Archive for março \31\UTC 2012

bling blue

31/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 30/03/2012

Dama do Bling é o melhor nome de cantora já anunciado na face da Terra ou do YouTube. Na minha exaltada opinião, só é comparável a Tati Quebra-Barraco ou Poly Styrene. Mais incrível: ela é moçambicana e sua música é fenomenal. Fico – eu que tenho a pretensão de estar em dia com novidades pop lusófono – envergonhado de confessar que só ouvi sua voz pela primeira vez há poucos dias. E por caminho tortuoso, em matéria do MTV Iggy sobre a extrema vitalidade do rap na Nigéria. O texto, sem dar importância à informação, lá numa dada hora, dizia que Sasha P, primeira dama do hip hop local, havia gravado com uma tal Dama do Bling. Meu alarme de curiosidades pós-modernas tocou com vibração máxima. Epa! Que venerável dama é essa? Como pode haver alguém no mundo com esse nome vitoriano/kraftwerkiano sem que eu tenha sido avisado?

No YouTube encontrei o clipe (produzido pela Bang Entretenimento e “direcionado pelo DJ Marcell, o melhor da África Austral”) da “Dança do remexe”, de quatro anos atrás. Era prova que eu e o Brasil estamos totalmente desatualizados: poderia ter sido hit por aqui tão poderoso quanto “Dança kuduro”, de Daddy Kall e Latino. A primeira imagem é daquele tipo chamado de “money shot” pelo business de Hollywood, filmada para fazer o queixo do público cair provando orçamento farto. Um helicóptero pousa e é recebido por uma frota Mercedes-Benz. Logo aparece a Dama do Bling rebolando com figurino, cabelo e maquiagem de Nicki Minaj (não sabe quem é? foi homenageada até com uma Barbie com a cara dela), antes de Nicki Minaj fazer sucesso. Gosto até da letra: “vamos juntos fazer o chão saltar/ Dama vai, dança, requebra, não sossega/ fecha os olhos como se fosse cabra cega”.

Tive a honra de, em 1997, ter visto o primeiro show de rap realizado em Maputo, mais precisamente no Centro Cultural Franco-Moçambicano, situado na Praça da Independência, esquina com avenida Samora Machel, a meio caminho entre as avenidas Karl Marx e Vladimir Lênin (o registro da noitada histórica faz parte do documentário Além-Mar). O que mais me impressionou, ao olhar o público vestido de Wu-Wear (marca de roupa do coletivo Wu-Tang Clan) foi constatar a velocidade da “alfabetização” da juventude local na linguagem do rap dos EUA, país que era considerado vilão número 1 pelos governos comunistas que sucederam os colonizadores portugueses. Vários garotos que entrevistei ainda tinham lembrança vívida do tempo em que até o uso de jeans era crime ideológico punido com reeducação em Niassa, a Sibéria escaldante nacional.

Esse show aconteceu antes da popularização da internet (lembro que a internet comercial brasileira só apareceu em 1995). Hoje conexões por computadores e celulares tornam possível a formação de cena de hip hop continental, como provam as parcerias da Dama do Bling com a nigeriana Sasha P (música excelente, vídeo sensacional – repare nos efeitos especiais de luta) ou a queniana Yvonne. Essa música eletrônica pan-africana já está pronta para fazer sucesso no resto do planeta. O jornal The Guardian decretou que o rap afro-híbrido é “o novo som do underground britânico” ou “a cena mais quente hoje no Reino Unido”. O DJ Abrantee deu nome para a moda: afrobeats, com s para diferenciá-lo do afrobeat de Fela Kuti e outros avós dos rappers de Lagos.

Além dos elogios sempre suspeitos dos trend hunters ingleses, há sinais mais fortes de alavancagem comercial da turma da Dama do Bling. Exemplos eloquentes: Kanye West contratou o nigeriano D’Banj – autor de Oliver Twist, o hit dançante mais divertido de 2012? – para seu selo G.O.O.D. Akon assinou com Sarkodie, de Gana. Para a geração de Fela, Franco e Ladysmith Black Mambazo, esse reconhecimento mundial demorou décadas. Hoje, a internet tornou tudo praticamente instantâneo, sem precisar da grande mídia ou das grandes gravadoras para fazer a informação circular. Agora são os “grandes” que correm atrás dos “pequenos”, e cenas culturais surpreendentes nascem – muitas vezes se beneficiando daquilo que os grandes chamam de pirataria – em todos (e entre todos) os continentes.

Há cenas que praticamente só existem na internet e nas ruas/pistas de dança, sem mediação da mídia tradicional. Veja este domingo, no Esquenta!, o MC Nego Blue acompanhado pela banda do DJ Marlboro. Nego Blue me era tão desconhecido quanto a Dama do Bling. Quem me chamou a atenção para sua música foi Renato Barreiros, que trabalhou como pesquisador nesta temporada do Esquenta! e antes teve papel importante na evolução da versão paulistana do funk carioca quando fazia parte da equipe da subprefeitura da Cidade Tiradentes, extremo leste da cidade de São Paulo. Naquele período pioneiro o poder público, ao contrário do que aconteceu no Rio, soube dialogar com o novo ritmo. Renato combateu os preconceitos dos outros políticos e organizou festivais oficiais. Quem diria: o funk carioca é hoje o som da periferia paulistana, com sotaque local.

Pena: notícias recentes mostram que a polícia chega agora nos bailes já detonando bombas de efeito moral. Tal atitude pode empurrar tudo para a marginalidade. Perde-se assim enorme oportunidade de aproximação com a nova cultura jovem. Nomes como MC Nego Blue, MC Dedê e MC Boy do Charme têm clipes com vários milhões de views no YouTube e agendas lotadas de shows já em vários estados brasileiros. O poder público não aprende com seus próprios erros e acertos. Funk vai voltar a ser sempre assunto para a secretaria de segurança, desprezado pela “cultura”?

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futuro

24/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 23/03/2012

Já conclui a série sobre direitos autorais. Mas faltou dizer: houve um tempo em que o Brasil era vanguarda no debate sobre o futuro da cultura digital. O próprio Richard Stallman, que pode ser chamado de pai do software livre, reconheceu – na revista Wired – que nenhum outro país do mundo tinha governo mais comprometido com a democracia dos códigos cibernéticos. Cheguei a ver Stallman e Sarney abrindo o seminário “O software livre e o desenvolvimento do Brasil”, promovido pelo Congresso Nacional em 2003, início do governo Lula. Note bem: o software livre era visto como ferramenta de desenvolvimento, de produção de riquezas para a economia brasileira. Gilberto Gil, como ministro, também estava na mesa, e fez discurso conectando liberdade digital com enriquecimento artístico: era o momento em que o Brasil, seguindo também as lições dos movimentos antropofágicos e tropicalistas, poderia se transformar em laboratório capaz de propor soluções para a crise dos velhos modelos de negócios da indústria cultural mundial. Na plateia, eu imaginava estar vivendo dentro da letra dos Novos Baianos: “chegou a hora desta gente bronzeada mostrar seu valor”. Confesso aqui mais uma vez meu sebastianismo: sempre esperei que o Brasil tivesse missão central para cumprir no planeta. Nunca me contentei com a retaguarda.

Quase dez anos depois, constato que tudo ficou para o “país do futuro”. Claro, somos a tal sexta potência econômica, e continuamos dominando toda nova rede social virtual, mas parece que seguimos uma trilha de desenvolvimento pouco original, que esbarrará naqueles mesmos impasses que o mundo dito desenvolvido enfrenta agora. Quanto à experimentação com os códigos abertos da produção cultural, andamos para trás, para o passado. Deu medinho oficial do novo, bateu aquele apego à merreca conhecida, que ainda satisfaz a uma minoria. Para que gastar energias com propostas experimentais? É obvio: o barco está afundando, mas tem gente finge não ver a água entrando por todos os lados, pois dá muito trabalho organizar a operação de salvamento coletivo. Gente que prefere naufragar “dignamente”, ignorando a tempestade lá fora, ou a mudança radical da maré.

Que fazer para retomar a ousadia, para sair do culto da mixaria, para cumprir nossa missão? É preciso recomeçar conectando muita atividade dispersa. Que o marasmo oficial não nos engane: o Brasil continua produzindo muitos pensamentos e ações originais, mesmo sem a repercussão internacional da década passada. Citei aqui, semanas atrás, o livro “O domínio público no direito autoral brasileiro”, de Sérgio Branco. Houve problema engraçado no seu lançamento. A editora Lumen Juris foi corajosa aceitando lançá-lo como obra já em domínio público. Mas o licenciamento tradicional é tão automático que a primeira impressão do livro saiu com aquele aviso policialesco, que nos trata como suspeitos, contido em quase todos os produtos culturais: “É proibida a reprodução total ou parcial […] A violação dos direitos autorais constitui crime” etc. (Uma vez comprei um DVD e fui obrigado a ver três anúncios antipirataria – sem passar por eles eu não chegaria ao filme. Deve fazer sentido: quem compra o DVD não-pirata precisa também ser punido.) Mas agora o problema está resolvido e a obra finalmente chegou às livrarias. É leitura essencial para voltarmos ao debate levado a sério.

No capítulo final, Sérgio Branco levanta um aspecto preocupante do atual movimento de “privatização” do domínio público, que precisa ser levado em consideração por qualquer política cultural. Muitos acervos públicos passaram a fazer cada vez mais exigências, inclusive o pagamento de taxas, para o acesso a obras que estão em domínio público. Isso acontece, por exemplo, com a proibição de fotografar quadros que estão em museus (a explicação de que flashes danificam as pinturas não é suficiente para justificar esse tipo de regra, e em muitos casos já se tornou tecnicamente obsoleta). Mesmo quando pagamos por reproduções fotográficas das obras, temos que assinar contratos nos comprometendo a não usar aquelas fotografias comercialmente, ou mesmo cedê-las para terceiros. Há aqui tentativa sorrateira de restringir a ideia de domínio público apenas para utilizações não comerciais, o que é errado. O domínio público também se justifica tornando possível que qualquer pessoa possa ganhar dinheiro com aquilo que passou a ser da Humanidade. Foi assim que a Disney se enriqueceu (e também enriqueceu nossos imaginários) usando obras dos irmãos Grimm sem precisar pagar nada pelo uso totalmente comercial.

Tente hoje solicitar autorização em arquivos públicos do Rio para reproduzir uma foto de Augusto Malta, já em domínio público, num documentário sobre história da cidade. Muitos deles vão cobrar taxas diferentes (não importa se a diferença é grande ou pequena; é o princípio que está em jogo) se a utilização da foto tiver ou não finalidade comercial. Claro que essas instituições precisam de dinheiro para o trabalho de conservação. Mas esse é outro problema, exigindo outras soluções que nada têm a ver com direito autoral. Para manter o acervo ninguém precisa mudar a função do domínio público, que não prevê discriminação entre vários tipos de uso da obra. O domínio público é nosso, ninguém tasca: existe para incentivar novas criações – e criadores que possam viver de suas criações.

conclusão?

17/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 16/03/2012

Para concluir esta série sobre direito autoral, vou piratear dois pensamentos alheios, resumos dos maiores problemas da economia da cultura contemporânea, pós-digitalização de tudo. A primeira citação é de Paul Tassi (obrigado, Pedro Mizukami, pelo link, via Google+), que escreve sobre a indústria de jogos eletrônicos na revista Forbes: “Compreenda que a pirataria é um problema de serviço”. Com minhas palavras: não culpe os piratas, a culpa é sua – você, produtor de conteúdo, que não sabe encontrar uma maneira barata e eficiente de vender seus produtos para seus consumidores, aproveitando as facilidades que a internet criou. Simples assim: no lugar de gastar dinheiro fazendo lobby para o governo aprovar leis mal formuladas, querendo eternizar modelos de negócios obsoletos, vá trabalhar de verdade.

A segunda citação é mais surpreendente. Vem de artigo de Michel Bauwens, fundador da Peer-to-Peer Foundation (o termo peer-to-peer, ou P2P, se popularizou primeiro entre desenvolvedores de redes de computadores, criando arquiteturas descentralizadas para compartilhamento de arquivos e tarefas – hoje se refere também ao compartilhamento descentralizado de cultura de maneira geral), publicado no site da Al Jazeera (obrigado, José Murilo, pelo link, também via Google+): “Os mercados são definidos como maneiras de alocar recursos escassos e o capitalismo é de fato não apenas um sistema de ‘alocação’ da escassez mas também um sistema de criação da escassez, que só pode acumular capital reproduzindo e expandindo as condições da escassez. Quando não há nenhuma tensão entre oferta e procura, não pode haver mercado e acumulação de capital. O que os “peer producers” estão fazendo […] é criar uma abundância de informação facilmente reproduzível […] Isso não pode ser diretamente traduzível em valor de mercado, pois não é de maneira nenhuma escasso – é superabundante.” (Bawens continua seu texto defendendo a opinião de que empresas como Facebook e Google não transformam diretamente essa produção coletiva em lucro – não tenho espaço aqui para seguir sua linha de raciocínio – para saber mais leia o texto completo).

Sempre repito nesta coluna: estamos reclamando de barriga cheia (que coisa mais feia, como canta Zeca Pagodinho) – nosso problema não é ter pouco, mas sim ter demais. Na base dessa fartura há ainda um novo relacionamento do público com o mundo cultural como um todo, situação que a indústria de entretenimento tradicional não sabe como encarar – ou não encontrou estratégia para se inserir no novo momento como elemento decisivo; do centro passa cada vez mais para a periferia do gosto público, ou da produção pública (já que o público agora é também produtor). Talvez suas músicas vendam menos, não por causa da pirataria, mas porque o público deixou de se interessar avidamente por elas, e encontrou outras maneiras divertidas de fazer/consumir arte.

Nessa nova cadeia produtiva, há dois aspectos que me parecem mais relevantes. O primeiro tem a ver com apropriações criativas da produção de outros autores. No ambiente “escasso” das artes plásticas, isso tem longa história, do bigode que Duchamp colocou na Mona Lisa ao processo contra Richard Prince pelo uso das fotos dos rastafaris. Hoje, o que era recurso erudito virou diversão de massas: com softwares gratuitos de edição de vídeo e som, e maneiras fáceis de copiar conteúdo dos outros, todo mundo pode produzir arte remixada e divulgar o resultado para o planeta.

E todo mundo pode também utilizar esses programas, que não exigem estudo anterior nenhum, para – continuando a usar música como exemplo – cantar, tocar e deixar que o computador afine ou coloque no ritmo o resultado. Suzanne Lainson, estrategista de marketing, já apontou as consequências dessa abundância em termos de negócios: “muitas pessoas fazendo alguma música, mas muito poucas pessoas com fãs pagantes em número suficiente para viver de música. Isso é OK, no entanto. Se todos puderem fazer música, é um mundo melhor.” Retornamos, por meios digitais, ao mundo folclórico, onde produzir arte e beleza era uma atividade de todos e não de uma classe especial de seres talentosos (esses sempre existirão, e darão um jeito para viver do seu talento especial).

Lembro o que escrevi na minha dissertação de mestrado sobre o funk carioca, lá no final dos anos 80: “Os dançarinos têm uma relação ainda mais descartável com as músicas que tocam no baile. Como já disse, eles não conhecem o nome dos sucessos nem dos artistas […] Geralmente não têm discos em casa […] O funk […] é a música que mais gostam de dançar. Não muito mais que isso.” Naquela época não havia funk de baile produzido no Rio. Hoje milhares de dançarinos também gravam seus pancadões. Porém a relação com essa produção continua funcional. É música para animar a festa, não para a eternidade. E isso não quer dizer que seja música pior do que aquela que os críticos consideram eternas.

Sites como o Megaupload serão cada vez mais necessários, não para armazenar conteúdos piratas, mas para fazer circular essa enorme produção: sem eles muitas novas cenas musicais contemporâneas, totalmente independentes das gravadoras, não existiriam. Ninguém vai conseguir parar esse processo. O pessoal da indústria de conteúdo precisa deixar seus escritórios e pesquisas de laboratório e ir para internet (a nova rua), onde o futuro já é.

serei contraditório?

10/03/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 09/03/2012

No final de qualquer tarde, um dos meus programas cariocas preferidos é deixar o barulho dos congestionamentos do centro da cidade e subir a ladeira do Mosteiro de São Bento, para penetrar em outra dimensão, na celebração do Ofício Divino das Vésperas, onde reina a calma do canto gregoriano, como se a realidade lá fora por alguns minutos não existisse, e meu ego se dissolvesse na fumaça dos incensos. É raro ter tempo para me dar esse presente, que tem efeito mais poderoso que qualquer lexotan. Mas mesmo quando não estou na igreja, a lembrança de que os monges estão lá, como infalivelmente estão há séculos, me conforta. É tranquilizador saber que há coisas que não mudam no mundo, ou mudam muito vagarosamente. Os monges funcionam na minha estranha cabeça como um porto seguro: o que há em volta muda (inquietos, construímos e destruímos perimetrais…), mas eles permanecem ali entoando os mesmos cânticos, na mesma hora.

Gosto do fixo, preciso do fixo. Porém, sou como Gilberto Freyre, “o mais contraditório dos homens”. Venero – com o mesmo fervor – o fluido, o inconstante, a mudança radical. Quando uma pessoa vem, com muita convicção, elogiar o sim, fico cabreiro, desconfiado, ou simplesmente me divirto defendendo o não. E vice-versa, tanto faz. Quando estou entre ateus, encontro todas as razões para ser crente. Quando estou entre crentes, fica fácil perceber o que há de inconsistente na crença. Isso pode ser terrível, estou sempre um pouco “por fora”, nunca totalmente “dentro”, integrado. Mas já me acostumei. Não saberia escolher entre o livro e o blog. Na verdade, não entendo porque teria que escolher. Por que não posso ter os dois, um complementando o outro? Além disso, tenho certeza que existe no mundo lugar para amantes de livros e amantes de blogs. As duas tribos não precisam viver em guerra.

Tento respeitar o ponto de vista dos meus adversários (tenho diferentes adversários, dependendo da ocasião). Nesta série de textos sobre direito autoral e domínio público busquei o tempo todo o equilíbrio.

Sei que sou identificado com um dos lados do debate, o que não consegue enxergar vantagens, nem para os autores, no endurecimento das legislações atuais dos direitos autorais. Concordo inteiramente com Tim O’Reilly quando ele declara: “Esses ataques legislativos não são motivados por um pensamento claro sobre o futuro da internet ou da economia global, mas em vez disso querem proteger indústrias arraigadas com modelos de negócios ultrapassados. No lugar de se adaptar e competir com novos e melhores serviços, essas companhias querem que o congresso lhes dê cobertura.”

Isso não quer dizer que estou do lado do Google ou do Facebook, muito menos que seus executivos sejam meus heróis libertários. Claro que as empresas bilionárias da internet não são nada coitadinhas – elas estão lutando por seu dinheiro, tal qual Hollywood. Até agora tenho mais a agradecer a Hollywood do que ao Facebook. Tenho pena de ver uma indústria tão criativa quanto aquela do cinema americano, que já iluminou tanto minha vida, terminar tão melancolicamente, defendendo leis que todos sabem que são mal formuladas, perigosas para liberdades democráticas básicas e para o futuro da inovação na indústria do entretenimento. Deixar isso claro não me torna aliado do Facebook, da Apple, do Google. Já escrevi aqui sobre como essas empresas querem todas transformar a internet em seus “jardins murados”, onde terão controle sobre todos nossos passos.

Outro dia li estarrecido notícia na qual o Facebook revelava as músicas que as pessoas mais ouvem quando começam ou terminam seus namoros. Parecia bobagem, informação inútil ou pitoresca. Interpretei o texto como uma chantagem, como se a empresa (que provavelmente estava demonstrando sua força com fonte para futuras pesquisas de marketing, de valor incalculável) nos dissesse: conheço tudo de suas vidas, seus desejos mais secretos, sua sensibilidade mais básica – vocês estão em nossas mãos. Anúncio de um totalitarismo soft e divertido? Servidão voluntária refinadíssima. Imagine o que o Google pode saber sobre cada um de nós, se quiser. Depender de uma só ferramenta de busca, propriedade de uma única empresa, é um erro e um risco enorme (como antes era depender de um único sistema operacional, da Microsoft – por isso minha campanha cada vez mais atual pró-software livre). Conclusão: precisamos sim de Marcos Civis da Internet, realmente democráticos, que nos protejam de todas essas ameaças, vindas de Hollywood ou do Vale do Silício.

Vou repetir o que já disse por aqui: é preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a vida digital. Até porque, queiramos ou não, não haverá vida daqui para frente sem o digital, e o digital conectado, em rede, cada vez mais micro, misturado com tudo, trocando informações mesmo entre objetos. Não adianta se meter em disputa boba, tipo “a internet só produz lixo” ou “a mídia tradicional só produz lixo”. As duas produzem muito lixo ao lado de várias maravilhas. Centralização e descentralização vão ter que aprender a conviver, uma respeitando a outra. A centralização foi padrão dominante por muito tempo (mas não durante toda a história da Humanidade) porque não havia ferramentas que tornassem a descentralização barata, eficiente e fácil. Agora essas ferramentas são abundantes. Podem ser usadas para o bem e para o mal. Vamos lutar para que o bem prevaleça.

condenação silenciosa

10/03/2012

texto publicado no caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, no dia 25/04/1999, página 5

A Enciclopédia da Música Brasileira é uma obra fundamental, essencial, dessas que não pode faltar em nenhuma biblioteca. O lançamento de sua segunda edição atualizada, no final do ano passado, deveria ter sido saudado como um dos mais importantes acontecimentos editoriais do país. Tendo comprado um raro exemplar da primeira edição num sebo, sua consulta foi de enorme valia para inúmeros trabalhos que fiz desde então. Não existe outra publicação que traga tantas informações sobre tantos gêneros da música erudita, popular e folclórica produzidos no Brasil. Como tantos outros fãs dessa Enciclopédia, eu esperava ansioso a sua atualização.

Valeu a pena esperar. A nova versão inclui verbetes como Chico Science & Nação Zumbi, Antônio Nóbrega e Ratos do Porão, além dos últimos feitos das carreiras de Hans Joachim Koellreuter, Ronnie Von e Moreira da Silva. Mas só nas últimas semanas é que notei que alguma coisa estava faltando. Tinha uma entrevista marcada com o É o Tchan. Abri a Enciclopédia na letra E, quase automaticamente, como sempre faço nessas ocasiões. Nada. Achei que podia estar em Gerasamba. Nada. Fiquei cismado. Retomei minhas investigações em outros setores da chamada Axé Music. Chiclete com Banana… Nada. Netinho… Suspirei aliviado… Mas que nada. Tem um Netinho dos Incríveis e outro da Banda de Pau e Corda. Mudei de estilo, fui para o novo pagode. Raça Negra… Nada. Negritude Júnior… Nada. Art Popular… Nada.

Tentei imaginar as razões para tantas ausências. Sou otimista, sempre procuro justificativas razoáveis para os enganos alheios. São artistas muito recentes, pensei. Ora, mas tem Chico César que só lançou o primeiro disco em 1995. Tem Pato Fu. Tem Gabriel O Pensador. Busquei outras desculpas, mesmo pouco convincentes. Nenhuma delas me convenceu num grau aceitável. Tive que recorrer à pior hipótese: o silêncio é um julgamento de valor. Há artistas, que por mais discos que vendam, por mais amados que sejam pela maioria da população brasileira, não “existem” para os editores da Enciclopédia da Música Brasileira.

O silêncio, na quase totalidade (não digo absoluta totalidade porque pode haver alguma voz discordante que desconheço) da mídia cultural tida como séria, se converte no mais raivoso ataque. As mega-estrelas do axé ou do pagode são alvos de todos os tipos de xingamento por parte de “críticos” e assemelhados. A intolerância desvairada tem adquirido o tom de uma cruzada moralizante, em prol da “boa” música (que, por definição, é aquela que o “critico” gosta, a partir de critérios nunca seriamente discutidos). O jornalismo “cultural”, com toda a arrogância polêmica-adolescente-sub-paulo-francis que passou a lhe ser característica, decretou que o gosto do povo (manipulado, alienado, ingênuo, pervertido) está errado.

Nunca li um artigo que prestasse sobre o axé ou o pagode. O que se publica é uma coleção de opiniões pessoais (quem se interessa pelas opiniões “pessoais” desses “críticos”?) ou de informações-ilha-de-caras. Não houve investigações jornalísticas sobre os fenômenos sociais que criaram tanto esses gêneros musicais quanto o seu sucesso impressionante. As insinuações sobre a manipulação do mercado musical pela indústria fonográfica ou sobre o aumento do consumo cultural das classes populares pós-Real são chutes especulativos sem nenhuma base investigativa que os tornem algo mais do que conversa fiada.

É obvio: a “axé music” e o “novo pagode” (até os nomes com os quais essas músicas são denominadas são vagos e discutíveis) não surgiram do nada. O É o Tchan, por exemplo, tem conexões muito evidentes com tudo o que aconteceu na música baiana nessas últimas duas décadas, isso para não falar de suas conexões também evidentes com a música carnavalesca brasileira deste século, com o samba-duro do Recôncavo Baiano (e suas ramificações recentes nos “sambas” das festas juninas de Salvador dos anos 80, que acabaram migrando para o carnaval), com o candomblé (um de seus dois principais componentes é ogan, sua mãe é mãe-de-santo).

Do lado do “novo pagode”, analisar a biografia do pessoal do Art Popular, também apenas como um exemplo, é ter acesso a um fascinante repertório antropológico, que pode nos fazer compreender melhor as transformações da produção musical e das interações sociais na periferia da cidade de São Paulo nas últimas décadas: da formação de grupos de pagode em torno das quadras das escolas de samba paulistanas, passando pela divulgação do funk em bailes como o Chic Show, e pela explosão do mercado de trabalho para boys (todos os componentes do Art Popular foram boys), até chegar a uma nova maneira de pensar a questão racial brasileira (que dá na revista Raça) ou a questão da nova idéia de masculinidade (que dá no Vampeta, amigo do pessoal do Art Popular, na capa da revista G).

Quem quiser escutar os discos do Art Popular com alguma atenção pode também ser surpreendido (não precisa nem gostar, aliás a banda já tem um número suficiente de fãs, isto é, vários milhões deles) para além da “questão social”. Leandro Lehart, cantor, multi-instrumentista e compositor principal do Art Popular, é também um produtor musical com idéias muito interessantes, talvez algumas das mais interessantes da música brasileira contemporânea. Sua formação tem um pé no samba (o Art Popular, no início de sua carreira, acompanhava ídolos do “verdadeiro” pagode carioca, como Jovelina Pérola Negra e Almir Guineto, em suas apresentações paulistanas) e outro no pop de um Michael Jackson ou Prince ou Jorge Ben Jor. Seu ouvido treinado pelo pop é claramente de quem trata o estúdio como instrumento musical e laboratório de mestiçagens sonoras. Tanto que o último disco do Art Popular foi gravado quase todo em sua casa.

Desde seu segundo CD, Temporal, Leandro Lehart vem desenvolvendo um conceito por ele denominado, primeiro, Pop Samba Brasil, e depois, no título de seus dois últimos lançamentos, Samba Pop Brasil. Não se trata, como fazem outros grupos, de fazer versões pagodeiras de sucessos do rock ou do sertanejo. O pagode do Art Popular se mistura ao sertanejo, ao soul, ao flamenco, ao ragga, ao rap, aos sons ambientes, num processo meticuloso de articulação sonora. Essa estratégia chegou a seu momento mais arriscado no recém-lançado Samba Pop Brasil 2. Não vou nem fazer maiores comentários sobre as presenças de Billy Paul, do Take 6 e de um coral gospel do Harlem (gravado no Harlem) mixadas a várias canções desse CD. Quero me deter apenas em um faixa, a versão de Mata Papai, uma justa homenagem a um hit precursor da nova onda sambista-pop. A gravação começa com o próprio Leandro Lehart, com todo seu sotaque paulistano, explicando o que está acontecendo: “Povo brasileiro, Art Popular apresenta, do meu lado esquerdo Salgueiro, do meu lado direito, Olodum.”

É isso mesmo. Se o ouvinte usar o balance vai escutar numa das caixas de som a bateria do Olodum (gravada em Salvador), e na outra a bateria do Salgueiro (gravada no Rio de Janeiro), as duas com seus ritmos “tradicionais”. O canto foi gravado ao redor da piscina da casa de Leandro Lehart, com a reunião de dez fã-clubes de vários locais do Brasil. O samba carioca e o samba-reggae baiano aparecem em conciliação/confronto explícito, a partir de um encontro tecnológico articulado por um sambista de São Paulo. Nem o Mestre Jorjão, o diretor de bateria que introduziu a batida funk no sambódromo, ousou imaginar evento semelhante.

Então podem ser úteis o silêncio e a ignorância dos “críticos”. Assim o Art Popular continua sossegado a fazer suas experiências, sem a patrulha do “bom-gosto” ou da “tradição”, já que foi condenado a estar “fora” desse mundo. Melhor ainda: o povo também está fora desse mundo. Tudo se encaixa, povo e Art Popular. Como declara a capa de Temporal: “Nossa missão é levar entretenimento ao povo.” E completa: “É fazer com que as pessoas sintam o inesperado.”


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