linguagem e/ou pensamento

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 26/08/2011

China Miéville é escritor com uma missão: quer escrever um livro em cada subgênero literário. Já publicou policial, novela juvenil, steampunk, fantasia e até western. Há um termo guarda-chuva para todas suas experimentações: “new weird” (novo bizarro?), referência à “weird fiction” de escritores maravilhosamente estranhos da virada dos séculos XIX para XX, como H. P. Lovecraft. Miéville – esquisito até no nome, que mistura geografia com acento francês, camuflando sua biografia basicamente britânica – não se incomoda com o rótulo, tendo incentivado sua “viralização” on-line, mesmo com blog chamado “manifesto rejeitomentalista” (e na sua carreira paralela de pensador marxista, foi colaborador de outro blog, o “Tumba de Lênin”). Sua utilização das regras de cada subgênero é nada ortodoxa: todos eles se tornam vítimas do lado negro da força da literatura. Resultam sempre em livros que dão frio na espinha do leitor. O horror, o horror.

“Embassytown” (“Cidade-embaixada”), seu lançamento de 2011 (pelo que consegui pesquisar, nenhuma de suas obras teve publicação brasileira – esta coluna pretende apenas sugerir alguma tradução), dá estranheza para a tradição mais intergaláctica da literatura. O grosso da ação se passa num planeta nos confins do universo, onde humanos convivem com seres absolutamente diferentes. Em geral, mesmo na ala mais ousada da ficção científica, a comunicação com alienígenas é problema de tradução. Depois de um período de aprendizagem, a conversa rola solta, pois as linguagens têm estruturas compatíveis e exprimem emoções parecidas. Vide o ET do filme “Super 8”: a telepatia apenas nos diz que ele não quer nos fazer mal; seu objetivo é voltar para casa. No fundo, apesar das aparências, o alien é gente como a gente. Em Embassytown não: ali nos defrontamos com uma bizarrice radical, e talvez com o incomunicável.

O romance nos coloca diante de seres pra-lá-de-Marrakesh. Só tive impressão de tanta diferença cognitiva ao ler as aventuras dos “pequeninos” do planeta Lusitânia de Orson Scott Card (um de meus autores preferidos, exigindo futura coluna só para ele), que numa fase de suas vidas, depois de rituais ultraviolentos, podem transferir suas consciências para árvores com as quais a troca de informações acontece a partir de batuques nos seus troncos. Os “anfitriões” (“hosts” no original) que vivem ao redor da cidade-embaixada de Miéville têm dois órgãos de emissão sonora. Sua linguagem é resultado da combinação de palavras ditas simultaneamente pelas duas “bocas”. Não adianta treinar dois humanos para falar coisas diferentes ao mesmo tempo. O sentido só se estabelece se os dois sons forem produzidos por uma mesma mente. Aí entram os embaixadores, gêmeos geneticamente idênticos treinados para sintonizar seus pensamentos, formando uma única identidade.

O bizarro não pára por aí, e é além que as coisas ficam deveras interessantes. Os “anfitriões” não sabem mentir, pois não conseguem falar sobre algo que não tenha acontecido na realidade. Essa incapacidade, ou impossibilidade da mentira, revela problema mais sério, que transforma o livro em tratado de linguística alucinada, ou especulação extremista sobre a linguagem. Os “anfitriões” não pensam. Ou melhor: só pensam quando falam, e sua fala é pura referência a objetos ou atos específicos (são concretos como o sertanejo de João Cabral, “incapaz de não se expressar em pedra”). Não existe linguagem separada do mundo, portanto não existe significação, e consequentemente não existe metáfora, polissemia, ambiguidade, ou diferença entre a palavra e o referente. Como – ao viver – não paramos de pensar, e acreditamos no “penso, logo existo”, é absurdo imaginar numa linguagem sem pensamento: ler Embassytown faz nosso cérebro doer. Para não estragar a surpresa da dolorosa leitura, posso adiantar que o livro narra a aquisição não da linguagem, mas do pensamento. É um processo violento. Um personagem diz: a linguagem, com pensamento, é “a continuação da coerção por outros meios”. Outro discorda: “Bobagem. É cooperação.” O narrador tenta concluir: talvez cooperação e coerção não sejam coisas tão contraditórias assim. E aprender a pensar – mesmo o Bem – necessariamente machuca, faz sofrer. Fisicamente.

No planeta dos “anfitriões”, há uma sutil mudança no slogan de William Burroughs, também cantado pela Laurie Anderson: “o pensamento é um vírus vindo do espaço sideral.” Pois linguagem – que nunca comunicou realmente nada – já havia por lá. Faltava a possibilidade da mentira, e da interpretação, e do falar uma coisa querendo dizer outra. Faltava a poesia (não-concreta?) e seu dom de iludir. Por coincidência, ao ler “Embassytown” estava lendo também “O senhor do lado esquerdo” de Alberto Mussa (a “new weird fiction” brasileira?). Lá encontrei a seguinte declaração, definitiva: “Os leigos se impressionam muito com objetos esotéricos, fetiches, ritos e símbolos místicos, imagens demoníacas, animais sacrificados. Ignoram que a verdadeira magia é a fala, a linguagem humana.”

***

Quem respeita a linguagem, respeita também o silêncio. É preciso silenciar de vez em quando para a linguagem tentar recuperar sua potência. Maneira troncha que encontrei para dizer que esta coluna vai se silenciar por um mês. Como dá para perceber, preciso urgentemente de férias. Até a volta (da ambiguidade).

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