível mais o monopólio de conhecimento que muitas pessoas cultas tinham até poucos anos atrás. Isso não é mais possível sob condições elétricas. Tanto na vida profissional quanto na vida privada.”

A nova situação tem outras consequências interessantes. Para continuar usando o exemplo das equipes de som: se todos os DJs podem ter acesso simultâneo às mesmas músicas, milhões de músicas, então vale mais sua seleção, sua “curadoria”, separando aquilo que realmente vale a pena no meio da avalanche de novidades. As novas tendências também ficam por aí dando sopa para todos os jornalistas – o que importa não é o furo, mas o tratamento para o fenômeno, a maneira original de apresentá-lo para os leitores, conectando-o ao (ou destacando-o do) fluxo ininterrupto de “últimos gritos”. E num mundo da abundância, onde há tantos bons DJs quanto jornalistas, o valor vira função não da raridade, da exclusividade (pois mesmo para o muito caro, há cada vez mais bilionários), mas da atenção que seu “produto” (ainda que esse produto seja apenas selecionar outros produtos) pode ganhar num mundo abarrotado de coisas disputando “consumidores” também famintos de atenção e assim por diante, ao infinito. Precisamos então pagar para gente que preste atenção por nós, para que não percamos nada que realmente possa nos interessar, e também possa mudar nossas vidas, como dizem que até uma boa canção – ou um perfume – é capaz.

Por isso acho que as revistas têm longo futuro. Elas prestam atenção por nós, poupando nosso tempo. O que é escasso não é mais a informação, ou o acesso à informação; o que é raro hoje é tempo para prestar atenção. Sendo assim, uma revista pode escolher caminhos variados para ser bem-sucedida. Um deles é cobrir um determinado segmento da oferta das “coisas”. Gosto por exemplo da Giant Robot (fui até na festa de seu primeiro aniversário, em Los Angeles, 1995), a melhor fonte de informação sobre cultura pop asiática fora da Ásia. Tento ler também todos os números da Bidoun, com campo de cobertura mais abstrato, que talvez possa ser definido por um cosmopolitismo experimentalmente moderno quase sempre de origem árabe, mas não necessariamente islâmico. Já falei aqui na coluna também da The Wire, leitura essencial para quem precisa de música aventureira.

Outra possibilidade é um olhar mais generalista, para o qual tudo de interessante interessa. Veja o caso da 032c, revista semestral de língua inglesa editada em Berlim, que está completando 10 anos de atividade. Foram portanto 20 números, o último deles ainda se encontra em bancas e livrarias cariocas que costumam vender revistas importadas. Nas suas páginas, os suspeitos de sempre, poderosos do mundo da arte contemporânea: Rem Koolhaas, Juergen Teller, Hedi Slimane, Hans-Ulrich Obrist, sempre eles. Mas tudo com olhar animado, que nos faz acreditar que vivemos no mais criativo dos mundos possíveis. Além disso, o dossiê sobre Rei Kawakubo, da Comme des Garçons e uma das pessoas mais inteligentes do planeta, deve ser lido como um grande tratado sobre o que realmente merece nossa atenção.

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