Monteiro Lobato

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 18/11/2011

Fui convidado para participar de “Livros que amei”, programa criado por Suzana Macedo a ser exibido em breve na TV Futura. A missão: escolher três livros marcantes e comentá-los numa entrevista. Parece simples, mas demorei meses até chegar na seleção definitiva. Resolvi não pensar em “melhores livros”, nem nos que conheço mais, nem nos que me deixariam bem na fita. Escolhi os livros que são meus melhores companheiros, aqueles aos quais sempre volto para aprender a produzir alegria e força quando tudo parece conspirar para nos entristecer/enfraquecer. Pensei inicialmente na “Descoberta do mundo”, de Clarice Lispector, sobretudo por causa daquelas páginas sublimes sobre o estado de graça. Queria também falar sobre “A invasão divina”, de Philip K. Dick. Mas acabei optando por “Vida conversável”, de Agostinho da Silva, e “Uma estranha realidade”, de Carlos Castaneda. Muito estranho. Nunca li esses livros do começo ao fim. Mas sempre releio vários de seus trechos, e o efeito é certeiro: saio da releitura reanimado.

Minha única escolha que nunca mais tinha relido foi “O minotauro”, de Monteiro Lobato. O programa da Suzana me fez retomar a paixão da infância, talvez o motivo principal para eu gostar de ler, ou até ser quem eu sou. Minha memória é péssima. De “O minotauro” só me lembrava da cena que revela que Tia Nastácia se manteve viva por causa de seus bolinhos, que fritava para o monstro do labirinto de Creta. Gosto dessas narrativas em que pequenas delícias resolvem grandes problemas. Isso também acontece nas “Cosmicômicas” de Ítalo Calvino, onde o Big Bang teve início devido a um tagliatelle. Porém, sabia que deveria haver outras coisas deliciosas nas aventuras da turminha de Monteiro Lobato pela Grécia antiga e mitológica.

A releitura, mais de 40 anos depois, me deixou novamente encantado. E espantado. Não tinha ideia da quantidade de informações concentradas a cada página. Era aula mesmo: de história, filosofia, arquitetura, geografia, política. Acho difícil também existir mais convicto ou mais belo elogio da democracia. Quando Pedrinho pergunta para Dona Benta a verdadeira causa para a Grécia ter sido “uma danadinha” com tantas maravilhas legadas para a humanidade (“nunca houve no mundo tão intensa produção de beleza”), Dona Benta é clara: “Liberdade, meu filho.” E acrescenta: “Porque para o homem o clima ‘certo’ é um só: o da liberdade. Só nesse clima o homem se sente feliz e prospera harmoniosamente.” A conclusão, depois de pequena lição de pedagogia contra “os cordéis do ‘não pode'”, é fabulosa: ” A Grécia, meus filhos, foi o Sítio do Picapau Amarelo da antiguidade, foi a terra da Imaginação às soltas. Por isso floresceu como um pé de ipê.”

Claro: Dona Benta não era boba, conhecia igualmente os defeitos gregos, sobretudo a escravidão. Chegou a repreender seu ídolo Péricles: “Não é o povo quem governa Atenas, sim a pequena classe dos cidadãos. Povo é a população inteira e aqui há 400 mil escravos que não têm direito ao voto. Isto é injusto e será fatal para a Grécia.” Mesmo assim, toda essa convicção democrática não impede que o livro seja vítima de inúmeros preconceitos, que revelam um elitismo perigoso de seu autor. Ao perceber que Fídias, o arquiteto do Partenão, não sabe o que é máquina ou gasolina, Emília ri: “Vivemos no nosso mundo moderno a falar da inteligência grega e no entanto os gregos não entendem nem o que qualquer negrinho lá do sítio entende…” Caímos então no racismo de Monteiro Lobato, aspecto que alguns críticos julgam suficiente para sugerir a retirada de sua obra juvenil mesmo da lista de sugestões do nosso currículo escolar.

Pronto vou falar: considero essa sugestão tão estúpida quanto o racismo. Esses críticos acreditam que as crianças são imbecis com cabeças facilmente feitas pelos livros, games, filmes, programas de TV. Ao reler “O Minotauro” passei a me considerar uma prova viva contra essa tese simplista. (Quem quiser pode me acusar de ingenuidade.) Não tenho dúvida de que a obra de Monteiro Lobato foi a que mais me influenciou na vida. Li tudo, várias vezes, numa época em que, diz a tese, somos mais influenciáveis. Não sabia o que era racismo naquele tempo – hoje sei que Tia Nastácia era tratada com inadmissível preconceito. Isso não me tornou preconceituoso. Acho até que Tia Nastácia é a principal origem de meu amor pela cultura afrobrasileira e do meu combate ao racismo.

Porém, nessa releitura de agora, fiquei mais impressionado com outro preconceito de Monteiro Lobato, aquele contra tudo que é moderno, da arte pós-cubista às cidades grandes. Há muitos trechos intoleráveis. Por exemplo: ao notar a calma das ruas de Atenas, “Dona Benta concordou que o progresso mecânico só servia para amargurar a existência dos homens.” Em outra passagem ela conta que a beleza grega foi “substituída por outra, isto é, pelo horrendo grotesco que para os meus modernos constituirá a última palavra da beleza.”

Logo Dona Benta, que sempre considerei avó querida. Não gosto menos dela por ter tanto tempo depois descoberto esse seu lado tão reacionário. Ainda bem que livros não fazem nossa cabeça, desse jeito literal. Quanto ao modernismo, virei o oposto de Dona Benta. Sinal de que ela me ensinou também a ser crítico, crítico de tudo, inclusive de seus próprios ensinamentos. Tomara que outras crianças não sejam condenadas a viver sem conhecer os seus serões.

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Uma resposta to “Monteiro Lobato”

  1. Paulo Says:

    outro dia um aluno mais que especial (do colégio) me

    respondeu que a imaginação é importante para criar

    expectativas para o futuro, tentei convencê-lo que ela

    também é importante para aumentar as possibilidades do

    presente, quem sabe os gregos não trataram a liberdade

    dessa maneira: como um faz de conta verdadeiro

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