nichos e multidões

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 06/04/2012

Deveria estar me preparando espiritualmente para comparecer à retrospectiva do Kraftwerk, que terá início terça-feira no MOMA de Nova York. Acredito que nunca um museu de tanta influência abriu as portas, de forma tão reverente, para uma banda de música pop. Banda? Música pop? A retrospectiva comprova que essa definição é apenas o início da verdade, ou sua embalagem mais conhecida. Já deveria ser evidente para todos que a obra do Kraftwerk é, antes de tudo, arte moderna. Seus componentes – incluindo o fundador Florian Schneider, que deixou a banda em 2008 – estão entre os artistas mais importantes do nosso tempo, determinando que tempo é este, como só o fizeram criadores muito especiais como Joseph Beuys, Robert Musil ou Fritz Lang, para ficar apenas em ambiente de língua alemã. Além dessas explicações “objetivas”, há o aspecto pessoal: o Kraftwerk faz os discos que mais amo, desde que ouvi “Autobahn” pela primeira vez em transmissão da Eldopop FM, aquele OVNI progressivo que enlouqueceu o dial carioca nos anos 70. Tudo que fiz depois foi consequência daquela audição.

Então fiz tudo para comprar ingressos para a retrospectiva, sem nem saber como me viraria para chegar no MOMA. A venda começou ao meio-dia na Quarta-Feira de Cinzas passada. Às 12 horas em ponto, entrei na fila virtual de compras. Seriam oito shows, um para cada disco desde “Autobahn”. Cada pessoa só conseguiria comprar dois ingressos. Ninguém poderá ver a retrospectiva completa. Sendo assim, com dó no coração, escolhi as apresentações – com imagens 3D – de “Trans-Europe Express” e “Computer World”. Estando em Nova York, pensei que iria ouvir “Trans-Europe Express” como se rezasse numa missa: afinal, sua faixa título, pirateada (ou apropriada, como diz o jargão dos curadores do MOMA) por Afrika Bambaataa, foi uma das pedras fundamentais do hip hop, cultura nascida na periferia daquela cidade. (Vou me repetir: fico sempre fascinado com a relação antropofágica entre a música negra do continente americano e as invenções sonoras alemãs: o hip hop apenas repetiu algo que já havia ocorrido com a polca no Século XIX, elemento básico na mistura que deu origem ao jazz, ao samba, ao tango etc.) “Computer World” foi escolhido por seu conteúdo profético totalmente cumprido, gravado antes da chegada dos primeiros PCs ou Macs ao mercado. O Kraftwerk já sabia que “it’s more fun to compute”, como todos nós acabamos descobrindo.

Divertido? Não foi nada divertido estar ali naquela fila virtual para comprar os ingressos. Um reloginho mudo na tela do meu computador me mandava ter paciência. A conexão com o site de vendas caiu várias vezes, mas outra mensagem robótica me dizia que meu lugar na fila continuava o mesmo – meu IP me identificava. Em paralelo eu checava o Twitter, onde “Kraftwerk” era trending topic mundial talvez pela primeira vez em sua carreira. O tempo passava e milhares de outras pessoas compartilhavam meu desespero. Alguns, bem-humorados, diziam que aquela espera seria já a performance, obra-prima eletrônica dos estúdios Kling Klang, que o Kraftwerk mantém em Dusseldorf. Passamos 1 hora e meia nessa situação ciberinfernal, até receber um comunicado com fundo vermelho dizendo que todos os shows estavam “sold-out”.

Imediatamente houve tsunami de fúria nas redes sociais. Mesmo funcionários do próprio MOMA escreveram contando que nenhum deles conseguiu comprar ingressos. No dia seguinte, o dono da empresa Showclix, que cuida da venda online de entradas para os eventos do museu, divulgou texto pedindo desculpas, revelando não ter se preparado para aquela procura. Um dado me impressionou: ele disse que havia ingressos apenas 1,2% das pessoas que entraram na fila ao meio-dia. Então eu fiquei entre os quase cabalísticos 99% (a base também do movimento Occupy Wall Street) de fora. E, se os computadores da Showclix trabalharam de forma ética, sem filas VIPs malocadas por baixo do pano virtual, devo ter perdido meus ingressos por questão de nanosegundos, pois entrei na fila meio-dia cravado.

Tenho certeza que o MOMA imaginava que haveria grande procura pelos ingressos. Porém, não levou em conta a nova realidade em que vivemos, quando o número de malucos fanáticos por qualquer coisa, capazes de fazer sacrifícios por seus ídolos a ponto de se programarem para estar na fila no instante em que ela abre, aumenta exponencialmente em escala global, não importa se é coisa “inteligente” como Kraftwerk ou fenômeno teen como o Justin Beeber. Isso deve ser boa notícia para artistas: de nichinho em nichinho forma-se uma multidão. Na internet há massa enorme para qualquer biscoito fino. É só saber encontrar e cultivar sua própria massa.

Outro sinal do Zeitgeist: o ingresso para cada show da retrospectiva custava 25 dólares, certamente um preço simbólico, de evento já pago por patrocinadores (nesse caso específico, como convém para artistas das autobahns alemãs, a Volkswagen). Estranho mundo das artes de elite, que não precisa mais do dinheiro do público, logo agora que o público cresceu assustadoramente, a ponto de haver muito mais demanda do que oferta para “eventos exclusivos”, já pagos de antemão. Mais sobre esse mistério Kraftwerk na próxima coluna.

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Sexta-Feira Santa. Amanhã é Sábado de Aleluia: quem nunca foi não deve perder a Benção do Fogo, início da Vigília Pascal (3-D à moda antiga, nada eletrônico), meia-noite, no Mosteiro de São Bento.

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