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ex-my-público

28/04/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 27/04/2012

Casey Hudson não deve ser nome familiar para leitores de cadernos culturais. Fiz busca em acervos de jornais e encontrei pouquíssimas menções ao seu trabalho – quase todas em suplementos de informática. Portanto, se eu disser que ele é um dos mais influentes artistas contemporâneos, ninguém vai acreditar. Pode me levar a sério: o cara já conquistou espaço no imaginário contemporâneo comparável ao de George Lucas ou J. R. R. Tolkien. Exagero meu como sempre? Abaixe o dedo acusatório. Não são poucos os criadores que têm direito de bater no peito e afirmar: “eu inventei um universo.” Há a Terra Média do “Senhor dos anéis”, a República Galáctica de “Guerra nas estrelas”. Agora temos também a Aliança Terrestre de Mass Effect, trilogia de jogos eletrônicos desenvolvida por Casey Hudson. Mass Effect 3 foi o maior lançamento de 2012 para a indústria de entretenimento, o que inclui filmes e discos. O game vendeu 890 mil cópias, só na América do Norte, no primeiro dia nas lojas.

Poderia escrever esta coluna apenas sobre a BioWare, empresa canadense onde Hudson trabalha. Sua história é fascinante, desde a fundação em 1995 por três médicos recém-formados. Um dos fundadores deixou a empresa para voltar para medicina. Os outros dois, carinhosamente conhecidos no mundo dos games como Ray e Greg, se tornaram milionários com lançamentos como “Dragon age” ou “Jade Empire”. Poderia também ocupar todo este texto com considerações sobre a mitologia de Mass Effect, com sua luta épica entre seres orgânicos e artificiais (nada da harmonia blasé dos homens-robôs do Kraftwerk), ou sobre sua inovadora utilização de narrativas abertas, que levou a trilogia a ser considerada obra-prima pioneira pelos mais importantes sites e revistas de games. O assunto é muito rico, é preciso um recorte: vou tratar apenas da polêmica sobre o final de Mass Effect 3.

Muitos fãs, que reverenciavam Mass Effect e Mass Effect 2 como maravilhas da humanidade, ficaram revoltados quando zeraram Mass Effect 3. Logo uma multidão foi para as redes sociais manifestar seu ultraje: o final foi considerado um atentado contra o que havia de mais inovador na trilogia. Geralmente os games seguem uma linha narrativa mais rígida. Em Mass Effect não: cada escolha do jogador influencia decisivamente as próximas etapas do jogo. Acredito que a trilogia foi a primeira onde, para cada jogador, tudo que aconteceu no game anterior era transportado para o lançamento seguinte. O final de Mass Effect 3 decepcionou por parecer pré-determinado na fábrica, sem levar em consideração a riqueza das trajetórias anteriores. O barulho na internet foi tão grande – era a revolta do aberto contra o fechado, da abundância contra a escassez – que Casey Hudson e a BioWare tiveram que anunciar rapidinho uma sequência, carregada de inúmeras possibilidades de finais, que ficará disponível gratuitamente para download em breve.

Tal anúncio foi recebido com desconfiança. Houve gente que acusou a BioWare, que foi comprada pela gigantesca Electronic Arts, de ter planejado maquiavelicamente tudo desde o início: o final fraquinho aumentaria as vendas de conteúdos opcionais downlodáveis. O que não estava nos planos era a reação contrária tão poderosa: daí a única saída foi liberar conteúdo de graça. Casey Hudson ficou indignado com tal insinuação. Ele jura que imaginava ter criado a melhor conclusão para sua saga.

O melhor para Hudson provou não ser o melhor para todo mundo – ou pelo menos não para a parcela mais fanática, influente e falante de seu público. Lição número 1 também para toda indústria do entretenimento: não existe mais público como antigamente, passivo, que aceita sem reclamar o que os geniais criadores imaginam ser o melhor. A ironia é isso ter se tornado totalmente evidente justamente numa revolta contra Hudson, um dos artistas que mais ajudou a transformar o público em coautor de seu trabalho, com infinitas opções que modificavam a narrativa. Como dizia o velho ditado: deu a mão, o povo – que ficou mal-acostumado, e agora se instala no poder – quer o braço, o corpo inteiro, mesmo o final de tudo. Ô gente insatisfeita! Mas é bom se acostumar com a nova realidade de sempre querer mais… O protesto, para provar sua seriedade, chegou a arrecadar 80 mil dólares que foram doados para a Child’s Play, instituição que tenta melhorar a vida de crianças hospitalizadas.

A confusão está armada: a quem pertence a obra, aos criadores ou ao público (ou diferentes públicos)? E se acontece racha criador-público, quem resolve, quem vence? Diante desse panelaço contra o final de Mass Effect 3, houve uma reação engraçada logo da parte interessada em que os games passem a ter o cobiçado status de arte. Um dos sites mais visitados de cobertura do mundo dos jogos eletrônicos é o Gamespot. Laura Parker, sua editora assistente ficou revoltada contra os revoltados com o final proposto por Casey Hudson, e partiu para sua defesa. Repare só como ela ficou descontrolada: “Imagine que vivamos em um mundo onde artistas regularmente mudem suas obras atendendo a demanda do público. Imagine Monet repintando “Nenúfares” em preto e branco porque as pessoas não gostaram das cores.” A intenção era nobre: equiparar Casey Hudson a Claude Monet. Só que Monet nunca vendeu o que pintava como interativo.

Ajoelhou? Agora tem que rezar em coro com o público, o público que quer criar sua própria oração.

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agradecimento

21/04/2012

texto publicado em minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 20/04/2012

Peço desculpas, mas preciso repetir aqui o último parágrafo dos agradecimentos que abrem o meu livro “O mistério do samba”, de 1995: “sou grato a meu orientador, professor Gilberto Velho, pelo estímulo intelectual infalível, pela amizade inquebrantável, pelos prazos inevitavelmente rígidos, pelos telefonemas de madrugada (dez horas da manhã para mim é madrugada) e, principalmente, pelo pioneirismo com que instituiu os estudos da complexidade na antropologia. Ficaria muito honrado em ver meu trabalho considerado um pequeno desenvolvimento de algumas das ideias originais que integram sua obra.” Gilberto ficou um tanto constrangido, considerou minha declaração exagerada, e fora do tom academicamente correto. Não mudei nenhuma vírgula. Continuo tendo a certeza de que minhas palavras eram totalmente justas.

Ainda bem que expressei minha gratidão antes de sua morte, ocorrida no sábado passado. Não me interessam elogios póstumos. Porém, ao reler aquilo que escrevi anos atrás, percebo que fui até recatado, e tal constatação nada tem a ver com o doloroso luto: sei agora que tudo o que fiz depois, mesmo longe da antropologia, segue sua orientação, e procura olhar o mundo com as ferramentas que sua obra me forneceu. Se desconfio do simples, do homogêneo, e quero sempre revelar complexidade e heterogeneidade no mundo, a culpa é do Gilberto. Foi ele que treinou meu faro por mediadores, por pessoas que se alegram ao colocar estilos de vida diferentes em contato (e procuro ser uma delas em todos meus trabalhos, mesmo nesta coluna). Sua orientação me fortaleceu para encarar o desafio das cidades, das identidades nunca permanentes, das metamorfoses vibrantes da vida contemporânea, sem refúgio fácil naquilo que consideramos familiar.

No agradecimento de 1995, destaquei o “pioneirismo com que instituiu os estudos da complexidade na antropologia”. É isto mesmo: não estava falando da antropologia brasileira, e sim da antropologia mundial. Muitas vezes somos tacanhos por não reconhecer inovações produzidas ao nosso redor, em nosso país. Sendo claro: Gilberto não importou ideias estrangeiras, adaptando-as às necessidades nacionais. Seu trabalho principal foi o desbravamento de um novo campo de estudos dentro da antropologia, sem similar “lá fora”. Encontrou inspiração em conceitos e práticas de uma vertente da sociologia dos EUA (a turma de BeckerGoffman, herdeira de mestres alemães como Schutz e Simmel, talvez os autores mais amados por Gilberto) para inventar uma maneira de estudar antropologicamente a realidade urbana. Naquela época, final dos anos 60, era raro encontrar no mundo etnógrafos pesquisando em suas próprias cidades. Até hoje, em vários países, antropologia urbana é “tendência”. O Brasil, seguindo os passos pioneiros do Gilberto, acumula há décadas um rico corpo de investigação antropológica sobre suas metrópoles.

Pioneirismo não era apenas fazer “trabalho de campo” nas cidades. A escolha dos temas que seriam estudados também foi ousada. Gilberto falava em complexidade, muito antes que os chamados estudos da complexidade virassem moda na física, economia ou informática. E procurava o complexo onde menos se esperava: num prédio de conjugados de Copacabana ou entre aristocráticos consumidores de drogas. Desde o início de sua carreira como professor, passou a orientar muitas teses com objetos que nunca tinham sido alvo de atenção acadêmica, conectando arquitetura e antropologia, psiquiatria e antropologia e por aí afora. Olhando a lista de orientações de seu currículo Lattes, encontramos de heavy-metal suburbano carioca a lan-houses em Porto Alegre.

Foi esse olhar atento para o não convencional que me levou a fazer antropologia. E não pensei duas vezes ao propor meu tema de mestrado: baile funk. Se até hoje, depois de tanto sucesso, funk ainda é vítima de tanto preconceito, imagine em 1986. Com Gilberto, eu tinha incentivo para estudar algo considerado na época sem importância ou desprezível. E também para mudar radicalmente de assunto e abordagem logo depois no doutorado, quando fiquei fascinado por um encontro entre Pixinguinha e Gilberto Freyre em 1926 na Rua do Catete, o embrião de “O mistério do samba”. Gilberto (Velho) era sim controlador, estabelecendo regras detalhistas para a execução da pesquisa de seus orientandos (os telefonemas de manhã cedo checavam se já estávamos trabalhando). Mas seu controle era paradoxal: no lugar de buscar resultados previsíveis, a disciplina deveria produzir o inesperado.

Quando convidei Gilberto para conhecer um baile funk, ele respondeu que só iria dentro de um papamóvel (aquele carro usado pelo Papa). Claro que acabou indo conhecer as terras do DJ Marlboro sem proteção alguma. Esse humor era típico do Gilberto, estratégia sempre usada para tirar seus interlocutores da zona de conforto. Nunca dizia quem eram os outros convidados dos jantares em sua casa. Quando muito falava que esperava uma antropóloga húngara ou a rainha da Jordânia. Lá chegando encontrávamos pessoas totalmente diferentes das anunciadas. Uma vez ele disse que eu jantaria com antropólogas portuguesas que estudavam o hip hop de Lisboa. Para variar, conheci realmente especialistas em rap lusitano. Como vou sentir falta dessas surpresas. Minha missão é procurar maneiras de tornar o mundo cada vez mais alegremente imprevisível. Assim continuarei empenhado no desenvolvimento da obra do Gilberto.

bots e humanos

14/04/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/04/2011

Fotos no Twitpic revelam que havia sim humanos, com óculos 3-D de aro branco, na platéia da retrospectiva do Kraftwerk no MoMA de Nova York, iniciada terça-feira. Depois do congestionamento na fila virtual, quando os ingressos se esgotaram em uma hora e meia, e foram vendidos para apenas 1,2% daqueles que ali viveram inédito sufoco cult-eletrônico, surgiu boato nas redes sociais afirmando que somente robôs tiveram sucesso na compra. Ainda não descartei tal possibilidade. Um exército de programas-robôs, preparados para entrar na fila com a pontualidade de relógios atômicos, pode ter sido comandado por hackers-cambistas, que depois venderam as entradas por até 50 vezes mais que o preço inicial generoso só permitido com patrocínio. Se isso aconteceu, seria cumprimento perverso da profecia do próprio Kraftwerk, autor da música “The robots”, cuja letra dizia: “fomos programados para fazer tudo que você quiser, nós somos os robôs”.

“The robots” abre o álbum Man Machine, de 1978. Não é caso isolado na obra do Kraftwerk, que tem na reflexão sobre a relação homem-máquina (mesmo bicicleta, ou aparelho de eletrocardiograma, vedetes de faixas de “Tour de France”, seu disco mais recente) um de seus eixos principais. Vi os dois shows da banda no Tim Festival. O primeiro, em 1998, era executado por toneladas de equipamento. Computadores ainda eram enormes naquele século. Em 2004, o mesmo resultado sonoro e visual foi obtido apenas com laptops. Na platéia era sempre impossível distinguir o programado do improviso, o que as máquinas ou os humanos tocavam. Quem acha playback inautêntico, um atentado contra a verdadeira música, fica indignado com apresentações do Kraftwerk. Em 1998, as cortinas se abriam, as máquinas já estavam tocando sozinhas, os músicos só entravam no palco vários minutos depois. Quando os humanos iam para o camarim, no final do show, os computadores continuam fazendo a platéia dançar. Os componentes do Kraftwerk eram nossos professores numa aula extremista sobre arte conceitual. O que importava era a idéia – genial – e não quem a executava. A “mão” humana ocupava lugar assumidamente secundário no espetáculo.

Um momento muito esperado em todos os shows é quando robôs físicos aparecem no palco para fazer sua dança mecânica. Todos os movimentos são primários, repetitivos, mas a reação do público é sempre de fascínio. O futurismo do Kraftwerk tem ar retrô, apesar de ser produzido com tecnologia de ponta. Talvez nunca tenhamos robôs como aqueles, com corpos que imitam o dos humanos. Hoje temos “bots” espalhados pela internet em forma de cookies ou vírus cada vez mais inteligentes (comprar ingressos antes de nós é bobagem perto de suas outras atividades, que talvez não consigamos mais controlar). Dizem que mais da metade do tráfego da rede é feito por esses “seres” artificiais, com seus corpos de bytes.

O historiador da ciência George Dyson, que acaba de publicar livro sobre a pré-história dos computadores nos porões de Princeton, lembra que se antes os computadores eram chamados de “cérebros eletrônicos” (pois tentavam simular o modo humano de pensar), hoje é a química reprodutiva da vida, embutida em códigos genéticos, que inspira o desenvolvimento dos robôs que vivem on-line. Dyson chega a perguntar: para que nos preocuparmos com viagens interplanetárias de corpos físicos? Mais útil seria mandar bots virtuais explorar os confins do universo (e quantos bots já há em atividade no telescópio Hubble, olhando o que não podemos ver?)

Quando damos nossas voltas na internet, muitas de nossas interações são feitas com entidades não-humanas, que se comportam como gente. Muitos perfis em redes sociais são fakes bem especiais: não há pessoas ali “atrás”; há bots tentando se passar por humanos. E quando eles, como a Rachel de Blade Runner, acreditarem que são humanos, ou mais humanos que os humanos? Serão nossos melhores companheiros? Nossos herdeiros imortais?

Como escrevi na coluna passada, enquanto estava na fila para comprar ingresso para a retrospectiva do Kraftwerk, fazia em contato, em outra “aba” do meu browser”, via redes sociais, com milhares de pessoas que viviam o mesmo perrengue. Essa já é nossa “realidade aumentada”: habitamos o mundo real e o mundo virtual simultâneamente, humanos e máquinas em simbiose cada vez mais refinada. Às vezes, mídias diferentes se espelham e nós humanos somos usados como interfaces entre elas, como abelhas polinizando (obrigado Manuel de Landa via Kodwo Eshun) plantas de distintos recantos da floresta. Vi toda esta temporada do “Esquenta!” com o computador ligado para saber o que as pessoas (aquelas que antigamente eram classificadas de público passivo) comentavam sobre o programa (sou um de seus criadores). A conversa acontece quando o programa está no ar. Quase todas as nossas atrações, de Roberto Leal a MC Carol (aquela da vó que tá maluca), viraram Trending Topic mundial no Twitter. Diziam que a TV ia acabar por causa da internet. Mas se não fosse a TV, sobre o que as pessoas conversariam na internet? Ou a TV nos usa para conversar com a internet?

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Também escrevi aqui sobre a Dama do Bling. De lá para cá, descobri várias outras cantoras com nomes igualmente sensacionais. Lá vai uma lista de angolanas: Titica (há comentário no YouTube: “esta jovem era homem”); Tuga Agressiva; ou, minha preferida, Noite Dia, que já fez dueto com Puto Lilás.

nichos e multidões

08/04/2012

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/04/2012

Deveria estar me preparando espiritualmente para comparecer à retrospectiva do Kraftwerk, que terá início terça-feira no MOMA de Nova York. Acredito que nunca um museu de tanta influência abriu as portas, de forma tão reverente, para uma banda de música pop. Banda? Música pop? A retrospectiva comprova que essa definição é apenas o início da verdade, ou sua embalagem mais conhecida. Já deveria ser evidente para todos que a obra do Kraftwerk é, antes de tudo, arte moderna. Seus componentes – incluindo o fundador Florian Schneider, que deixou a banda em 2008 – estão entre os artistas mais importantes do nosso tempo, determinando que tempo é este, como só o fizeram criadores muito especiais como Joseph Beuys, Robert Musil ou Fritz Lang, para ficar apenas em ambiente de língua alemã. Além dessas explicações “objetivas”, há o aspecto pessoal: o Kraftwerk faz os discos que mais amo, desde que ouvi “Autobahn” pela primeira vez em transmissão da Eldopop FM, aquele OVNI progressivo que enlouqueceu o dial carioca nos anos 70. Tudo que fiz depois foi consequência daquela audição.

Então fiz tudo para comprar ingressos para a retrospectiva, sem nem saber como me viraria para chegar no MOMA. A venda começou ao meio-dia na Quarta-Feira de Cinzas passada. Às 12 horas em ponto, entrei na fila virtual de compras. Seriam oito shows, um para cada disco desde “Autobahn”. Cada pessoa só conseguiria comprar dois ingressos. Ninguém poderá ver a retrospectiva completa. Sendo assim, com dó no coração, escolhi as apresentações – com imagens 3D – de “Trans-Europe Express” e “Computer World”. Estando em Nova York, pensei que iria ouvir “Trans-Europe Express” como se rezasse numa missa: afinal, sua faixa título, pirateada (ou apropriada, como diz o jargão dos curadores do MOMA) por Afrika Bambaataa, foi uma das pedras fundamentais do hip hop, cultura nascida na periferia daquela cidade. (Vou me repetir: fico sempre fascinado com a relação antropofágica entre a música negra do continente americano e as invenções sonoras alemãs: o hip hop apenas repetiu algo que já havia ocorrido com a polca no Século XIX, elemento básico na mistura que deu origem ao jazz, ao samba, ao tango etc.) “Computer World” foi escolhido por seu conteúdo profético totalmente cumprido, gravado antes da chegada dos primeiros PCs ou Macs ao mercado. O Kraftwerk já sabia que “it’s more fun to compute”, como todos nós acabamos descobrindo.

Divertido? Não foi nada divertido estar ali naquela fila virtual para comprar os ingressos. Um reloginho mudo na tela do meu computador me mandava ter paciência. A conexão com o site de vendas caiu várias vezes, mas outra mensagem robótica me dizia que meu lugar na fila continuava o mesmo – meu IP me identificava. Em paralelo eu checava o Twitter, onde “Kraftwerk” era trending topic mundial talvez pela primeira vez em sua carreira. O tempo passava e milhares de outras pessoas compartilhavam meu desespero. Alguns, bem-humorados, diziam que aquela espera seria já a performance, obra-prima eletrônica dos estúdios Kling Klang, que o Kraftwerk mantém em Dusseldorf. Passamos 1 hora e meia nessa situação ciberinfernal, até receber um comunicado com fundo vermelho dizendo que todos os shows estavam “sold-out”.

Imediatamente houve tsunami de fúria nas redes sociais. Mesmo funcionários do próprio MOMA escreveram contando que nenhum deles conseguiu comprar ingressos. No dia seguinte, o dono da empresa Showclix, que cuida da venda online de entradas para os eventos do museu, divulgou texto pedindo desculpas, revelando não ter se preparado para aquela procura. Um dado me impressionou: ele disse que havia ingressos apenas 1,2% das pessoas que entraram na fila ao meio-dia. Então eu fiquei entre os quase cabalísticos 99% (a base também do movimento Occupy Wall Street) de fora. E, se os computadores da Showclix trabalharam de forma ética, sem filas VIPs malocadas por baixo do pano virtual, devo ter perdido meus ingressos por questão de nanosegundos, pois entrei na fila meio-dia cravado.

Tenho certeza que o MOMA imaginava que haveria grande procura pelos ingressos. Porém, não levou em conta a nova realidade em que vivemos, quando o número de malucos fanáticos por qualquer coisa, capazes de fazer sacrifícios por seus ídolos a ponto de se programarem para estar na fila no instante em que ela abre, aumenta exponencialmente em escala global, não importa se é coisa “inteligente” como Kraftwerk ou fenômeno teen como o Justin Beeber. Isso deve ser boa notícia para artistas: de nichinho em nichinho forma-se uma multidão. Na internet há massa enorme para qualquer biscoito fino. É só saber encontrar e cultivar sua própria massa.

Outro sinal do Zeitgeist: o ingresso para cada show da retrospectiva custava 25 dólares, certamente um preço simbólico, de evento já pago por patrocinadores (nesse caso específico, como convém para artistas das autobahns alemãs, a Volkswagen). Estranho mundo das artes de elite, que não precisa mais do dinheiro do público, logo agora que o público cresceu assustadoramente, a ponto de haver muito mais demanda do que oferta para “eventos exclusivos”, já pagos de antemão. Mais sobre esse mistério Kraftwerk na próxima coluna.

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Sexta-Feira Santa. Amanhã é Sábado de Aleluia: quem nunca foi não deve perder a Benção do Fogo, início da Vigília Pascal (3-D à moda antiga, nada eletrônico), meia-noite, no Mosteiro de São Bento.


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