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texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 19/08/2011

Na semana passada, a Amazon lançou o Kindle Cloud Reader. Só é necessário um browser para comprar/ler os livros em qualquer aparelho, seja desktop, laptop, tablet, smartphone. Esse lançamento foi interpretado como uma declaração de guerra contra a taxa de 30% cobrada em todas as vendas quando usamos aplicativos da loja da Apple. Algumas semanas atrás, a empresa de Steve Jobs baixara decreto proibindo apps que levassem o consumidor a fazer compras sem usar seu sistema de pagamento interno. O Google aceitou a regra. A Amazon deu o fora da loja e desenvolveu aplicativos para os velhos browsers, que felizmente ainda vêm instalados em todos os aparelhos e nos permitem navegar por uma internet que não é território particular de nenhum CEO. Até quando essa porta de escape ficará destravada? Cada vez mais, quando compramos um aparelho da marca A ou B, estamos fazendo opção por um acesso internet do tipo A ou B, que quer ir apenas até onde seus fabricantes têm controle.

No ano passado, os consumidores brasileiros venceram pequena batalha contra a Motorola (hoje Google?), que havia anunciado que alguns de seus aparelhos vendidos por aqui não teriam direito ao Android 2.2. Os consumidores da América do Norte e da Europa poderiam fazer o upgrade, mas não os “latinos” do lado de cá. Depois de um panelaço virtual no Twitter, a Motorola voltou atrás, e liberou a novidade com muito tempo de atraso. Ninguém nos explica isso quando compramos um smartphone: os fabricantes decidem quando e como as atualizações dos sistemas operacionais poderão (ou não) ser baixadas para nossas máquinas. Além do fabricante, há a telefônica: algumas vezes se o aparelho foi comprado numa loja genérica, ele poderá ser atualizado, mas se foi comprado na telefônica X ou Y, vai precisar de outras liberações complexas. É claro que há maneiras de hackear a máquina, fazer seu “debranding” (que incrível esse verbo!), mas isso pode ser crime, punido por legislações precárias, formuladas num tempo que o mundo não tinha esse tipo de problema. Ficamos geralmente passivos, esperando que as empresas que vivem do nosso dinheiro decidam o que é melhor para nossa comunicação.

Os smartphones, na verdade, não são nada espertos, e muitas vezes nos tratam como bobos. Jonathan Zittrain, professor de Harvard e autor do livro “O futuro da internet e como pará-lo”, chama as novas máquinas – que vão ser cada vez mais o principal meio de acesso para as tais “classes populares” – de “terminais patetas”. Um “desktop” antigo, mesmo rodando um primitivo MS-DOS, tratava o usuário com mais respeito. Era possível até mudar de sistema operacional quando nos desse na telha. Trocamos a liberdade por praticidade, mobilidade, menor peso e tamanho? Fizemos as contas, na hora da mudança? Ou o que importa mesmo é que uma app é muito mais cool?

Os fabricantes e as telefônicas apresentam outras justificativas para as novas restrições. Entre as mais repetidas está a de que hoje tem muito mais gente baixando arquivos pesados, sobretudo vídeo. As redes físicas e o espectro eletromagnético (por onde fazemos transmissões aéreas e via satélite de dados) estariam congestionados, operando no seu limite. Por isso a opção de cobrar mais caro por determinados serviços, ou proibir outros. Mas veja bem: essa é apenas uma opção diante do problema. Há outras. A opção atual, diante da abundância, do povo que invadiu as arquibancadas, é criar uma sala VIP, que é um meio – com suas pulserinhas coloridas – de recriar, artificialmente, a escassez. Em vez de encontrar uma maneira de aumentar democraticamente o espaço de todos, diminuímos as poltronas da classe econômica para colocar camas na primeira classe. Funciona, até um dia que vira um riot londrino… E temos que lembrar sempre que espectro eletromagnético é um bem público. São nossos governos que decidem quem pode usar e como pode usar suas várias frequências de transmissão. Devemos cobrar contrapartidas sociais e democratizantes para esses usos.

Se os fabricantes e as telefônicas controlassem a internet desde o seu início, dizendo que serviços são permitidos ou não, provavelmente não teríamos MP3, voz sobre IP (que permite ligação Skype), ou até mesmo o YouTube, o Google, o Facebook, tudo que colocou em cheque o modelo de negócios da mídia “tradicional”. A telefônica mataria o Skype, a TV a Cabo sufocaria o YouTube. O peer-to-peer continua sendo visto como vilão, não como solução. É sistema engenhoso, que coletiviza custos de conexão e armazenamento, já que os arquivos ficam disponíveis em nossos discos rígidos (muitas vezes subutilizados) para toda a rede, podendo contribuir para o bem geral. O peer-to-peer é a verdadeira nuvem, sem necessidade das fazendas eletrônicas e ecologicamente suspeitas dos computadores do Google ou de sei lá quem, que agora cuidam de todos nossos dados mais preciosos.

Outra possibilidade é o compartilhamento de nossas conexões. Por que todos apartamentos de um prédio precisam de seus wi-fis separados? Há também propostas interessantes de “mesh networking” criando redes de celulares e roteadores, utilizando melhor – também coletivamente – a parte do espectro que ainda é livre. Muita coisa para fazer, muitos aparelhos para conectar uns aos outros. Não dá é para ficar parado, isolado, esperando que a empresa A ou B nos diga o que podemos fazer. Um outro cibermundo é possível.

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