Eno Radigue Ferrari

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 01-07-2011

Brian Eno lançou o termo “ambient music” no texto que acompanhava seu LP “Music for airports”, de 1978. Partidário de processos artísticos generativos, cuja evolução não é controlada por seus “autores”, ele gosta de dizer que apenas lançou uma semente. Virou uma floresta. “Ambient” hoje é um bioma musical, emaranhado de estilos, com muitas sonoridades e atitudes diferentes. Como a do grupo Bang on a Can, que conseguiu transcrever as faixas de “Music for airports” para instrumentos clássicos (e não tanto), possibilitando sua execução ao vivo. A versão DVD desse trabalho – incorporando as imagens que Frank Scheffer fez no aeroporto de Amsterdam para projetar durante o concerto – foi lançada recentemente no Brasil dentro do catálogo estranhíssimo (que inclui Justin Bieber e Julio Iglesias) da Music Brokers.

Scheffer fez documentários sobre Cage e Boulez. O DVD de “Music for airports” inclui também o filme “In the ocean”, sobre a trajetória do Bang on a Can, que nasceu tentando unir o experimentalismo mais pop e americano da downtown com a erudição mais pomposa e européia da uptown de Nova York. Por exemplo: Julia Wolfe, integrante desse grupo, é compositora de “Lick”, a melhor tradução de James Brown para o palco do Lincoln Center. Incrível, no filme, ver Steve Reich falando dessa música, batendo uma mão na outra quase como se fosse Sid Vicious. Ele, para mim, foi a surpresa do filme. Nunca tinha visto Reich falando. Cheguei a estar na platéia de um de seus concertos – no Lincoln Center… – mas nada ali indicava que tinha tanta energia corporal ao falar sobre música. Imaginava um monge budista. Ou pessoa mais tímida, como Eno.

Segundo o encarte do “Music for airports” original, a ambient music tem como objetivo produzir calma e um espaço para pensar. A palavra espaço é importante. Podemos mergulhar dentro dos sons. Eno queria fazer música para local bem determinado, com características acústicas singulares. Aquela composição foi criada para tocar em aeroportos mesmo, “acomodando todos os barulhos que um aeroporto produz”, podendo ser interrompida pelos anúncios dos voos, trabalhando em frequências diferentes daquelas usadas pelas falas das pessoas etc. Interessante ver isso transportado para outro edifício, a sala de concerto, diante de uma platéia que não fala enquanto os músicos tocam: ambiente que nos mostra uma outra beleza da ambient. Um texto de 1996 sobre “Music for airports” (publicado neste livro), Eno revela o outro lado da calma, e dos aeroportos: a música buscava “ter alguma coisa a ver com onde você está e para quê está ali – voar, flutuar e, secretamente, flertar com a morte”. Eno pensava: “Quero fazer um tipo de música que prepare você para morrer – que não fique toda luminosa e alegre fingindo que você não está apreensivo, mas que faça você dizer para si mesmo, ‘realmente, não é lá grande coisa se eu morrer’.”

Lendo essas palavras pensei em “Kyema, estados intermediários”, provavelmente uma das mais belas músicas já criadas, dedicada por sua compositora, Eliane Radigue, para o filho, Yves Arman, que havia acabado de morrer em acidente de automóvel. (O pai de Yves era Arman, artista fundamental, da turma de Yves Klein e parceiro, com Eliane, de Marcel e Teeny Duchamp em partidas de xadrez.) Radigue trabalhou com dois Pierres, o Schaeffer e o Henry, os inventores da música concreta. Aprendeu com eles a criar espaços sonoros dentro dos quais os ouvintes podem passear (isso é comum em concertos de música contemporânea: caixas de som são posicionadas em lugares diversos, dando tridimensionalidade para a emissão sonora). Mas seguiu caminho único, bem diferente dos abertos por seus mestres. Henry saiu de um de seus concertos reclamando: “Você foi minha melhor assistente, e olha o que acabou fazendo.” Um crítico de jornal no ínicio dos anos 70 tentou descrever o que ela fazia: “Nada acontece, e mesmo o nada é muito para descrever aquilo.”

Não é que não aconteça nada. Mas na música de Radigue, tudo acontece e muda muito devagar. E esse é um de seus encantos, que nos abre um espaço onde podemos aprender a ser unos com o som. Experiência mística? Não foi por acaso que Radigue quase deixou a música para se dedicar aos estudos e práticas do budismo tibetano. Os estados intermediários de “Kyema” são aqueles seis que constituem o “contínuo existencial” do ser, segundo o “O Livro Tibetano dos Mortos”, onde o som está no íntimo de tudo. Vale a pena comparar a música de Radigue com aquela que Pierre Henry fez para “O Livro dos Mortos” do Egito Antigo, cheia de fúria e dinâmica bombástica. São dois modos inteiramente diferentes de encarar a vida e a morte.

Há horas em que só a fanfarra de Henry pode nos acalmar. Mas tenho preferência cada vez mais estável por música que não fica toda exibida procurando minha atenção, ou que – como bem diz Eno – “pode acomodar muitos níveis de atenção” (inclusive o total esquecimento do está tocando). Tente fazer o teste ao viajar por terra: coloque Presque Rien n. 1 (isso mesmo, a tradução é “quase nada n.1”, e é compostas com sons ambientes do amanhecer numa aldeia de pescadores ex-iugoslava) de Luc Ferrari para tocar no som do automóvel. O mais legal é quando a música dos alto-falantes, de um mundo já passado (da ex-Iugoslávia), se confunde com os sons da estrada, um mundo bem presente, por onde estamos trafegando. O mundo inteiro vira música, morte-vida, estranha e calma música.

Tags: , , , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: