boas traições/traduções

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 09/12/2011

No número da revista Adbusters que trazia a convocação para a ocupação de Wall Street, os artigos que realmente me impressionaram tinham assinaturas de Manuel Castells e Franco Berardi Bifo. O sociólogo espanhol Manuel Castells tem boas conexões brasileiras. Prova: o posfácio que escreveu para a biografia de Ruth Cardoso. Ou o prefácio de FHC para “A sociedade em rede”, seu clássico cibercultural. Na Adbusters, o texto de Castells analisava as “acampadas” das praças espanholas que serviram de inspiração para os ocupantes americanos. Não escondia sua simpatia: os objetivos do movimento – entre eles: controles dos bancos, reforma fiscal e abolição da Lei Sinde (que tenta impor, em nome da defesa dos direitos autorais, várias restrições para as liberdades na internet) – são julgados “concretos e razoáveis”. E declarava: “partidos e instituições vão ter que aprender a conviver com essa sociedade civil emergente.”

O texto de Franco Berardi – filósofo, escritor e agitador cultural italiano – tinha tom distinto, que reflete a trajetória política de seu autor. Bifo, apelido que virou parte do seu nome, participou do grupo Potere Operario, do movimento Autonomia, fundou a mítica Radio Alice (a primeira rádio livre da terra de Berlusconi), trabalhou com Félix Guattari, e recentemente publicou livros como “Mutação e cyberpunk” ou “Neuromagma”.

Preciso citar inteiro o primeiro parágrafo do seu artigo na Adbusters, para o leitor tremer nas bases: “Gostaria de falar sobre algo que todos sabem, mas que, pelo que parece, ninguém tem a ousadia de dizer. Isto é, que o tempo da indignação acabou. Aqueles que ficam indignados estão já começando a nos entediar. Mais e mais, eles nos parecem como os últimos guardiões de um sistema podre, um sistema sem dignidade, sustentabilidade ou credibilidade. Nós não temos mais que ficar indignados, nós temos que nos revoltar.”

Gostei de fazer essa tradução totalmente livre de algo que foi escrito em italiano, via inglês canadense. Não apenas por não ter paciência com indignação, muitas vezes apenas uma fantasia politicamente correta para a burrice que se acredita inteligente. Mas por ser uma maneira de retribuir a tradução que Bifo fez de “O mistério do samba” para italiano.

Esse meu livro teve três traduções, todas envoltas em alegríssimos mistérios. A primeira foi para inglês, trabalho do historiador americano John Chasteen, resultando numa versão bem melhor que a brasileira. Essa tradução foi também publicada pela editora da University of West Indies, da Jamaica e de Granada, cujo lançamento me levou para Kingston, onde provoquei polêmica com palestra que elogiava o ragga, tido como lixo cultural por grande parte da elite intelectual local (gente culta geralmente gosta de raiz, lá de reggae de raiz). A segunda tradução, para o japonês, foi feita do inglês pelo adorável Musha, o mesmo que gravou disco cantando uma versão bossa nova de Psycho Killer, a música dos Talking Heads.

Caminhos muito malucos. Porém, nada se compara com a surpresa que me causou a tradução italiana. Quando soube que ela tinha acontecido, o livro estava pronto para ir para as livrarias. Bifo mandou email para me dar a boa notícia e passar um contrato para assinatura. Eu sabia bem quem ele era, admirava vários de seus trabalhos, mas nunca tivemos contato pessoal anterior. Fiz a pergunta mais óbvia: como descobriu o meu livro? Respondeu que comprou numa livraria em Belo Horizonte (!). Acrescentei inocente: “eu não sabia que você falava português…” Não estava preparado para o que iria ouvir: “Não falo, aprendi a traduzir por causa do seu livro.”

Como diria Jorge Benjor: que maravilha! Leio italiano com alguma dificuldade, mas consegui entender o texto da contracapa, que traduziu meu livro também para a revolta pós-Autonomia: “‘Il mistero del samba’ é um livro conta a ideologia da identidade, contra as ilusões perigosas da autenticidade local e das ‘raízes’ que têm tanto peso no modo atual de relacionamento com a hibridação, a mestiçagem, a contaminação que representam, não só no Brasil, o futuro da humanidade.” Na Itália, o livro ganhou um subtítulo-manifesto: “contaminação e fantasmas da autenticidade”. Fiquei todo satisfeito com a comprovação de que não temos nenhum controle sobre a maneira como nossos escritos são lidos. A única pessoa que tinha intuído o lado “occupy” do meu samba foi Eduardo Viveiros de Castro, que participou da banca da minha defesa de tese, e brincou sério: “você escreveu sobre o rock.” Rock sem raiz. Não sei qual foi a repercussão do livro na Itália, nem tenho ideia de quantas cópias vendeu por lá. Apenas recebi uma carta do filósofo Mario Perniola, outro de meus ídolos, com outros elogios. Missão cumprida.

Já que me perdi da Adbusters, volto para a América do Norte por outro caminho, outra revista. A Adbusters é divertida, provoca tsunamis meméticos, está agora na boca do povo. No entanto, para entender o que está acontecendo hoje no mundo, a revista que considero ideologicamente mais interessante, apesar de linha editorial e administração mais caretas, se chama Make (as diferenças começam no site: makezine.com; a Adbusters é .org). Em vez de apenas se indignar, faça. Faça você mesmo. Minha profecia: depois da ocupação será a hora de fazer e refazer. Não haverá maneira de conter um movimento feito por gente que faz tudo, sem intermediários. Mais Make na próxima coluna.

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