afropolita

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 15-07-2011

Taiye Selasi, ou Taiye Tuakli-Wosornu, parece personagem criada por alguma campanha de marketing viral-fake. Mas vale o lugar-comum: se não existisse, precisaria ser inventada, urgentemente. A primeira página do seu site contém apenas uma foto do que parece ser uma porta de metal, metade de seu rosto de mulher linda, e uma microbiografia sem pontuação ou letras maiúsculas: “nascida em londres criada em boston vive nova york nova delhi roma escreve estórias ensaios roteiros + livros faz imagens parada + em movimento”. As palavras “estórias”, “ensaios” e “livros” são as únicas clicáveis – “livros”, por exemplo, nos conduz apenas a uma matéria – suspeita? – do jornal New York Observer falando que, com apoio de nada menos que Salman Rushdie e Toni Morrison, Taiye assinou contrato com a Penguin para publicação de “Ghana must go”, seu romance de estréia, que ainda não terminou de escrever. Já seria um dos lançamentos literários mais aguardados de 2012. Quem sabe ela não vem para a próxima FLIP e confirmaremos se existe em carne e osso?

Mesmo que não exista: sua influência não poderia ser mais real. Sim, escreveu – acho que apenas – um conto, intitulado “A vida sexual das garotas africanas” e selecionado para o mais recente número de verão da Granta. Mas foi um artigo, intitulado “Bye-bye Barbar”, que apareceu em 2005 na revista inglesa Lip, especializada na publicação de textos de estudantes (na época Taiye fazia mestrado em Relações Internacionais na Universidade de Oxford, depois de ter cursado Estudos Americanos em Yale), que virou seu passaporte para a celebridade pop-intelectual. O primeiro parágrafo descrevia a pista de dança do Medicine Bar, em Londres, animado ao som de Fela Kuti. O segundo lançava uma pergunta para os dançarinos: “de onde você é?” Todos, como Taiye, titubeavam ao responder: “este mora em Londres mas cresceu em Toronto e nasceu em Accra; aquele trabalha em Lagos mas cresceu em Houston, Texas”. Conclusão inconclusiva: “eles não pertencem a uma geografia única, mas se sentem em casa em muitas.” O artigo dava nome a essa identidade híbrida: “Eles (leia: nós) são afropolitas.”

Cada vez mais pessoas se reconhecem na palavra inventada (ou pelo menos popularizada) por Taiye, com sua mistura de “africano” e “cosmopolita”. E o “conceito” se infiltra em lugares surpreendentes. O museu Victoria & Albert, de Londres, realiza na útima sexta-feira de cada mês um evento chamado “Friday Late”, quando suas galerias ficam abertas para visitação até 10 horas da noite. O tema da “Friday Late” de junho era “Afropolitan”. Os africanos londrinos mais chiques (certamente alguns dos africanos mais chiques do mundo) marcaram presença. Foi uma das mais interessantes festas da minha vida.

A entrada do museu foi transformada num boteco árabe pelo fotógrafo e designer marroquino Hassan Hajjaj. Esqueça a tradição: engradados de coca-cola formavam a base dos bancos e a música ambiente era uma mistura de kuduro com coupé-décalé. Minha primeira parada da noite (depois de conferir a exposição do Yohji Yamamoto, a galeria medieval e aquela roupa de plumas usada pelo Brian Eno na época do Roxy Music) foi um debate divertidíssimo (e olha que acho a maioria dos debates chatérrimos) sobre o significado do “afropolitismo”.

O moderador – o poeta/escritor/jornalista Tolu Ogunlesi – abriu a conversa fazendo para os debatedores a mesma pergunta dos primeiros parágrafos do artigo de Taiye Selasi: “de onde você é?” As respostas foram outras microbiografias transculturais/geográficas. Minna Salami, coordenadora do MsAfropolitan (autodefinido como “blog cultural-analítico de estilo de vida”) nasceu na Finlândia. Lulu Kitololo, artista/designer (a dificuldade de encontrar um rótulo profissional também é característica desse povo), nasceu no Quênia, mas seu pai era da Tanzânia e aí começou sua vida errante. Hannah Pool (segundo o programa do evento: “jornalista, personalidade da TV e do rádio”) nasceu na Eritréia, foi adotada por pais noruegueses que moraram em Cartum e estudou no interior da Inglaterra em época que não era “cool” ser africano – ela se definia apenas como “black”. O produtor musical Yemi Alade-Lawal, fundador da AfroPop Live (plataforma de lançamento para novos artistas africanos), o único londrino no palco (mas que tem família em Ifé, local sagrado para o candomblé, e iniciou sua carreira em Nova York e Los Angeles), declarou que a moda do “afropolitismo” é muito bem-vinda: “tudo que me faz “cool”, eu gosto.” Algumas pessoas da platéia cobraram militância política. Um médico que trabalha jovens de famílias pobres de imigrantes denunciou as tendências elitistas dos componentes da mesa: “vocês tiveram sorte, estudaram nas melhores universidades…” Tolu Ogunlesi, o moderador, escapou com filosofia de Andy Warhol: “não estamos propondo um movimento político, o afropolitismo é uma lente – mais uma no supermercado das lentes – para olhar para a identidade.”

Saindo do debate, ninguém mais conseguia entrar na galeria em que ficam os enormes desenhos de Rafael (os moldes da tapeçaria da Capela Sistina), totalmente lotada e festiva, onde seria realizado o desfile de moda com curadoria de Minna Salami. Fui comer galinha africana apimentada nos jardins, ao som kwaito-punk ao vivo de Spoek Mathambo, sob frio e chuva do verão londrino.

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