Archive for novembro \26\UTC 2011

Monteiro Lobato

26/11/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/11/2011

Fui convidado para participar de “Livros que amei”, programa criado por Suzana Macedo a ser exibido em breve na TV Futura. A missão: escolher três livros marcantes e comentá-los numa entrevista. Parece simples, mas demorei meses até chegar na seleção definitiva. Resolvi não pensar em “melhores livros”, nem nos que conheço mais, nem nos que me deixariam bem na fita. Escolhi os livros que são meus melhores companheiros, aqueles aos quais sempre volto para aprender a produzir alegria e força quando tudo parece conspirar para nos entristecer/enfraquecer. Pensei inicialmente na “Descoberta do mundo”, de Clarice Lispector, sobretudo por causa daquelas páginas sublimes sobre o estado de graça. Queria também falar sobre “A invasão divina”, de Philip K. Dick. Mas acabei optando por “Vida conversável”, de Agostinho da Silva, e “Uma estranha realidade”, de Carlos Castaneda. Muito estranho. Nunca li esses livros do começo ao fim. Mas sempre releio vários de seus trechos, e o efeito é certeiro: saio da releitura reanimado.

Minha única escolha que nunca mais tinha relido foi “O minotauro”, de Monteiro Lobato. O programa da Suzana me fez retomar a paixão da infância, talvez o motivo principal para eu gostar de ler, ou até ser quem eu sou. Minha memória é péssima. De “O minotauro” só me lembrava da cena que revela que Tia Nastácia se manteve viva por causa de seus bolinhos, que fritava para o monstro do labirinto de Creta. Gosto dessas narrativas em que pequenas delícias resolvem grandes problemas. Isso também acontece nas “Cosmicômicas” de Ítalo Calvino, onde o Big Bang teve início devido a um tagliatelle. Porém, sabia que deveria haver outras coisas deliciosas nas aventuras da turminha de Monteiro Lobato pela Grécia antiga e mitológica.

A releitura, mais de 40 anos depois, me deixou novamente encantado. E espantado. Não tinha ideia da quantidade de informações concentradas a cada página. Era aula mesmo: de história, filosofia, arquitetura, geografia, política. Acho difícil também existir mais convicto ou mais belo elogio da democracia. Quando Pedrinho pergunta para Dona Benta a verdadeira causa para a Grécia ter sido “uma danadinha” com tantas maravilhas legadas para a humanidade (“nunca houve no mundo tão intensa produção de beleza”), Dona Benta é clara: “Liberdade, meu filho.” E acrescenta: “Porque para o homem o clima ‘certo’ é um só: o da liberdade. Só nesse clima o homem se sente feliz e prospera harmoniosamente.” A conclusão, depois de pequena lição de pedagogia contra “os cordéis do ‘não pode'”, é fabulosa: ” A Grécia, meus filhos, foi o Sítio do Picapau Amarelo da antiguidade, foi a terra da Imaginação às soltas. Por isso floresceu como um pé de ipê.”

Claro: Dona Benta não era boba, conhecia igualmente os defeitos gregos, sobretudo a escravidão. Chegou a repreender seu ídolo Péricles: “Não é o povo quem governa Atenas, sim a pequena classe dos cidadãos. Povo é a população inteira e aqui há 400 mil escravos que não têm direito ao voto. Isto é injusto e será fatal para a Grécia.” Mesmo assim, toda essa convicção democrática não impede que o livro seja vítima de inúmeros preconceitos, que revelam um elitismo perigoso de seu autor. Ao perceber que Fídias, o arquiteto do Partenão, não sabe o que é máquina ou gasolina, Emília ri: “Vivemos no nosso mundo moderno a falar da inteligência grega e no entanto os gregos não entendem nem o que qualquer negrinho lá do sítio entende…” Caímos então no racismo de Monteiro Lobato, aspecto que alguns críticos julgam suficiente para sugerir a retirada de sua obra juvenil mesmo da lista de sugestões do nosso currículo escolar.

Pronto vou falar: considero essa sugestão tão estúpida quanto o racismo. Esses críticos acreditam que as crianças são imbecis com cabeças facilmente feitas pelos livros, games, filmes, programas de TV. Ao reler “O Minotauro” passei a me considerar uma prova viva contra essa tese simplista. (Quem quiser pode me acusar de ingenuidade.) Não tenho dúvida de que a obra de Monteiro Lobato foi a que mais me influenciou na vida. Li tudo, várias vezes, numa época em que, diz a tese, somos mais influenciáveis. Não sabia o que era racismo naquele tempo – hoje sei que Tia Nastácia era tratada com inadmissível preconceito. Isso não me tornou preconceituoso. Acho até que Tia Nastácia é a principal origem de meu amor pela cultura afrobrasileira e do meu combate ao racismo.

Porém, nessa releitura de agora, fiquei mais impressionado com outro preconceito de Monteiro Lobato, aquele contra tudo que é moderno, da arte pós-cubista às cidades grandes. Há muitos trechos intoleráveis. Por exemplo: ao notar a calma das ruas de Atenas, “Dona Benta concordou que o progresso mecânico só servia para amargurar a existência dos homens.” Em outra passagem ela conta que a beleza grega foi “substituída por outra, isto é, pelo horrendo grotesco que para os meus modernos constituirá a última palavra da beleza.”

Logo Dona Benta, que sempre considerei avó querida. Não gosto menos dela por ter tanto tempo depois descoberto esse seu lado tão reacionário. Ainda bem que livros não fazem nossa cabeça, desse jeito literal. Quanto ao modernismo, virei o oposto de Dona Benta. Sinal de que ela me ensinou também a ser crítico, crítico de tudo, inclusive de seus próprios ensinamentos. Tomara que outras crianças não sejam condenadas a viver sem conhecer os seus serões.

Veyne e as coisas do mundo

19/11/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/11/2011

Paul Veyne é santo padroeiro desta coluna. Não consigo escrever nada sem pedir a benção de suas ideias. Para o próprio Veyne, meu apego seria condenável. Aos 81 anos, depois de todas as honras acadêmicas, ele parece não se dar tanta importância, reverenciando autores mais “densos” como seu amigo Michel Foucault (saiu este ano no Brasil “Foucault – seu pensamento, sua pessoa”, livro de Veyne sobre essa amizade). Muitas vezes chamado de cético, numa entrevista precisou explicar a razão para nunca ter escrito sobre a filosofia cética: “O ceticismo antigo, isso é muito difícil para mim. Para dominar essa questão, seria preciso ser filósofo de ofício, capaz de manejar a filosofia do conhecimento, de compreender a diferença entre Foucault e Wittgenstein. Não é para o meu bico.” Por trás da brincadeira, há o combate contra discursos ocos vendidos como profundos: “Em certos filósofos, há um bruaá metafísico pomposo que impressiona os miolos fracos – em Heidegger, isso pode ir até o ridículo.” Veyne diz escrever não para os profissionais, mas para os que lêem pois o assunto lhes interessa, diverte, dá sentido para suas vidas.

Qual é o assunto de Veyne? Ele é um dos maiores especialistas – certamente o mais simpático – em história greco-romana. Através dos acontecimentos clássicos, acaba escrevendo também sobre aquilo que nos é mais contemporâneo. Não porque o estudo da História seja importante para a compreensão do presente (Veyne detesta esse lugar-comum), mas por ser curioso e gostar da estar entre diferentes, aqueles que podem saber o que não sabemos (mesmos os que viveram há milênios). Falando sobre sua amizade com Foucault, esse amor pela diferença fica claro por linhas deliciosamente tortas: “mesmo eu sendo infelizmente muito hetero, Foucault me denominou ‘homossexual honorário’. Isso me permitiu ficar na casa dele em noites em que recebia um pessoal pouco conformista…”

Esse trânsito meio libertino possibilitou muitas opiniões contra a maré intelectualmente respeitável. De outra entrevista, intitulada “Veyne o iconoclasta” e para a Magazine Littéraire, no meio de um ataque contra a mania francesa de querer manter sua diversidade cultural na marra diante da “invasão” norte-americana, citarei ainda muitas vezes uma declaração fulminante (dei um jeito até de enfiá-la no meu “Mistério do samba”): “Havia tantos vasos gregos no mundo mediterrâneo quanto há hoje garrafas de Coca-Cola num rio de Bornéu” (e, acrescento como se fosse necessário: a onipresença dos vasos gregos não condenou a futura cultura mediterrânea à mesmice, assim como não vamos virar um planeta homogêneo só porque todas nossas meninas, de todas as cores e todos os continentes, querem casar com o Justin Bieber – que por sinal adoraria ter credibilidade entre rappers negros).

O que existe de mais poderoso e desafiador no pensamento de Paul Veyne está muito bem condensado em seu livro “Quando nosso mundo se tornou cristão”, publicado no Brasil em 2010. Além de propor uma interpretação desconcertante para a conversão religiosa do imperador Constantino, e consequentemente para a transformação do cristianismo de “seita de vanguarda” em religião popular, alguns capítulos deixam de cabeça para abaixo idéias fixas sobre ideologia, sobre as razões para estudarmos o passado ou sobre como o futuro é produzido. O cristianismo venceu, diz Veyne com coragem e petulância, pois era mais bonito (meu resumo é pura provocação: leia o livro, é curtinho e muito agradável). Fiquei quase convencido de que a beleza, sem mais ou menos, pode mudar o mundo.

Sobre esse momento crucial da aventura humana, foi lançado este ano nos EUA “Os últimos pagãos de Roma”, de Alan Cameron. Ainda não comprei o livrão. Mas acho que não preciso mais atravessar suas 878 páginas depois de ler a excelente resenha de Peter Brown no The New York Review of Books, que parece levar adiante sua tese já bastante inovadora. Cameron contraria o que imaginávamos saber sobre o fim de Júpiter/Zeus e sua turma divina. Estudos anteriores falavam da luta heróica entre pagãos bonzinhos contra a máquina sanguinária da intolerância cristã. O que aconteceu foi menos nobre: o pessoal do Olimpo caiu de maduro, por falta de patrocínio, de dinheiro público. Pouca gente foi realmente morta por teimar em fazer sacrifícios para Vênus em busca do amor.

Brown acrescenta, em uma espécie de posfácio emocionante: não foi a “resistência” pagã que salvou as obras cultura clássica da fogueira cristã. Apenas uma turma radical fundamentalista queria proibir a leitura de Virgílio ou Ovídio. A maioria dos cristãos preferiu diferenciar as “coisas de Cristo” das “coisas do mundo”, e entendia que um poema como a Eneida, apesar de mencionar outras divindades a cada página, não ia abalar a fé de ninguém, podendo mesmo fortalecê-la. Aquilo era “apenas cultura”, não era algo que a religião deveria temer. Ao ler isso, lembrei da situação atual brasileira, com novas igrejas em conflito com algumas de nossas festas chamadas de tradicionais. Os nossos novos cristãos poderiam seguir o exemplo de seus ancestrais romanos: não é preciso proibir o pessoal de tocar tambor. Seria até mais de acordo com o Evangelho encarar isso só como “cultura”, coisas de outros mundos, que não ameaçam tudo aquilo que Cristo anunciou como mais sagrado.

Ginga

12/11/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/11/2011

Ginga, no meu “Aurélio”, tem quatro significados bem diferentes uns dos outros: tipo de remo; caneco de cabo longo; gíria para bicicleta; e, finalmente, movimento de corpo dos capoeiristas. Hoje, sabemos que a palavra escapou das rodas de capoeira para denominar várias espécies de espertezas, tanto corporais quanto intelectuais, e artísticas. Porém, mais do que esse sentido vago, em breve os dicionários precisarão conter outra definição, que pode ser a mais utilizada no futuro: Ginga já é nome do programa de computador (na verdade uma ponte entre vários programas, chamada de “middleware”) que, assim espero, vai gerenciar as funções interativas da TV digital no Brasil e em várias outras partes do mundo.

Se o panorama atual não se modificar, se o governo brasileiro e empresas de televisão (tanto produtoras de conteúdo quanto fabricantes de aparelhos) em atuação no Brasil não tomarem providências rápidas, dicionários de espanhol, inglês ou japonês vão incluir essa palavra com sua definição informática antes dos pais-dos-burros da língua portuguesa. Mesmo tendo o Ginga sido desenvolvido no Brasil, mais especificamente na PUC-RJ e na UFPB, e ser a parte mais criativa – provavelmente a única realmente brasileira – do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), aqui ele ainda é visto com desconfiança, e precisou – como várias criações tupiniquins – fazer sucesso no exterior para ganhar respeito interno.

Como “disclosure” preciso revelar minhas conexões com dois dos principais pais do Ginga: Guido Lemos, da UFPB, é meu primo, e Luiz Fernando Gomes Soares, da PUC-RJ, é grande amigo. Mas amizade e parentesco foram motivos de orgulho bem secundários quando ouvi a notícia de que a União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da ONU para encarregada de desenvolver padrões técnicos para que as várias redes mundiais possam operar conjuntamente, transformou o Ginga em recomendação para todas as aplicações de TV via internet. Não conheço outra tecnologia brasileira que tenha se tornado padrão mundial, com selo da UIT ou qualquer outro. É conquista para ser celebrada por quem acredita num futuro menos periférico para o Brasil nessa área totalmente estratégica da produção de conhecimento. Podemos sim deixar de ser montadores de tablets ou geringonças semelhantes inventadas “lá fora”, e passar a cuidar também da inovação científica mais essencial, aquela que vai ser usada nos tablets do futuro.

Convenhamos: a decisão da UIT foi muito sensata, nada surpreendente. O Ginga tem muitas vantagens em relação a outros softwares, desenvolvidos em outros países, que querem solucionar os problemas da interatividade na TV. Primeiro: foi produzido em código aberto e totalmente compatível com vários sistemas diferentes, da TV aberta, da TV em celulares, da TV conectada (não importa qual sua marca e loja de apps), o da TV via internet e o que mais vier pela frente. Além disso, como é software livre, gratuito, não exige pagamento de royalties. Se a TV digital brasileira escolhesse outro padrão, teríamos que pagar – para a empresa que o desenvolveu – royalties a cada aparelho que utilizasse o tal padrão. Com software fechado, ou proprietário, ficaríamos ainda na mão da sua empresa desenvolvedora, para toda modificação ou upgrade.

Outra grande vantagem do Ginga é sua simplicidade. Já participei de cursos de Ginga para grupos de adolescentes de favelas cariocas. Todos aprendem com facilidade sua linguagem de programação NCL (que tem como linguagem de script LUA, linguagem desenvolvida também na PUC-RJ, que hoje é a mais utilizada mundo afora na produção de jogos eletrônicos, inclusive no World of Warcraft, o game online mais popular), e começam imediatamente a produzir vídeos interativos. Sim, a interatividade proporcionada pelo Ginga não é só plantar widgets e apps em torno do conteúdo principal (o filme, a novela, o programa de auditório etc.): podemos criar interação dentro da imagem do vídeo. Pense num “Você decide” levado às últimas consequências, com telespectadores, decidindo o rumo da ação a cada cena. Essa é apenas uma das possibilidades.

Tudo isso é muito novo. Poucas experiências de escala estão sendo feitas no mundo com tal grau de interatividade. O Brasil tem tudo para sair na frente, inventando novos formatos de entretenimento, novos gêneros de narrativa, que nem imaginamos ainda quais sejam. Poderíamos nos tornar líderes de uma Hollywood interativa futura. Vários europeus já procuraram a PUC-RJ para fazer testes por aqui – lá cada país quer padrões diferentes, o que torna o ambiente técnico tão fragmentado que impossibilita testes para saber como a interatividade funcionaria se usada por muita gente. Se o Brasil não tiver a coragem para seguir esse caminho, o caminho que apontou para o mundo, outros povos farão o que temos que fazer. O SBTVD já foi adotado em 13 outros países. Na Argentina, por exemplo, o Ginga é parte integrada de todos os conversores (set-top box) para as TVs digitais. O cinema argentino vive fase de grande criatividade. Os hermanos vão nos dar lições de cinema interativo com nossa ginga? Seria pura ironia pós-futebolística.

Luiz Fernando Gomes Soares, mais conhecido como LF, disse em entrevista que ao defender o Ginga em Brasília, ouviu de um parlamentar que o Brasil deveria se preocupar é com exportação de frangos e laranjas. Nada contra frangos ou laranjas. Mas é só para isso que existimos no mundo? A gente não quer só vender comida.

nômade

05/11/2011

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 28/11/2011

Peter Fry fez 70 anos na semana passada. O Brasil tem tido o privilégio de conviver com esse antropólogo de origem britânica desde 1970, quando ele aportou em Santos para ser professor na Unicamp. Um de seus livros ganhou o título “Para inglês ver”. Tomara que continue nos vendo, nos ensinando a ver e aprendendo conosco a ver por um bom tempo. Seu olhar de quem não nasceu aqui muitas vezes é o mais brasileiro de todos e nos força a cultivar, contra sonhos poderosos de identidade certinha e estável, tudo aquilo que nos torna diferentes, originais e imprevisíveis. Peter se naturalizou brasileiro, escolheu ser brasileiro, mas felizmente não perdeu o espírito nômade, inquieto, de quem se sente em casa – e quem disse que casa é sempre lugar do conforto? – no deslocamento entre Europa, África e Américas, bagunçando as fronteiras artificiais (raciais, de “gênero”, religiosas e outras) que aparecem todos os dias para separar o que deveria ficar sempre misturado – uma mistura que ganha novos significados todos os dias.

Seu nomadismo não é apenas geográfico. Peter não tem medo de trocar de continentes ou de ideias. As situações mudam, e devem mudar também as ferramentas para compreendê-las, ou mesmo para percebê-las. É preciso ter coragem para dizer que estávamos equivocados no passado, que aquela maneira antiga de ver o mundo não nos serve mais, e que chegou a hora de partir para outra, para a próxima, sem apego. Tive lição prática dessa sua estratégia saudavelmente mutante durante a defesa da minha tese de doutorado (que deu origem ao livro “O mistério do samba”), quando Peter fazia parte da banca de examinadores. Eu havia atacado um de seus textos, o clássico “Feijoada e soul food”, e pensava que isso poderia causar mal-estar, ou pelo menos debate difícil, em nosso diálogo. Para minha surpresa, ele foi logo dizendo que a crítica que eu lhe fizera era procedente, e declarou que já tinha superado aquele modo de ver as coisas.

Sua curiosidade com relação ao diferente e sua disponibilidade para mudar de visão de mundo sempre que necessário se mantêm intactas nestas sete décadas de vida – é incrível ainda hoje acompanhar sua vitalidade juvenil, depois de tantas mudanças e experiências bombásticas. Desde os primeiros momentos, literalmente: quando nasceu, os campos ingleses ao redor da maternidade estavam sendo literalmente bombardeados por aviões alemães. Sua mãe tinha saúde frágil, e Peter passou sua vida em colégios internos, tendo a educação britânica mais tradicional. Entrou para Cambridge, para ser matemático. Trocou de curso. Teve aulas, trabalhou ou teve contato próximo com alguns dos antropólogos mais importantes daquela época: Edmund Leach, Mary Douglas (que lhe ensinou a dar aulas), Jack Goody, Roger Bastide, Michel Leiris, Peter Rivière. Por acaso foi fazer pesquisa de doutorado na então Rodésia, onde aprendeu a língua shona. Por sorte foi adotado pela turma de Max Gluckman, que se interessava pelas relações da África com a modernidade “ocidental”, em todas suas contradições. Nesse período, teve oportunidade de conhecer Moçambique, ainda colônia portuguesa, e ficou fascinado com as diferenças entre as maneiras de se pensar as raças desenvolvidas pelas colonizações britânicas e portuguesas. Não via uma como melhor que a outra: eram surpreendentemente diferentes.

Na volta para a Inglaterra, não conseguiu mais se adaptar aos tons cinzas da vida britânica. Vivia deprimido. Foi aprender português numa aldeia perdida no norte de Portugal. Então soube que a Unicamp estava contratando novos professores e se mudou para o Brasil. Aqui estudou religiões e línguas afrobrasileiras, colaborou com as primeiras experiências de imprensa gay, e se mudou para o Rio onde foi professor no Museu Nacional e do IFCS, local em que ajudou a implantar importante (também para o Brasil) programa para estudantes de países africanos de língua portuguesa. Nesse meio tempo voltou para a África, como representante da Fundação Ford no Zimbábue e em Moçambique. Ali financiou projetos de pesquisa pioneira sobre transformações políticas e culturais locais. Recentemente no Brasil mergulhou de forma apaixonada no debate sobre as cotas, identificando racialismo em propostas que pretendem acabar com a discriminação por raças – vários militantes pró-cotas passaram a tratá-lo como inimigo, quando na verdade deveriam tê-lo amigo fundamental no combate ao racismo (é muito empobrecedor dividir o mundo entre prós e contras qualquer coisa – como ensina Peter o melhor da antropologia é consequência da crítica contra essencialismos rasteiros). Hoje, aposentado da universidade, é um dos principais articuladores da revista virtual Vibrant, que traduz textos de antropólogos brasileiros para aumentar a circulação de nossas ideias planeta afora, produzindo mais diferenças de visões do/no mundo. Ufa!

Relembrei várias dessas aventuras de Peter vendo os vídeos de sua entrevista que o CPDOC publicou online como parte do excelente projeto “Cientistas sociais de língua portuguesa – histórias de vida”. Há várias outras entrevistas – com Gilberto Velho, Boaventura de Sousa Santos, Janet Mondlane etc. – no site cpdoc.fgv.br/cientistassociais). Lá há também uma preciosidade: a restauração do filme “Days of rest”, que Peter dirigiu em Zâmbia, em 1969, sobre membros de uma igreja protestante que hoje chamamos de neopentecostal.


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