Archive for fevereiro \25\UTC 2012

jogo de multidão

25/02/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 24/02/2012

O carnaval passou e continuo aqui com o meu samba de uma nota só sobre direito autoral. Estou empacado, tipo bloco “Concentra mais não sai”. Até agora, depois de três textos, não saí da introdução. Direito autoral é assunto complexo, talvez o mais importante para a produção cultural contemporânea. Por isso precisa ser debatido sem pressa. Não há respostas prontas ou fáceis para os desafios que a digitalização impôs, de forma avassaladora, para a relação criadores/público/mercado/mídia. Nenhuma das experimentações em andamento parece indicar solução duradoura. Ainda vamos ter que conversar muito para chegar a novos arcabouços jurídicos ou modelos de negócio que aproveitem o melhor da situação atual. Já repeti várias vezes: deixamos a economia da escassez, o que é ótimo. Mas não descobrimos como viver com tanta abundância criativa.

Resumo o que escrevi nas colunas passadas com uma citação do discurso que Victor Hugo fez para o Congresso Literário Internacional de 1878: “O princípio é duplo, não o esqueçamos. O livro, como livro, pertence ao autor, mas como pensamento, ele pertence – e a palavra não é bastante ampla – ao gênero humano. Todas as inteligências têm direito sobre ele. Se um dos dois direitos, o direito do autor e o direito do espírito humano, precisa ser sacrificado, esse será, certamente, o direito do escritor, pois o interesse público é nossa preocupação única, e todos, eu o declaro, devem passar antes de nós.”

Ao fazer minha tradução macarrônica, percebi que tais palavras podem soar mais radicais do que meu pensamento sobre o assunto, que prega apenas o equilíbrio entre domínio público e direito do autor, pois um precisa do outro para se enriquecer (nos vários sentidos, não apenas econômico, do enriquecimento).  Imagino que Victor Hugo concordaria comigo. Tanto que, parágrafos atrás dessa declaração bombástica, ele deixava claro que o direito autoral era um progresso: “Todas as velhas legislações monárquicas negaram e ainda negam a propriedade literária. Com que objetivo? Com o objetivo de escravização. O escritor proprietário, é o escritor livre. Retirar sua propriedade, é retirar sua independência.”

Pena que nada é tão simples assim. Recentemente, Eduardo Viveiros de Castro me apresentou o trabalho de Alexandre Nodari, que escreveu excelente dissertação de mestrado em Teoria Literária, intitulada “a posse contra a propriedade – pedra de toque do Direito Antropofágico”, sobre a “poética do grilo” a partir do pensamento de Oswald de Andrade. Nodari lembra, em vários de seus textos, que a noção de autor (e a obrigatoriedade de todo texto ter um autor responsável) surgiu também como estratégia da Inquisição para combater o anonimato que protegeu muitos defensores do livre pensamento na Idade Média, aqueles que se identificados terminariam na fogueira.

Foi momento fascinante na história, como sempre cheio de contradições (uma mesma inovação pode ser usada por forças democratizantes e reações totalitárias, como tanta coisa na internet hoje em dia). Junto com o autor, aparecem também a arte tal qual conhecemos hoje, com artistas assinando seu trabalho, que deveriam ser sempre originais, diferentes de tudo que apareceu antes. Essa busca incessante do novo, que nos parece tão natural, nem sempre foi característica de produção cultural anterior ou de outras culturas.

Outro dia, folheando as primeiras páginas da “História ilustrada do vestuário”, lançado no Brasil pela PubliFolha, me deparei com a seguinte informação: “As vestimentas egípcias mantiveram-se relativamente inalteradas entre 3.000 a.C. e 1.550 a.C.” Como assim: quase um milênio e meio com a mesma roupa?! Para nossa sensibilidade pós-moderna, acostumada a mudanças a cada Fashion Week, e que execra estilistas que “se repetem” ou “copiam outros autores”, é visceralmente impossível entender um povo tão avesso a mudanças. Hoje vivemos ansiosos à procura do último grito, que deve ser sempre diferente dos gritos das temporadas passadas.

A vitória da internet veio criar novo combustível para nossa ansiedade. Talvez acabemos por descobrir que o reino do autor original foi um período “fora de série” da história. Não estou dizendo que voltaremos a ser egípcios, com a calmaria do “mesmo” por séculos, mas sim que haverá tantas micronovidades, descentralizadas, e sem autoria determinada, que dará no mesmo: será impossível identificar “escolas”, ou “vanguardas” que se sucedem umas às outras, impulsionadas por seus líderes geniais. Há um novo modo de relacionamento com a produção cultural como um todo, e essa (e não a pirataria) é a principal causa da crise da indústria do entretenimento (que precisava de autores, originalidade e novidade – em número reduzido a cada estação – para sobreviver). Arte virou jogo de multidão.

Os desenvolvimentos recentes da saga “Ai se eu te pego” continuam a me iluminar. Agora, na “origem”, apareceram as meninas paraibanas que teriam composto o refrão dentro de um avião com destino a Disney. Na outra ponta, o arte-educador sergipano Zezito de Oliveira me mostrou, via comentário no Overmundo, a versão “Ai, não nos calam” com a qual o coletivo português Revoluvideo convoca participantes para manifestação antidesemprego. Que tipo de legislação de direito autoral pode lidar com essa nova realidade de apropriações constantes, sem início ou ponto final? Mais reflexões na próxima sexta-feira.

ainda domínio público

18/02/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 17/02/2012

Desde o primeiro dia de 2012, a obra de James Joyce “caiu” no domínio público europeu. Há controvérsia nos detalhes: não se sabe se escritos publicados postumamente também deixaram de ser propriedade de Stephen Joyce, seu único herdeiro. Isso é problema menor. O que importa mesmo é que não mais é necessário pedir autorização de ninguém se você quiser, por exemplo, produzir um filme baseado em “Ulisses”, tarefa até então quase impossível. Stephen Joyce chegou a proibir leituras públicas da obra de seu avô no centenário do Bloomsday em Dublin. A Biblioteca Nacional da Irlanda também teve que cancelar uma exposição de manuscritos. Era regime de terror autoral, instalado por um único herdeiro contra os milhões de admiradores daquele que provavelmente foi o maior escritor moderno, definidor de uma sensibilidade que – queiramos ou não – passou a ser a nossa.

Stephen Joyce justificava suas atitudes com vários argumentos. Um deles: se cada nova publicação dos livros não passasse por sua avaliação, muitas edições cheias de erros (ou correções de supostos erros) chegariam às livrarias. Ele tinha razão. Sem controle de qualidade, muito lixo pode ir para o comércio. Mas será que os consumidores são tão trouxas assim? A vitória do lixo é inevitável? As obras de Shakespeare são domínio público há séculos. É claro que há edições lamentáveis de “Hamlet”. Mas elas são dominantes? Um único herdeiro decide melhor o futuro de uma obra do que a grande comunidade de pessoas que ama essa obra?

A lei do direito autoral nasceu buscando equilíbrio entre os interesses legítimos dos autores e aqueles da sociedade que pode ser beneficiada pela obra desses autores (repito: essa obra sempre é criada a partir do acúmulo de experimentações artísticas feitas por toda a Humanidade). Quando um escritor é tão genial quanto James Joyce (substitua James Joyce – aqui e em todo resto deste texto –  pelo nome do seu Gênio literário preferido, dá no mesmo), seus escritos se misturam com nossas vidas, com as maneiras como vemos o mundo, de forma que passamos a não saber mais diferenciar o que é dele e o que é nosso. Eu não seria a pessoa que sou se não tivesse lido James Joyce. Meu mundo é o mundo de Joyce. Em outras palavras, nem um pouco exageradas: Joyce é meu também. E a culpa é do próprio Joyce: não é todo dia que surge um criador como ele no mundo. Fico pensando nos inúmeros filmes, peças, games etc. que poderiam já ter sido criados a partir de seus escritos, enriquecendo a cultura planetária.

Nada contra a pessoa de Stephen Joyce. Existe uma lei, que deve ser cumprida. Essa lei diz que os herdeiros podem decidir o que vai ser feito com as obras até (depende do país) 70 anos após a morte de seus autores. Mas podemos questionar se a lei está realmente cumprindo seus objetivos primeiros. A lei do direito autoral existe, e foi conquistada depois de muitas lutas democratizantes, para que autores possam produzir mais e melhor, aumentando em última instância a riqueza cultural da sociedade. O problema é que com aumento injustificável do prazo de proteção e com cada vez mais poderes para os detentores dos direitos (que muitas vezes não são apenas os autores, mas as empresas para as quais esses autores trabalham) o objetivo final da lei (o aumento da riqueza cultural geral) tem sido ignorado ou pervertido. Assim estamos sendo levados a uma situação na qual o próprio direito autoral está ameaçado, pois haverá cada vez menos possibilidade de criação, menos autores, e menos arte.

Que os próprios autores tenham temporário monopólio legal – e proteção social para garantir esse direito – de comercializar suas obras, isso foi uma inovação/experiência jurídica que já provou ter sido benéfica igualmente para esses autores e para suas culturas. (Porém, não aceito de maneira alguma o argumento que diz que sem incentivos econômicos as pessoas deixariam de criar. Durante a maior parte da história artistas produziram maravilhas sem leis de direito autoral. Obviamente muitos tiveram que se submeter à baixa vassalagem de mecenas poderosos e inescrupulosos. Mas as submissões recentes diante de gravadoras e estúdios de Hollywood não foram, em muitos casos conhecidos, menos aviltantes. Somos capazes de inventar soluções melhores para garantir interesses de todos.)

Um dos aspectos legais que me parece difícil de compreender é a necessidade de estender esses direitos para 70 anos depois da morte dos autores. São cada vez mais raros herdeiros que entendam a importância social de sua herança, sem tratá-las apenas como produtos a serem explorados até o último centavo. Só sabem repetir o “não pode” ou o “custa tanto”, deixando advogados e contadores avaliarem os méritos culturais das propostas que recebem. Esse perrengue cultural todo não resulta em mais obras, já que os autores morreram. E tudo acaba contribuindo para um sentimento de antipatia diante de qualquer menção ao direito autoral, visto erroneamente como capricho egoísta por parcelas cada vez maiores da opinião pública. Assim os “detentores” minam a legitimidade de seus direitos.

Outro elemento que torna nossa situação atual ainda mais confusa é a proliferação de novas ferramentas tecnológicas (ou estratégias pós-arte-conceitual) que tornaram várias formas de remix (textos, imagens, sons) os procedimentos básicos de alguns dos movimentos mais criativos da cultura contemporânea, herdeiros que somos de mais de um século de ataque cerrado contra a noção mais tradicional de autor. Problema cabeludo para a próxima semana, depois do carnaval. Boa folia para todos!

aspas e domínio público

11/02/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 10/02/2012

Assumo que o vacilo foi meu. Alguns trechos do texto anterior desta coluna não deixaram claro quem estava falando, o que eram palavras minhas ou das pessoas citadas. Havia muita coisa a ser dita. Para economizar espaço resumi pensamentos alheios. Sendo resumo, não usei aspas. O anjo que corrige meus textos, já tendo me poupado de erros feios, pensou que era esquecimento (uma letra da Legião Urbana descreve meu estado atual: “tenho andado distraído, impaciente” – mas nada indeciso…) e inseriu as aspas exigidas em manuais de redação. Então ficou parecendo que eram citações literais, quando não eram. Além disso, frases de minha autoria passaram para a “boca” de outras pessoas e já estão sendo retwitadas descontroladamente. Coitados do Nat Torkington e do Mike Loukides, a quem agora são atribuídas declarações mal-educadas de minha exclusiva responsabilidade. Preciso salvá-los da confusão. O esclarecimento vem a calhar também por outro motivo: é uma maneira de lembrar onde paramos, já que o texto de hoje é continuação do que foi dito na semana passada.

A Casa Branca, na sua resposta oficial para as petições anti-SOPA, deu o seguinte recado para os “provedores de plataformas da internet”: “Não limite sua opinião ao que está errado, pergunte a si mesmo o que é certo. […] Washington quer ouvir suas melhores ideias sobre como reprimir websites trapaceiros e outros criminosos que fazem dinheiro a partir dos esforços criativos de artistas e detentores de direitos americanos.” Nat Torkington respondeu enumerando tudo que o Vale do Silício e arredores criaram (a própria internet, a web, o MP3 etc.) e rosnou de volta: “What the hell more you want from us?” Eu, Hermano, acrescentei que agora “é a vez das indústrias de conteúdo gastarem alguns neurônios para continuarem relevantes no admirável mundo novo. Vão se catar!”

Mike Loudikes, outro prejudicado pelas aspas, escreveu artigo contundente acusando a indústria de conteúdo de atuar como pirata, tentando privatizar o domínio público. Porém, a comparação com outros ramos industriais (“Muitas empresas de conteúdo degradam o domínio público, assim como siderúrgicas poluem o ar e a água, também bens comuns.”) foi invenção – indignada – minha.

Estava criando a partir das ideias dos outros, que me estimulam a ter minhas ideias, nesse caso nada originais: já foram ditas com outras palavras por outros autores. Essa ecologia de ideias – umas convivendo com as outras, e às vezes umas comendo as outras (como dizia o Manifesto Antropofágo: “só me interessa o que não é meu”) – é o fundamento de um ambiente criativo realmente fértil. Óbvio, precisamos de regras claras: nunca trabalho com ideias dos outros sem citar as fontes, e por isso estou aqui corrigindo os erros nas citações da coluna passada. Por isso também toda legislação de direito autoral tem vários artigos sobre “limitações” (ver Capítulo IV), autorizando usos que não são ofensas aos autores. É só por causa dessas limitações previstas na lei que podemos citar pequenos trechos “do que não é nosso” em nossas próprias obras. A troca de ideias seria impossível se fosse necessário, para cada citação, obter a autorização oficial dos detentores dos direitos das obras citadas.

Criando limitações a lei reconhece (pena que a legislação brasileira não torne esse reconhecimento explícito – as limitações aparecem sem justificativas) que as obras de arte não são objetos materiais comuns, possuindo funções sociais, e foram geradas a partir do acúmulo de conhecimento produzido pela Humanidade. Dizendo isso, eu e a lei não estamos desvalorizando o criador individual genial. Pelo contrário: criadores individuais realmente geniais são raros. A sociedade, reconhecendo que precisa tanto deles, criou esse regime extraordinário e generoso que determina que, mesmo as ideias sendo de todos, os autores têm o monopólio da comercialização de suas obras (objetivação originais de ideias), podendo viver dessa criação. Mas diferentemente dos bens materiais (uma casa, um carro, um iPad etc.), a obra de arte, depois de um tempo, cai necessariamente em domínio público, pois assim poderá mais facilmente e sem restrições iluminar outras mentes capazes de produzir mais arte. A Disney, por exemplo, criou maravilhas a partir do domínio público dos contos de fadas dos irmãos Grimm que por sua vez se inspiraram em folclore europeu e assim por diante.

O domínio público tem que ser cuidado por todos como um bem precioso. Para tornar minha argumentação mais vibrante, fiz a comparação com o ar, com a água, outros bens essenciais para nossas vidas. Claro, é comparação superficial. Quem quiser saber mais deve ler “O domínio público no direito autoral brasileiro”, livro de Sérgio Branco a ser lançado em breve (será também obra em domínio público, podendo inclusive ser explorada comercialmente por outras pessoas), que analisa o assunto com grande profundidade e seriedade. Sua leitura reforça minha certeza: devemos ficar atentos e fortes, pois – por todo lado – há propostas de novas leis trapaceiras que querem sim privatizar partes cada vez maiores do domínio público seja estendendo prazos de proteção de obras ou abandonando as “limitações” e o “fair use”. Caso aprovadas, podem tornar qualquer tipo de criação inviável, a não ser a preço de ouro. Esta conversa continua na próxima sexta-feira.

direito autoral novamente

04/02/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 03/02/2011

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: por vacilo meu, algumas aspas apareceram em lugares inapropriados no texto impresso no jornal (meus queridos editores, com as melhores das intenções, tentando me ajudar/corrigir, colocaram aspas onde não havia nenhuma). Na tentativa de tudo ficar mais claro separo aqui o que é ideia “minha” daquilo que retirei – também com muita liberdade – dos autores citados. Seguindo os links para os textos originais, leitores(as) deste blog poderão conferir se fui fiel ou não às palavras alheias.

Direito autoral: tento não escrever essas duas palavras por aqui, para não ser acusado de colunista de um assunto só. Pouco adianta: a realidade vive me provocando com SOPAs, ACTAs e outras imbecilidades. Esses projetos de leis partem do seguinte pressuposto: a indústria da pirataria está a ponto de dominar o mundo; para combater essa ameaça, precisamos de urgentes medidas de exceção, de guerra (por isso sua propaganda tenta nos fazer acreditar que “a pirataria financia o terrorismo”). Então, por “questões de segurança nacional” ou “para salvar empregos”, governos – de forma pouco transparente – querem aprovar artifícios policialescos que podem determinar subitamente o fechamento de serviços da internet ou a prisão de pessoas, antes que tenham a possibilidade de defesa (o SOPA, por exemplo, obrigaria os acusados a recorrer em tribunais americanos, pagando os custos de advogados americanos).

Não estou aqui para defender os piratas. Sei que a pirataria, quando é pirataria mesmo, precisa ser combatida. Porém, não vejo razão para a criação dessas leis especiais para o combate, sobretudo se colocam liberdades básicas da democracia em risco.

Ninguém conhece ao certo o tamanho e o poder da pirataria. Os números que jornais favoráveis ao endurecimento das leis teimam em repetir (250 bilhões de dólares anuais! menos 750 mil empregos!) são muito suspeitos: não se sabe de onde surgiram, em que estudos estão baseados ou qual a metodologia usada nesses estudos (geralmente financiados por órgãos da indústria que se diz vítima da pirataria). Além de declarações questionadoras como a de Neil Young (que disse esta semana que “a pirataria é o novo rádio”), tenho lido vários artigos que revelam outra situação, onde o impacto da pirataria não seria tão grande quanto afirmam os autores das novas leis (muitas vezes atendendo apelos de quem deu dinheiro para suas eleições).

Julian Sanchez, pesquisador do Cato Institute (think tank “dedicado aos princípios de liberdade individual, governos limitados, mercados livres e paz” – portanto, nada comunista), publicou recentemente texto mostrando que, no meio da recessão atual, na verdade as indústrias de conteúdo estão bem, gerando empregos e produtos, se comparadas com outros setores econômicos. Números contra números, com várias interpretações – o que prova que nada é tão evidente assim, e não a ponto de necessitarmos de legislações draconianas para nos salvar (nós, defensores do estado de direito) de uma suposta barbárie iminente.

No lugar de gastar dinheiro (muitas vezes público) e perder sua credibilidade lutando contra o bode expiatório da pirataria (todos no fundo sabem: medidas como o SOPA não vão conseguir eliminá-lo), a indústria de conteúdo poderia trabalhar para aproveitar as enormes oportunidades que a cultura digital criou para a produção cultural planetária. A Casa Branca, quando fez manobra para se afastar do SOPA publicamente (pensando na reeleição de Obama), tentou empurrar o problema adiante, convocando o povo da internet a apresentar soluções. Nat Torkington, pioneiro da web na Nova Zelândia, respondeu, no O’Reilly Radar, com mais ou menos estas palavras: inventamos a internet, a web, o MP3, o MP4, o wifi, o comércio eletrônico, o PayPal etc – o que mais você quer de nós? Eu, Hermano, acrescento: Agora é a vez das indústrias de conteúdo gastarem alguns neurônios para continuarem relevantes no admirável mundo novo. Vão se catar!

Mas o que as tais indústrias fazem além de nos ameaçar com prisão se continuarmos até a colocar links em nossos blogs para sites onde pode haver pirataria? Mike Loukides, também no O’Reilly Radar, retrucou com palavras que resumo assim: piratas são vocês, que fazem lobby fraudulento para aprovar no congresso legislações que privatizam o domínio público, roubando benefícios que poderiam ser de todos. Novamente eu, Hermano, cometo a ousadia de acrescentar: Muitas empresas de conteúdo degradam o domínio público, assim como siderúrgicas poluem o ar e a água, também bens comuns. Devem ser punidas e não apoiadas com novas leis.

Em coluna sobre o sucesso de Michel Teló, escrevi que o domínio público é destino inescapável para a totalidade da criatividade humana. Isso não é novidade da cultura digital. Sempre foi assim. Só há criatividade a partir do domínio público, da livre circulação das ideias. Estou aqui inteiramente de acordo com os pensadores que formularam as primeiras legislações do direito autoral, como Thomas Jefferson, um dos pais da democracia americana. Nenhum deles equiparava bem material e bem imaterial ou achava que autores são proprietários eternos de suas criações artísticas. As criações artísticas são propriedade da humanidade. Isso é ponto pacífico, consenso. Quando surgiu a ideia de direito autoral, a sociedade apenas concedeu, para os autores, o monopólio temporário de utilização comercial das obras de sua autoria, tendo em vista poderem ter algum conforto material para possibilitar a criação de outras obras, que no futuro vão enriquecer o patrimônio comum.

Sempre foi assim: o monopólio de comercialização é temporário. Pois ideia é sempre criada a partir de ideias dos outros. E ideia é diferente de objeto material. Você não pode ter meu carro. Mas você pode cantar a mesma música que estou cantando, no momento em que canto essa música. Você pode me proibir de cantá-la, mas não pode apagá-la de minha memória, ou da memória coletiva. Lembre-se disso. Vou começar a próxima coluna a partir desse lugar comum.

sem Camões

04/02/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/01/2012

OBS: Que boa coincidência! No dia em que este texto foi publicado a IMCS anunciou a reabertura da Livraria Camões para breve (ver a notícia do jornal Público). Vitória de um grande movimento que lutou bastante para que isso acontecesse. Vamos ficar atentos para os planos para a nova Camões. Tomara que conquiste papel ativo na interação entre todos os povos que se expressam na língua portuguesa. Há muitos projetos importantes, quase todos pequenos, para aumentar a interação entre os nossos vários mercados editorais.  A Camões pode se tornar vitrine/laboratório decisivo para suas conquistas.

Se os protestos – reais e virtuais – não derem resultado, quando terminar este mês de janeiro serei um dos órfãos da Livraria Camões, que recebeu ordens para fechar suas portas no dia 31. Torço ainda para a situação ser revertida. Li que na semana passada o Partido Socialista português pediu esclarecimentos sobre a decisão ao governo do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Tomara que não vire briga inútil, mais para eleitor ver, entre situação e oposição. O assunto se transformou em questão partidária pois a Camões carioca é mantida pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda (INCM), órgão governamental lusitano. Seu “director de marketing estratégico” (não tenho paciência para esses títulos nobres do mundo de negócios pós-MBAs), Alcides Gama, declarou para a Agência Lusa que “a livraria desempenhou um papel muito importante na divulgação dos livros dos autores portugueses no Brasil, só que os tempos mudam”. Ele acredita que, hoje. esse serviço pode ser prestado de forma mais eficaz através das novas tecnologias.

Poderia até concordar com o Gama. Como os leitores desta coluna sabem, sou fã das tais novas tecnologias, a ponto de já ter sido acusado de apoio acrítico ou deslumbrado para qualquer cibercoisa. Só que nesse caso fico bem desconfiado: onde o serviço novo e tecnológico está sendo prestado? Entrei agora na loja do site (ou sítio, como os portugueses preferem chamar) da INCM e descobri um ambiente bem menos acolhedor ou de fácil consulta que a loja física do Edifício Central. Não há nada equivalente às ferramentas de descoberta de uma Amazon, como “pessoas que compraram este livro também compraram aqueles”. Se o visitante não tiver um objetivo claro de compra, vai sentir dificuldade para passear pelo acervo da loja virtual. Na Camões eu sempre entrava com espírito aventureiro, queria ser surpreendido pelas novidades de Lisboa que as editoras brasileiras não lançavam. Sempre saia de lá – mesmo recentemente quando era evidente a falta de renovação do acervo nas prateleiras – com livros que reforçaram meu orgulho de ser parte do mundo da língua portuguesa.

Então repito minha pergunta: quais são os planos da INCM para o Brasil? O que vai substituir a Camões? Por que a notícia do fechamento da loja física não veio acompanhada pelo anúncio dos planos para melhor distribuição da produção editorial lusitana no Brasil? Falar que as novas tecnologias estão aí para serem usadas é fácil; difícil é colocá-las para nos ajudar na prática.

Mais uma pergunta: por que os planos virtuais (caso existam) precisam descartar a existência de uma sede física? A loja da vida real poderia passar a ser farol/chamariz para a navegação e consumo na internet. Quando novas grandes livrarias físicas são inauguradas com sucesso na cidade é estranho ouvir que um ponto e um “brand” (para usar termos marqueteiros) tão tradicional quanto os da Camões não tenham mais nenhum valor e possam ser jogados no lixo, sem nenhuma reciclagem.

Tenho certeza: com o fechamento da Camões a distância entre o Rio e Lisboa aumentará muito – e não seria prudente empossar o iTunes e a Amazon como nossos únicos embaixadores editoriais transatlânticos. Um exemplo bem real: ando querendo ler Teixeira de Pascoaes. Já vasculhei muitas livrarias da cidade e não encontrei nada de sua autoria. Não tive tempo de passar na Camões, mas não achava que isso seria urgente. Agora é.

Minha curiosidade sobre os escritos de Teixeira de Pascoaes foi instigada por um livro que talvez se torne minha última compra na Camões, feita em dezembro do ano passado. Atravessei a porta da loja sem nenhum desejo especial. Quase comprei uma monografia sobre o compositor Luigi Nono, obra que namoro há anos, mas que considero um pouco cara (os livros na Camões não são exatamente baratos – se a INCM fosse realmente esperta, um plano de barateamento das obras importadas seria mais que bem-vindo e eficaz). Acabei fascinado pelo índice de um livro (é preciso investigar a fundo todos eles, pois as capas que a INCM lança não são muito sedutoras – pelo contrário: elas até trabalham para nos afastar das páginas internas – disso seu “marketing estratégico” deveria cuidar melhor), que tive que trazer para casa, sobretudo depois que fui surpreendido por um bom desconto: era o “Do Finistérreo Pensar”, de Paulo Alexandre Esteves Borges, um discípulo de Teixeira de Pascoaes.

Estou penetrando no livro aos poucos; é muito denso, lotado de boas ideias e referências para mim até então desconhecidas. Tenho vergonhosas lacunas na minha formação: assim como nunca li Teixeira de Pascoaes, também não tinha prestado atenção em Nikolai Berdiaev ou Stanislas Breton, autores que servem de base para momentos possantes de “Do Finistérreo Pensar”. Há também um capítulo – agora mais atual, com o sonho europeu acabado – intitulado “Do Brasil no imaginário escatológico ao imaginário escatológico brasileiro”.

Paulo Alexandre Esteves Borges (depois do livro passei a acompanhar seu blog) faz parte de uma linhagem de pensadores visionários portugueses que – como nosso eterno professor Agostinho da Silva, ou o padre Antônio Vieira – têm a ousadia (também mística) de pensar um futuro menos periférico para o mundo da língua portuguesa. Sem a Livraria Camões a conquista desse futuro se torna ainda mais quixotesca.


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