bots e humanos

texto publicado na minha coluna do Segundo Caderno do Globo em 13/04/2011

Fotos no Twitpic revelam que havia sim humanos, com óculos 3-D de aro branco, na platéia da retrospectiva do Kraftwerk no MoMA de Nova York, iniciada terça-feira. Depois do congestionamento na fila virtual, quando os ingressos se esgotaram em uma hora e meia, e foram vendidos para apenas 1,2% daqueles que ali viveram inédito sufoco cult-eletrônico, surgiu boato nas redes sociais afirmando que somente robôs tiveram sucesso na compra. Ainda não descartei tal possibilidade. Um exército de programas-robôs, preparados para entrar na fila com a pontualidade de relógios atômicos, pode ter sido comandado por hackers-cambistas, que depois venderam as entradas por até 50 vezes mais que o preço inicial generoso só permitido com patrocínio. Se isso aconteceu, seria cumprimento perverso da profecia do próprio Kraftwerk, autor da música “The robots”, cuja letra dizia: “fomos programados para fazer tudo que você quiser, nós somos os robôs”.

“The robots” abre o álbum Man Machine, de 1978. Não é caso isolado na obra do Kraftwerk, que tem na reflexão sobre a relação homem-máquina (mesmo bicicleta, ou aparelho de eletrocardiograma, vedetes de faixas de “Tour de France”, seu disco mais recente) um de seus eixos principais. Vi os dois shows da banda no Tim Festival. O primeiro, em 1998, era executado por toneladas de equipamento. Computadores ainda eram enormes naquele século. Em 2004, o mesmo resultado sonoro e visual foi obtido apenas com laptops. Na platéia era sempre impossível distinguir o programado do improviso, o que as máquinas ou os humanos tocavam. Quem acha playback inautêntico, um atentado contra a verdadeira música, fica indignado com apresentações do Kraftwerk. Em 1998, as cortinas se abriam, as máquinas já estavam tocando sozinhas, os músicos só entravam no palco vários minutos depois. Quando os humanos iam para o camarim, no final do show, os computadores continuam fazendo a platéia dançar. Os componentes do Kraftwerk eram nossos professores numa aula extremista sobre arte conceitual. O que importava era a idéia – genial – e não quem a executava. A “mão” humana ocupava lugar assumidamente secundário no espetáculo.

Um momento muito esperado em todos os shows é quando robôs físicos aparecem no palco para fazer sua dança mecânica. Todos os movimentos são primários, repetitivos, mas a reação do público é sempre de fascínio. O futurismo do Kraftwerk tem ar retrô, apesar de ser produzido com tecnologia de ponta. Talvez nunca tenhamos robôs como aqueles, com corpos que imitam o dos humanos. Hoje temos “bots” espalhados pela internet em forma de cookies ou vírus cada vez mais inteligentes (comprar ingressos antes de nós é bobagem perto de suas outras atividades, que talvez não consigamos mais controlar). Dizem que mais da metade do tráfego da rede é feito por esses “seres” artificiais, com seus corpos de bytes.

O historiador da ciência George Dyson, que acaba de publicar livro sobre a pré-história dos computadores nos porões de Princeton, lembra que se antes os computadores eram chamados de “cérebros eletrônicos” (pois tentavam simular o modo humano de pensar), hoje é a química reprodutiva da vida, embutida em códigos genéticos, que inspira o desenvolvimento dos robôs que vivem on-line. Dyson chega a perguntar: para que nos preocuparmos com viagens interplanetárias de corpos físicos? Mais útil seria mandar bots virtuais explorar os confins do universo (e quantos bots já há em atividade no telescópio Hubble, olhando o que não podemos ver?)

Quando damos nossas voltas na internet, muitas de nossas interações são feitas com entidades não-humanas, que se comportam como gente. Muitos perfis em redes sociais são fakes bem especiais: não há pessoas ali “atrás”; há bots tentando se passar por humanos. E quando eles, como a Rachel de Blade Runner, acreditarem que são humanos, ou mais humanos que os humanos? Serão nossos melhores companheiros? Nossos herdeiros imortais?

Como escrevi na coluna passada, enquanto estava na fila para comprar ingresso para a retrospectiva do Kraftwerk, fazia em contato, em outra “aba” do meu browser”, via redes sociais, com milhares de pessoas que viviam o mesmo perrengue. Essa já é nossa “realidade aumentada”: habitamos o mundo real e o mundo virtual simultâneamente, humanos e máquinas em simbiose cada vez mais refinada. Às vezes, mídias diferentes se espelham e nós humanos somos usados como interfaces entre elas, como abelhas polinizando (obrigado Manuel de Landa via Kodwo Eshun) plantas de distintos recantos da floresta. Vi toda esta temporada do “Esquenta!” com o computador ligado para saber o que as pessoas (aquelas que antigamente eram classificadas de público passivo) comentavam sobre o programa (sou um de seus criadores). A conversa acontece quando o programa está no ar. Quase todas as nossas atrações, de Roberto Leal a MC Carol (aquela da vó que tá maluca), viraram Trending Topic mundial no Twitter. Diziam que a TV ia acabar por causa da internet. Mas se não fosse a TV, sobre o que as pessoas conversariam na internet? Ou a TV nos usa para conversar com a internet?

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Também escrevi aqui sobre a Dama do Bling. De lá para cá, descobri várias outras cantoras com nomes igualmente sensacionais. Lá vai uma lista de angolanas: Titica (há comentário no YouTube: “esta jovem era homem”); Tuga Agressiva; ou, minha preferida, Noite Dia, que já fez dueto com Puto Lilás.

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