Gaby Protasio Fela

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 14/10/2011

Gaby Amarantos foi apelidada de Beyoncé do Pará. Isso é tudo que muita gente sabe sobre sua carreira musical. Precisa ser conhecida melhor. Sim, ela lançou versão de “Single ladies”. Versões são comuns na cena tecnobrega, onde Gaby impera. Em meu primeiro texto – de 2003 – sobre esse gênero musical eletrônico de Belém escrevi que tudo parecia um “Kraftwerk de palafita”. O que na Alemanha era fruto da tecnologia industrial mais avançada, ali na Amazônia funcionava na base da gambiarra e da tecnoantropofagia. Mas aquilo foi só o início. Basta ver o videoclipe de “Xirley”, que Gaby postou no YouTube na semana passada, para entender como tudo mudou, e para onde ainda vai mudar, da palafita em direção ao show business do futuro.

“Xirley” é um dos melhores clipes de todos os tempos. Fiquei até nostálgico do tempo em que os clipes tinham realmente importância. Há clima de superprodução, direção de arte criativa, muitos atores e figurantes. E parte de uma excelente ideia: a repetição de um mesmo plano sequência, que retrata a ascensão de uma estrela pop da periferia (ou será a ascensão da tal Classe C? ou sonho psicodélico de Mangabeira Unger?), driblando a mídia tradicional. A cada repetição, a cantora torna-se mais rica, e todo cenário evolui: parte das barraquinhas de CDs piratas e chega aos discos de platina. Mesmo a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, que protege o estúdio de gravação, ganha adereços cada vez mais feéricos.

O clipe termina com uma advertência, como aquela do FBI que acompanha produtos audiovisuais legítimos: “pirataria é pecado”. Bom arremate para uma música despudorada (composição de Zé Cafofinho, diretamente do bioma pós-mangue pernambucano) que tem refrão-ameaça para qualquer Beyoncé: “eu vou samplear, eu vou te roubar”. O melhor: o clipe está publicado sob uma licença Creative Commons que permite obras derivadas. Isso significa: pode samplear, não é crime, não é pecado. Está tudo legalizado. Que apareçam muitas Xirleys, Brasil e mundo afora.

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Falando em clipes: todo mundo sabe que sua linguagem (clipada?) também foi sampleada em muitos outros territórios audiovisuais. O uso que considero mais promissor foi aquele apelidado de “nub” por Charlie Tims, pesquisador de novas tendências da comunicação. Nub é vídeo-clipe que divulga não uma música, mas uma ideia: pode ser explicação filosófica, aula de física, manifesto político. A internet está cheia de experiências nesse sentido. Descobri recentemente e atrasado o blog LudoBardo, do Arthur Protasio, dedicado a “narrativa, games e arte”, onde há excelentes exemplos de como pequenos vídeos podem condensar uma quantidade enorme de ideias de forma divertida.

Já conhecia o trabalho do Arthur no Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV carioca, onde coordena o grupo de estudos sobre games. Mas nem imaginava que ele possuía também um avatar de apresentador de TV nerd, especializado em desbravar a área pouco explorada da análise dos jogos eletrônicos a partir de seus elementos propriamente narrativos. No LudoBardo, desde o início de 2011, Arthur já publicou 8 vídeos, cada um com cerca de 10 minutos de duração. Parece pouco, mas quando prestamos atenção na quantidade de imagens editadas (muitas vezes uma para cada palavra chave) podemos ter noção do número de horas necessárias para sua edição, sem falar em pesquisa e roteiro. O resultado já é uma das mais sérias (sem perder a diversão jamais) reflexões sobre a estética dos games, que pode ser útil para jogadores ou para quem quer investigar os caminhos mais populares da arte contemporânea.


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Descubro na agenda do Overmundo que amanhã, sábado, vai ser Fela Day pela primeira vez em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, celebrando a data de nascimento do grande músico nigeriano Fela Kuti (tem festa carioca também, com B-Negão, o pessoal da Makula e do Rumpilezz no Teatro Rival). Interessante ver o nascimento dessa nova conexão iorubá transatlântica. Interessante acompanhar a evolução do mito Fela e a cada vez maior popularidade – em todos os continentes – do estilo musical que inventou, o afro-beat, mais de uma década depois de sua morte.

Tive o privilégio de conhecer Fela pessoalmente, durante as gravações do programa African Pop, em 1988. Foi meu primeiro trabalho para TV e minha primeira viagem africana. Uma noite depois do vôo Varig Rio-Lagos (sim havia Varig e vôo sem escala Brasil-Nigéria naquela época), nossa equipe já estava no Shrine, o clube de Fela, para ver sua apresentação e negociar sua participação no nosso documentário. A platéia estava quase vazia, mas a banda teve performance sublime e quando Fela subiu no palco, já de madrugada, aquilo se transformou numa das noites mais perfeitas de minha vida (nunca escrevi coluna tão superlativa!) Nos dias seguintes fui algumas vezes em sua casa tentando diminuir o preço que nos cobrava por uma entrevista. Participei de algo como uma audiência real, onde Fela – só de sunga mínima e cercado por dois saxofones, um empresário e várias de suas mulheres – recebia quem queria falar com ele, todos esperando sua vez numa fila. Nada disso diminuiu minha admiração e a alegria que sua música continua me dando. Feliz Fela Day para todo mundo. E tomara que Cachoeira ganhe o melhor Fela Day do mundo, virando atração tão popular quanto outros carnavais baianos.

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