Ginga

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 04/11/2011

Ginga, no meu “Aurélio”, tem quatro significados bem diferentes uns dos outros: tipo de remo; caneco de cabo longo; gíria para bicicleta; e, finalmente, movimento de corpo dos capoeiristas. Hoje, sabemos que a palavra escapou das rodas de capoeira para denominar várias espécies de espertezas, tanto corporais quanto intelectuais, e artísticas. Porém, mais do que esse sentido vago, em breve os dicionários precisarão conter outra definição, que pode ser a mais utilizada no futuro: Ginga já é nome do programa de computador (na verdade uma ponte entre vários programas, chamada de “middleware”) que, assim espero, vai gerenciar as funções interativas da TV digital no Brasil e em várias outras partes do mundo.

Se o panorama atual não se modificar, se o governo brasileiro e empresas de televisão (tanto produtoras de conteúdo quanto fabricantes de aparelhos) em atuação no Brasil não tomarem providências rápidas, dicionários de espanhol, inglês ou japonês vão incluir essa palavra com sua definição informática antes dos pais-dos-burros da língua portuguesa. Mesmo tendo o Ginga sido desenvolvido no Brasil, mais especificamente na PUC-RJ e na UFPB, e ser a parte mais criativa – provavelmente a única realmente brasileira – do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), aqui ele ainda é visto com desconfiança, e precisou – como várias criações tupiniquins – fazer sucesso no exterior para ganhar respeito interno.

Como “disclosure” preciso revelar minhas conexões com dois dos principais pais do Ginga: Guido Lemos, da UFPB, é meu primo, e Luiz Fernando Gomes Soares, da PUC-RJ, é grande amigo. Mas amizade e parentesco foram motivos de orgulho bem secundários quando ouvi a notícia de que a União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da ONU para encarregada de desenvolver padrões técnicos para que as várias redes mundiais possam operar conjuntamente, transformou o Ginga em recomendação para todas as aplicações de TV via internet. Não conheço outra tecnologia brasileira que tenha se tornado padrão mundial, com selo da UIT ou qualquer outro. É conquista para ser celebrada por quem acredita num futuro menos periférico para o Brasil nessa área totalmente estratégica da produção de conhecimento. Podemos sim deixar de ser montadores de tablets ou geringonças semelhantes inventadas “lá fora”, e passar a cuidar também da inovação científica mais essencial, aquela que vai ser usada nos tablets do futuro.

Convenhamos: a decisão da UIT foi muito sensata, nada surpreendente. O Ginga tem muitas vantagens em relação a outros softwares, desenvolvidos em outros países, que querem solucionar os problemas da interatividade na TV. Primeiro: foi produzido em código aberto e totalmente compatível com vários sistemas diferentes, da TV aberta, da TV em celulares, da TV conectada (não importa qual sua marca e loja de apps), o da TV via internet e o que mais vier pela frente. Além disso, como é software livre, gratuito, não exige pagamento de royalties. Se a TV digital brasileira escolhesse outro padrão, teríamos que pagar – para a empresa que o desenvolveu – royalties a cada aparelho que utilizasse o tal padrão. Com software fechado, ou proprietário, ficaríamos ainda na mão da sua empresa desenvolvedora, para toda modificação ou upgrade.

Outra grande vantagem do Ginga é sua simplicidade. Já participei de cursos de Ginga para grupos de adolescentes de favelas cariocas. Todos aprendem com facilidade sua linguagem de programação NCL (que tem como linguagem de script LUA, linguagem desenvolvida também na PUC-RJ, que hoje é a mais utilizada mundo afora na produção de jogos eletrônicos, inclusive no World of Warcraft, o game online mais popular), e começam imediatamente a produzir vídeos interativos. Sim, a interatividade proporcionada pelo Ginga não é só plantar widgets e apps em torno do conteúdo principal (o filme, a novela, o programa de auditório etc.): podemos criar interação dentro da imagem do vídeo. Pense num “Você decide” levado às últimas consequências, com telespectadores, decidindo o rumo da ação a cada cena. Essa é apenas uma das possibilidades.

Tudo isso é muito novo. Poucas experiências de escala estão sendo feitas no mundo com tal grau de interatividade. O Brasil tem tudo para sair na frente, inventando novos formatos de entretenimento, novos gêneros de narrativa, que nem imaginamos ainda quais sejam. Poderíamos nos tornar líderes de uma Hollywood interativa futura. Vários europeus já procuraram a PUC-RJ para fazer testes por aqui – lá cada país quer padrões diferentes, o que torna o ambiente técnico tão fragmentado que impossibilita testes para saber como a interatividade funcionaria se usada por muita gente. Se o Brasil não tiver a coragem para seguir esse caminho, o caminho que apontou para o mundo, outros povos farão o que temos que fazer. O SBTVD já foi adotado em 13 outros países. Na Argentina, por exemplo, o Ginga é parte integrada de todos os conversores (set-top box) para as TVs digitais. O cinema argentino vive fase de grande criatividade. Os hermanos vão nos dar lições de cinema interativo com nossa ginga? Seria pura ironia pós-futebolística.

Luiz Fernando Gomes Soares, mais conhecido como LF, disse em entrevista que ao defender o Ginga em Brasília, ouviu de um parlamentar que o Brasil deveria se preocupar é com exportação de frangos e laranjas. Nada contra frangos ou laranjas. Mas é só para isso que existimos no mundo? A gente não quer só vender comida.

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