serei contraditório?

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 09/03/2012

No final de qualquer tarde, um dos meus programas cariocas preferidos é deixar o barulho dos congestionamentos do centro da cidade e subir a ladeira do Mosteiro de São Bento, para penetrar em outra dimensão, na celebração do Ofício Divino das Vésperas, onde reina a calma do canto gregoriano, como se a realidade lá fora por alguns minutos não existisse, e meu ego se dissolvesse na fumaça dos incensos. É raro ter tempo para me dar esse presente, que tem efeito mais poderoso que qualquer lexotan. Mas mesmo quando não estou na igreja, a lembrança de que os monges estão lá, como infalivelmente estão há séculos, me conforta. É tranquilizador saber que há coisas que não mudam no mundo, ou mudam muito vagarosamente. Os monges funcionam na minha estranha cabeça como um porto seguro: o que há em volta muda (inquietos, construímos e destruímos perimetrais…), mas eles permanecem ali entoando os mesmos cânticos, na mesma hora.

Gosto do fixo, preciso do fixo. Porém, sou como Gilberto Freyre, “o mais contraditório dos homens”. Venero – com o mesmo fervor – o fluido, o inconstante, a mudança radical. Quando uma pessoa vem, com muita convicção, elogiar o sim, fico cabreiro, desconfiado, ou simplesmente me divirto defendendo o não. E vice-versa, tanto faz. Quando estou entre ateus, encontro todas as razões para ser crente. Quando estou entre crentes, fica fácil perceber o que há de inconsistente na crença. Isso pode ser terrível, estou sempre um pouco “por fora”, nunca totalmente “dentro”, integrado. Mas já me acostumei. Não saberia escolher entre o livro e o blog. Na verdade, não entendo porque teria que escolher. Por que não posso ter os dois, um complementando o outro? Além disso, tenho certeza que existe no mundo lugar para amantes de livros e amantes de blogs. As duas tribos não precisam viver em guerra.

Tento respeitar o ponto de vista dos meus adversários (tenho diferentes adversários, dependendo da ocasião). Nesta série de textos sobre direito autoral e domínio público busquei o tempo todo o equilíbrio.

Sei que sou identificado com um dos lados do debate, o que não consegue enxergar vantagens, nem para os autores, no endurecimento das legislações atuais dos direitos autorais. Concordo inteiramente com Tim O’Reilly quando ele declara: “Esses ataques legislativos não são motivados por um pensamento claro sobre o futuro da internet ou da economia global, mas em vez disso querem proteger indústrias arraigadas com modelos de negócios ultrapassados. No lugar de se adaptar e competir com novos e melhores serviços, essas companhias querem que o congresso lhes dê cobertura.”

Isso não quer dizer que estou do lado do Google ou do Facebook, muito menos que seus executivos sejam meus heróis libertários. Claro que as empresas bilionárias da internet não são nada coitadinhas – elas estão lutando por seu dinheiro, tal qual Hollywood. Até agora tenho mais a agradecer a Hollywood do que ao Facebook. Tenho pena de ver uma indústria tão criativa quanto aquela do cinema americano, que já iluminou tanto minha vida, terminar tão melancolicamente, defendendo leis que todos sabem que são mal formuladas, perigosas para liberdades democráticas básicas e para o futuro da inovação na indústria do entretenimento. Deixar isso claro não me torna aliado do Facebook, da Apple, do Google. Já escrevi aqui sobre como essas empresas querem todas transformar a internet em seus “jardins murados”, onde terão controle sobre todos nossos passos.

Outro dia li estarrecido notícia na qual o Facebook revelava as músicas que as pessoas mais ouvem quando começam ou terminam seus namoros. Parecia bobagem, informação inútil ou pitoresca. Interpretei o texto como uma chantagem, como se a empresa (que provavelmente estava demonstrando sua força com fonte para futuras pesquisas de marketing, de valor incalculável) nos dissesse: conheço tudo de suas vidas, seus desejos mais secretos, sua sensibilidade mais básica – vocês estão em nossas mãos. Anúncio de um totalitarismo soft e divertido? Servidão voluntária refinadíssima. Imagine o que o Google pode saber sobre cada um de nós, se quiser. Depender de uma só ferramenta de busca, propriedade de uma única empresa, é um erro e um risco enorme (como antes era depender de um único sistema operacional, da Microsoft – por isso minha campanha cada vez mais atual pró-software livre). Conclusão: precisamos sim de Marcos Civis da Internet, realmente democráticos, que nos protejam de todas essas ameaças, vindas de Hollywood ou do Vale do Silício.

Vou repetir o que já disse por aqui: é preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a vida digital. Até porque, queiramos ou não, não haverá vida daqui para frente sem o digital, e o digital conectado, em rede, cada vez mais micro, misturado com tudo, trocando informações mesmo entre objetos. Não adianta se meter em disputa boba, tipo “a internet só produz lixo” ou “a mídia tradicional só produz lixo”. As duas produzem muito lixo ao lado de várias maravilhas. Centralização e descentralização vão ter que aprender a conviver, uma respeitando a outra. A centralização foi padrão dominante por muito tempo (mas não durante toda a história da Humanidade) porque não havia ferramentas que tornassem a descentralização barata, eficiente e fácil. Agora essas ferramentas são abundantes. Podem ser usadas para o bem e para o mal. Vamos lutar para que o bem prevaleça.

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