Veyne e as coisas do mundo

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 11/11/2011

Paul Veyne é santo padroeiro desta coluna. Não consigo escrever nada sem pedir a benção de suas ideias. Para o próprio Veyne, meu apego seria condenável. Aos 81 anos, depois de todas as honras acadêmicas, ele parece não se dar tanta importância, reverenciando autores mais “densos” como seu amigo Michel Foucault (saiu este ano no Brasil “Foucault – seu pensamento, sua pessoa”, livro de Veyne sobre essa amizade). Muitas vezes chamado de cético, numa entrevista precisou explicar a razão para nunca ter escrito sobre a filosofia cética: “O ceticismo antigo, isso é muito difícil para mim. Para dominar essa questão, seria preciso ser filósofo de ofício, capaz de manejar a filosofia do conhecimento, de compreender a diferença entre Foucault e Wittgenstein. Não é para o meu bico.” Por trás da brincadeira, há o combate contra discursos ocos vendidos como profundos: “Em certos filósofos, há um bruaá metafísico pomposo que impressiona os miolos fracos – em Heidegger, isso pode ir até o ridículo.” Veyne diz escrever não para os profissionais, mas para os que lêem pois o assunto lhes interessa, diverte, dá sentido para suas vidas.

Qual é o assunto de Veyne? Ele é um dos maiores especialistas – certamente o mais simpático – em história greco-romana. Através dos acontecimentos clássicos, acaba escrevendo também sobre aquilo que nos é mais contemporâneo. Não porque o estudo da História seja importante para a compreensão do presente (Veyne detesta esse lugar-comum), mas por ser curioso e gostar da estar entre diferentes, aqueles que podem saber o que não sabemos (mesmos os que viveram há milênios). Falando sobre sua amizade com Foucault, esse amor pela diferença fica claro por linhas deliciosamente tortas: “mesmo eu sendo infelizmente muito hetero, Foucault me denominou ‘homossexual honorário’. Isso me permitiu ficar na casa dele em noites em que recebia um pessoal pouco conformista…”

Esse trânsito meio libertino possibilitou muitas opiniões contra a maré intelectualmente respeitável. De outra entrevista, intitulada “Veyne o iconoclasta” e para a Magazine Littéraire, no meio de um ataque contra a mania francesa de querer manter sua diversidade cultural na marra diante da “invasão” norte-americana, citarei ainda muitas vezes uma declaração fulminante (dei um jeito até de enfiá-la no meu “Mistério do samba”): “Havia tantos vasos gregos no mundo mediterrâneo quanto há hoje garrafas de Coca-Cola num rio de Bornéu” (e, acrescento como se fosse necessário: a onipresença dos vasos gregos não condenou a futura cultura mediterrânea à mesmice, assim como não vamos virar um planeta homogêneo só porque todas nossas meninas, de todas as cores e todos os continentes, querem casar com o Justin Bieber – que por sinal adoraria ter credibilidade entre rappers negros).

O que existe de mais poderoso e desafiador no pensamento de Paul Veyne está muito bem condensado em seu livro “Quando nosso mundo se tornou cristão”, publicado no Brasil em 2010. Além de propor uma interpretação desconcertante para a conversão religiosa do imperador Constantino, e consequentemente para a transformação do cristianismo de “seita de vanguarda” em religião popular, alguns capítulos deixam de cabeça para abaixo idéias fixas sobre ideologia, sobre as razões para estudarmos o passado ou sobre como o futuro é produzido. O cristianismo venceu, diz Veyne com coragem e petulância, pois era mais bonito (meu resumo é pura provocação: leia o livro, é curtinho e muito agradável). Fiquei quase convencido de que a beleza, sem mais ou menos, pode mudar o mundo.

Sobre esse momento crucial da aventura humana, foi lançado este ano nos EUA “Os últimos pagãos de Roma”, de Alan Cameron. Ainda não comprei o livrão. Mas acho que não preciso mais atravessar suas 878 páginas depois de ler a excelente resenha de Peter Brown no The New York Review of Books, que parece levar adiante sua tese já bastante inovadora. Cameron contraria o que imaginávamos saber sobre o fim de Júpiter/Zeus e sua turma divina. Estudos anteriores falavam da luta heróica entre pagãos bonzinhos contra a máquina sanguinária da intolerância cristã. O que aconteceu foi menos nobre: o pessoal do Olimpo caiu de maduro, por falta de patrocínio, de dinheiro público. Pouca gente foi realmente morta por teimar em fazer sacrifícios para Vênus em busca do amor.

Brown acrescenta, em uma espécie de posfácio emocionante: não foi a “resistência” pagã que salvou as obras cultura clássica da fogueira cristã. Apenas uma turma radical fundamentalista queria proibir a leitura de Virgílio ou Ovídio. A maioria dos cristãos preferiu diferenciar as “coisas de Cristo” das “coisas do mundo”, e entendia que um poema como a Eneida, apesar de mencionar outras divindades a cada página, não ia abalar a fé de ninguém, podendo mesmo fortalecê-la. Aquilo era “apenas cultura”, não era algo que a religião deveria temer. Ao ler isso, lembrei da situação atual brasileira, com novas igrejas em conflito com algumas de nossas festas chamadas de tradicionais. Os nossos novos cristãos poderiam seguir o exemplo de seus ancestrais romanos: não é preciso proibir o pessoal de tocar tambor. Seria até mais de acordo com o Evangelho encarar isso só como “cultura”, coisas de outros mundos, que não ameaçam tudo aquilo que Cristo anunciou como mais sagrado.

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Uma resposta to “Veyne e as coisas do mundo”

  1. Paulo Says:

    Parece uma contradição a expressão “filósofo de ofício”, pior quando estes ignoram os que não o são.

    Eu vou de Candeia: “Pra cantar samba/ Não preciso de razão/ Pois a razão/ Está sempre com os dois lado”.

    Para os céticos antigos, isso chama: isostheneia.

    Abraço, Paulo Henrique.

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