Grant Morrison

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/12/2011

Grant Morrison escreveu “Supergods”, meu livro favorito de 2011. As listas de melhores do ano não concordam comigo. Houve grande espectativa pré-lançamento. O autor é um dos artistas contemporâneos mais influentes e respeitados, para muito além das fronteiras do seu mundo de origem, o dos quadrinhos. Na publicidade de “Supergods” apareciam os elogios rasgados de três figuras que só Grant Morrison poderia reunir: Stan Lee, um dos criadores do Homem-Aranha, do Hulk, dos X-Men (etc!); Gerard Way, cantor da banda de rock My Chemical Romance; e Deepak Chopra, talvez o mais popular escritor de auto-ajuda. Mesmo assim, depois que o livro foi publicado, houve um silêncio bizarro sobre seu conteúdo, como se ninguém soubesse o que fazer com aquela avalanche de informações.

“Supergods” estaria para os quadrinhos de super-heróis assim como “O resto é ruído” estaria para a música contemporânea se Alex Ross (o autor de “O resto é ruído”) fosse John Cage ou outro personagem central para a história contada no livro. Grant Morrison escreveu a saga dos super-heróis modernos, desde a aparição do Super-Homem em gibi de 1938, com uma profusão de detalhes, inclusive acontecimentos fabulosos de sua própria biografia, como se ele mesmo fosse super também.

Tem direito. Stan Lee decretou sobre sua obra: “Grant Morrison é um dos grandes escritores de quadrinhos de todos os tempos. Eu gostaria de não ter que competir com alguém tão bom quanto ele.” Para citar apenas um de seus feitos: “Batman: Arkham Asylum”, escrita por Grant Morrison, é a novela gráfica original mais vendida também em todos os tempos. Além disso há a invenção de “New X-Men” e muitos outros universos punk-apocalípticos, como a saga “Os Invisíveis”, na minha opinião uma das criações artísticas mais importantes do século XX, que será lida em tempos vindouros com a mesma reverência que hoje dedicamos a “Acossado” ou “A montanha mágica”.

Confesso minha dificuldade com a leitura de “Supergods”. Certamente faltou editor cuidando de transformar o material em algo mais palatável para quem, como eu, nunca teve muita familiaridade com os bastidores dos quadrinhos. Havia momentos em que me perdia no meio de tantos nomes de escritores, desenhistas, coloristas ou mesmo super-heróis que apesar de grande sucesso eram para mim superdesconhecidos. Essa opção enciclopédica afasta leitores que buscam apenas uma história alternativa da cultura do século XX através de alguns de seus personagens mais pitorescos, os que têm superpoderes até para mudar o curso da História.

Nunca fui fanático por quadrinhos, mas reconheço nos super-heróis um pano de fundo essencial para minha visão de mundo, que me conecta com as outras pessoas que vivem em nosso mundo. Uma das experiências mais desnorteadoras da minha vida aconteceu em Nova York, em 1989, quando a cidade estava tomada pela publicidade da estréia do primeiro filme “Batman”. Os cartazes não precisavam de palavras – só aquela figura do morcego estilizado dava conta do recado: todo mundo sabia do que se tratava. Eu estava hospedado no apartamento do meu amigo Julian Dibbell, antes de sua transformação em super-herói dos estudos ciberculturais. Naquela época, Julian subalugava um quarto para desconhecidos. Cada vez que o visitei tinha que conviver com seres bem esquisitos. Em 1989, o subinquilino era um russo chamado Vadim, que em época pré-perestroika fugira da URSS via Israel. Era filho de médico e engenheira, morava em Leningrado (hoje novamente São Petersburgo), perto dos estúdios da Lenfilm. Eu e Julian o convidamos para ver Batman conosco. Ele perguntou: o que é Batman? Foi o contato mais próximo que já tive com um alienígena. Um abismo de imaginação nos separava.

Hoje os jovens russos devem saber bem o que é Batman, ou mesmo Lanterna Verde. Não foi só o capitalismo, com todas suas bolhas e crises terminais, que penetrou na Cortina de Ferro ou na mais tradicional aldeia da savana africana. Com o triunfo dos chips de silício o mundo também se nerdificou: o que era antes obsessão de “geeks”, hoje é “mainstream” planetário. Tá tudo dominado por super-heróis, que conquistaram o mundo mesmo com suas fantasias ridículas. Como escreve Grant Morrison: “Numa cultura secular, científica e racional sem qualquer liderança espiritual convincente, as histórias de super-heróis falam em alto e bom tom com nossos maiores medos, mais profundos anseios, mais altas aspirações. […] Nós deveríamos escutar o que eles têm a nos dizer.”

E eles não dizem todos a mesma coisa. Grant Morrison começa o livro contrapondo o Super-Homem apolíneo, solar, socialista e o Batman dionisíaco, noir e capitalista. Clark Kent é um órfão de outro planeta que usa seus superpoderes para ajudar nossa pobre humanidade; Bruce Wayne é um milionário que combate o crime para vingar a morte dos pais.

As divergências não surgem apenas entre os super-heróis, mas entre diferentes “encarnações” de um mesmo super-herói, devido ao tratamento que receberam de seus vários autores – um mesmo tema sujeito a surpreendentes variações. Mas isso fica para a coluna da próxima semana. Até 2012! Que os super-heróis nos protejam do fim do mundo.

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