Grant Morrison, o retorno

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/01/2012

Continuo minha última coluna do ano passado. Para quem apagou as memórias de 2011 pulando ao som de David Guetta ou Latino nas areias de Copacabana, digo como parei aquele texto, dedicado ao livro “Supergods”, de Grant Morrison, pensador central para nosso século XXI quase adolescente. No primeiro capítulo dessa história dos super-heróis, somos apresentados a uma interpretação original de sua origem nos anos 1930, com o confronto entre um Super-Homem apolíneo, diurno e socialista com um Batman dionisíaco, noturno, capitalista. Claro que nenhum dos dois ficou congelado nessa polaridade ideológica. Nos quadrinhos, os donos dos direitos dos super-heróis mais populares são as editoras, que contratam autores diferentes para criar suas próximas aventuras. Escritores, desenhistas e coloristas inventam novas características para velhos personagens – os mesmos temas ganham variações, algumas radicais, anunciando muitas vezes transformações culturais que ainda irão acontecer.

Para complexificar a sua narrativa, Grant Morrison tem mania de recorrer a outras dualidades, além daquela apolínea-dionisíaca, que acabam se sobrepondo umas sobre as outras, criando arranjos surpreendentes. Ele chega até a endossar a “Hipótese Sekhmet”, apresentada por Iain Spence, que faz conexão maluca entre a atividade solar e as grandes tendências artísticas. A cada onze anos, o Sol troca de polaridade, da atividade mais furiosa ao período de maior calma, gerando mudanças em seu campo magnético que por sua vez teriam efeitos concretos na atividade de nossos neurônios. Por isso a humanidade teria períodos mais “punks” e outros mais “hippies”, com trocas também a cada onze anos. Os punks seriam mais realistas, os hippies mais sonhadores.

Gosto mais de outra dualidade apresentada em “Supergods”, aquela que divide os autores de quadrinhos de super-heróis em duas tribos em guerra eterna: de um lado os “missionários”, do outro os “antropólogos”. Grant Morrison toma partido dos antropólogos – mas reconhece (e eu como antropólogo de profissão tenho que concordar) que não há fronteiras claras entre essas tribos. Pelo contrário: há muitas mestiçagens entre os dois pólos, com missionários com atitudes de antropólogos e vice-versa. Vejamos o que está em jogo, no limite. Os missionários tentam “impor seus próprios valores e preconceitos sobre as culturas que consideram inferiores – nesse caso, aquela dos super-heróis.” Os antropólogos tratam as outras culturas “com respeito e no interesse de compreensão mútua.” De vez em quando exageram e “viram nativos”, capitulando diante da cultura estrangeira – sem medo serem encarados como tolos.

Para Grant Morrison, o “missionário” tem, no fundo, vergonha do seu trabalho. Acha ridículo o uniforme dos super-heróis. Tenta portanto torná-los menos infantis, o que na maioria das vezes significa pesar a mão no lado realista (e realidade aqui é quase sempre sombria, quando não desesperada.) Os antropólogos levam a sério o discurso nativo dos super-heróis: se eles acreditam ter superpoderes, quem somos nós para desmenti-los ou chamá-los para a realidade? E devemos confessar (já estou aqui assumindo plenamente meu relativismo antropológico): achamos bonitas suas máscaras e capas coloridas; queremos que sejam felizes em seus universos; adoraríamos também testar a dor e a delícia de voar, ser invisível, ter cromossomo mutante. Queremos que seus mundos sejam realmente mágicos.

Conflito sem trégua entre realistas e desbundados, que torna nosso mundo da produção cultural mais divertido. Ao ler a tese do Grant Morrison me lembrei da volta de Augusto Boal para o Brasil, quando apresentou seu “c’est magique” no Teatro Cacilda Becker (já se chamava assim?) no Catete. No palco os atores tentavam encontrar soluções para um problema social. A platéia poderia interromper a encenação a qualquer momento se considerasse mágica a solução apresentada por quem conduzia o espetáculo. Bastava gritar “c’est magique” e expor a razão para considerar que tal solução não funcionaria na realidade. Eu estava na platéia. Regina Casé também estava. Naquela época eu apenas era fã do Asdrúbal Trouxe o Trombone (vi “Trate-me Leão”, “Aquela Coisa Toda” e “A Farra da Terra”, todos várias vezes). Fiquei mais admirador da Regina quando ela, com enorme coragem, se levantou para dizer que fazia teatro justamente por ser espaço onde poderíamos inventar soluções mágicas. Não foi a toa que anos depois iniciamos uma amizade que já rendeu inúmeros produtos “antropológicos”, inclusive o programa Esquenta! que estará em cartaz na TV Globo durante todo este verão, e que na temporada passada apresentou empolgado a música “Liga da Justiça”, do LevaNóiz, que fez mágica no carnaval de 2011 em Salvador.

O “missionário” que Grant Morrison mais se delicia em atacar é Alan Moore, autor de “Watchmen”. Em “Supergods”, Morrison acusa Moore de militar pelo fim de toda a mágica no universo dos super-heróis: mesmo seu planeta Krypton é “um mundo despedaçado por tensões raciais, fanatismo religioso e brutal violência nas ruas, mas eu posso ver isso na TV”. Grant Morrison sempre quis que os super-heróis fizessem aquilo que os noticiários não mostram. Quem sabe assim não nos inspiram a ocupar o mundo diferentemente? Ou pelo menos nos ensinam que “as coisas não precisam ser reais para serem verdadeiras”.

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Hoje é o dia dos Santos Reis. Feliz folia para todo mundo.

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